Brasil para todos

Revista Veja – 22/04/2013

Desde o século passado, o país não recebia tantos imigrantes. Com diploma e emprego garantido, eles estão mudando – para melhor – as feições do Brasil

Cristo_redentor

Fernanda Alegretti e Carolina Rangel

Quando, em 2011, duas centenas de sul-coreanos aportaram de mala e cuia em Caucaia, no litoral do Ceará, os moradores desse município de 325000 habitantes ficaram tão surpresos que os estrangeiros não podiam caminhar pela praia sem que alguém pedisse para tirar foto com eles. Dois anos depois, os sul-coreanos já não chamam mais a atenção dos caucaienses. Ganharam a simpatia da população (“Eles são educados e estão sempre rindo”, diz o segurança Francisco Amaral), viraram parte dela e até já modificaram a paisagem da cidade. Além de quatro restaurantes típicos, Caucaia ganhou um hotel e um karaokê coreanos. Lá, os imigrantes, quase todos engenheiros contratados pela Companhia Siderúrgica do Pecém – uma parceria das empresas sul-coreanas Dongkuk e Posco com a brasileira Vale –, passam as noites cantando músicas de seu país, encorajados por doses de soju, a aguardente feita de sorgo. Os sul-coreanos do Ceará são exemplo de um fenômeno que está mudando as feições do Brasil. Desde o fim das imigrações italiana e japonesa na metade do século passado, o país não recebia tantos estrangeiros assim. Mas, ao contrário daqueles que chegaram aqui décadas atrás, eles não vêm em navios apinhados, não estão fugindo da guerra ou da miséria nem intencionam começar uma vida nova de enxada na mão. Os funcionários de Pecém, assim como os noruegueses atraídos para o Rio pelo pré-sal e os espanhóis que se fixaram no Ceará para trabalhar nas usinas eólicas, vieram de países com economia forte e desembarcam nos aeroportos brasileiros com emprego garantido e uma bateria de reuniões agendadas. Não seguem mais a trilha da incerteza, mas o rastro do capital.

Com eles, o Brasil vive a maior onda de imigração qualificada de sua história. Em vinte anos, o número de profissionais com ao menos ensino superior completo passou de menos de 5.000 para mais de 40.000, segundo dados do Ministério do Trabalho. Nesse tsunami migratório, um dos grupos mais numerosos é o de chineses e coreanos. Nos últimos dois anos, o ritmo de chegada desses estrangeiros ficou próximo do registrado no auge da imigração japonesa, na primeira metade do século XX. De 1917 a 1940, desembarcaram em média dezenove japoneses por dia no Brasil, um contingente que totalizou 164.000 pessoas. Agora, os chineses vêm aportando na proporção de onze por dia – foram mais de 4.000 só no ano passado, e 65% dos que pediram visto de trabalho têm diploma de curso superior.

Os coreanos somaram 1858 em 2012, o que significa cinco entradas por dia, segundo dados da Polícia Federal. Ao contrário dos imigrantes de outras nacionalidades, que tendem a se distribuir por diversos estados e cidades, esses orientais vêm quase sempre para trabalhar em empresas e fábricas com matriz em seu país de origem. Como muitas dessas companhias escolheram cidades pequenas para se fixar, a presença deles ganhou mais visibilidade. Em Piracicaba, por exemplo, a instalação da fábrica da Hyundai, no fim do ano passado, fez com que desembarcassem por lá mais de 700 sul-coreanos, na maioria profissionais com alta qualificação, como executivos, gerentes, engenheiros e técnicos ultraespecializados. Hoje, em alguns bairros da cidade, já é mais fácil encontrar kimchi, a comida típica daquele país feita à base de acelga condimentada, do que coxinha de galinha.

Fenômenos como o que o Brasil vive agora são um bônus para qualquer país. A entrada maciça de estrangeiros qualificados traz novas tecnologias, inova métodos de trabalho, estimula a competitividade e incentiva o aprimoramento de trabalhadores e de setores da economia. Nos Estados Unidos, os imigrantes são responsáveis por quase 50% das startups – empresas que apostam em novas tecnologias e que depois podem valer bilhões – do Vale do Silício. O governo americano concede todo ano 225.000 vistos de trabalho a estrangeiros ultraqualificados. É mais de cinco vezes o que o Brasil expede no período. “Em todas as épocas da sua história, o Brasil sempre se beneficiou da vinda dos imigrantes. Eles trazem inovação e colaboram com a formação do país. Agora, não será diferente. Quanto mais. Melhor”, diz Rosana Baeninger, professora de demografia da Unicamp. O outro lado da moeda – o temor natural de que os estrangeiros acabem ficando com os empregos que seriam destinados aos brasileiros – não se justifica nesse caso. Da atual leva de imigrantes qualificados, a maior parte chega para preencher uma lacuna com que as empresas deparam no Brasil: a falta de profissionais habilitados para fazer o que elas precisam.

Um estudo feito no ano passado pelo grupo americano Manpower com 700 pequenas e grandes empresas instaladas no Brasil identificou que 71% delas têm dificuldade para preencher vagas por falta de mão de obra qualificada, sobretudo na área técnica e de engenharia. Diante disso, o aumento de profissionais vindos de outros países é, novamente, mais uma solução do que um problema. “A chegada de pessoas aptas a ocupar postos de trabalho que estão vagos por falta de brasileiros qualificados é de grande utilidade e representa uma economia para o Brasil, já que os investimentos para a preparação desses profissionais já foram feitos em seu país de origem”, afirma o professor da Faculdade de Economia e Administração da USP José Pastore, especialista em relações de trabalho.

Não que a adaptação desses estrangeiros ao país ocorra sem solavancos. Às vezes, o processo inclui dificuldades inusitadas. Os funcionários sul-coreanos, que a Hyundai mantém no país, por exemplo, precisaram fazer um esforço para aprender a trabalhar menos, já que a carga horária na Coreia do Sul é, em geral, de doze horas por dia, contra a média de oito horas no Brasil. A direção da Hyundai brasileira – onde não há operários estrangeiros – teve de passar a controlar o horário de saída dos empregados para não ser punida pelas leis nacionais.

Um estudo da associação Brasil Investimentos e Negócios (Brain) mostrou que um estrangeiro demora em média 45 dias para reunir os dezenove documentos necessários para tirar um visto que lhe permita trabalhar no país – e ainda tem de esperar outros 45 para cumprir a obrigatória etapa seguinte, ser atendido em um consulado. Na Austrália, o processo todo dura pouco mais de um mês. Mesmo assim, os entraves da burocracia não vão diminuir o ímpeto dos estrangeiros interessados em trabalhar no Brasil. Já o mesmo não se pode dizer da economia. Os novos imigrantes não estão singrando os mares em busca de um recomeço de vida num país promissor, nos primórdios do seu desenvolvimento. Eles estão vindo para dar mais um passo em sua carreira ascendente e para participar, juntamente com sua empresa, das oportunidades de uma economia pujante de um país em ascensão. Enquanto isso for verdade, o dinheiro continuará a chegar ao Brasil. E, atrás dele, estarão os imigrantes.

Com reportagem de Marcelo Sperandio, Julia Carvalho e Fabrício Lobel

Volta às raízes

Helena Siu cresceu em Jundiaí, no interior de São Paulo, onde os pais, chineses, eram donos de uma pastelaria. Na escola pública em que estudava, só tinha amigos brasileiros. Helena fazia questão de não seguir as tradições dos pais e nunca quis namorar um chinês (demorou um ano para apresentar o namorado brasileiro à família). Hoje, porém, como executiva de uma rede hoteleira especializada no atendimento ao público chinês, seu trabalho consiste sobretudo em entender a cultura à qual resistiu tanto. “A melhor forma de deixar os clientes confortáveis é conhecer seus hábitos e o jeito como pensam”. Na rede hoteleira em que ela trabalha, o número de hóspedes orientais deve subir 30% neste ano.

Um lar para os chineses

Depois de ser demitida do último emprego em banco, área em que trabalhou por duas décadas, a economista Cristiane Pei descobriu uma nova vocação. Filha de chineses e fluente em mandarim, foi ao Consulado da China em São Paulo em busca de oportunidades. Ouviu que havia muitos empresários aportando no país e que eles tinham dificuldade para encontrar imóveis. “Os chineses são desconfiados, exigentes e preferem fazer negócios com conterrâneos”, diz. Em pouco tempo, Pei percebeu que tinha habilidade para o ramo. Só neste ano, a corretora para a qual trabalha já negociou cerca de cinquenta contratos de imóveis com chineses, boa parte deles graças a Pei. Ela lembra que, recém-chegado ao Brasil, seu pai vendia seda e vasos da China de porta em porta nas casas chiques do Jardim Europa. São as mesmas casas que, com a ajuda dela, os chineses hoje alugam e compram.

Só para menores

Estúdios de fotografia que só retratam crianças não são novidade em São Paulo. E estúdios especializados em fotografar bebês com 100 dias de vida? Ah, isso só tem em Moema. É lá que a cada vez mais populosa comunidade coreana da capital encontra o Kakun, o estúdio que a bióloga Anna Ahn e seu marido abriram no ano passado para continuar uma tradição do seu país natal. Até por volta dos anos 60, a mortalidade infantil na Coreia do Sul era tão alta que o fato de uma criança sobreviver até o centésimo dia era motivo de celebração – significava que ela tinha boa chance de se salvar da morte precoce. Até hoje, muitos pais sul-coreanos comemoram essa data fotografando seus bebês. No estúdio de Anna, o pacote mais vendido inclui fotos das crianças em três momentos: aos 100 dias, aos 200 e no primeiro aniversário. O casal planejava pagar o investimento em um ano, mas a freguesia aumentou tanto que o negócio pulou para o azul em apenas quatro meses. Anna e o marido viajam sempre para a Coreia do Sul, mas não pensam em voltar definitivamente para lá. O pequeno Yuhan Kim, de 2 anos, nasceu em São Paulo e crescerá no Brasil.

Se deixarem, ele fica

Há três anos, o chinês Wu Dejun, de 41 anos, trocou a cidade de Wuhu por Jacareí, no interior paulista. Veio com a missão de implantar a montadora Chery no Brasil. A fábrica está prestes a ser inaugurada, mas Dejun, vice-presidente da companhia, mal arranha o português. É que, até agora, os empregados do escritório são apenas trinta, todos chineses. E tudo o que Dejun faz nas poucas horas livres é jogar badminton ou basquete – com chineses. A situação deve mudar. A fábrica terá apenas 5% de funcionários vindos da China. Os empregados serão, no total, 4.000 até 2018, quando a montadora deve estar funcionando a pleno vapor. Se depender de Dejun, ele ainda estará por aqui. “O ambiente de trabalho e a qualidade de vida são melhores que na China. O único ponto fraco é a segurança”.

O homem do dinheiro

Funcionário há mais de vinte anos do Woori Bank – o banco sul-coreano que tem 57% de capital estatal, o equivalente ao nosso Banco do Brasil –, Mun Kyun Ro recebeu em 2008 uma missão: abrir a primeira representação da instituição na América Latina. Depois de quatro anos, Mun pôde comemorar. No ano passado, o Woori Bank abriu suas portas em São Paulo. Seu alvo, neste momento, são os milhares de coreanos que vieram para o Brasil trabalhar nas fábricas e empresas da Coreia do Sul. O próximo passo é atrair os empresários vindos de lá – e, claro, cuidar do dinheiro dos brasileiros também.

Fitzcarraldo com final feliz

A história da formação da Amazonas Filarmônica lembra a do filme Fitzcarraldo, de Werner Herzog, só que com final feliz. Na ficção, o personagem que dá título ao filme foi malsucedido ao tentar construir uma casa de ópera na Amazônia. Conseguiu apenas realizar uma apresentação itinerante num barco que cruzava os rios da selva. Na vida real, a história foi outra. Há quinze anos, o estado decidiu montar uma filarmônica para retirar da ociosidade o suntuoso e então recém-restaurado teatro erguido pelos barões da borracha do século XIX. “Queríamos contratar músicos de alta qualidade, mas seria muito difícil convencer os poucos profissionais do eixo Rio-São Paulo a se mudar para o meio da floresta”, conta o secretário de Cultura Robério Braga, mentor da ideia. A solução encontrada foi importar artistas dos países da extinta União Soviética, conhecida pela excelência no ensino de música erudita.

Em 1998, dos quarenta integrantes da primeira formação da orquestra, 35 eram estrangeiros – trinta búlgaros, russos e representantes de outras nacionalidades do Leste Europeu. “Na ocasião, com câmbio favorável e o momento econômico muito ruim no antigo bloco soviético, era muito barato trazê-los”. Desde então, dezenas de novos eslavos aportaram em Manaus. Diversos músicos regressaram ao país de origem e alguns passaram a integrar outras orquestras no Brasil. Mas as marcas que deixaram na região são permanentes. Graças a esse intercâmbio cultural, a música erudita floresceu. O número de espectadores da ópera ao ar livre, um evento anual, passou de 8.000 na primeira edição, há dezessete anos, para quase 40.000 na última, em 2012. Além de formarem público de música erudita, os estrangeiros que chegaram a Manaus ajudaram a preparar uma nova geração de músicos locais. A demanda pelo ensino de música no liceu estadual, onde inicialmente todos os estrangeiros tinham de dar aulas, saltou de 800 alunos, em 1998, para 12.170 crianças e jovens neste ano. Essa mudança foi sentida até mesmo na orquestra. Na primeira formação, havia apenas dois músicos amazonenses. Hoje, esse número chega a vinte, quase todos formados por professores eslavos. Fitzcarraldo ficaria morto de inveja.

Kalleo Coura

O Haiti também é aqui

Longe dos saguões de aeroportos, o Brasil recebe todos os anos milhares de imigrantes que se arriscam nas fronteiras em busca de uma vida menos miserável. O exemplo mais dramático é o dos haitianos, que afluem ao país numa torrente quase contínua desde que mais um terremoto arrasou o já devastado país, em 2010. Nos últimos três anos, entraram no Brasil em torno de 8.000 haitianos. Desse contingente, apenas 1.500 portavam visto emitido em Porto Príncipe. Os outros 6500 chegaram de modo clandestino e só aqui receberam o visto humanitário, válido para trabalhar no país por cinco anos. A principal porta de entrada desses imigrantes ilegais é a cidade de Brasileia, na divisa do Acre com a Bolívia.

Nos últimos dias, voltaram a acontecer na cidade cenas semelhantes às do período pós-terremoto, quando uma multidão de haitianos desesperados e famintos acorreu para Brasileia. Só na semana passada, esse município de 21.400 habitantes recebeu 1.300 refugiados vindos do Haiti. O abrigo da prefeitura, com capacidade para 200 pessoas, ficou irrespirável. Houve brigas e disputas por comida. A atual corrida deu-se por três motivos: a Polícia Federal decidiu limitar a emissão de vistos a dez por dia a partir de março (eram até setenta diários, antes); o Equador, a rota preferida dos haitianos, anunciou que adotaria medidas para dificultara entrada deles, o que acelerou a decisão de muitos de migrar para o Brasil enquanto o caminho continuava livre; e intensificou-se a ação dos coiotes, que lucram trazendo os ilegais pela selva.

Diante do caos, o governo federal enviou à região uma força-tarefa. Em dois dias, todos os 1.300 imigrantes tiveram a situação regularizada e começaram, aos poucos, a partir para outros pontos do Brasil em busca de trabalho. Devem juntar-se a seus conterrâneos espalhados pelo país. Empresas de São Paulo e do Sul, de áreas que vão da construção civil à alimentação, são as que mais têm aproveitado essa mão de obra.

Fonte: Site do Ministério da Fazenda.

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