De Londres, Thais Tartalha fala sobre sua experiência de intercâmbio acadêmico

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Thais Tartalha do Nascimento Lombardi é doutoranda em Demografia no Programa de Pós-Graduação da Demografia do IFCH/Unicamp. Mestre em Antropologia Social e Bacharel em Ciências Sociais também pela Unicamp. Tem experiência de trabalho na área de Ciências Sociais, Antropologia e Demografia. Tem interesse e atua principalmente nos seguintes temas: etnografia e paisagem, Amazônia, população e ambiente, arranjos domiciliares, relação rural-urbano, organização social, urbanização na Amazônia, Antropologia demográfica, População e desenvolvimento, e mudanças na composição da população.

Blog Demografia Unicamp – O que levou você a optar por um intercâmbio acadêmico?

Thais Tartalha – Algumas motivações seriam curiosidade, necessidade e um pouquinho de ambição. No entanto, muito foi uma tentativa de “mudar de lugar”. Como minha formação desde a graduação foi na Unicamp achei que um pouco de diversidade me faria bem, afinal depois de quase dez anos aprendendo como funciona a Unicamp achei que um outro ambiente acadêmico não me deixaria “viciada” em apenas um jeito de fazer ciência. Além disso, sempre tive curiosidade de saber como era essa formação acadêmica fora do país, principalmente na Europa que de certa forma são espelhos ou modelos para o Brasil, tinha curiosidade de saber o quanto ser aluna no Brasil e fora dele fazia diferença. Queria também estar mais próxima de algumas discussões teóricas e metodológicas que são interessantes para mim, achei que isso enriqueceria meu trabalho. Além de tudo isso queria estar em alguma daquelas universidades nas quais grandes autores se formaram ou foram professores… queria poder andar nos corredores em que autores que me inspiram andaram.

Por que a Inglaterra e a London School of Economics (LSE)? Como foi o processo para o ingresso no intercâmbio? Quanto tempo você fica por aí?

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Hum… essa resposta vai ficar grande…

Quando comecei a graduação de alguma forma muitos dos autores que se tornaram minha bibliografia e norte teórico acabaram sendo ingleses e a opção pela Inglaterra enquanto destino de estudos sempre esteve em vista. Dentro dessa opção a LSE era um sonho dourado, sempre pensei como seria estar na universidade dos Karls: em que Karl Marx esteve e da qual Karl Popper foi professor. Então enquanto curiosamente procurava me informar sobre os programas de Demografia descobri que o Departamento de Social Policy, um dos mais antigos da LSE (fez 100 anos em 2012) era o responsável pelo Programa em Demografia, combinando toda a tradição das teorias sobre políticas públicas e projetos com discussões demográficas e um treinamento metodológico extensivo e diverso. Aqui estavam um especialista sobre Amazônia e uma especialista em Antropologia Demográfica e discussões sobre Household e Surveys, parecia o lugar certo para estar!

Então comecei a pensar seriamente em vir para a LSE e fui buscar opções. Eu tive muita sorte e mudanças nos programas de intercâmbio acadêmico da Capes e da Fapesp me beneficiaram. A Fapesp abriu uma linha de financiamento para bolsistas no Brasil que pretendiam fazer doutorado sanduíche e a Capes mudou o processo de seleção de bolsas de doutorado sanduíche tornando o processo mais ágil, aumentando o número de bolsas, e repassando o processo seletivo para uma avaliação pelas universidades. Dentre essas duas opções escolhi tentar a Capes entre outros motivos porque sabia que havia bolsas designadas para meu programa de doutorado e não havia muita competição naquele momento. Com isso reuni algumas pilhas de documentos, 12 itens se não me engano, entre eles um projeto do que faria no doutorado sanduíche e cartas dos meus orientadores na Unicamp e na LSE dizendo que aprovavam meu projeto e subscreviam minha inscrição para a bolsa. Há outros pequenos requisitos e o processo é encaminhado ao seu departamento de pós-graduação, na sua universidade, que deve abrir um processo de seleção e se aprovado encaminha para a reitoria que também deve aprovar e então entregar à Capes, que dará sequência à implantação da bolsa se todos os documentos estiverem em ordem. Tudo isso demora alguns meses, no meu caso três meses ao todo. E sendo um processo rápido e mais centrado na sua universidade a chance de conseguir a bolsa com um bom projeto é ainda maior.

De uma forma geral os orientadores da universidade de destino é que se encarregam de aceitar você e organizar os trâmites burocráticos aqui fora e você é mais ou menos informal, muita das vezes numa situação estranha porque você não é aluno, mas é, e isso depende muito como cada universidade de destino lida com a figura do aluno de fora que varia de lugar para lugar. No meu caso foi um pouco mais complicado… uma das questões que me colocaram é que eu deveria estar formalmente dentro do programa de “estudante pesquisador visitante” que é um programa da LSE que te reconhece como aluno e por isso tudo com relação à universidade fica incrivelmente mais fácil…do acesso a todos os serviços (incluindo as moradias da universidade) ao seu reconhecimento como alumni (ex-aluno) depois e o acesso perpétuo à biblioteca e ao acervo dela. Por isso tive de passar por um processo seletivo igualzinho ao que os alunos do doutorado daqui passam com a diferença que não precisei de entrevista. Foi bastante cansativo, mas conta como experiência porque tive de escrever um projeto em inglês e passar na prova de proficiência (no meu caso o IELTS). Por esse motivo também o tempo de sanduíche é o tempo estipulado pelo programa da LSE de 12 meses e só depois que soube do resultado daqui é que fui correr atrás da bolsa. Ao todo foram 10 meses de preparação de quando comecei a escrever o projeto até enviar a inscrição para a LSE, receber o resultado, começar o processo da Capes, receber o resultado, ter a bolsa implementada, e vir para o sanduíche.

E não posso deixar de agradecer a algumas pessoas. Primeiro ao Emerson, por seu apoio incondicional antes e durante o intercâmbio, por entender porque estamos longe e de longe ser minha safety net, me oferecendo todo o carinho e amor. Aos conselhos do Prof. Emílio Moran sobre quem procurar na LSE. Ao Eduardo Marandola que me incentivou a participar de um evento em Londres um ano antes de começar o processo de preparação para o sanduíche, o que me deu a chance de vir até aqui conversar com meus futuros orientadores e saber da disponibilidade e vontade de me receber, e nos fez ter a exata medida do que eu queria e do que iriam querer e poderiam me oferecer meus orientadores aqui. Por fim, ao meu orientador Roberto do Carmo e ao Programa de Demografia que me incentivaram, sendo também cuidadosos e criteriosos.

Quais os pontos positivos da sua experiência até agora?

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São muitos pontos positivos! A começar da própria experiência em estar em outra universidade e viver um outro cotidiano acadêmico que é muito diferente daquele que estava acostumada no Brasil. O formato das aulas, o que se demanda nas disciplinas, como se organizam os programas e quais resultados se espera dos alunos é algo que tem me ensinado muito! Principalmente pelo fato de que a acuidade metodológica é quase uma obsessão na LSE e de forma geral no Reino Unido. Quase todas as universidades têm departamentos de metodologia que cuidam de prover ferramentas para que os alunos encontrem, aprendam e executem as melhores técnicas aos seus problemas de pesquisa. Além da infraestrutura acadêmica e burocrática, que tem substanciais diferenças e é muito maior aqui. Claro que isso não significa perfeição em todos os trabalhos, mas faz as pesquisas serem mais objetivas e bem recortadas e dá mais segurança para os alunos que estão começando. Por outro lado, a exigência sobre o que você faz, como seu projeto contribui para o campo de conhecimento e o respeito a prazos previamente delimitados e relativamente curtos é grande também e você tem de aprender a lidar com isso. No meu caso teve ainda a questão de que quando apresento meu trabalho aqui a perspectiva pela qual olham minha pesquisa é ligeiramente diferente da que estava acostumada e isso faz muito bem para a pesquisa.

Além disso, tem a questão de que você é desafiado o tempo todo para que consiga se expressar e formular seus problemas de pesquisa em outra língua, o que de forma nenhuma é tarefa simples, mas te obriga a ter muita clareza e objetividade com relação a qual é sua pesquisa e quais são seus interesses.

Por outro lado, estar em Londres me deu a oportunidade de aproveitar essa cidade vibrante e cheia de história e conhecimento… eu também estou extremamente mal acostumada a ter opções de transporte público para todos os lugares em que quero ir e acessar uma infinidade de museus, concertos, eventos e sistema de saúde totalmente de graça. E não, aqui não é nem de longe o paraíso, os problemas são outros, mas a perspectiva pela qual olho os problemas e as possíveis soluções são muito diferentes agora.

Agora um ponto positivo que não era algo que estava pensando sobre quando cheguei é o quanto há boas pesquisas no Brasil e o quanto temos bons profissionais que com menos infraestrutura produzem excelentes pesquisas. A pesquisa brasileira é muito inteligente, criativa, e sintonizada com o que acontece dentro e fora do país. É uma pena que muitas dessas pesquisas são completamente desconhecidas aqui, pois a língua oficial da pesquisa é o inglês seguido do espanhol ou do francês e as publicações de profissionais brasileiros ainda são poucas aqui fora. Então isso é um incentivo para os que estão começando agora a serem mais ousados, a publicarem mais fora do país, a virem para intercâmbios e mostrarem que sabemos fazer ótimas pesquisas!

Quais as principais dificuldades que você encontrou, tanto por morar em Londres quando pelos estudos na London School?

Eu vou responder primeiro em relação à LSE e depois sobre aspectos mais gerais. Bom, vocês podem achar engraçado, mas o mais difícil é entender o inglês em todos os sotaques possíveis! A LSE é verdadeiramente uma universidade internacional e no começo sofri para entender e me fazer entender. E na verdade não foi um problema de total incapacidade de comunicação, mas as primeiras semanas te desgastam mental e fisicamente pelo esforço de organizar sua vida em outra língua. E outra coisa foi a forma correta de se expressar e comunicar sobre o que você faz e como. Fui muito, mas muito criticada no começo pela abordagem que queria dar para minha tese, mas criticada no bom sentido, no sentido de tentar me fazer ter um foco melhor e saber expressar o que eu queria fazer, além de colocar método e teoria de uma forma mais amalgamada. Não foi fácil, porque fui desafiada – e ainda sou – a todo momento.

A questão da crítica aqui é sempre no sentido de tentar fazer você ter mais acuidade e tem dias em que você tem vontade de sair chorando, mas tem de engolir seco, parar, pensar e dar uma resposta rápida. O interessante é que na maior parte das vezes as críticas e desafios são só porque as pessoas verdadeiramente gostam do que você faz e ficam absurdamente curiosas em saber absolutamente tudo sobre sua pesquisa, inclusive os limites dela. E essa questão dos limites da pesquisa é algo com o qual as pessoas aqui são quase obsessivas, você tem de saber os limites da sua pesquisa, e isso te faz humilde no sentido de que você se reconhece humano e, portanto, impossibilitado de compreender todas as faces do seu problema de pesquisa, mas te faz aprender que sua pesquisa é uma sequência de escolhas metodológicas e teóricas e por isso te leva a refletir sobre outros possíveis caminhos. Não é fácil, no início você acha que as pessoas são frias e arrogantes, mas depois percebe que na verdade é uma total gentileza, é compensador.

Depois disso veio a questão de que o clima aqui é diferente e faz bem mais frio do que no Brasil, por causa disso olho a previsão do tempo quase todo dia e tive de comprar galochas e guarda-chuva para não ficar sempre molhada e um casaco, meias e sapatos bem quentes. Além de que os dias no inverno são bem curtos e foi necessário me acostumar com o fato de que as 16h estava escuro e não amanhecia até quase 7.30 da manhã! Ainda está sendo uma adaptação, mas agora já estou mais acostumada e conforme caminhamos para a primavera as horas de sol do dia aumentam – quando tem sol, porque na maioria dos dias o sol está encoberto ou o céu está acinzentado… então quando sai um pouquinho de sol todo mundo corre para um parque para aproveitar!

Um outro aspecto que está sendo importante é saber administrar o dinheiro! Londres tem muitas opções gratuitas, mas é uma cidade muito cara, especialmente no quesito moradia. E mesmo morando em uma moradia da universidade foi necessário um planejamento porque os pagamentos pela moradia e o pagamento da bolsa algumas vezes se desencontraram e foi muito importante ter uma reserva comigo. Os primeiros meses foram bem apertados e só agora é que estou tendo um pouquinho mais de equilíbrio entre o que ganho e o que gasto. A LSE tem uma preocupação enorme com essa questão da administração do dinheiro e sugere que os alunos tenham uma média de £1000 por mês, o que no início achei exagerado, mas na verdade é um valor realista para ter uma vida tranquila, mas sem extravagâncias. Além de que tive de comprar coisas de cozinha que apesar de ter dividido com meus colegas de “apartamento” foi um custo a mais, coberto pela taxa de instalação da bolsa, mas comendo quase toda essa taxa.

Outra coisa é que comer pode ser muito caro se você não se propuser a cozinhar em casa e comer no restaurante da universidade. E pode parecer piada, mas só depois de uns três meses aqui comecei a fazer compras sem sofrer para achar as coisas nas prateleiras do supermercado, além de que os hábitos alimentares são muito diferentes… o que no começo é um pouco sofrido porque é adaptação, mas se você estiver disposto a modificar um pouco seus hábitos alimentares você tira isso de letra! Por fim, tem a saudade de quem ficou no Brasil que vai apertando com o passar do tempo… no meu caso além dos amigos, meus pais, e minha irmã, meu marido ficou. Está sendo difícil estar longe, muito mais do que poderia imaginar, mas o apoio na minha decisão de fazer o intercâmbio e suporte emocional mesmo de longe é fundamental!!

Quais as dicas e conselhos você daria para os alunos da Demografia da Unicamp que gostariam de fazer um intercâmbio acadêmico como você?

A mais importante é se perguntar por que fazer um intercâmbio e o quanto isso vai ajudar no trabalho da dissertação ou tese. Depois é se perguntar onde e quem seriam as pessoas com quem você gostaria ou acha que deveria trabalhar. Tendo a resposta a essas duas perguntas, é tentar entrar em contato com seus possíveis orientadores fora do país e ver o quanto vocês têm afinidades de interesses entre o que você quer para seu trabalho e o que ele ou ela podem te oferecer. Nesse momento os orientadores no Brasil podem ser de muita ajuda, pois eles já podem ter contatos com pessoas ou universidades que se encaixem nos seus interesses, além de que eles devem ser seus parceiros de pesquisa e por isso a decisão de ir deve ser sua, mas é necessário que vocês dois estejam felizes com essa possibilidade para que não haja problemas antes ou depois. Tente também conversar com seus colegas e tente saber se eles talvez teriam alguma indicação ou alguma sugestão caso tenham tido experiência fora ou se forem da mesma área e conhecerem pessoas de fora.

Outro ponto importante é ter o contato e a aprovação do professor que será seu orientador fora do Brasil. Não só porque a Capes ou mesmo a Fapesp vão te demandar cartas de aceite da Universidade de destino com o aceite do professor, mas principalmente porque você precisa ter aquele ponto de apoio entre você, a universidade de destino e o que você quer fazer do seu tempo fora e, se esse ponto da apoio não for dos melhores, isso pode fazer do seu sanduíche ou intercâmbio um pesadelo ao invés de um sonho! E principalmente ter em mente que todo o trabalho para conseguir fazer o intercâmbio é seu, porque o interesse é seu e é sua opção de formação. Professores e departamentos ajudam, mas é você quem deve procurar se informar sobre os meios para conseguir.

Decisão tomada, hora de paciência e calma para contatar o orientador de fora e aprender sobre os trâmites de lá. Orientador de fora contatado e feliz em te receber, é hora de ter paciência e calma. Se permita começar o processo de pedir a bolsa com antecedência e evite correrias e angústias de última hora, as bolsas saem rápido, mas cronogramas apertados e imprevistos não combinam… Comece a juntar todos os documentos com calma, veja se seu projeto faz sentido com o que você quer do intercâmbio e tente se informar o máximo possível sobre o lugar para onde você vai. Veja quando começa o ano letivo e como ele é organizado – aqui, por exemplo, começa em setembro e se você chega em março pega o final do segundo termo e pode perder aulas e palestras que talvez sejam importantes para você. Não se esqueça de que uma reserva pessoal (além da bolsa) é sempre útil, não só porque você queira viajar e conhecer lugares novos ou aproveitar o lugar onde você está, mas também porque imprevistos acontecem e coisas banais como gastar dinheiro comprando galochas e guarda-chuva podem ser investimentos fundamentais para seu intercâmbio. É importante ter certeza que se quer fazer o intercâmbio, pois não é só flores! Há momentos em que há dificuldade com a língua, outros em que dá saudade de casa, há dias de “blues feeling”, outros em que você tem dúvida do porque veio, imprevistos, desafios, dias de mau-humor, aborrecimento, e dias em que você sofre porque acha que nunca mais quer voltar.

Por fim é bom lembrar que há experiências de intercâmbio boas e ruins, e isso tudo é normal, e por isso a certeza do que se está fazendo é mais do que necessária, mas o importante é aproveitar tudo que essa oportunidade tiver a oferecer acadêmica e pessoalmente! Com certeza é uma experiência marcante! Eu super recomendo!

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