Na raiz dos desastres naturais e ambientais

Livro e tese de livre-docência analisam causas e consequências de catástrofes que atingem o Brasil e outros países da América do Sul

 

Os reféns da ‘geografia do preço’
Silvio Anunciação

No decorrer das tragédias ambientais de 2011 na região serrana do Rio de Janeiro, o poder público adotou uma “solução” para prevenir os moradores em situação de risco e evitar novas mortes: sirenes que apitam, avisando à população o momento de deixar suas casas, na iminência de um deslizamento de terra. O sociólogo e demógrafo Roberto Luiz do Carmo, docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos de População (Nepo), cita o exemplo para explicitar a deficiência na abordagem das politicas públicas direcionadas aos desastres ambientais do país.

“Atualmente, as propostas de enfretamento dos riscos ambientais são reducionistas. Os gestores públicos falam: ‘bom, é importante fazer um mapeamento e identificar quais são os problemas geológicos e físicos de determinada região para colocarmos um sistema que toca uma sirene’. Poxa, toca a sirene e as pessoas vão fazer o quê? Elas não têm pra onde ir… E não escolheram estar ali. O problema é mais complexo. É preciso construir uma política de modo que a cidade seja capaz de abrigar as pessoas, até porque existem áreas aptas a serem ocupadas. Mas são ocupadas apenas por quem tem condição de pagar. E essa geografia do preço determina onde as pessoas vão morar”, critica.

O docente da Unicamp defende uma nova abordagem para a problemática das tragédias ambientais, que vêm aumentando nos últimos anos, agravadas pelas mudanças climáticas. Só na região serrana do Rio de Janeiro houve quase mil mortes nos municípios de Petrópolis, Nova Friburgo, Teresópolis, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto, Bom Jardim e Areal. O número de desalojados nestes municípios passou das 35 mil pessoas.

Conforme Roberto do Carmo, os desastres são, acima de tudo, construídos socialmente e, devem, portanto, ser enfrentados a partir de uma perspectiva social. Esta é a concepção que perpassa a obra Segurança humana no contexto dos desastres (Editora Rima, 210 páginas), que acaba ser editada pelo Nepo em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (Neped), da Universidade Federal de São Carlos (UFScar). O lançamento ocorre no dia 21 de agosto, a partir das 9h00, no auditório do Núcleo de População da Unicamp, com a presença dos autores e organizadores.

“O desastre tem essa característica de ser uma construção social no sentido de que as pessoas mais diretamente expostas são aquelas que, por determinadas situações históricas e econômicas, ocuparam áreas impróprias. Portanto, essa ocupação não é natural: as pessoas não estão lá porque querem estar. Elas vivem lá porque são aquelas áreas específicas da cidade onde conseguiram se instalar. São as áreas que, de certa forma, são destinadas socialmente a elas. Isso é fundamental para pensar e propor políticas capazes de reverter essa situação”, defende Roberto do Carmo, organizador do livro juntamente com a professora da UFScar, Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio, coordenadora do Neped/UFScar.

A obra, que conta com a parceria do Fórum de Mudanças Climáticas, apresenta uma coletânea de textos com reflexões sobre a segurança humana em contexto de riscos e de desastres no Brasil. São onze artigos, escritos por pesquisadores e gestores públicos de diferentes áreas e campos de atuação. Embora sintetizem experiências de grupos específicos, os artigos do livro apontam, em sua totalidade, elementos relevantes para identificar e propor ações para o enfretamento dessas catástrofes.

“Não foi tarefa fácil viabilizar esta coletânea. Tivemos que articular 32 pessoas oriundas de diferentes áreas geográficas e institucionais para produzirem os capítulos. E, apesar disso, o grupo não perdeu a oportunidade de produzir uma obra dialógica, com representantes de diferentes segmentos da sociedade: pesquisadores e cientistas, lideranças comunitárias e de movimentos sociais, ONGs e representantes de instituições municipais, estaduais e federais”, relata o professor da Unicamp.

Os temas abordam a urbanização, o planejamento, os aspectos sociopolíticos dos desastres e os desafios para a segurança humana neste contexto; a intervenção estatal e o papel da política de assistência social; as tecnologias de prevenção de riscos; a atuação dos agentes de defesa civil; e os riscos da saúde e as oportunidades de articulação, organização comunitária e fortalecimento de fóruns.

No prefácio, a demógrafa Estela María García de Pinto da Cunha assinala que os artigos abordam numerosas perspectivas disciplinares, teóricas, metodológicas e empíricas, num espectro rico e amplo de temas. Assim, conforme a especialista e coordenadora do Nepo, “questionam-se quais seriam as relações sociais e políticas que induzem discursos de inevitabilidade dos desastres ‘naturais’, que levariam à sociedade a tão somente impedir suas consequências em vez de compreendê-los em toda a sua complexidade, focalizando tanto as dinâmicas econômicas quanto as sócio-políticas-culturais, institucionais e multicausais.”

Discute-se também, escreve Estela da Cunha, “a relevância do conceito polissêmico, multidimensional e multivariado de vulnerabilidade (diferente de exposição ao risco) que permitiria compreender a dinâmica de exposição, enfrentamento, resposta e risco, considerando as condições materiais e simbólicas do ambiente físico, da estrutura social e da experiência do perigo em cada caso particular. (…) Os autores apresentam a vulnerabilidade como um conceito promissor, que por ser heurístico amplia as concepções de segurança e de proteção da sociedade (…).”

 

Programa de estudos

O sociólogo Roberto do Carmo lembra que a ideia para a coletânea de textos partiu do IV Programa de Estudos População, Ambiente e Desenvolvimento, organizado em 2012 pelo Nepo, com apoio da Rede Clima e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas. O programa reuniu gestores e organizações da sociedade civil de diferentes campos de atuação e regiões brasileiras para refletir sobre a segurança humana no contexto dos desastres a partir de uma dimensão social.

“Esse programa de estudos teve claramente uma abordagem nova, trazendo pessoas que numa situação de desastre nem sempre falam a mesma linguagem, como os profissionais da defesa civil e da assistência social. Nestes casos, eles nem sempre estão numa condição de igualdade. Portanto, foi importante esta oportunidade de colocar em debate estes diversos atores. Além da defesa civil e da assistência social, estavam também representantes dos moradores vitimados pelos desastres. O diálogo de todos se mostrou muito profícuo, e está um pouco refletido neste conjunto de artigos”, relaciona.

Os tradicionais programas de estudos e capacitações do Nepo são desenvolvidos desde a década de 1990. Eles incorporam diversas áreas como saúde reprodutiva e sexualidade, metodologia de pesquisa em gênero, demografia, meio ambiente e, mais recentemente, campos relacionados às mudanças climáticas. As três edições anteriores dos programas de estudos abordaram, por exemplo, os eventos extremos e as dimensões humanas.

 

Transição

A segurança humana no contexto dos desastres ambientais deve revestir-se de importância cada vez maior, sobretudo, pelo crescente processo de urbanização no país nos últimos 50 anos. Roberto do Carmo aponta que o Brasil passou de um país rural na década de 1950 para um país urbano nos dias atuais.  De acordo com ele, dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que 36% da população brasileira residia nas cidades naquele período. Atualmente, este número chega aos 84%, de acordo com o Censo Demográfico de 2010.

“A ocupação de áreas impróprias para moradia gera uma parte da nossa preocupação com a segurança humana, principalmente porque nesse período também ganha força a questão das mudanças climáticas. Os eventos extremos associados ao clima têm impacto alto historicamente, tanto em termos de mortalidade, como de aumento de doenças de veiculação hídrica. Por outro lado, o que estamos vivenciando este ano no Sudeste é um desastre diferente, relacionado à falta de água. Toda essa discussão torna-se fundamental no sentido de que a tendência é que estes eventos, infelizmente, aumentem. E o impacto sobre a população tende a ser cada vez maior se não nos preocuparmos e nos preparáramos”, alerta.

 

Serviço

Título: Segurança humana no contexto dos desastres
Organizadores: Roberto do Carmo e Norma Valencio
Editora: Rima
Apoio: Fórum de Mudanças Climáticas
Páginas: 210
Lançamento: 21 de agosto, às 9h, no auditório do Nepo

 

A reboque do inchaço das cidades
Carlos Orsi

A urbanização desregrada e as mudanças no uso da terra trazidas pelas pressões econômicas da globalização vêm fazendo com que a América do Sul registre um número crescente de desastres naturais nas últimas décadas, desastres que atingem cada vez mais pessoas, embora causem menos mortes do que no passado. Essa é a constatação da tese de livre-docência de Lucí Hidalgo Nunes, geógrafa e professora do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, “Urbanização, globalização e suas relações com os desastres naturais na América do Sul”.

A tese avaliou os dados da ONU referentes aos desastres naturais ocorridos no subcontinente entre 1960 e 2009, classificados em três categorias: hidrometeorológicos e climáticos, geofísicos e biológicos. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, a pesquisadora disse que, embora o número de eventos deflagradores de desastres – como chuvas intensas, por exemplo – também tenha crescido no período, o impacto desses eventos, em termos do número de pessoas afetadas e prejuízos causados, cresceu muito mais, e de forma desproporcional.

De acordo com os dados levantados para a tese, mais da metade dos desastres naturais a atingir o subcontinente no período analisado ocorreu apenas nas duas últimas décadas contempladas pelo estudo, os anos 1990 e 2000. Já o maior número de mortos em desastres concentrou-se nos anos 70, com forte contribuição de um único evento, um terremoto no Peru, o maior desastre da América do Sul do período investigado. Por sua vez, o número de afetados cresce a partir da década de 80.

“Não é porque está chovendo mais”, disse a pesquisadora. “Pode até haver mais precipitação, mas não de forma que justifique o número de desastres, que é muito maior. A chuva, no caso das inundações, não é o contribuinte mais importante. Não na proporção do número de eventos, que sempre é maior do que qualquer eventual alteração do clima que possa ter acontecido, o que mostra que os eventos deflagradores são apenas isso, deflagradores”.

Lucí, que é climatologista, incluiu um capítulo em sua tese sobre mudança climática, mas pondera que ainda que esse fenômeno possa ampliar ainda mais a chance de desastres hidrometeorológicos e climáticos, esse fato não é o principal responsável pelo aumento no número de desastres dessa natureza. “Se as mudanças climáticas se configurarem da forma como a comunidade científica prevê, um problema que já é bastante grave vai agravar-se, mas ele não foi, absolutamente, o elemento mais importante no aumento de casos constatado no período em estudo”, afirmou ela. A docente acrescentou, ainda, que a coleta das ocorrências vem melhorando, o que contribui parcialmente com a tendência de aumento de registros, incluindo do número de vítimas e de prejuízos, mas reafirma que a transformação das áreas e a ocupação desenfreada de setores de risco são os elementos-chave para o quadro de desestruturação encontrado.

 

Mudança climática

“O que a gente vê é que sem dúvida alguma está havendo um aumento dos desastres naturais – e muitos deles são induzidos por fenômenos atmosféricos, como chuvas, por exemplo. E uma das coisas que a comunidade científica coloca em relação às mudanças climáticas é que vai haver mais extremos: ou seja, mais episódios de chuva concentrados, ou mais secas”.

A pesquisadora acrescenta que, se isso se configurar, haverá mais desastres naturais. Mas faz a ressalva: “É fato que, mesmo que a gente não considere as mudanças climáticas, de qualquer maneira os eventos deflagrados por condicionantes atmosféricos têm aumentado. Por mais que possa estar chovendo um pouco mais, nada justifica o enorme número de eventos, nas décadas mais recentes, em relação às décadas primeiras que analisei”.

A tese segue a definição da ONU para desastre natural. “Para as Nações Unidas, desastre natural é aquele evento que ou promove dez mortes, e/ou pelo menos 100 afetados, ou que causa perdas e impactos que superam a capacidade de reação da comunidade afetada, requerendo ajuda externa”.

A pesquisadora reconhece que existem outras definições viáveis. “Há controvérsias. Há leituras diferentes do que seria um desastre natural”, disse ela. A adoção do critério das Nações Unidas e, por tabela, das bases de dados da ONU sobre desastres, permitiu uma comparação mais sólida entre intervalos de tempo e países.

 

Globalização

“O meu mote foi como urbanização e globalização têm sido indutores dos desastres naturais”, explicou Lucí. No caso da globalização isso acontece, de acordo com a pesquisadora, porque os países da América do Sul – ela destaca especificamente Brasil, Chile e Argentina – buscam uma inserção da encomia globalizada que desconsidera a dinâmica do meio ambiente.

“Nós temos uma capacidade muito rápida de responder às demandas externas da globalização. Por exemplo, quando há uma crise internacional no abastecimento de algum produto agrícola de que o Brasil também é produtor, conseguimos supri-la de uma maneira muito efetiva e rápida”. Mas essas demandas também alteram os espaços produtivos de modo expressivo.

“A nossa inserção na globalização é para responder a demandas externas, mas elas muitas vezes se fazem de uma maneira muito destrutiva para o nosso ambiente, às vezes até inviabilizando aquele ambiente, passado algum tempo”, complementa. “Essa é a nossa inserção, e aí eu junto os nossos países vizinhos, nessa economia globalizada. É uma inserção que se faz às custas de uma enorme transformação do meio físico. Muitas vezes, uma transformação melhor entendida como destruição”.

 

Urbanização

Já o processo de urbanização, que se vem acelerando em todo o mundo e também na América do Sul, “é uma transferência muito grande de população para as áreas urbanas”, disse a pesquisadora. “Num primeiro momento, a ocupação se faz em determinadas áreas do município e depois vai se expandindo, não raro, para as áreas sujeitas a deslizamentos, a inundações. A ocupação urbana mais recente, dos últimos 20, 25 anos, tem se dado, em maior ou menor grau em todas as cidades da América do Sul, em áreas que são passíveis de serem afetadas por algum problema, principalmente os de ordem hidrometeorológica, como enchentes ou deslizamentos de terra”.

Lucí volta a ressaltar que as chuvas, mesmo intensificadas, não têm sido o fator mais importante nesse tipo de desastre. “Pode até estar havendo chuvas mais concentradas, mais intensas, isso é um elemento importante para gerar inundações, escorregamento de encosta, isso é fato. Só que não na proporção do número de eventos, que sempre é maior do que qualquer alteração das chuvas”.

O aumento no número de desastres naturais e de vítimas afetadas surge da ocupação desordenada dos espaços urbanos, e da grande suscetibilidade que isso gera. “Uma boa parte dessa ocupação se dá em áreas costeiras, isso é uma realidade mundial. Se dá em áreas que já têm um certo grau de suscetibilidade, é uma ocupação muito dramática, muito agressiva”, afirma a pesquisadora. “Áreas tropicais úmidas costeiras são vulneráveis por definição. São locais onde processos como movimentos de massa acontecem mesmo sem gente. Meus colegas geomorfólogos, geólogos, conseguem reconstituir deslizamentos que ocorreram a 200, 250 anos atrás; isso faz parte da evolução física desses locais”.

 

Vidas humanas

As transformações que o ser humano opera no ambiente não vêm sempre no sentido de aumentar a vulnerabilidade das populações aos desastres naturais – também há medidas preventivas e mitigadoras que podem ser tomadas – “mas são dois processos que andam em velocidades diferentes”, disse Lucí. “A velocidade da transformação, em Campinas, Quito, Valparaíso ou Buenos Aires é tal que em três, quatro, cinco anos os bairros já têm muito mais pessoas. Assim, a transformação, a urbanização, é muito grande e, nos anos mais recentes, ocorre cada vez mais em áreas de risco. Ela se faz numa velocidade que dificulta a restabilização dos locais, que às vezes é possível, mas nem sempre”.

O mundo inteiro, afirma a pesquisadora, investe menos que o necessário para tratar dos desastres naturais. Mesmo no Japão, país considerado modelo nessa área, as medidas preventivas são insuficientes, de acordo com ela. No caso do terremoto, seguido de tsunami, que atingiu a usina nuclear de Fukushima, em 2011, morreram cerca de 15 mil pessoas, fato que a pesquisadora aponta como preocupante. Porém, na ocasião essa cifra foi tida como positiva por ter sido comparada à situação do Haiti, onde um terremoto de intensidade menor matou mais de 200 mil pessoas. Mas ela considera que mesmo o número verificado no Japão é inaceitável, ainda mais para um país desenvolvido.

Lucí lembra que o Brasil só criou seu Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em 2011, após a tragédia dos deslizamentos de terra que atingiram as cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, no que foi considerado o maior desastre natural do Brasil em número de mortos, com cerca de mil vidas perdidas.

Nisso, diz ela, o Brasil não é muito diferente do resto do mundo, destacando que somente após o advento de uma grande calamidade, em especial quando se atingem pessoas de renda mais alta, é que medidas mais efetivas são iniciadas.

O número de mortos vem caindo, mesmo com o crescimento no total de desastres, “por causa de algumas ações”, disse a pesquisadora, “que têm alguma efetividade”, principalmente na resposta imediata à situação de emergência. Mas o crescimento no total de afetados mostra que essas ações não bastam. “O desastre natural é um processo”, ela faz questão de frisar. “Aquele momento em que a coisa detona é o ápice de um processo que já vem de algum tempo. As pessoas já moravam lá, as casas já eram frágeis, de repente acontece um terremoto ou uma chuva muito intensa e acontece a calamidade. Mas ela é decorrência de fatos anteriores. Acho que o pior de tudo é a falta de medidas preventivas”.

Fonte: Jornal da Unicamp.

Temerosa com seca, população de SP investe em tambores e caixas d´água

Comentário:

Segue abaixo a notícia publicada no portal do IG “Temerosa com seca, população de SP investe em tambores e caixas d´água”. Chamamos a atenção do público do Blog Demografia Unicamp para três aspectos: 1) O armazenamento de água nas residências pode impelir à disseminação de doenças já endêmicas em São Paulo, como é o caso da dengue. O aumento de reservatórios de água nas residências potencializa o número de criadouros do mosquito Aedes aegypti. Portanto, não seria de se espantar que haja nos próximos meses novas epidemias de dengue, tão ou mais importantes como as que assolaram o estado nos primeiros meses de 2014. Além disso, 2) a notícia não problematiza algo fundamental: cerca de 62% do consumo de água no Brasil direciona-se à produção agrícola, 20% à atividade industrial, enquanto o uso doméstico representa apenas 18% do consumo total de água no país, segundo dados de 1998-2002 provenientes do AquaStat citados por Carmo et al. (2007). Assim, depositar na população a responsabilidade por “resolver” o problema da seca ao economizar água em suas residências é errôneo e certamente atitude de má fé. Por fim, e não menos importante, é preciso considerar que 3) para vários municípios paulistas como Sumaré, Elias Fausto, Mairiporã, Várzea Paulista, Mombuca e Morungaba, destacam-se os altos índices de perdas, superiores a 50%. Ou seja, mais da metade da água produzida se perde no caminho, antes de chegar às residências! (Carmo et al., 2014). Essa questão das perdas no sistema de adução é uma das dificuldades a serem enfrentadas com investimentos por parte das empresas responsáveis pelo abastecimento público. Entretanto, os investimentos exigidos são vultosos, e nem sempre estão entre as prioridades das empresas. Leia-se, então, a notícia abaixo, levando em consideração os três aspectos críticos evidenciados.

Levantamento de fabricantes e revendedoras indica aumento de mais de 100% na venda de produtos para estocar água
Desde pequena, Alda Novack aprendeu com o pai, no interior do Paraná, a importância de se economizar água. Há mais de 50 anos, o que utiliza para lavar roupas no tanque é mais tarde reaproveitado para limpar quintal e banheiro; a manutenção das plantas do jardim particular é feita com as sobras da lavagem de frutas e verduras. Entretanto, o temor de ficar totalmente sem o recurso devido à crise de abastecimento dos reservatórios Cantareira e Alto Tietê nos últimos meses a levou a buscar novas alternativas para o dia a dia.

Moradora de uma região que há meses convive com um racionamento não-anunciado todas as noites – o Jardim Damasceno, na zona norte da capital paulista -, a aposentada de 67 anos investiu há exatamente duas semanas cerca de R$ 110 na compra de dois grandes tambores com capacidade de 225 litros cada. Os reservatórios se juntam a outros já mantidos por dona Alda na residência onde vive com dois filhos, uma neta e uma nora, como baldes velhos e duas caixas d´água com capacidade total de armazenamento de mais de 800 litros.

“Comprei os tambores por sentir um medo verdadeiro de que as represas venham a secar. Fico desesperada vendo as notícias diariamente sobre a atual situação da água em São Paulo”, diz Alda. “Os tambores só serão usados em caso de necessidade extrema mesmo. Aquele que enchi está tampadinho. Espero não precisar usá-lo, mas, do jeito que as coisas andam, ele pode ajudar a família a passar tranquila por alguns dias difíceis.”

Dona Alda não é nem de longe um caso isolado. Em toda a Grande São Paulo tem havido sensível aumento na procura de produtos que ajudem a população a amainar os problemas causados por um possível desabastecimento na região – e, claro, para lidar com os próprios racionamentos, oficialmente rechaçados pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) mas já em voga em diversos bairros da cidade e municípios de seu entorno.

Uma das maiores redes de lojas de materiais para construção da região sudeste do País, a Telhanorte registrou, apenas no primeiro trimestre de 2014, um aumento de 150% nas vendas de caixas d´água de maior litragem – entre 1.500 e 2.500 litros – no Estado. A tendência é corroborada por dados Tigre e da Fortlev, principal fabricante do recipiente no País, que desde fevereiro precisou passar a usar as fábricas de Santa Catarina, Bahia e Espírito Santo para suprir o recrudescimento da demanda na população paulista.

“Muitas pessoas aproveitaram o atual momento de crise hídrica para realizar a troca da caixa d’água em sua residência, optando por modelos maiores ou até mesmo adquirindo um reservatório a mais para se precaver de possíveis racionamentos ou faltas de água”, explica o diretor de marketing e compras da Telhanorte, Juliano Ohta. “É um cliente que faz parte de uma crescente demanda de consumidores conscientes, que buscam alternativas ecoeficientes para promover a economia de água, sobretudo na capital paulista.”

seca

Sistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

O aumento do uso dessas alternativas acompanha a tendência diária de queda dos volumes dos principais reservatórios que abastecem a população. Principal sistema de captação e tratamento de água do Estado – além de o maior da América Latina -, o Cantareira registrava, nesta sexta-feira (25), apenas 16,4% de sua capacidade de armazenamento, responsáveis por abastecer cerca de 6,5 milhões de pessoas (até o início do ano eram 8,8 milhões, parte deles transferidos para outros sistemas devido à crise).

E isso somente graças ao volume morto, reserva técnica localizada sob as comportas de captação dos reservatórios cujo conteúdo, bombeado desde maio, compõe hoje todo o conteúdo do Cantareira. Segundo especialistas consultados pelo iG, se a estiagem prosseguir e o governo do Estado não propuser alternativas para racionar o recurso, o Cantareira pode secar ainda em meados de outubro – mesmo caso do Alto Tietê, atualmente com 21,8% de volume disponível para as 4,5 milhões de pessoas abastecidas por ele, mas que, no entanto, não possuí volume morto significativo para uma emergência.

Outras alternativas buscadas por consumidores para evitar a escassez foram a busca por cisternas e calhas para a captação de água da chuva, produtos que também viram um grande crescimento em suas vendas do início do ano para cá. Entretanto, assim como ocorre nos reservatórios da Sabesp, a estiagem atual acaba também por afetar a eficiência dessas opções. É o caso para o comerciante Nelson Kocman, 58 anos, que possuí uma residência e uma loja no mesmo imóvel localizado na região central de Caieiras, abastecida pelo Cantareira.

“Há pelo menos dez anos, desde que vivo aqui, sempre captei água da chuva da calha do telhado, afinal ela vem de graça, do céu. Também comprei tambores para armazenar um volume maior. Mas ultimamente está difícil, porque simplesmente não chove”, lamenta ele. “Todas as noites falta água aqui. Por isso, durante o dia já abasteço minhas caixas d´água, duas de 500 litros e uma de 250 litros, e garanto o uso para mim e para a minha mulher. Só terei problemas mesmo se a Sabesp parar de distribuir por uns três dias. Aí fico na seca também.”

Apesar do temor de muitos, uma boa parcela da população parece ainda não ter tomado consciência da gravidade da situação hídrica na capital paulista e em seu entorno. Ao menos é o que observa dona Alda ao atravessar o portão de sua casa e ver o comportamento de vizinhos e amigos. “Você olha aqui no fim de semana e tem gente lavando carro, moto e até a calçada com mangueira, como se nada estivesse acontecendo. É uma enorme falta de consciência”, avalia ela. “Meu filho fala que eu economizo água demais. Mas estou acostumada a isso. E, sinceramente, espero que outros sigam esse exemplo também.”

Por David Shalom , iG São Paulo

 

Referências citadas no comentário:

CARMO, R. L.; OJIMA, A. L. R. O.; OJIMA, R.; NASCIMENTO, T. T. Água virtual, escassez e gestão: o Brasil
como grande “exportador” de água. Ambiente e Sociedade, v. X, p. 83-96, 2007.

CARMO, R. L.; ANAZAWA, T. M.; JOHANSEN, I. C. Seca nas Metrópoles: materialização de um desastre anunciado. Cadernos de trabalho da Rede Waterlat, 2014.

 

Fonte da notícia:

Portal IG (http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2014-07-25/temerosa-com-seca-populacao-de-sp-investe-em-tambores-e-caixas-dagua.html)

Desastres no nosso Pa-tropi ??!!

Desastres no nosso Pa-tropi ??!! artigo de César Marques

[EcoDebate] Era inverno de 1969. Plena ditadura militar. O AI-5, ato mais feroz daquele governo, já havia saído do forno e sua primeira ação seria o fechamento do Congresso Nacional, em outubro daquele ano. Se na política a tensão era grande, na cultura os artistas brasileiros produziam cada vez mais. Naquele inverno de 1969 essa efervescência levou Wilson Simonal a gravar uma das músicas mais famosas escritas por Jorge Ben: País Tropical. Seus versos proclamavam em alto e bom som uma versão ufanista do Brasil, o País Tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza! E quem vai discordar? Quem chega ao Rio e não se impressiona com suas praias recortadas por maciços de rocha que formam paisagens raríssimas em meio a um centro urbano dessa dimensão? Ou quem sobrevoa a Amazônia e vê a floresta “sem fim”? E as praias de águas quentes e recifes do Nordeste? Os lençóis maranhenses? A Serra da Canastra, a Chapada Diamantina, as grutas e cavernas de Bonito… Parece uma lista sem fim do “bonito por natureza”…

Mas nem todo mundo concordou com o carioca de Madureira. Juca Chaves gravou sua resposta em “Take me back to Piauí”, cantando para quem quisesse ouvir: “Adeus paris tropical, adeus brigite bardot… o champanhe me fez mal, caviar já me enjoou”. Jorge Ben retrucou ao seu estilo com a música “Cosa Nostra”. A música dizia, em um quase tom de ameaça: “mas o que vai, vai, o que vai, vem”. E reafirmava: “é cosa nostra, esse sol de 40 graus, é cosa nostra, o peixinho da lagoa, é cosa nostra, esse Pa-tropi, esse Pa-tropi…”. Jorge Ben foi acusado de estar do lado dos militares, de ser delator ao DOPS. Juca Chaves era crítico da ditadura. Nessa briga de peixe grande (e não de peixinho de lagoa), ninguém lembra da música do Juca, já o Jorge, foi regravado e por todos os cantos ouvimos a proclamação do país bonito por natureza…

Mas o que essa visão esconde são as catástrofes que ano após ano passamos. Se a beleza do país é “natural”, a “naturalização” das desastres que vivemos de Norte a Sul, ano após ano, só propaga uma visão míope sobre esses desastres.

Em 2014, as cheias que ilharam o Acre, principalmente com a interdição da BR-364 (que liga o Estado a nada menos do que todo o resto do país), trouxeram prejuízos que foram estimados em mais de R$200 milhões, como noticiou O Estado de São Paulo. Foram mais de 2 meses sobre as águas, que também atingiu outros áreas, como Roraima. Mas parecia que esse evento mostrou uma realidade que é distante do eixo Sul-Sudeste. Alguém lembra de ter visto notícias falando sobre a melhora da situação ali? Ou sobre como as pessoas estão fazendo para se recuperar das enormes perdas que tiveram? Por esses lados, muito pouco se fala disso. Parece importar mais a indignação do governo de São Paulo com a chegada de haitianos que supostamente foram enviados pelo governo do Acre.

Mas agora, mesmo que tardiamente, as cheias chegaram no eixo Sul-Sudeste. Meses após o término do verão, período de maior pluviosidade nessa região, os Estados do Paraná e de Santa Catarina tiveram grande parte de suas áreas alagadas nesse início de junho.

No Paraná já se fala em mais de 20 mil pessoas deixando suas casas, 500 mil sendo afetados e já são 77 municípios que decretaram situação de emergência. O pior, já são 10 mortos em função das enchentes. Em Santa Catarina foram 21 municípios em situação de emergência, cerca de 120 mil pessoas atingidas e duas mortes.

E quem morre não necessariamente morre por afogamento. Os riscos de choques elétricos aumenta e os deslizamentos e desabamentos também ficam mais frequentes. Isso sem dizer nos problemas de saúde física e emocional que emergem depois que “o pior já passou”.

É necessário parar de pensar que a culpa é da natureza, e que estamos livres de grandes catástrofes. Quantos morros do Bumba ou tragédias em regiões serranas serão necessárias? O recalque, que tem sido difundido no funk, tem que ser pensado na sua outra dimensão, que não faz parte desse mundo onde parece que só existe a ostentação. No campo dos riscos, esse é o recalcamento que significa a recusa inconsciente dos riscos, através da resistência em admitir as imagens, os acontecimentos, as lembranças e as representações do perigo, como mostra o excelente artigo de Amaro (2003).

Mas a necessidade de assumir o risco não é nova. Em 1755, quando um terremoto de grandes proporções atingiu Lisboa, a discussão sobre o que teria causado o mesmo levou dois dos maiores pensadores da história recente, Voltaire e Rousseau, a uma polêmica que permanece até hoje sobre as causas do mesmo. Para Voltaire a natureza explicava o terremoto. Rousseau discordou: se a cidade está em uma zona sísmica, quem ocupou a cidade é o responsável: a própria sociedade! Como o sociólogo Max Weber disse, é necessário passar da ética da fatalidade à época da responsabilidade (para os interessados nessa discussão, Linayo (2012) e Amador (2007) as fazem com maior detalhe).

No Brasil, a academia e as ciências sociais já tem em sua agenda de pesquisa desse desafio.

Uma das publicações mais recentes e atuais sobre o tema é o livro “Segurança Humana no Contexto de Desastres”, de acesso gratuito. Organizado por Roberto do Carmo (UNICAMP) e Norma Valêncio (UFSCAR), o livro traz uma perspectiva crítica sobre o que são os desastres, suas causas, consequências e as respostas a eles. Mas mais importante que isso, ele é resultado de um trabalho de parceria entre cientistas e agentes que atuam diretamente nos desastres, como profissionais da Defesa Civil, Assistência social, Ministério Público, Ministério da Defesa, entidades da sociedade civil e Ongs.

Outros exemplos de questões importantes para a compreensão dos desastres no Brasil são os relatórios sobre Vulnerabilidades e Megacidades produzidos para as regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Essas obras são fundamentais para a compreensão dos mecanismos de produção das cidades brasileiras. Elas são excludentes e desiguais socialmente, e ambientalmente não levaram em consideração que, uma vez ocupadas, áreas de cheias de rios e deslizamentos de encostas vão, mais cedo ou mais tarde, sofrer com os efeitos dos riscos ambientais.

Mas e o nosso Pa-tropi? Como fica? Nesse caso, assumir o recalcamento da nossa consciência coletiva é fundamental. Não só para evitar as grandes tragédias e desastres, como também para conhecer melhor as dinâmicas ambientais nas cidades, incentivando um modelo de ocupação que permita a promoção de ambientes mais seguros, e também para que assumamos que é necessário conviver com o risco, ou seja, nos adaptarmos sem que riscos venham a ser desastres.

Enfim, como disse Jorge Bem, “Mas o que vai, vai, o que vem, vem…”.

REFERÊNCIAS

AMADOR, F. O terramoto de Lisboa de 1755: colecções de textos do século XVIII.História, Ciência, saúde. Manguinhos, vol.14, no.1, Rio de Janeiro, Jan./Mar., 2007.

AMARO, Antonio. Para uma cultura dos riscos. Territorium. Coimbra, 2003.

LINAYO, A. Aproximaciones a la problemática de lós desastres desde tres concepciones de la relación hombre-naturaleza. Revista Académica e Institucional, Arquetipo de la UCP, 4, pp.39-42, 2012.

César Marques, Doutor em Demografia (NEPO/UNICAMP). Atualmente é Professor e Pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE). Apresenta suas opiniões em caráter pessoal.

EcoDebate, 17/06/2014

http://www.ecodebate.com.br/2014/06/17/desastres-no-nosso-pa-tropi-artigo-de-cesar-marques/

TETO DE VIDRO, por Igor Johansen e Flávia Longo

Aedes_aegypti

Mosquito Aedes aegypti, principal transmissor da dengue no Brasil

Que a dengue é um problema crônico já se sabe. Que os domicílios são um dos principais focos do mosquito vetor da dengue, o Aedes aegypti, também não é novidade nenhuma. Então se já é conhecida a dinâmica do vírus da dengue e os principais focos de reprodução do mosquito vetor, por que ainda não se conseguiu equacionar o problema? A resposta é simples, mas complexa ao mesmo tempo.

Simples porque falta transformar conhecimento em ação. Falta educação cidadã para mobilização social. Trata-se de UM processo, UM fenômeno, UMA iniciativa. Mas ao mesmo tempo é algo complexo porque, para que esta ação se concretize, é necessária a compreensão de que se deve compartilhar a responsabilidade pelo controle da dengue – e assim, concretizar no mundo real os debates já muito desenvolvidos no mundo das ideias. Aventa-se como potencial solução para a dengue no Brasil a conscientização, da população e dos representantes políticos, sobre a perspectiva das responsabilidades compartilhadas.

O que isso quer dizer? A responsabilidade compartilhada no controle da dengue significa que a população, sozinha, não resolve o problema dos criadouros do mosquito vetor. Desse modo, manter a caixa d’água fechada, remover pratos dos vasos de plantas e virar de boca para baixo as garrafas, cobrir pneus, entre tantas outras medidas é muitíssimo importante, mas insuficiente.  Isso porque a Prefeitura também precisa prover infraestrutura urbana a toda a população, tal como rede de água e esgoto, além de um sistema eficiente de coleta e disposição de lixo – políticas que evitam a geração de criadouros do mosquito vetor da dengue. Além disso, o cuidado com a limpeza de parques, praças e todos os espaços públicos também é – apesar de não só – uma responsabilidade da Prefeitura. Por outro lado, a Secretaria de Saúde não tem como organizar “arrastões” e operações “cata-treco” o tempo todo, de forma que deem conta de avaliar e cuidar de cada um dos quintais de todas as residências do município. Impossível. Os ambientes domésticos, esses devem ser de responsabilidade individual.

E se engana quem pensa que é somente a população de baixa renda que não cuida dos seus quintais e aguarda o poder público para “fazer o serviço”. Populações mais escolarizadas ou com maior poder aquisitivo não implicam, necessariamente, em pessoas mais educadas do ponto de vista da cidadania. Nas últimas epidemias de dengue no município de Campinas o distrito de Barão Geraldo, que abriga a Universidade Estadual de Campinas e compreende uma das regiões mais afluentes da cidade, apresentou uma das maiores concentrações de casos de dengue. Dentre um conjunto de motivos para isso está o descuido da população com os ambientes domésticos, sejam as piscinas abandonadas ou casas para alugar que, fechadas, não permitem a inspeção dos Agentes Comunitários de Saúde e mantêm criadouros do Aedes aegypti, como vasos sanitários destampados, ralos com água parada, calhas entupidas, etc.

A proposta deste texto não é culpabilizar o Poder Público ou a População, mas sim chamar a atenção para a única forma efetiva e sustentável de evitar que o mosquito da dengue se reproduza, ou seja, tirar do papel e aplicar de fato, na realidade social, a ideia da responsabilidade compartilhada. De outro modo, continuarão existindo os picos epidêmicos desta doença infecciosa no país, em áreas pobres e também naquelas providas com mais recursos financeiros. Enquanto não “cair a ficha” de que o problema é de todos, as políticas setorializadas de controle da dengue vão continuar gastando quantias vultuosas em iniciativas epidemiologicamente inócuas, socialmente ineficazes e ambientalmente perigosas.

 

Igor Johansen é doutorando no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: igor@nepo.unicamp.br

Flávia Longo é mestranda no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: longo.fla@gmail.com

Alvos preferenciais

Pesquisa demonstra que pessoas de baixa renda ficam mais expostas ao mosquito da dengue

A dengue, que assola principalmente os países tropicais, não é uma doença “democrática” que atinge igualmente a todos os grupos sociais, como prega o senso comum. Pesquisa de mestrado em demografia desenvolvida pelo cientista social Igor Cavallini Johansen, orientada pelo professor Roberto Luiz do Carmo e apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), mostra que a dengue está mais associada aos grupos de estratos socioeconômicos menos favorecidos, especialmente os de baixa renda e de negros. Também estão mais suscetíveis aqueles que vivem perto dos chamados “pontos estratégicos”, como borracharias, ferros-velhos e depósitos de materiais recicláveis.

Tendo como cenário o município de Caraguatatuba, no litoral norte paulista, Igor Johansen estudou, por um lado, as possíveis inter-relações da distribuição dos serviços de saneamento (água, esgoto e coleta de lixo) com as características sociodemográficas da população residente; e, por outro lado, a dispersão espacial da dengue no nível intramunicipal. “A dengue possui um conjunto múltiplo de fatores relacionados ao espalhamento e intensidade da doença no território, tendo maior chance de atingir os grupos populacionais mais pobres”, reitera o autor da dissertação.

Johansen utilizou ferramentas de geoprocessamento e estatística espacial na expectativa de comprovar a relação entre baixa cobertura de saneamento básico e alta taxa de incidência de dengue. “A população sem acesso a abastecimento de água tende a estocá-la em baldes e tonéis nem sempre tampados devidamente, criando o ambiente ideal para o Aedes aegypti. Na falta de água limpa, o esgoto também pode servir para a oviposição. E, no caso de lixo e entulho acumulados nas residências ou calçadas, sete dias bastam para que o mosquito chegue à fase adulta.”

Entretanto, esta hipótese da pesquisa foi de certo modo refutada pelos primeiros resultados, como admite o próprio pesquisador. “A questão é que encontrei a relação entre baixa cobertura de saneamento e alta incidência de dengue em apenas 10% das subáreas analisadas; para a grande maioria das subáreas (90%), essa relação não se confirmou. Esse resultado pode ser interessante por mostrar que a relação realmente existe, ainda que não seja o principal problema de Caraguatatuba, mas a hipótese da pesquisa ficou comprometida.”

A explicação para que sua hipótese não tenha se sustentado, afirma Igor Johansen, está na alta cobertura de serviços de saneamento de Caraguatatuba – ele acredita que os resultados muito provavelmente seriam os mesmos em outros municípios do Sul e Sudeste do país, regiões privilegiadas em termos de serviços básicos. “Analisando a cobertura de saneamento em Caraguatatuba, descobri que quase 100% da população tem acesso ao abastecimento de água e também à coleta de lixo; apenas o índice de coleta de esgoto era menor, 58%, um problema comum das cidades litorâneas, que acabam jogando os dejetos ao mar.”

Buscando outros fatores, para além do saneamento ambiental, que explicassem o fenômeno, o autor do estudo adicionou novas variáveis aos dados do Censo do IBGE (2010) e às informações para controle da dengue mapeadas pela Secretaria de Saúde de Caraguatatuba, que lhe serviram inicialmente de base. “Decidi investigar também as características sociodemográficas da população residente e a proximidade de pontos estratégicos – nomenclatura utilizada pelo Ministério da Saúde no mapeamento de potenciais criadouros do mosquito transmissor.”

O modelo desenvolvido no decorrer da pesquisa permitiu a Johansen verificar que os casos de dengue não se espalham da mesma forma por todo o município, havendo áreas de maior concentração. “Uma demonstração de que a doença não é democrática está na proximidade entre os grupos populacionais mais atingidos e os pontos estratégicos. Como a Prefeitura já tinha esses pontos mapeados, eu pude verificar que morar em um raio de 300 metros desses locais aumenta em 67% a taxa de incidência de dengue. E não é em bairros nobres ou condomínios que encontramos borracharias e depósitos de materiais recicláveis; é na periferia, onde está a população carente.”

Ao associar os casos da doença com o nível de renda dos moradores, o pesquisador chegou a outra constatação importante: que o aumento de apenas 1% na proporção de domicílios com renda per capita até três salários mínimos faz aumentar em 71 vezes a taxa de incidência de dengue. “Nas cidades litorâneas, os pobres vão se instalar subindo a encosta e os mais ricos em prédios de bairros urbanizados, de preferência nos andares mais altos (o voo do mosquito alcança somente um metro de altura). Aqueles de maior poder aquisitivo, portanto, estão mais protegidos”.

Segundo o cientista social, mais uma variável estatisticamente significativa obtida como seu modelo diz respeito à proporção de pessoas não brancas: o acréscimo de 1% nesta população conflui para a elevação da taxa de dengue em mais de quatro vezes. “No Brasil, a cor da pele, a situação socioeconômica e o perfil epidemiológico estão intimamente associados. No caso de Caraguatatuba para o ano de 2013, quanto mais pessoas negras e pardas, maior a taxa de incidência de dengue.”

Johansen acrescenta que no sentido inverso, como fator de proteção da população, há o indicativo de que o aumento de 1% na proporção de domicílios não próprios, com destaque para os alugados, reduz em 92% a taxa de incidência na área de estudo. “Uma hipótese ainda a ser testada é de que a cidade serve como segunda residência para proprietários que descem a serra apenas em feriados e temporadas. O imóvel fica fechado praticamente o ano inteiro, sem que a vigilância tenha acesso a eventuais criadouros. Já no imóvel alugado, o inquilino está presente e tem um cuidado maior em relação a recipientes que podem acumular água.”

O cenário

Igor Johansen escolheu o município de Caraguatatuba para seu estudo tendo em vista a intensificação da mobilidade populacional depois da descoberta do pré-sal, com atração  de grandes projetos de infraestrutura e de mão-de-obra a partir da primeira década do século 21. “A dengue é uma doença tipicamente urbana e no litoral de São Paulo, como um todo, quase 100% dos habitantes vivem em cidades – inclusive pelas características geográficas, que não reservam espaço para sítios ou fazendas. A vinda de tantas pessoas exerce pressão sobre a estrutura de saneamento ambiental, quando minha ideia foi justamente relacionar a dengue com a falta de serviços básicos.”

O pesquisador salienta que o Aedes aegypti encontra na região condições favoráveis para o seu desenvolvimento, entre as quais a urbanização acelerada; clima quente e úmido; turismo proporcionado pelas belezas naturais, gerador de grande circulação de pessoas de São Paulo e de outras partes do país; o fato de se localizar no corredor de passagem para o porto de São Sebastião; e de ser cortada pela rodovia Rio-Santos, cidades que sabidamente representam dois polos onde a dengue é considerada endêmica.

De acordo com os dados da Secretaria de Saúde do município, o histórico da dengue em Caraguatatuba tem início em 2002, quando ocorreram as notificações dos primeiros casos autóctones – cuja transmissão se dá dentro da cidade e cujo contaminado é um residente. Se naquele começo foram 333 casos, a maior epidemia veio em 2010, com 3.698 ocorrências confirmadas e praticamente todas (3.672) autóctones; em 2013 houve o segundo maior pico, com 1.679 registros autóctones até o mês de novembro. Quanto a óbitos, foram dois em 2010 e um em cada ano subsequente (2011, 2012 e 2013).

O autor recorda que o pano de fundo para sua dissertação foi a participação em um projeto do Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp, realizando entrevistas com moradores do município de Altamira, no Pará, onde a relação entre dengue e saneamento é uma questão relevante. “Na volta, conversando sobre o projeto de pesquisa com meu orientador, essa doença surgiu como uma síntese para mostrar a relação entre a população e o meio ambiente. As pessoas pensam, por exemplo, que a dengue não seleciona sua vítima, quando não é bem assim, existem grupos mais expostos.”

Metodologias

Distribuição das informações do Censo 2010 em uma grade regular, análise de cluster, aplicação do Índice Local de Moran e realização de uma Regressão Binomial Negativa Inflacionada de Zeros (ZINB). Essas metodologias aplicadas por Igor Johansen serviram para dividir a área urbana de Caraguatatuba em células de mesmo tamanho; diferenciar agrupamentos de áreas com piores e melhores condições de saneamento, comparando com a taxa de incidência de dengue; localizar as áreas de autocorrelação espacial de baixa cobertura de serviços de saneamento; e, por fim, estimar a associação entre as variáveis ambientais e sociodemográficas em relação à incidência da doença.

“Logo no início da pesquisa, tive a sorte de contar com uma nova forma de disponibilizar os dados do Censo do IBGE desenvolvida por uma colega do Nepo, Maria do Carmo [Dias Bueno], que dividiu o município em células exatamente do mesmo tamanho”, recorda Johansen. “A unidade mínima do IBGE é o setor censitário, que é irregular em tamanho e pode abranger áreas bastante distintas em termos de composição da população. Como as células são muito menores e regulares, aumentam a acurácia dos dados, permitindo trabalhar com uma escala bem pequena, de 250 por 250 metros.”

Outra grata surpresa para o pesquisador foi encontrar um banco de dados perfeitamente organizado pela Secretaria de Saúde de Caraguatatuba, com o georreferenciamento de cada um dos pontos de dengue. “Se uma pessoa contrai dengue, o ponto vai ser a sua residência. É analisando onde estão os pontinhos no mapa que a vigilância epidemiológica planeja suas ações. Sobrepondo esse mapa à malha cartográfica do IBGE com os dados do censo, verifiquei em cada célula o número de habitantes e domicílios com acesso a água, esgoto e coleta de lixo, e adicionei nessa matriz uma coluna a mais, com a soma de casos de dengue. Tendo tudo no mesmo banco de dados, pude correlacionar o número de casos da doença com as informações da população. Este foi o pulo do gato, que consegui dar a partir de duas fontes bastante diferenciadas.”

Publicação

Dissertação: “Urbanização e saúde da população: o caso da dengue em Caraguatatuba (SP)”
Autor: Igor Cavallini Johansen
Orientador: Roberto Luiz do Carmo
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/590/alvos-preferenciais

III Seminário da Linha de Pesquisa em População, Ambiente, Espaço e Sustentabilidade

03 de outubro de 2013


Local: Auditório do Nepo/Unicamp


9h30-9h40 – Mesa de Abertura

9h40-10h30 – Conferência
“A Regressão ao Carvão”
Prof. Dr. Luiz Cesar Marques Filho

IFCH/UNICAMP

10h30-12h00 – MESA I – Mudanças Ambientais, Saúde da População e Etnia: Desafios metodológicos presentes nos dados do Censo Demográfico

Coordenação: Roberto Luiz do Carmo

 O que importa? Metodologias e conceitos sobre as dimensões humanas das mudanças ambientais no Brasil
César Marques
Francine Modesto

 Novas metodologias para velhos desafios? Avanços em direção ao refinamento da compreensão das inter-relações entre População e Ambiente
Igor Cavallini Johansen
Maria do Carmo Dias Bueno
Tathiane Mayumi Anazawa

 Raça e etnia nos Censos: Comparativo entre Argentina, Brasil, Colômbia e Equador 
Thais Tartalha Lombardi
Bárbara Roberto Estanislau
Alessandra Traldi Simoni
Ricardo Sampaio Dagnino

12h00-13h30 – Almoço

13h30-14h30 – Conferência
“As múltiplas transformações no território amazônico: Xingu face ao empreendimento Belo Monte”
Prof. Dr. José Antonio Herrera

UFPA/CA/NEAF

14h30-16h00 – MESA II – Mudanças no Uso-Cobertura da Terra, cidades do agronegócio e dinâmica demográfica nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil

Coordenação: Alvaro de Oliveira D’Antona 

 Mobilidade populacional e dinâmica de uso da terra: Reserva Extrativista Médio Juruá (AM) e o planalto de Santarém (PA) 
Heloísa Corrêa
Julia Côrtes

 Especificidades da dinâmica demográfica no Centro-Oeste e nas “cidades do agronegócio” (2000/2010): o caso de Lucas do Rio Verde – MT.
Alex Manetta
Márcio Caparroz
Ismael Nobre
Kelly Camargo
Fausto Del Guercio

 A Região Metropolitana Ampliada de Belém na Transição Demográfica
Ricardo Dagnino
Samira El Saifi
Carla Craice
Márcio Caparroz

16h – Encerramento 

Download Programação CompletaChamada_palestra_HerreraChamada_palestra_Luiz Cesar Marques 

Carlos Nobre, Secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, no Programa Roda Viva em 19/08/2013

O programa traz o Secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Carlos Nobre. O meteorologista debate aquecimento global, mudanças climáticas e políticas públicas ligadas à ciência e ao meio ambiente.