Equação tenta prever futuro das cidades

  • Nova abordagem usa matemática para propor soluções para problemas urbanos e questiona tese de que grande população é sinônimo de problema
  • Para autor do estudo, cidades são reatores sociais

MANUELA ANDREONI

Publicado:25/06/13
cidade
Para pesquisador, quanto maior a população de uma cidade, mais chance ela tem de dar certo Cláudio Prudente

RIO – Toda cidade é uma estrela. E, quanto maior fica, mais forte brilha. Pode parecer poesia, mas é física e matemática. Quem faz as contas é o físico português Luis Bettencourt, do Instituto Santa Fé, no Novo México, Estados Unidos, ao formular equações que se propõem a explicar espaços urbanos, um desafio ao território dominado pelas ciências humanas. Os modelos matemáticos tentam medir principalmente as interações sociais, a infraestrutura dentro das cidades e seus custos, com o objetivo de planejar políticas públicas que incentivem a cidade a cumprir sua função de promover encontros diversos.Segundo o estudo, as cidades seriam reatores sociais, que produziriam crescimento econômico, inovações e, é claro, movimentos sociais capazes de transformar uma sociedade. Os cálculos apresentados mostram que, assim como uma estrela, quanto maior a cidade, mais rica e, talvez, mais desenvolvida. Ou mais politizada.

— A cidade criou a possibilidade para grandes revoluções, desde a Revolução Francesa… Não que eu esteja dizendo que isto está acontecendo no Rio — diz o estudioso, cuja instituição é famosa por ser uma espécie de celeiro de ideias inovadoras e ousadas.

Realizada ao longo de 10 anos, a pesquisa de Bettencourt foi divulgada pela revista “Science”, uma das mais importantes publicações da comunidade científica internacional. O pesquisador inseriu numerosas equações ininteligíveis aos leigos. À primeira vista, não há nada de ciências humanas ali. Uma segunda leitura, contudo, mostra o contrário.

O estudo oferece novas explicações a conclusões conhecidas, o que pode ajudar a sistematizar problemas, tornando sua resolução mais fácil. Em tempos de imprevisibilidade — quem conseguiria antever que os cidadãos brasileiros sairiam às ruas de dezenas de cidades do país para reivindicar direitos? —, um cálculo pode ser tão bem-vindo quanto uma explicação subjetiva.

Uma das equações propostas por Bettencourt mede a eficiência dos espaços urbanos por meio de cálculos dos benefícios oferecidos por eles, contrapostos aos custos cobrados aos cidadãos. A conclusão é que se atinge um ponto ótimo quando os benefícios são bons e os custos acessíveis — a famosa boa relação custo-benefício. Se os serviços se tornam melhores ainda, mas o custo passa a ser impagável, esta cidade precisa ser mais eficiente em seus gastos. Se os preços forem acessíveis, mas com benefícios precários, a cidade está subdesenvolvida, precisa investir mais.

Nos dois casos, o potencial de interações sociais cai, ou seja, a cidade não está conseguindo se otimizar. As duas máximas, quando pressionadas ao infinito, estimulam a desintegração e desestabilização da cidade, de forma que ela pare de existir.

— Teoricamente, à medida que há mais interações sociais, mais diversas, com mais rendimento econômico, também é possível haver melhor infraestrutura, que pode então ser paga por essa atividade, por esse aumento — explica Bettencourt, acrescentando que, se isto não acontece, a cidade não está aproveitando seu potencial e precisa fazer ajustes.

Problemas levam à segregação

Teoricamente, a relação custo-benefício de se viver na cidade de São Paulo foi o estopim para os protestos que pararam o país. Segundo os cálculos do professor Samy Dana, da FGV, enquanto o salário mínimo cresceu, entre 1994 e 2013, 161,41%, as passagens de ônibus na cidade aumentaram 308,29%. Seguindo a lógica do estudo de Bettencourt, o governo paulistano precisa não só melhorar o serviço, como otimizar seu custo para conseguir alcançar todo seu potencial de produção de riquezas. Segundo dados de 2010, São Paulo tem 11,2 milhões de habitantes e o segundo PIB per capita do país: R$ 30,2 mil.

Os aumentos sucessivos fazem com que o paulistano, assim como o carioca, precise gastar muito mais recursos, proporcionalmente, em transporte público, do que habitantes de outras grandes cidades do mundo. Estas últimas estariam mais próximas do equilíbrio proposto por Bettencourt do que nós. Segundo as contas de Dana, enquanto é preciso trabalhar 13,89 minutos em São Paulo e 12,73 no Rio para comprar um bilhete de ônibus, na Argentina a passagem custa 1,44 minuto e, em Nova York, 6,33. Quem chega mais perto das metrópoles brasileiras é Londres, com 11,06 minutos de trabalho para cada passagem.

Se você está se perguntando o que acontece quando os custos são altos e os benefícios sociais precários, pode encontrar respostas medindo o nível de desintegração das cidades brasileiras. A distância, geográfica ou social, entre a periferia e o centro elitizado pode se encaixar na equação proposta por Bettencourt. Afinal, quanto mais longe do ponto ótimo de sua equação, mais a cidade tende a se dividir em regiões.

Uma vez sistematizados, os dados ajudam planejamentos futuros e podem até prever o comportamento de índices importantes, como o de homicídios e o de produção de riquezas. Por exemplo, quando a população de uma cidade dobra, em geral o PIB per capita cresce em torno de 16%. Também podem ser previstos a área de estradas per capita ideal ou o salário médio que a cidade deveria ter para atingir seu ponto ótimo, levando em conta não apenas aspectos da infraestrutura e da atividade econômica, mas também de outras áreas, como segurança pública.

Urbanista da University College de Londres, Michael Batty analisou com cuidado o artigo de Bettencourt, escrevendo um artigo na mesma “Science”. Ele observa que a ideia de que o tamanho de uma cidade é proporcional à sua riqueza é uma noção já estabelecida desde o século XIX. Os estudos começaram, explica o urbanista, com o economista britânico Alfred Marshall, que chamava esse fenômeno de economia de agregação ou de escala. A tese foi testada por Bettencourt, que pôs sua equação à prova com dados de cidades de países como Alemanha, China e Estados Unidos.

Batty, contudo, aponta uma questão polêmica da pesquisa: graças ao seu grande número de interações, as grandes cidades geram não apenas mais riqueza, como também uma maior mobilidade social.

— Só porque a cidade será mais rica não quer dizer que será menos polarizada — explica o pesquisador. — É discutível a afirmação de que tornar as cidades maiores pode torná-las menos desiguais. Mas isso não que dizer que as cidades grandes não tenham problemas.

Luis Bettencourt diz que a urbanização em grande escala não é de fato um problema. Ele argumenta que, por mais que as cidades provoquem desigualdades sociais, também geram instrumentos para solucionar essas questões. Os países mais urbanos tendem a ser mais desenvolvidos, produzir mais conhecimento.

— É um processo de aprendizagem cívica — justifica Bettencourt.

Embora os cálculos propostos por Bettencourt consigam prever acuradamente índices divulgados regularmente, antever protestos é uma seara em que ele ainda não se meteu. Afinal, manifestações são, normalmente, pontos fora da curva, mas não deixam de refletir as deficiências da cidade. Na lógica do estudo do pesquisador português, obstáculos à interação levam, normalmente, à insatisfação popular e à instabilização da cidade.

— Políticas que tornam a mobilidade e a conexão social mais difícil são contraprodutivas, porque aumentam os custos para que as pessoas sejam sociáveis na cidade — avalia.

Ele também oferece uma explicação mais sociológica para as dificuldades de desenvolvimento encontradas no Brasil:

— As cidades (brasileiras) cresceram muito depressa, não cresceram com serviços, com desenvolvimento social imediato.

De fato, segundo ressalta o cientista social Ricardo Ojima, professor da UFRN, munido de dados do IBGE, o Brasil pulou de 36% de população urbana, em 1950, para 84%, em 2010. Para se ter uma ideia, apenas 73% dos europeus viviam em cidades em 2010, segundo informações da ONU. Segundo Ojima, o processo é muito acelerado, inclusive quando comparado a outros países em desenvolvimento — ele chama atenção ao caso da China, que ainda não tem nem metade de sua população em áreas urbanas.

Como calcular relacionamentos

Para obter a taxa de benefícios sociais em sua equação, é preciso calcular o que Bettencourt chama de interações positivas e negativas em uma cidade. Dessa forma, uma média de salários alta puxa a cidade para mais perto de um ponto ótimo, enquanto índices altos de homicídio empurram para baixo. O benefício dos grandes aglomerados urbanos é forçar o encontro entre pessoas diversas, com ideias diferentes, uma reunião capaz de criar desenvolvimento social e econômico. No entanto, esses encontros podem ser dar de forma violenta, o que é ruim para a cidade.

Para obter a taxa de benefícios sociais o pesquisador subtrai interações negativas de positivas. Depois, relaciona o valor encontrado com os custos desses benefícios.

Mas o uso de cálculos para explicar fenômenos sociais encontra críticas entre urbanistas. Para o professor Orlando Santos Junior, do Instituto de Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, “modelos econométricos” podem até ser capazes de descrever a cidade, mas pouco contribuem para explicá-las.

— Esses modelos trabalham com a noção de equilíbrio — explica Santos. — As pessoas não são átomos, têm interesses e valores, estão imersas em universos sociais. A natureza das interações é tão importante quanto sua existência.

A vida da cidade, contudo, depende que essas interações sociais de fato aconteçam. Há diversos obstáculos a elas, começando pelo congestionamento e passando por um preço abusivo para acesso ao transporte público. O tempo perdido em engarrafamentos, filas de hospital, dupla jornada poderia ser gasto em sociabilização, o combustível para o brilho da estrela citadina. Quem nunca pensou, ao esperar horas em uma fila, em inúmeras formas de usar melhor aquele tempo?

Um estudo recém-publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseado em dados compilados pelo IBGE, mostra que os moradores da Região Metropolitana do Rio levam 44 minutos e 18 segundos, em média, para chegar ao trabalho, enquanto que, em São Paulo, o trajeto custa 44 minutos e 42 segundos. Se considerarmos um carioca que ganha um salário mínimo por mês (R$ 678) e perde uma hora e meia por dia em deslocamento, podemos dizer que, se pudesse fazer hora extra, deixaria de ganhar cerca de R$ 7 por dia, ou R$ 140 mensais — mais de um quinto de seu salário. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, divulgado este ano, calcula que só os engarrafamentos de São Paulo representem uma perda de R$ 40 bilhões por ano. Pode estar aí uma importante parcela de produto interno bruto jogada no lixo.

Bettencourt acredita que seu estudo possa contribuir para um planejamento urbano que promova interações sociais positivas. Ele critica, por exemplo, as políticas públicas responsáveis por “renovações urbanas”, aos moldes dos projetos implantados no Rio de Janeiro pelo prefeito Pereira Passos no início do século XX — e também pelo prefeito Eduardo Paes, principalmente na Zona Portuária. Para ele, esse tipo de empreendimento gerou mais problemas do que resolveu, porque não incentivou a integração social por meio de melhores serviços e instituições, só as elitizou.

As reformas em todas as cidades do Brasil em prol da Copa, e especialmente no Rio, por causa dos Jogos Olímpicos, são algumas das faíscas que incendiaram as manifestações em todo o país. Para Santos Júnior, que trabalhou no dossiê do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, as reformas varrem casas populares de certas áreas da cidade, incentivam a concentração de riquezas e podem incentivar a desintegração ainda maior da cidade.

— É muito difícil avaliar um processo ainda em curso, mas posso dizer que as intervenções (dos grandes eventos no Brasil) tornam as cidades mais elitizadas e desiguais — opina o urbanista. — (Esse processo) é negador da diversidade. E quando você nega a diversidade, está negando o conceito de cidade, que é o lugar de se conviver com o diferente. Esta é a sua riqueza.

Já Ojima questiona se é preciso ainda mais conhecimento para que o governo faça o que precisa ser feito nas cidades brasileiras, embora identifique avanços.

— Se as políticas não são adotadas, não é por falta de conhecimento, mas por falta organização, articulação ou mesmo vontade — afirma.

Fonte: http://oglobo.globo.com/amanha/equacao-tenta-prever-futuro-das-cidades-8805990

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