THE HANDMAID’S TALE: ATÉ ONDE A MISOGINIA PODE IR

Por Kelly C. M. Camargo* e Roberto Luiz do Carmo**

Post inicialmente publicado em Blog “Dimensões Humanas”

 

 

 

 

 

 

The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia ou A História de Uma Serva) é uma série televisiva estadunidense, criada por Bruce Miller e baseada no romance homônimo de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood. A atração vai estrear por aqui dia 11 de março, através do Paramount Channel. A trama traz um futuro distópico, no qual as taxas de fertilidade das mulheres caem a níveis alarmantes por conta da poluição e de doenças sexualmente transmissíveis, preocupando líderes do mundo todo.

Essa série se passa nos Estados Unidos, e conta o dia-a-dia das poucas mulheres férteis que vivem sob o regime totalitário que se instaura com um atentado terrorista que mata o Presidente dos Estados Unidos junto de grande parte dos políticos eleitos.

O Conto de Aia faz um ótimo trabalho ao discutir as liberdades individuais dessas mulheres, pois num dia elas têm trabalho, independência e identidade e, no outro dia, a teocracia retira seus direitos mais básicos, privando-as, inclusive, de dignidade.

Destaca-se que essa sociedade é dividida em castas: as mulheres férteis são consideradas “Aias”, ficando responsáveis por engravidarem de seus “senhores” e salvarem a humanidade da extinção. Aquelas que não podem mais reproduzir se tornam as “Marthas”, e cuidam dos serviços domésticos. As “Tias” são as mulheres responsáveis por doutrinarem as “Aias”. E, por fim, as “Esposas” são as mulheres casadas com os homens das classes poderosas, que auxiliam os maridos na manutenção do status quo.

Apesar de a história corresponder a uma ficção, há muitas questões que nos remetem a situações que ganharam importância, principalmente, ao longo do ano de 2017. Por exemplo, a finalidade da mulher na série é a reprodução, de modo que as “Aias” não possuem direito aos seus corpos. Sendo que o direito a ter escolha sobre o próprio corpo nunca deixou de ser uma luta feminista, sobretudo no Brasil, como propõe Sacavone1. Consequentemente, a “sororidade”2 é colocada repetidamente em pauta quando as “Tias” e as “Esposas” oprimem as “Aias”3.

Ainda chamam nossa atenção duas questões: a primeira é o crescimento da influência da bancada evangélica em nosso país, junto da ascensão do conservadorismo4 observado em níveis mundiais. Talvez uma ditadura fundamentalista não seja uma possibilidade tão distante de nossa realidade.

E a segunda questão corresponde à queda da fecundidade observada em diversas partes do globo, incluindo o Brasil5, mas especialmente notada nos países tidos como desenvolvidos. Nesse âmbito, destaca-se que a natalidade, junto da mortalidade e das migrações são componentes demográficas, que, dentre outras características, atuam no tamanho e composição da população. Deste modo, com medo de suas baixas taxas de natalidade, a Austrália6, por exemplo, implementou a política pró-natalista chamada de Bônus Bebê, que incentiva de forma monetária os casais a terem filhos. A França, Alemanha, Suécia, Estônia e a Escócia também incentivam a natalidade a fim de evitar o envelhecimento populacional, que implica na diminuição da população em idade ativa.

Ressalta-se que políticas públicas foram impulsionadas para controlar o número de habitantes de vários países, tanto para aumentá-lo, quanto para diminuí-lo. Entretanto, há de se tomar cuidado, pois as políticas populacionais podem facilmente apresentar consequências indesejadas7 em longo prazo que são de difícil resolução, vide exemplo chinês. Assim, num mundo em que as mulheres ainda têm de lutar por salários iguais, as políticas populacionais precisam mais do que fornecer ajuda monetária, é necessário que se crie condições para uma sociedade igual entre homens e mulheres que desejam ser pais e mães, conforme propõe Pinnelli8.

Enfim, há de se admitir que o interesse que tantas mulheres demonstram com a série televisiva The Handmaid’s Tale  é a possibilidade de vislumbrarmos tempos antigos e sociedades distantes9, com medo de que seja uma realidade assustadoramente próxima.

Envie seus comentários, críticas, sugestões e textos colaborativos para asdimensoeshumanas@gmail.com

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* Doutoranda em demografia e cientista social (IFCH/Unicamp).
** Professor doutor no Departamento de Demografia (IFCH/Unicamp).

1 SCAVONE, Lucila. Nosso corpo nos pertence? Discursos feministas do corpo. Revista Gênero, Niterói, v. 10, n. 2, p. 47-62, 1. sem. 2010. Disponível em:www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/download/4/1

2 THERBORN, Göran. Sexo e poder. São Paulo: Contexto Editora, 2006.

3 BERNARDES et al. O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre? Carta Capital, 2 de junho de 2016. Disponível em: http://justificando.cartacapital.com.br/2016/06/02/o-que-e-sororidade-e-por-que-precisamos-falar-sobre/

4 MORAES, Reginaldo. A onda conservadora e o risco de uma ‘nova normalidade’. Carta Capital, 29 de janeiro de 2018. Disponível em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-onda-conservadora-e-o-risco-de-uma-nova-normalidade-/4/39267

5 CAVENAGHI, Suzana; BERQUÓ, Elza. Perfil socioeconômico e demográfico da fecundidade no Brasil de 2000 a 2010. In. CAVENAGHI, Suzana; CABELLA, Wanda (Org.). Comportamento reprodutivo e fecundidade na América Latina: uma agenda inconclusa. Río de Janeiro: ALAP, p. 67-89, 2014.

6  ‘Bônus bebê’ e ‘filho único’ são exemplos de controle populacional. Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais, 31 de outubro de 2011. Disponível em:http://www.ufjf.br/ladem/2011/10/31/bonus-bebe-e-filho-unico-sao-exemplos-de-controle-populacional/

7 Por que a política do filho único virou uma bomba demográfica na China, BBC Brasil, 29 de outubro de 2015. Disponível em:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151029_china_bomba_demografica_cc
8 PINNELLI, ANTONELLA. Gênero e família nos países desenvolvidos. Séries Demográficas. Campinas: ABEP, v. 2, p. 55-98, 2015.
9 United Nations Entity for Gender Equality and the Empowerment of  Women. Disponível em:http://www.un.org/womenwatch/daw/beijing/platform/

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Blog “Dimensões Humanas” se apresenta como plataforma colaborativa de pesquisadores das áreas de ciências humanas e ciências sociais aplicadas

O blog “Dimensões Humanas” é uma iniciativa do Prof. Dr. Roberto do Carmo, docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e de Kelly Camargo, pesquisadora e aluna de Doutorado em Demografia pelo Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGD-UNICAMP).

Segundo os idealizadores, o blog tem como principal objetivo “o tratamento de questões relacionadas ao nosso campo de conhecimento, a Demografia, em diálogo com outros campos de conhecimento, utilizando um formato que possa ser acompanhado por um público amplo”. Além disso, ele se propõe a construir uma rede interdisciplinar de colaboradores na divulgação semanal de notícias e artigos de opinião visando atingir um público diversificado e amplo. Dessa forma, o blog pretende ser um espaço de divulgação científica acessível a população.

As sugestões, dúvidas e contribuições podem ser encaminhadas para o seguinte endereço eletrônico: asdimensoeshumanas@gmail.com

 

 

 

 

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Artigo de integrantes do corpo discente do PPGD é publicado na Notas de Población da CEPAL

notas poblacion

Notas de Población N° 105, Dezembro de 2017.

O artigo intitulado “Calidad de la declaración de la edad de las personas mayores en países de América Latina y el Caribe: análisis de los censos demográficos
de las décadas de 1960 a 2010”, de autoria de alunos de Doutorado do Programa de Pós Graduação em Demografia (PPGD) da Unicamp, foi disponibilizado hoje na plataforma online da revista Notas de Población  da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL).

O artigo foi escrito por Pedro Gomes de Andrade, Ana Camila Ribeiro Pereira, Kelly Cristina de Moraes Camargo, Gustavo Pedroso de Lima Brussse e Raphael Mendonça. E teve como objetivo discutir a qualidade da declaração de idade da população idosa latino-americana e caribenha.

Resumo: A qualidade da declaração de idade de idosos da América Latina e Caribe ainda é pouco debatida, o que se relaciona ao recente e rápido processo de transição da estrutura etária dos países. Desta forma, o presente artigo propõe a utilização de uma modificação do Índice de Whipple, a fim de medir a preferência de dígitos “0” e “5” entre os grupos etários de 60 anos e mais, bem como particioná-lo em grupos etários específicos. Foram analisados 72 Censos Demográficos, de 20 países da América Latina e Caribe, disponibilizados pelo Integrated Public Use Microdata Series International (IPUMS) no período de 1960 a 2010. Aponta-se que a qualidade da declaração da idade nos idosos melhorou no período, e que houve diminuição da diferença entre os resultados apresentados por homens e mulheres. Contudo, notou-se discrepância dos resultados pelo método de coleta da informação, já que os Censos Demográficos que captam a data de nascimento apresentam melhor qualidade de declaração da idade.

Palavras-Chaves: Qualidade de Dados, Declaração da Idade Errada, Idosos, Censo, América Latina e Caribe.

 

 

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Tão ricos e tão escolarizados? O perfil sociodemográfico dos espíritas no Brasil

Acaba de ser lançado na coleção Textos NEPO o trabalho intitulado “Tão ricos e tão escolarizados? O perfil sociodemográfico dos espíritas no Brasil”. A autoria é de Luiz Antonio Chaves de Farias, Leandro Blanque Becceneri, Flávia Vitor Longo e Livan Chiroma. Trata-se do primeiro texto sobre religião publicado nos Textos NEPO. Aos autores parabéns pelo trabalho. Tenham todos uma ótima leitura!textosnepo_80

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Preciso escrever: E agora?

computador

Foto retirada do Blog de Ezio de Castro.

Por:
Giovana Gonçalves Pereira
giovana.ggp@gmail.com
Aluna de Doutorado em Demografia, Mestra em Demografia e Cientista Social
(IFCH-UNICAMP)

            Ao longo do dia, você já deve ter iniciado muitas frases e as apagado. Eu, por exemplo, ao iniciar este artigo já apaguei três vezes minhas primeiras digitações. Mas, vamos tentar pensar nisso aqui como uma conversa entre velhos e bons amigos.

Uma das maiores dificuldades de graduandos e pós-graduandos é essa tal de escrita acadêmica, há quem defenda o robusto, claro e conciso e existe também que preferira aquele tom mais denso, detalhado e minucioso. Há variâncias é claro, mas antes de escolhermos qual será o teor do nosso texto, vamos começar?

Escrever não é algo fácil, mas não é um dom ou algo inato que somente algumas pessoas possuem. Escrever é, antes de tudo, um exercício. Assim se não temos o hábito, ou se estamos iniciando nossas atividades agora, após um longo período de sedentarismo, precisaremos ir com calma, reaprender a respirar, focar no alongamento e não forçar demais para não nos machucarmos ou distendermos algum músculo. Irei compartilhar alguns macetes pessoais com vocês, mas gostaria de lembrá-los que eles não são (nem de longe) as únicas opções que dispomos. Aliás, aproveito aqui para recomendar blogs sobre isso como do Prof. Gilson Volpato e da Karina Kuschnir

  1. Página em branco não é sinal de fracasso. Mesmo que você esteja com o Word aberto há mais de meia hora, a página em branco só está lá para nos lembrar de que devemos em algum momento começar algo. Isso pode ser um parágrafo, uma discussão de algum texto, a análise de alguma entrevista ou de algum gráfico. A página em branco pode potencialmente representar várias partes da sua dissertação, da sua tese ou de seu projeto, mas ela não é seu trabalho inteiro. Não conheci ninguém, até hoje, que tenha escrito tudo em uma sentada só.
  2. Liberte-se da ilusão da escrita perfeita e redonda em primeira mão. Eu sei, nós estamos acostumados a lermos pesquisas de referência e de ponta em nossas áreas. Temos até nossos autores e autoras mais xodós e aqueles livros de cabeceira que nos fazem desejar nos tornarmos, pelo menos, pupilos de grandes mestres. Mas, nenhuns destes grandes mestres publicaram suas primeiras versões da pesquisa, certo? São necessárias revisões, reorganização de pensamentos e parágrafos, cortes e até acréscimos para construirmos uma linha de argumento e raciocínio minimamente coerente. O importante é começar! Dica: Escreva, ninguém estará atrás do computador fiscalizando e julgando você, enquanto você começa a montar seu primeiro argumento. E, neste primeiro momento, ele deve ficar o mais claro possível para você. Gosta de tópicos? Escreva-os. Prefere mapas mentais? Pegue o lápis e desenhe-os.
  3. Mescle os momentos de escrita. Ainda que muitas pessoas gostem de especialização e focos direcionados, no caso da escrita, ao concentrar nossos esforços somente em um momento pode ter efeito nocivo. É importante mesclar essas atividades: escreva a parte teórica, quando cansar dela pare. E depois de um descanso vá para a parte de análise, depois você retorna para a discussão teórica. Nada vai sumir do lugar. E no final, tudo se encaixa e fará sentido.
  4. Tenha vários arquivos de Word. Uma das formas que aprendi a trabalhar, isso com minha orientadora, foi a de ter o hábito de cultivar vários arquivos em Word. Um discutindo algumas tabelas, o outro falando de uma discussão teórica importante, mas que eu não tenho ideia de onde vai parar na tese ainda, em todo caso, devo guardá-la e tratá-la bem. Em momentos oportunos, a gente vai unindo os arquivos em um só e criando unidade.
  5. Tenha sempre em mãos o seu projeto ou mapa de pesquisa. Quando você for escrever um artigo ou parte de seu TCC, dissertação ou tese não se esqueça de ter em mãos seu projeto. O que isso significa? Seu projeto funciona como um guia – que não deve ser limitante ou impossível de mudanças e ajustes, é claro – para que você construa seus argumentos. O bom projeto de pesquisa contém informações importantes como seu tema, seu objetivo, sua hipótese e sua metodologia. Todas essas informações são imprescindíveis para nós, e inclusive nos dão segurança na hora de escrever. Outro bom guia é o resumo. Um bom resumo guiará você no momento da escrita e deve informar ao seu leitor: o objetivo central da pesquisa, a metodologia ou as fontes de dados utilizadas, a hipótese ou pressuposto teórico – depende do momento da pesquisa -, e alguns resultados centrais.
  6. Descubra seu ritmo e não se compare. Cada pessoa possui um ritmo de escrita, tem pessoas que só conseguem escrever após os dados e as análises estarem prontas, já outras escrevem gradualmente conforme vão evoluindo na pesquisa. Não há jeito certo ou errado aqui. Apenas o mais confortável e adequado para você. Em outras palavras: De qual forma você se sentirá mais tranquilo? Contudo, não se esqueça, para descobrir seu ritmo é necessário (tcharam) escrever! Não é para nos perdermos nas fugas para trás (lendo cada vez mais referências bibliográficas), nem nas projeções para o futuro (perdendo o foco da análise no banco de dados ou na pesquisa de campo). Foco direcionado é preciso, sim.
  7. Sua obra deve ter início, meio e fim. Deste modo, é central termos em mente qual o papel de cada parte do nosso texto. A introdução será o nosso início de conversa com nosso leitor e interlocutores e pode ser construída de maneiras distintas, mas seu objetivo central é apresentar seu tema e objeto de pesquisa. Eu gosto de delimitar, neste momento, os conceitos-norteadores da minha pesquisa, ou então, tento demonstrar porque devemos falar sobre aquele tema. O desenvolvimento do artigo ou a justificativa teórica (no caso de projeto de pesquisa) é o momento no qual você vai contar para seu leitor parte da trajetória científica do seu “objeto de pesquisa”. O que já foi dito sobre ele? O que você pode contribuir? Recordando que nas ciências sociais, as pessoas não são nossos objetos, mas sim as relações sociais imbricadas em processos sociais construídos socialmente, historicamente, economicamente e culturalmente. É interessante dialogar com sua bibliografia. Isso demonstra que você reconhece a contribuição de cada trabalho e deixa o texto menos “duro”. Gosto bastante de usar “Segundo x”, “De acordo com y”, “Para z”, “X destaca que”. As considerações finais são extremamente centrais, elas ditam a amarração final do seu argumento e lógica de raciocínio, e podem indicar os possíveis desdobramentos de seus “achados”.
  8. Compartilhe e circule seus textos. A troca entre colegas, pares, amigos e conhecidos, não necessariamente de nossa área de atuação, é fundamental para nos habituarmos a escrever de maneira mais clara. Isso evita que fiquemos com vícios de termos e linguagens, além de construirmos um conhecimento mais democrático. Uma ideia é pensarmos em como explicaríamos nossas pesquisas para nossos pais e avós, ou para um desconhecido na rua.
  9. Leia em voz alta. Na impossibilidade de circular e até mesmo antes disso, leia seu texto para si mesmo em voz alta, isso dará dimensão de como você estruturou sua linha de pensamento.
  10. As maiores sacadas do seu trabalho ocorrerão em momentos distintos ao seu estudo. Às vezes isso acontece enquanto você está no bar com amigos, viajando no busão, ou tomando um café sozinho. Sempre tenha um caderninho de ideias consigo. 
  11. Deseje que sua pesquisa seja superada. O conhecimento tem idas e vindas, mas o progresso científico acontecerá sempre com quebras de paradigmas. Não é de todo ruim rever nossos escritos anteriores e não concordarmos com eles, mas sim um sinal de que amadurecemos intelectualmente.
  12. Aprenda a descansar e deixar seu texto decantar. Na medida do possível, reserve um tempo para seu texto “decantar”, mas sempre que possível descanse. O descanso é um ponto-chave para o avanço de nossos textos. Não se esqueçam: Cabeça cansada não move artigos.

Além disso, caso interesse, deixo o link aqui de uma pastinha no Dropbox com alguns textos de metodologia científica. Boas inspirações para todos nós!

 

 

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Resenha: O filme “Onde está Segunda?” e o mito malthusiano.

Onde está segunda

Onde está segunda? (2017)

Veja o trailer: Onde Está Segunda?

Por Ma. Kelly C. M. Camargo
Mestra em Demografia (PGD-IFCH/Unicamp)

camargo.k@outlook.com

Prof. Dr. Roberto do Carmo 
Docente  (IFCH/Unicamp) e Pesquisador (Nepo/Unicamp)

roberto@nepo.unicamp.br

A possibilidade de uma superpopulação tem sido o pesadelo de muitos pesquisadores, políticos e gestores públicos ao redor do mundo. Desde a teoria elaborada por Thomas Malthus, em 1798, o argumento de que o crescimento populacional não poderia ser sustentado pela capacidade de produção de alimentos tornou-se uma persistente sombra no inconsciente coletivo. Apesar de a teoria ser sistematicamente negada pela própria realidade, através do desenvolvimento tecnológico (que expandiu a capacidade produtiva), conforme os problemas ambientais ganham espaço nas agendas científicas e midiáticas, os ecos malthusianos ressurgem, trazendo como carro-chefe a necessidade de controle do crescimento populacional (HOGAN, 2001).

Na história mundial[1] não foram poucas as políticas públicas que tentaram diminuir as taxas de natalidade e fecundidade das sociedades e, assim, frear o aumento demográfico. Provavelmente a mais conhecida delas é a Política do Filho Único posta em prática na China a partir da década de 1970. Essa consistia numa lei segundo a qual ficava proibido, a qualquer casal, ter mais de um filho. A sanção estava a cargo da imposição de severas multas para famílias com filhos adicionais. A partir de 2015[2], a política foi flexibilizada ao liberar os casais para terem até dois filhos.

O filme “Onde está Segunda” (título em inglês “What happened to Monday?”)[3] mostra a política do filho único sendo levada às últimas consequências. O filme se passa num mundo futurista, em que os alimentos são geneticamente modificados, a fim de atender a crescente população utilizando menos espaço físico. Mas as mudanças genéticas nos alimentos geram como efeito colateral o nascimento cada vez maior de gêmeos, imperando em uma superpopulação. Para contornar o problema, a gestão pública dita que as famílias só podem ter um filho. A família deve escolher a criança que deseja manter, e os irmãos são teoricamente confinados em ambiente criogênico para serem despertados quando a situação do planeta estiver controlada.

Contudo, Terrence Settman (Willem Dafoe), o avô de sete irmãs gêmeas (interpretadas na idade adulta por Noomi Rapace) consegue driblar o sistema, e cria-las para que assumam uma identidade única, Karen Settman, a qual cada uma interpreta no dia da semana respectivo ao que foram nomeadas. Assim, a primeira filha, chamada de Segunda, sai da segurança de seu lar para viver Karen nas segundas-feiras, e sucessivamente. Mas quando, numa noite supostamente normal, trinta anos depois do nascimento das gêmeas, Segunda não volta para casa, as outras irmãs precisam descobrir o que aconteceu com ela, ao mesmo tempo em que tentam manter o disfarce e a segurança de si próprias.

O filme de ficção científica “Onde está Segunda?” traz vários problemas pelos quais a pressão populacional já foi responsabilizada: desertificação, fome, esgotamento de recursos e degradação ambiental. Nesse sentido, os diálogos do filme em que Nicolette Cayman (Glenn Close), criadora e executora da política do filho único, justifica seus feitos soam preocupantemente parecidos com o que escutamos tantas vezes quando o assunto é crescimento populacional. Nicolette afirma que a quantidade de alimentos que as irmãs utilizaram nesse tempo de vida poderia ter sustentado duas outras famílias inteiras, sendo egoísmo manter tantos filhos. Ainda mais quando não se possui condições financeiras para arcar com as despesas dos mesmos.

É importante ressaltar que o crescimento populacional tem sido temido principalmente no que se refere ao medo de que este se trate do incremento das parcelas mais pobres nas cidades. Exatamente a situação que o filme retrata: no mundo distópico a paisagem é marcada pela constância da miséria e da indigência, tidas como consequência direta da superpopulação. O que no discurso de Nicolette justifica não só a criação da política do filho único, como a realização de ações de extrema opressão sobre a população, sobretudo daqueles que fogem ao sistema, para a manutenção da política. Sendo nítida a naturalização da violência através de cenas contundentes de brutalidade, que inundam a tela com sangue -, pois nesse ambiente nem mesmo a exposição da violência é capaz de chocar.

De fato, o aumento da preocupação com as questões relativas às mudanças climáticas dos últimos anos reacende a discussão sobre a necessidade de se controlar o crescimento populacional. É indiscutível que o volume populacional é importante em sua relação com o ambiente, pois um número maior de pessoas exige maiores investimentos públicos em setores como saúde, educação e infraestrutura, como também maior quantidade de alimento disponível. Entretanto, existem outros aspectos a serem considerados nessa relação, como, por exemplo, conhecer as características do modelo de produção da sociedade, e o quê e o quanto essa sociedade consome.

De acordo com Martine (2014), a cultura do consumo vem sendo construída ao longo de séculos, junto do desenvolvimento do modelo de produção capitalista. O momento em que nossa civilização se encontra é marcado pela retroalimentação entre globalização do consumo e produção de massa, pois quanto mais empregos são criados, mais renda é gerada e mais mercadorias são consumidas. Ainda que esse cenário seja desejável na perspectiva do desenvolvimento econômico e da inclusão social, ele também acaba por repercutir em processos problemáticos do ponto de vista ambiental. Isto posto, é possível afirmar que a maior questão a se pensar não é o crescimento demográfico em si, e sim as relações econômicas e sociais nas quais se projeta esse crescimento. O aumento populacional em país subdesenvolvido não tem as mesmas consequências ambientais do crescimento da população em país desenvolvido, que possui outro ritmo de consumo. Num país subdesenvolvido nascem pessoas, nos países em desenvolvimento e desenvolvidos nascem consumidores (MARTINE, 2014).

Destaca-se que não é de hoje que o discurso demográfico é utilizado para justificar políticas públicas intrusivas. Mas é essencial não nos perdermos nas supostas certezas, porque a dinâmica demográfica não é formada por fatalidades históricas, as variáveis demográficas se moldam também em relação às características sociopolíticas e econômicas da sociedade, que estão em constante mutação. E por isso, a imposição de políticas de controle demográfico podem trazer repercussões sociais inesperadas e negativas. Vejam a China, por exemplo, que hoje possui uma população composta por uma maior proporção[4] de homens do que de mulheres. Porque com a imposição da política do filho único numa sociedade em que os idosos são cuidados pelas famílias de seus filhos homens, a preferência é que o filho escolhido seja do sexo masculino, para evitar desamparo na velhice. Repercutindo em uma série de situações, e dentre essas no aborto, abandono ou morte de meninas.

Por fim, em “Onde está Segunda?” o discurso oficial de organização de um mundo controlado mostra-se uma inverdade. Levando-nos a questionar se esse desfecho faz alusão à forma insustentável em que a relação entre população, desenvolvimento e ambiente tem sido desenhada por nossa sociedade.

REFERÊNCIAS
ALVES, José E. D. O fim da política de filho único e o desequilíbrio na razão de sexo na China. Laboratório de Estudos Populacionais. Minas Gerais: UFJF, abr. 2016. Disponível em: http://www.ufjf.br/ladem/2016/04/08/o-fim- da-politica- de-filho- unico-e- o desequilibrio- na-razao-de- sexo-na- china-artigo- de-jose- eustaquio-diniz- alves/. Acesso em 16 de out. 2017.
_______. AS POLÍTICAS POPULACIONAIS E O PLANEJAMENTO FAMILIAR NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL. Textos para discussão, n o 21. Escola Nacional de Ciências Estatísticas. Rio de Janeiro: IBGE, 2006.
HOGAN, Daniel. Crescimento demográfico e meio ambiente. Revista Brasileira de Estudos de População, Campinas, v. 8, n. 1/2, p. 61-71, 1991.
MARTINE, George. Ciência, cultura e a estagnação da agenda ambiental. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 31, n.1, p. 231-238, jan./jun. 2014.

NOTAS
[1] Sobre as políticas populacionais de planejamento familiar postas em prática no Brasil e América Latina, ver Alves (2006).[2] BBC Brasil. Por que a política do filho único virou uma bomba demográfica na China. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151029_china_bomba_demografica_cc. Acesso em 16 de out. de 2017.
[3] “Onde Está Segunda?”  (What Happened to Monday ?) é um filme distópico de ficção científica e suspense, escrito por Max Botkin e Kerry Williamson, dirigido por Tommy Wirkola, e estrelando por Noomi RapaceGlenn Close, e Willem Dafoe. Foi lançado em 18 de agosto de 2017 pela Netflix, que comprou os direitos de transmissão do filme em diversos países, inclusive no Brasil.

[4] Em 2015, o desequilíbrio entre homens e mulheres na China chega a 13,4 milhões, em 2040 deverá haver 17,4 milhões de homens a mais do que mulheres no país (ALVES, 2016).

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Setembro Amarelo: seleção de links com dados sobre suicídio

A mortalidade é uma dos eventos que mudam a estrutura e a composição de uma população – por isso, é um tema muito caro aos demógrafos. Dentre as diversas classificações por causa de morte, encontra-se o suicídio (lesões autoinfligidas).

Contudo, por trás da estatística existem nomes, histórias de vida. E aí entra a dimensão mais humana do tema, sobretudo quando aumenta a taxa de suicídio entre os jovens, como bem lembrou a pesquisadora Elza Berquó.

Sensíveis à campanha do Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, deixamos aqui alguns links sobre o tema. O primeiro deles refere-se ao I Boletim Epidemiológico sobre Suicídio, publicado ontem pelo Ministério da Saúde:

Aqui, o link oficial da campanha, com o slogan “Falar é a melhor solução”.

Dados sobre suicídio no Brasil e no mundo podem ser encontrados em:

 

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