A autossegregação da elite

Pesquisa de demógrafa revela a dinâmica urbana de Campinas

Uma população rica e escolarizada, que vive, majoritariamente, em casas do tipo vila ou em condomínios fechados. São mais brancos que o restante da população. Em algumas áreas não há sequer registros de indígenas e negros. Há também forte concentração de migrantes mais antigos, residentes há mais de 25 anos, além de indivíduos não naturais da cidade. Os critérios sócio-ocupacionais demonstram ainda maior presença de empregadores, executivos, administradores e profissionais das ciências e artes.

O perfil sociodemográfico descrito acima corresponde à população residente na chamada Cordilheira da Riqueza, objeto de amplo estudo da antropóloga e demógrafa da Unicamp Dafne Sponchiado Firmino da Silva. A Cordilheira da Riqueza, termo criado por José Marcos Pinto da Cunha, demógrafo da Unicamp e orientador da pesquisa, corresponde a quatro áreas contíguas do município de Campinas: os distritos de Sousas e Barão Geraldo, a região do bairro do Gramado e o eixo Campinas-Mogi-Mirim. Trata-se de uma área que congrega a maior parte dos condomínios de alto padrão de Campinas, habitada pela população mais rica e mais escolarizada do município.

As quatro regiões encontram-se alinhadas com a Rodovia Anhanguera, que divide a cidade, e com a Rodovia Dom Pedro I, eixo das universidades, centros de pesquisa, institutos tecnológicos, shoppings centers e grandes lojas de departamentos. A pesquisa da Unicamp traz nova complexidade aos estudos de demografia ao mostrar uma nova dinâmica urbana de Campinas, singular em relação à urbanização brasileira.

“Temos uma tradição nos estudos urbanos no Brasil que trata de uma oposição entre o centro rico e a periferia pobre. Isso vem da década de 1970 como reflexo da urbanização brasileira que, de modo geral, se consolidou desta forma. O país urbano caracterizou-se, em geral, sob este cenário, de um centro, habitado por ricos contra uma periferia, composta por uma população de baixa renda. E a novidade deste estudo é mostrar que Campinas está fora dessa oposição clássica, inserida numa nova dinâmica urbana. Assim, os ricos e o que chamo de elite escolhem morar numa periferia totalmente já planejada pelo poder público”, revela a pesquisadora Dafne Sponchiado.

O estudo conduzido por ela integra dissertação de mestrado defendida recentemente junto ao Programa de Pós-Graduação em Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. A pesquisa tem sequência com doutorado já aprovado junto ao mesmo programa da Universidade.

O mestrado insere-se no âmbito da linha de pesquisa “Redistribuição Espacial da População”, coordenada pelo professor José Marcos Pinto da Cunha junto ao Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. Houve financiamento, na forma de bolsa à pesquisadora, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Dafne Sponchiado também atua como pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole, vinculado ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

“Uma contribuição importante desta dissertação é caracterizar e analisar este tipo de população sob a ótica da demografia, trazendo novos dados sobre o tema. Esta população foi muito pouco descrita demograficamente. O objetivo, portanto, foi compreender como esta nova dinâmica permitiu o surgimento destas áreas e não só o surgimento, mas o seu crescimento e sua consolidação. O trabalho contribui, além disso, não só com a demografia, mas com os estudos urbanos em geral, dando uma nova perspectiva para trabalhos futuros”, considera a demógrafa da Unicamp.

A caracterização da população da chamada Cordilheira da Riqueza se baseou em dados do Censo Brasileiro de 2010, referentes a Campinas; além de bibliografia específica sobre o tema. A pesquisadora da Unicamp esclarece que as informações e dados referem-se aos responsáveis pelo domicílio, acima de 14 anos, ocupados ou procurando emprego na semana de referência do Censo de 2010.

Conforme Dafne Sponchiado, as áreas estudadas concentram 65,42% do total de domicílios do tipo “casa em vila ou condomínio fechado”. Este tipo de moradia representa apenas 2,79% do total dos domicílios de Campinas. Ainda de acordo com ela, a região reúne cerca de 10% da população do município. Outros dados tabulados pela demógrafa apontam que cerca de 80% da população é branca, enquanto que em Campinas o índice chega a 66,7%.

Além disso, no quesito renda, 12% dos responsáveis por domicílios da Cordilheira da Riqueza recebem acima de 10 salários mínimos per capita, o equivalente a R$ 8,8 mil. Em Campinas, este índice é de 3,8%. Em relação à escolaridade, 4% da população das áreas pesquisadas possuem titulação de doutorado e 30%, nível superior completo. Em Campinas, menos de 1% dos responsáveis por domicílios são doutores, e 17% possuem ensino superior.

Ao falar da região denominada como Cordilheira da Riqueza de Campinas, a demógrafa da Unicamp explica que nos distritos de Sousas e Barão Geraldo foram lançados os primeiros condomínios horizontais fechados de Campinas. Já a região do Gramado, loteada a partir da Fazenda Brandina, tem a maior concentração de alta renda do município, seguida do eixo Campinas-Mogi, onde está localizado, entre outros empreendimentos, o Alphaville Campinas.

“O eixo Campinas-Mogi-Mirim e a região do Gramado apresentam a maior frequência nos grupos já considerados de alta renda – respectivamente 21,1% e 29% na faixa de 5 a 10 salários mínimos per capita. O município de Campinas tem, nesta mesma faixa, somente 8,4% do total de responsáveis pelo domicílio”, acrescenta.

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Autossegração
A estudiosa Dafne Sponchiado afirma que, com o deslocamento espacial da população rica de Campinas, houve não somente uma alteração do padrão centro/rico-periferia/pobre, mas uma reformulação do chamado modelo espacial de segregação, que adquire características de autossegreção. De acordo com a autora do trabalho, a caracterização da população pode auxiliar a compreender os condicionantes da autossegregação e o crescimento, tanto espacial como demográfico, da Cordilheira da Riqueza.

“Essa ideia de autossegregação se refere ao fato de a população de elite ‘escolher’ viver longe das regiões centrais. Parte da ideia espacial de que para uma população segregada não há escolha. Isso acontece com a população de baixa renda. Aqui há uma autossegregação porque há escolha. É uma população que escolhe viver longe do centro, mas ainda sim próxima dos seus pares.”

Os condomínios horizontais fechados, nas áreas distantes do centro, representam, assim, uma nova forma de ocupação e de produção do espaço metropolitano. Para a demógrafa, as regiões onde se desenvolveram os condomínios são áreas de intensa concentração fundiária, com intensa atividade do mercado imobiliário, enquanto protagonista da lógica da renda fundiária.

Na pesquisa, Dafne Sponchiado explica que o espaço desta nova periferia urbana é muito diferente da periferia ocupada pelas classes de baixa renda. Desta forma, a consolidação destas áreas faz parte de um processo maior do que a escolha individual. Para isso cumprem papéis fundamentais o poder público e o mercado imobiliário, que busca um perfil específico de moradores para estes tipos de empreendimento, afirma.

“Estes espaços não crescem em áreas de risco ambiental, como encostas e fundos de vale. Pelo contrário, estão situados em áreas planas e de fácil implantação de residências, glebas que podem ser facilmente parceladas e que se mantiveram livres da ocupação pelas classes mais baixas, justamente por se tratar de áreas de valor para o capital imobiliário.”

Elite e não elite
No seu estudo, a demógrafa da Unicamp distingue duas categorias sócio-ocupacionais como forma de caracterizar a população da região pesquisada: Dafne Sponchiado utiliza os termos “elite” e “não elite”. Ela esclarece que o termo elite refere-se a um conceito técnico-operacional, a fim de especificar uma parcela da população, tentando mostrar, sobretudo, que tal grupo não se distingue somente pela alta renda e alto grau de escolaridade.

“Eu utilizo esta categoria de elite e não elite fundamentada no conceito trabalhado por Pierre Bourdieu em sua obra A Distinção. As particularidades econômicas e espaciais da Região Metropolitana de Campinas requerem que a elite seja pensada desta maneira, a partir da sua inserção ocupacional e produtiva. Esta diferenciação é fundamental para que este grupo não seja visto como o mais rico, somente, mas justamente como uma parcela diferenciada da população.”

Dafne Sponchiado informa que o somatório de três categorias baseadas em critérios sócio-ocupacionais resultou no grupo denominado por ela como elite. Os critérios foram: indivíduos que se declararam empregadores e que empregam mais de seis pessoas (denominação dada pela autora como “capitalistas”); executivos e administradores empregados, cujas ocupações estejam entre os códigos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) como diretores e gerentes (denominação dada como ‘executivos e administradores’); e, por fim, profissionais das ciências e artes localizados na CNAE como profissionais das ciências e das artes (‘profissionais das ciências e das artes’). O restante dos responsáveis pelos domicílios não enquadrado na soma destas categorias foi denominado como “não elite”.

Conforme a tabulação dos dados, na Cordilheira da Riqueza, em torno de 26% dos responsáveis por domicílio podem ser enquadrados como “elite”. Em Campinas, este índice chega a 14,5%. Já a região sudoeste da cidade (onde estão situados os bairros Campo Grande, Ouro Verde, Oziel, Dics, entre outros) o percentual correspondente à elite chega a 4,5%, quase seis vezes menos ao da Cordilheira da Riqueza.

Publicação

Dissertação: “Para dentro das portarias, por detrás das cancelas: Características e condicionantes da autossegregação das elites em Campinas”
Autora: Dafne Sponchiado Firmino da Silva
Orientador: José Marcos Pinto da Cunha
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: Capes

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/669/autossegregacao-da-elite

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CHAMADA DE TRABALHOS – Programa de Seminários do Observatório das Migrações em São Paulo

Temos o prazer de divulgar a chamada para submissão de trabalhos para o seminário de encerramento do Projeto ‘Nuovi Arrivati’, evento que se insere no Programa de Seminários do Observatório das Migrações em São Paulo (FAPESP-CNPq/NEPO-UNICAMP).

O seminário, que está previsto para ocorrer na Casa d’Italia em Campinas (SP) no dia 26 de Novembro de 2016 (das 09h00 às 18h00), será um momento de apresentação e discussão do Projeto ‘Nuovi Arrivati’, uma atividade do Comitê de Italianos no Exterior (COMITES) de São Paulo em colaboração com o Observatório das Migrações em São Paulo, o Consulado Geral da Itália em São Paulo, a Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio (ITALCAM) e a Missão Paz.

Este projeto tem o propósito de favorecer a integração dos italianos de recente imigração no Brasil. Em especial, se propõe a melhorar o acesso dos concidadãos a informações claras e confiáveis, indispensáveis para a inserção social e profissional na realidade brasileira. Este projeto se insere como um ponto de partida para a elaboração e a implementação de diversas iniciativas direcionadas a este segmento populacional, explorando suas dificuldades e exigências.

Além de se apresentarem e discutirem os resultados do projeto, será aberta uma sessão pôster para apresentação de pesquisas temáticas que abordem a migração recente de italianos para o BrasilNeste evento, serão aceitas contribuições em Italiano, Português, Inglês e Espanhol. Os trabalhos aprovados, após a apresentação no seminário, serão organizados em um livro sobre a migração italiana para o Brasil, a ser publicado em 2017.

Serão aceitas contribuições enviadas para o e-mail pier@nepo.unicamp.braté o dia 23 de Setembro de 2016. Nesta primeira fase, serão aceitos tanto artigos completos como resumos expandidos. Mais informações se encontram na chamada disponível aqui. Eventuais dúvidas também podem ser enviadas para o e-mail pier@nepo.unicamp.br.

Ainda no mês de Setembro, será também aberta a inscrição para participação do seminário na qualidade de ouvinte (não será cobrada taxa de inscrição). Durante o mês de Outubro, divulgaremos a programação preliminar, com as mesas redondas previstas e as autoridades convidadas para o evento.

Contamos com a divulgação desta chamada (e das novidades sobre o evento) para todos os interessados e com a participação de todos que queiram discutir, ouvir e aprender sobre migrações internacionais e a nova migração italiana para o Brasil!

Pier Francesco De Maria (coordenador – IFCH/UNICAMP)
Jacopo Angelozzi (coordenador – Comissão Recém-Chegados/COMITES-SP)
Rosana Baeninger (coordenadora adjunta – IFCH-NEPO/UNICAMP)
Renato Sartori (coordenador ajunto – COMITES-SP)
 

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Young and Early Career GEO in Beijing 2016

Banho de assento

Dear Young and Early Career Colleagues,

IGU’s inaugural Young and Early Career (YEC) Taskforce meets for the first time at this year’s IGC in Beijing. Please join us for our first meeting-cum-launch session and Masterclass event on 22 August at 2:30pm (please check congress booklet for venue details upon registration in Beijing). YEC’s first ever Masterclass, will provide a unique opportunity for early career colleagues to get academic survival tips from senior colleagues including how to find  funding and proposal writing. We hope to organise more of such activities and also provide a unique platform for networking and collaboration with all existing early career groups already working as part of the various IGU commissions. If you plan to be in Beijing this August, please do join us to learn more!

We are also looking for members who are interested to become more involved in YEC. The meeting in Beijing provides a great…

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Professor Carl Schmertmann ministra curso na Pós-graduação da Unicamp

O Prof. Dr. Carl Schmertmann, editor da Demographic Research e professor da Florida State University-EUA, ministrou o curso “Demographic Applications of Bayesian Models” entre os dias 20 e 26 de julho na Unicamp. O público alvo foram os alunos do Programa de Pós-graduação em Demografia da Unicamp.

O curso foi possível graças aos esforços do Prof. Dr. Everton Lima em parceria com o Observatório das Migrações (coordenado pela Profa. Dra. Rosana Baeninger).

As aulas ocorreram no Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (NEPO).

Abaixo uma foto com os alunos e pesquisadores que fizeram a disciplina. Da esquerda para a direita: Dario, Luciana, Everton Lima, Carl Schmertmann, Laeticia, Marta, Joseph Potter, Lara, Pier, Alessandra, Anna Karoline, Joyce, Gustavo, Pedro, Alberto e Igor.

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Foto: Vania Furlan.

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Da COMOÇÃO ao esquecimento

 

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Os desastres devem ser enfrentados sob uma perspectiva social porque são construídos socialmente, diz o sociólogo e demógrafo Roberto do Carmo, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos de População (Nepo). No caso de Mariana, diz o professor, não é diferente.

No livro que lançou em março deste ano, “Segurança humana no contexto dos desastres”, pela editora Rima (organizado em conjunto com a pesquisadora Norma Valencio), Carmo fala destes enfrentamentos em situações de desastre. Também no início deste ano, o sociólogo publicou artigo sobre Mariana na revista jurídica Consulex, em edição especial sobre a tragédia ambiental.

Para o sociólogo, todas as atividades econômicas desse tipo (extração mineral) implicam em perigos e riscos. “O importante é que a sociedade conheça esses perigos e riscos e possa ter condições de optar pela sua implementação ou não”, diz Carmo. Para ele, o forte poder econômico envolvido e a descontinuidade das ações do poder público dificultam a situação de Mariana. “Em termos conceituais, precisamos avançar da ‘sociedade do risco’ para a ‘segurança humana’”. Veja a seguir a entrevista:

Jornal da Unicamp – Na sua avaliação, como a sociedade tem respondido aos desastres ambientais? Como tem sido no caso específico de Mariana?

Roberto do Carmo – Há um certo padrão em casos como este. Em um primeiro momento, logo após o acidente, acontece a comoção, e as manifestações exaltadas de agentes sociais. É o momento do clamor por ações incisivas, de proposição de ações punitivas de grande intensidade, com grande impacto midiático.

O segundo momento é o de avaliação da real extensão dos problemas e de suas decorrências. Em geral se percebe nesse momento que o desastre tem implicações muito mais complexas do que o inicialmente avaliado. É o momento em que se identificam as eventuais responsabilidades legais, e se iniciam os procedimentos legais.

O terceiro momento é o da “acomodação”. Os procedimentos legais foram instaurados, e se iniciam os trâmites que podem levar anos até serem concluídos. As vítimas do desastre resolvem a sua situação básica (em termos físicos e emocionais) da melhor maneira que podem, muitas vezes com pouca ajuda. A opinião pública se desmobiliza aos poucos.

O quarto momento é o do “esquecimento”. O desastre perde espaço no noticiário, por conta de outros desastres que eventualmente ocorrem. A opinião pública se desmobiliza. Apenas os afetados continuam atentos aos desdobramentos das ações judiciais. A responsabilização e as reparações dificilmente são suficientes ou adequadas tendo em vista a extensão das perdas. Em geral, não são feitas avaliações sobre como evitar situações semelhantes. Mariana segue, com quase nenhuma diferença, esse padrão.


JU – De acordo com artigo que publicou na revista jurídica
Consulex, em janeiro deste ano, o desastre de Mariana foi classificado como “de muito grande porte”, compreendido entre aqueles “não suportáveis e superáveis pelas comunidades afetadas”. Para superar, continua o artigo, é necessária a ação coordenada dos governos municipal, estadual e federal, em alguns casos da ajuda internacional. O senhor acha que isso pode funcionar no caso de Mariana?

ju_662_p9_bRoberto do Carmo – A extensão dos impactos causados exige uma ação coordenada. Mas esta ação está efetivamente sendo possível? Este ano teremos eleições municipais. E um dos grandes problemas que enfrentamos, em qualquer âmbito da administração pública, é a descontinuidade das ações. Seria importante que os órgãos pudessem ter uma ação continuada, além de coordenada. A grande dificuldade em Mariana é o poder econômico envolvido.

JU – O que seria, na prática, “superar” o desastre, e o que seria “não suportar”’?

Roberto do Carmo – Poderíamos pensar em termos dos efeitos. Alguns dos efeitos da lama podem ser “superados”, que são os efeitos menores, nos locais mais distantes do evento. Os “não suportáveis” são, por exemplo, os resultados sobre o conjunto das residências da povoação que foi destruída, ou seja, dificilmente serão “superados”, seja em termos materiais, seja em termos sociais (as perdas de vidas humanas, que são as principais perdas nesse desastre).

JU – Quando fala sobre construção social do desastre em seu artigo refere-se à responsabilidade da sociedade sobre o desastre, devido ao conhecimento prévio do risco de rompimento da barragem?

Roberto do Carmo – A construção social do desastre deriva de uma avaliação equivocada entre os ganhos, principalmente econômicos, das atividades realizadas, e os perigos e custos sociais e ambientais dessas atividades. Na medida em que não se reconhecem adequadamente os perigos e os custos, os agentes sociais consideram de maneira privilegiada os ganhos econômicos (principalmente em termos de geração de lucros, mas também em arrecadação de impostos, em geração de empregos). Ou seja, esse desbalanceamento entre essas avaliações é que se configura como a construção social do desastre.

A questão não é necessariamente se a mineração é “boa ou ruim”. O fato é que todas as atividades econômicas desse tipo implicam em perigos e riscos. O importante é que a sociedade conheça esses perigos e riscos e possa ter condições de optar pela sua implementação ou não. E no caso da implementação, sob que condições efetivas, a fim de prevenir os perigos e riscos da forma mais eficiente possível. Conhecer os perigos e riscos das atividades, e estar preparada para enfrentar as situações críticas fazem parte de um novo contexto para o qual precisamos caminhar. Em termos conceituais, precisamos avançar da “sociedade do risco” para a “segurança humana”.

 

Uma relação de dependência

Apesar de ainda não ter uma legislação ambiental municipal já elaborada, a prefeitura de Mariana já concedeu a licença de conformidade à Samarco, documento que autoriza a volta das operações da empresa. A efetiva retomada, no entanto, só ocorre depois que os governos estadual e federal, por meio de seus órgãos ambientais, liberarem essa permissão.

Segundo o prefeito Duarte Eustáquio Gonçalves Júnior (PPS), a interrupção das atividades da Samarco deixou a economia do município fragmentada. “É crucial que se busque a diversificação econômica, já que 89% dos valores arrecadados são provenientes da mineração, atividade que vem sendo realizada há mais de 300 anos no município, desde o ciclo do ouro, e que dificilmente deixará de existir.” O prefeito reconhece que a diversificação econômica não acontecerá em curto ou médio prazo. “É algo que precisa ser feito, sim, mas que acontecerá de forma lenta.”

Duarte Júnior reconhece as falhas do município, evidenciadas pela tragédia, e diz que são todos responsáveis – a Samarco e os governos federal, estadual e municipal. Para medidas de emergência pós tragédia, foi constituído pelo governo federal, juntamente com os governos de Minas Gerais e Espírito Santo, e as três empresas envolvidas – Samarco, Vale e BHP Billiton –, um fundo de aproximadamente R$ 20 bilhões (valor que pode chegar a R$ 28 bilhões), que atende não apenas o município de Mariana, mas todas as cidades atingidas ao longo do Rio Doce até o Oceano Atlântico.

Na opinião do prefeito, apesar de necessário, o fundo não resolve o problema urgente da falta de arrecadação da cidade com a paralisação das atividades da Samarco. Os serviços essenciais da cidade só poderão ser mantidos pelas reservas em caixa do município até setembro. Sem autonomia para utilizar os recursos do fundo criado pelos governos e empresas, o município não tem a quem recorrer.

Na primeira semana de junho, o prefeito conseguiu uma audiência com o presidente interino Michel Temer. “De efetivo, até agora nada”, disse o prefeito sobre a reunião em Brasília. Ele tem por enquanto a garantia de que poderá contar com R$ 77 milhões (do fundo de R$ 20 bilhões) para investir, em dez anos, na diversificação econômica da cidade. O acordo diz que os municípios que dependem da mineração terão direito a um valor específico para esse fim. Entre as cidades atingidas pela lama da Samarco, ele diz que Mariana é a única que depende da mineração.

Duarte também pediu ao presidente interino que intercedesse pela volta da Samarco às operações, visto que a empresa teve sua licença para funcionamento suspensa pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), órgãos fiscalizadores do Governo Federal e do estado de Minas Gerais, respectivamente.

O dinheiro do fundo deverá ajudar a recuperar as nascentes, assim como o Rio Doce e o Gualaxo do Norte (seu afluente), diz Duarte Júnior. “Não adianta falar que antes da tragédia alguém fazia algo pelo Ribeirão do Carmo, Rio Doce, Gualaxo do Norte, porque não fazia. Minha cidade, por exemplo, joga esgoto na água todo dia. Todo dia a gente matava o rio. Mesmo que o Rio Doce estivesse na CTI, a Samarco acabou de desligar o aparelho”, completa o prefeito. Não só Mariana, mas também Ouro Preto e outras cidades da região despejam diariamente seu esgoto no rio. Com os recursos disponíveis, cerca de 40 cidades no curso do Rio Doce até o Espírito Santo terão sistema de tratamento de esgoto, incluindo Ouro Preto.

Duarte Júnior reivindica ainda uma mudança no valor da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) repassada ao município pela Samarco. Apesar de toda a exploração das riquezas minerais da cidade, apenas 1,6% da arrecadação líquida da mineradora vai para Mariana. Entretanto, segundo o prefeito, há uma medida provisória tramitando na Câmara dos Deputados para que esse valor seja revisto, aumentando para 4% do valor total bruto arrecadado pela mineradora.

De acordo com o prefeito, já se discute um local seguro para os rejeitos, caso a mineradora volte a operar – a mina Alegria. Trata-se de uma grande abertura no solo, o que dispensa a construção de barragens.

O prefeito fala que a reconstrução do principal subdistrito atingido pela tragédia – Bento Rodrigues – será uma referência nacional em sustentabilidade. Para tanto, as construções contarão com placas solares fotovoltaicas e calhas com sistema de captação de água pluvial; o calçamento será feito com blocos intertravados, evitando assim a impermeabilização do solo. “As pessoas vão passar num local onde aconteceu a maior tragédia do país, mas depois será um local reconstruído de uma forma totalmente autossustentável”, projeta.

  • Texto:
  • Adriana MenezesRenan Possari
  • Tássia Biazon
  • Bruno Andrade
  • Fotos:
  • Antonio Cruz/Agência BrasilAdriana Menezes
  • Antonio Scarpinetti
  • Edição de Imagens:
  • André Vieira

Fonte: Jornal da Unicamp (Edição de  04 de julho de 2016 a 31 de julho de 2016), disponível em: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/662/da-comocao-ao-esquecimento

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Repúdio à indicação de nova Presidência do IBGE

Banho de assento

A notícia da indicação de Paulo Rabello de Castro para a presidência do IBGE é extremamente preocupante. O indicado, amigo do presidente interino, é vinculado a interesses privados, em especial do mercado financeiro. Trata-se de diretor presidente da SR Rating e fundador da RC Consultores, empresas de consultoria financeira que elaboram projeções que são vendidas no mercado, utilizando, dentre outros, dados do IBGE.

As informações produzidas e disponibilizadas pelo IBGE são intensamente utilizadas em pesquisas no Brasil e no exterior – pesquisas de comparabilidade internacional – por sua reconhecida qualidade e excelência. Necessário lembrar que as pesquisas do IBGE sempre nos colocaram em igualdade de condições, sob o ponto de vista da qualidade e confiabilidade dos dados, com os pesquisadores dos países centrais.

Com mais de 220 publicações ao ano, o IBGE produz uma verdadeira radiografia do país, em sua diversidade de aspectos (econômicos, sociais, demográficos, políticos, geocientíficos) com dados…

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Equidade de gênero no Brasil: uma revolução inacabada?

O artigo “Equidade de gênero no Brasil: uma revolução inacabada?”, elaborado por Maria Coleta Oliveira, Joice Melo Vieira e Glaucia Marcondes integrou o encarte especial no Le Monde Diplomatique Brasil, edição de abril de 2016.
O encarte foi realizado pela Oxfam Brasil junto com o Le Monde Diplomatique Brasil em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e remete a pesquisas sobre Trajetórias das Desigualdades no Brasil nos últimos 50 anos.

 

Equidade de gênero no Brasil: uma revolução inacabada?

POR MARIA COLETA OLIVEIRA, JOICE MELO VIEIRA E GLAUCIA MARCONDES*

Ao longo do século XX, as mulheres brasileiras acumularam importantes conquistas na vida pública e privada: conquistaram o direito ao voto; deixaram de depender da autorização do pai ou do marido para trabalhar; ocuparam espaço nas instituições de ensino em todos os níveis; enfrentaram os preconceitos e as dificuldades decorrentes de um casamento desfeito; contraceptivos eficazes ampliaram suas possibilidades de decidir quando e quantos filhos ter. Se o protagonismo das mulheres é visivelmente crescente, as responsabilidades que recaem sobre elas igualmente se multiplicam.

No âmbito privado, a maioria absoluta da população brasileira já não vive em domicílios com famílias formadas por casal com filhos. Dados censitários revelam que, em 1970, cerca de 67% da população vivia nesse tipo de arranjo domiciliar, caindo para 48,3% em 2010. Os arranjos monoparentais, em grande medida originados de rupturas conjugais e encabeçados por mulheres, aumentaram sua
presença. O último Censo revelou que mais de um terço dos domicílios tinha mulheres como responsáveis, com ou sem cônjuge, com ou sem filhos. O crescimento da expectativa de vida, o aumento das separações conjugais e a ampliação dos planos femininos para além do casamento e da maternidade ajudam a explicar essa nova realidade.

Nova realidade que não diz respeito apenas à forma, mas também à dinâmica interna das famílias. O ideal do pai-provedor/mãe-dona de casa é superado especialmente em razão de um estilo de vida fundado no consumo que, para ser atingido, depende cada vez mais dos rendimentos de ao menos dois adultos. O modelo familiar de dupla renda se dissemina com crescente reconhecimento da importância das mulheres como provedoras. No início dos anos 2000, apenas 4,6% dos domicílios compostos por casal com filhos tinham mulheres como provedoras principais. Em 2012, eram 19,4%. Dois fatores combinados contribuem para esse fenômeno: a maior escolarização feminina e a ampliação da inserção das mulheres no mercado de trabalho.
A universalização do ensino fundamental ampliou o acesso à educação. No entanto, nos níveis médio e superior a balança pende em favor das mulheres. Não só as matrículas femininas predominam, como também elas são maioria dos egressos. Já em 2008 as mulheres representavam mais da metade dos estudantes universitários (55%). Nesse mesmo ano, 60% dos concluintes eram do sexo feminino. Em certa medida, esse diferencial ainda se deve à acentuada evasão escolar entre homens adolescentes e jovens. A inserção no mercado de trabalho e a geração de renda, em detrimento da educação formal, seguem como os pilares indissociáveis das expectativas sociais em torno do processo de “fazer-se homem”. Entretanto, acumulam-se evidências que apontam ser o ingresso precoce na vida laboral, sem o investimento na formação escolar, o responsável por uma trajetória mais instável e com menores salários.

A despeito dos significativos ganhos educacionais femininos, a desigualdade de gênero é ainda marcante quando cotejados os níveis salariais e de ocupação segundo a escolaridade. Em parte, a explicação reside no fato de as mulheres estarem relativamente concentradas em áreas do conhecimento e ramos de atividade pouco valorizados. Constituem ampla maioria nas áreas das humanidades e minoria nas exatas e engenharias.

Essa especialização por sexo reflete-se na estrutura do mercado de trabalho. É visível a concentração feminina em atividades econômicas associadas ao universo da reprodução social – educação, saúde e serviços – mais do que à criação e inovação tecnológicas, atividades mais bem remuneradas. Dois possíveis caminhos têm sido apontados para diminuir as discrepâncias ocupacionais e salariais entre os sexos: um sugere maiores incentivos à inserção de mulheres em carreiras hoje predominantemente masculinas; outro propõe a adoção de políticas de valorização salarial das áreas de atuação tipicamente femininas. Embora não mutuamente excludentes, as políticas de promoção da igualdade de gênero tendem a privilegiar o primeiro, que, como efeito perverso, pode acentuar desafios futuros relativos ao provimento de cuidados para uma população que envelhece e tenderá a requerer profissionais exatamente em áreas de pouco reconhecimento e valorização no mercado.

Os indicadores sobre participação feminina no mercado de trabalho são bem ilustrativos. Entre os trabalhadores de 10 anos e mais de idade, as mulheres representam aproximadamente 44% do total da força de trabalho. Em 2012, segundo dados da Pnad, as mulheres com diploma universitário apresentavam taxa de atividade de 80%, enquanto a população feminina total atingia apenas de 50,1%. Am
bas estão bem abaixo das taxas masculinas, que no mesmo ano eram de 89% e 72,6%, respectivamente. A baixa taxa de atividade das mulheres se explica pelo fato de o mercado de trabalho – público ou privado – ser pouco sensível às especificidades do curso de vida feminino. Nas carreiras femininas, muitas vezes a ascensão profissional não é linear. Mesmo que a realidade seja mais diversa, a dinâmica do mercado se mantém avessa às demandas da maternidade, persistindo na ideia do homem provedor. Em consequência, ainda nos tempos atuais, a mulher que se torna mãe pode levar mais tempo para percorrer o mesmo trajeto profissional de um homem.

A articulação entre trabalho e família constitui hoje o grande desafio social. Enquanto a jornada de trabalho feminino tem se aproximado gradualmente da masculina ao longo da última década, essa tendência não se observa em relação ao tempo dispendido com tarefas domésticas. As tensões e contradições da articulação de responsabilidades familiares e laborais femininas têm a ver, como dito anteriormente, com o modo como o mundo do trabalho se organiza, tratando esse desafio como um problema exclusivamente feminino. Pois a César o que é de César… Nesse sentido, políticas que visam à extensão da licença-paternidade são apenas o começo de uma tímida equiparação de direitos e responsabilidades.

Certamente, operou-se uma revolução de costumes sem precedentes no último século, estando hoje as mulheres, de fato, em outro patamar em matéria de educação e trabalho. No entanto, essa revolução permanecerá inacabada enquanto não invadir a intimidade das casas, tornando mais equitativa a divisão de tarefas domésticas e de cuidados entre homens e mulheres. Políticas públicas e corporativas “amigáveis às famílias” – iniciativas que contemplam desde jornadas flexíveis de trabalho a creches, passando pela tolerância de faltas justificadas pela necessidade de acompanhar os filhos em situações de enfermidade ou vida escolar – são apontadas como um novo ideal a ser perseguido. Mas nada disso terá verdadeiramente eficácia enquanto não houver uma profunda mudança cultural de gênero, na qual homens e mulheres se sintam igualmente responsáveis pelo bem-estar familiar, em especial dos filhos.

*MARIA COLETA OLIVEIRA É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE DEMOGRAFIA DA UNICAMP E PESQUISADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO; JOICE MELO VIEIRA É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE DEMOGRAFIA DA UNICAMP E PESQUISADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO; E GLAUCIA MARCONDES É DOUTORA EM DEMOGRAFIA PELA UNICAMP E PESQUISADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO.

 

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Esses textos foram elaborados por autores que participaram de uma publicação do Centro de Estudos da Metrópole, intitulada Trajetórias das desigualdades, como Brasil Mudou nos últimos 50 anos, organizado por Marta Arretche. Para mais informações, clique AQUI.

 

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