Guerreira gentil e generosa

Perfil de Elza Salvatori Berquó publicado na Ciência Hoje 305 (julho/ 2013).

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VERA RITA DA COSTA
Ciência Hoje/SP

 

Quando se trata de opinar sobre temas relacionados à demografia – fecundidade, saúde reprodutiva, sexualidade, envelhecimento da população e questões de gênero e raça no país –, o nome de Elza Berquó nos vem de imediato. A conceituada especialista foi pioneira ao introduzir a demografia ao meio acadêmico brasileiro e ao usar esse campo do conhecimento como ferramenta para tentar compreender parte das transformações da sociedade.
Mineira de Guaxupé, Elza nasceu em 1931. Desde pequena acostumou-se a mudanças: seu pai era funcionário federal dos Correios, o que obrigava a família a trocar de endereço com frequência. O encantamento pela matemática começou ainda na infância e a acompanharia até a vida adulta: escolheu a disciplina como carreira universitária, cursada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP). Graduou-se também em bioestatística na Universidade Colúmbia (EUA). Fez o mestrado e a livre docência na Universidade de São Paulo (USP), onde foi professora titular na Faculdade de Saúde Pública.
Em 1966, sob o impacto do golpe maldito – é assim que ela se refere à tomada de poder pelos militares em 1964 – e na mira da ditadura, Elza Berquó deu sua primeira grande contribuição à demografia brasileira ao fundar o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) na USP, o primeiro do gênero no país. No Cedip, reuniu, encorajou e formou aquela que seria a primeira geração de pesquisadores em demografia no Brasil.
Três anos depois, veio o Ato Institucional n°5 (AI-5), que a afastou do Cedip e da universidade, aposentando-a compulsoriamente. Foram tempos difíceis, que não a intimidaram. Apesar dos convites de excelentes instituições de ensino e pesquisa do exterior, decidiu permanecer no país. Ao lado do economista Paul Singer e de outros nomes importantes que integravam as listas da ditadura, buscou refúgio no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Definido por ela como um centro de resistência intelectual, o Cebrap abraçou a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana iniciada no Cedip em 1968 e a ampliou, tornando-a um modelo de pesquisa em demografia na América Latina.

Chegada a anistia, Elza não voltou a lecionar na universidade. O motivo? Nem todos a queriam por perto. “O trabalho no Cebrap seguia a todo vapor. Para que retornar sem autonomia?”, lembra. Mas aceitou o convite para fundar, em 1982, o Núcleo de Estudos Populacionais (Nepo) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que se tornou nova referência nacional em demografia.

Membro-titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico da Presidência da República em 1998, ano em que também foi condecorada com a Medalha de Mérito da Fundação Joaquim Nabuco.
Ao longo dos últimos 30 anos, dividindo suas atenções entre o Cebrap e o Nepo, Elza Berquó fortaleceu a pesquisa demográfica no Brasil. E, entre aqueles que a conhecem de perto, consolidou também a imagem da guerreira mais gentil e generosa que a demografia brasileira poderia desejar.

 

ESTA CASA EM QUE A SENHORA MORA foi projetada pelo arquiteto [João Batista] Vilanova Artigas [1915-1985], o que é um privilégio. Vocês foram amigos?

É curioso começar a conversa por este tema, porque a história desta casa é muito significativa para mim. Eu era amiga e grande admiradora dos trabalhos
do Artigas. Fomos muito ligados politicamente. A casa foi projetada e construída no período do golpe militar. Nessa época, todos nós estávamos vivendo um momento muito difícil e o Artigas, em especial, porque seu trabalho profissional ficou muito reduzido. Como eu e meu marido [o matemático Rubens Murillo Marques] tínhamos alguns recursos financeiros guardados, resolvemos pedir ao Artigas para fazer o projeto da nossa casa.

Em que período exatamente foi isso?

Foi em 1966 e a casa ficou pronta em 1968. Ela foi construída em dois terrenos pequenos que havíamos comprado na Chácara Monte Alegre. Na época, esse bairro ficava distante do centro de São Paulo. Para projetar a casa, o Artigas brincou, dizendo que precisaria me “namorar” por um tempo, para que a casa traduzisse a “minha alma”, o que, de fato, aconteceu. Adoro a minha casa: ela não tem corredores, tudo se integra com tudo, como eu imaginava. É uma casa incrivelmente romântica e, embora eu seja extremamente racional, o Artigas se justificava dizendo que ela revelava meu lado oculto. Além disso, essa casa é muito significativa para mim, porque traz a marca histórica de um período de muita convivência e efervescência política de pessoas com posições muito claras sobre o que considerávamos democracia e liberdade. Nela, também, acolhemos pessoas que, durante o golpe de 1964, precisaram de um refúgio seguro.

Quem eram essas pessoas?

Nunca soube o nome delas e não deveria saber, mesmo. Eram jovens que estavam na luta armada. Soube depois que todas essas pessoas foram mortas, inclusive uma moça que estava grávida quando a hospedamos. Em minha casa há até hoje o testemunho da passagem dessas pessoas: uma área em que as lajotas foram pintadas por elas. Todos os dias, vendo aquelas lajotas, relembro desse período triste da história do país e das pessoas idealistas que foram mortas pelo regime militar.
A senhora era filiada a algum partido? Como se deram seus primeiros contatos como a política?

Nunca pertenci a partido algum, mas, como professora de bioestatística da Faculdade de Saúde Pública, não podia deixar de me manifestar quando via, entre outros, os altíssimos índices de mortalidade infantil e constatava que nenhuma providência estava sendo tomada. Eu não sabia, mas em 1964, quando tudo aconteceu – o golpe maldito! – minhas aulas estavam sendo gravadas. Fui, então, aposentada compulsoriamente pelo AI-5 pelas minhas ideias e pelo que dizia, não por pertencer a um partido. Mas, podemos considerar, sim, que eu era, como se diz, uma pessoa ‘de esquerda’, porque certamente minhas convicções políticas eram totalmente contrárias às da ditadura.

Como foi saber que havia sido compulsoriamente aposentada? A senhora já esperava por isso?

Não foi algo esperado, mas também não posso dizer que foi totalmente inesperado. Estávamos atentos aos sinais e sabíamos, desde o golpe de 1964, que algo do tipo poderia acontecer. Então, de certa forma, eu sabia que corria risco, mas não imaginava qual era. Basta dizer que soube que havia sido atingida pelo AI-5 quando ouvi o programa A Hora do Brasil, no rádio do carro. Divulgaram a lista dos cassados pelo AI-5 e meu nome estava entre eles. Na hora, foi um susto e, depois, algo muito dolorido, principalmente porque no dia seguinte já não podíamos mais entrar na faculdade, era vedada a nossa presença. Precisei pedir a uma pessoa amiga para retirar as minhas coisas pessoais. Por outro lado, quando ouvi a notícia no rádio também senti orgulho. Pensei: nessa lista eu estou muito bem acompanhada.

Essas pessoas próximas, com as quais convivia e trocava ideias, quem eram?

Eram várias. Além do Artigas, estava o Mário Schenberg [1914-1990], do Instituto de Física [da USP], Olga Baeta Henriques, do Instituto Butantan, Luís Hildebrando Pereira da Silva, da Faculdade de Medicina da USP, entre outros. Depois de um tempo, nós só nos encontrávamos e conversávamos com esses amigos dentro de carros, sempre circulando, porque qualquer encontro era suspeito. Aliás, tudo na época da ditadura era suspeito. Até os livros eram suspeitos e, ainda hoje, sinto pena quando penso na quantidade de papéis que tivemos que queimar. Fazíamos sessões de queimar coisas, numa espécie de inquisição pessoal muito dolorida para nós.
Ainda na Faculdade de Saúde Pública, a senhora criou o Cedip. Como surgiu a ideia de criação desse Centro?

A incorporação da demografia no ensino e na pesquisa era incipiente e praticamente inexistente no meio acadêmico brasileiro. Por outro lado, nossa participação em congressos e seminários internacionais mostrava cada vez mais a necessidade da incorporação de uma visão demográfica para a compreensão das transformações em curso nas sociedades. Por isso, solicitei à Organização Panamericana da Saúde (Opas) uma assessoria internacional para discutir nossas necessidades e as bases para estabelecer um programa de ensino e pesquisa em demografia. Contamos para isso com a colaboração da eminente demógrafa Irene Tauber [1906-1974], da Universidade de Princeton [EUA]. Irene ficou conosco cerca de 20 dias e, nesse período, com sua preciosa ajuda, planejamos e estruturamos o que seria o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional – Cedip. Por ser essencialmente multidisciplinar, a demografia necessita do concurso de várias especialidades para cumprir seu verdadeiro papel. A Opas outorgou à Faculdade de Saúde Pública, em 1966, cinco bolsas de especialização em estudos populacionais. Nesse sentido, Paul Singer [economista] foi para a Universidade de Princeton, Neide Lopes Patarra [socióloga] foi para a Universidade de Chicago, João Yunes [médico sanitarista, 1936-2002] para a Universidade de Michigan, e Jair Lício Ferreira Santos [estatístico] para a Universidade de Chicago. Cândido Procópio Ferreira de Camargo [sociólogo, 1922-1987], de notório saber, viajou pelos Estados Unidos e Europa para visitar centros e programas de demografia que trouxessem inspirações para a implantação do Cedip. O compromisso da Opas com a Faculdade de Saúde Pública incluía recursos para manter por cinco anos os pesquisadores quando voltassem ao país, além de verbas para uma pesquisa na área de população. De volta ao Brasil, essas pessoas deram início à Pesquisa Nacional de Reprodução Huma-
na, em 1968. O AI-5 interrompeu a programação prevista, não só pela saída compulsória de alguns de seus componentes, como também pelo não cumprimento por parte
da Faculdade de Saúde Pública de seus compromissos com a Opas.

Qual foi o primeiro estudo do Cedip, ou aquele mais marcante?

Sem dúvida, foi a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, que depois passou a ser realizada em colaboração com o Cebrap. Foi uma pesquisa inovadora em todos os sentidos, mas, principalmente, porque rompeu com certos paradigmas que marcaram o neomalthusianismo e mostrou que os modos de organização da produção – mediados por instituições, como a Igreja, a saúde, a família e a mídia – influenciavam no comportamento reprodutivo individual. Pena que foi justamente nesse período, de mais intensa e interessante atividade de pesquisa de nosso grupo, que veio o AI-5 e atingiu, sobretudo, a mim e ao Paul Singer. Nossa salvação foi a criação do Cebrap, ainda em 1969, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso. No Cebrap, a pesquisa ganhou novos colaboradores e foi ampliada. De acordo com o arcabouço conceitual da pesquisa, Juarez Brandão Lopes [1925-2011], por exemplo, se encarregou de fazer para o país uma tipologia rural, enquanto Vilmar Faria [1941-2001] se debruçou sobre a parte urbana. Apesar das dificuldades políticas, foi um período muito produtivo. Em certo momento, todo o Cebrap estava envolvido nesse estudo, e isso foi muito importante, porque a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana acabou se tornando uma referência de estudo populacional na América Latina.

E a criação do Cebrap, como foi?

Em 1969, quando o Cebrap foi criado, as pressões eram grandes. A gente sabia que estava sob risco. Afinal, o Cebrap reunia um grupo de pessoas que se propunham a refletir sobre o Brasil e alguns de nós já havíamos sido compulsoriamente afastados das universidades. Nós queríamos pensar sobre o país, sobre as transformações pelas quais o Brasil passava e sobre aquelas ainda necessárias. Aliás, o Cebrap foi criado justamente para dar continuidade a essa forma de pensamento crítico que estava ameaçada pela ditadura. Éramos, por definição, um grupo de resistência intelectual e, como tal, não estávamos imunes. Tanto que, quando escrevemos e publicamos o livro São Paulo, crescimento e pobreza, a pedido da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, então presidida pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, fomos alvo de um atentado a bomba. Aquela bomba jogada no Cebrap, em 1976, foi um aviso – e, é claro, deixou a todos nós preocupados. O grande mérito do Cebrap foi se manter na defesa de um conhecimento marcado por um rigor científico, sem abrir mão de refletir e analisar politicamente a produção e os resultados de seus estudos e pesquisas. Nunca deixamos de pensar criticamente, embora nem sempre nossas críticas pudessem ser publicadas, sobretudo no auge da ditadura. A minha ida para o Cebrap e a convivência com o grupo que o fundou enriqueceram muito a minha visão da questão social e influenciaram decisivamente meu modo de pensar.

Vamos falar agora de sua família, de suas origens.

A família de meu pai, Sylvio Affonso de Witt Berquó, é de origem portuguesa. Os Berquó vieram para o Brasil com a corte portuguesa. Todos os homens da família Berquó
eram advogados ou militares. Meu pai era funcionário dos Correios. Nasci em Guaxupé [MG], em razão de uma das viagens de meu pai. Por causa de seu trabalho, mudávamos sempre. Pelo lado materno, da família Salvatori, minha origem é italiana, também de família burguesa, bem colocada socialmente. Meu avô, Ettore Salvatori, era de Bologna e foi enviado para o Brasil como castigo: na Itália, havia se apaixonado por uma irmã de criação e os pais o mandaram para o seminário. Mas, antes de se ordenar sacerdote, ele ainda insistiu em se casar com a ‘irmã’. Conclusão: foi mandado para o Brasil, onde seus pais tinham amigos. Aqui, conheceu minha avó, também italiana e filha de imigrantes. Minha avó estava noiva e prestes a casar. Morava em uma fazenda e só conheceu meu avô porque foi ao centro da cidade de Conquista, em Minas Gerais, comprar seu enxoval. Imagina só: andando na rua, por descuido, ela deixa cair um pacote de seu vestido de noiva, que é gentilmente apanhado por meu avô. Ele, apesar de morar em Uberaba, esta-
va em Conquista, a trabalho. Os dois se conheceram assim, por acaso, na rua, e se apaixonaram. Minha avó desfez seu noivado e casou-se com meu avô que, por sua vez, deveria ter virado padre e fora mandado ao Brasil para esquecer uma paixão. Não é incrível? Gosto de contar isso, porque acho que é uma história bonita, digna de uma novela.

Como foi sua educação inicial? Teve algum professor que marcou sua infância ou adolescência? E na universidade? Por que escolheu a matemática?

Minha escolha por estudar matemática se anunciou muito cedo, desde o ginásio. A lógica da disciplina me encantou desde nosso primeiro encontro. Destacaria como influências que marcaram minhas escolhas e carreiras: André Tosello [1914-1982], que lecionava análise matemática na PUC de Campinas, Pedro Egidio de Oliveira Carvalho, professor titular de Bioestatística da Faculdade de Saúde Pública da USP, de quem fui assistente, Jerzy Neyman [1894-1981], do Departamento de Estatística Matemática da Universidade de Berkeley [EUA], John William Fertig e Agnes Burger, da Escola de Saúde Pública da Universidade Colúmbia [EUA].

Tendo uma origem paterna tradicional, como foi se dedicar à questão social? Como seus pais reagiram às suas escolhas políticas?

A família de meu pai era mesmo muito tradicional, mas meu avô e meu pai morreram relativamente cedo e não vivenciaram essa fase da minha vida. Minha avó e minha mãe, sim, e, é claro, para elas foi um choque: quando fui cassada, minha avó me disse que eu não imaginava o que estava fazendo com a minha vida, nem o enorme desgosto que estava impondo a ela e à minha família. De minha parte, disse a ela que sentia orgulho por estar saindo da universidade, não apenas pelo motivo da saída, mas pela companhia em que estava. Mas, é assim mesmo, não é? O relacionamento com a família nem sempre é fácil. Há sempre diferentes visões, de geração a geração, principalmente em períodos tão conturbados da história.

Uma de suas iniciativas no Cebrap foi a criação de um grupo de pesquisa integrado apenas por mulheres negras, num tempo em que ainda não se falava em sistema de cotas. Como foi essa experiência? Qual a sua opinião sobre a política de cotas raciais nas universidades?

Essa é uma iniciativa que considero realmente muito significativa. Ela surgiu de uma constatação de que, na prática, as jovens negras nunca conseguiam bolsas para estudar aqui ou fora do país. O motivo estava na deficiência da formação dessas jovens: elas vinham sempre de escolas públicas e, na competição com as brancas, não conseguiam vencer. Resolvi, então, fazer um pedido de bolsas à Fundação MacArthur a serem oferecidas a jovens negras, após seleção dentro do universo da população negra. Esse programa teve início em 1991 e constou de duas edições de três anos cada uma, com quatro bolsistas por programa. A iniciativa permitiu que essas jovens se preparassem para um mestrado contando com apoio e monitoramento em estatística, demografia e metodologia de pesquisa. Participaram diretamente da formulação, execução e análise da Pesquisa da Saúde da Mulher Negra. Várias publicações marcaram esse período de formação: o vídeo Eu, mulher negra, o artigo ‘População Negra em Destaque’ e a cartilha Anime-se, Informe-se – Anemia falciforme. Algumas conquistaram doutorado e estão atualmente trabalhando em universidades e centros de pesquisa. Essa foi uma ação afirmativa bem-sucedida.
Quando criei o grupo de pesquisa de mulheres negras, já tinha essa visão: é preciso dar passos largos para diminuir a diferença de oportunidades – e a relação entre origem educacional (escola pública) e raça (negra) é mais do que evidente nas pesquisas. Considero a discriminação, seja qual for, uma afronta à vivência democrática e aos direitos de oportunidades.

Outra iniciativa sua importante foi a que resultou na ‘pirâmide da solidão’. Mas, nesse caso, houve enorme polêmica e críticas da parte de grupos sociais. O que aconteceu realmente?

Nunca houve questionamentos em relação à pesquisa do ponto de vista dos dados e da metodologia, mas, sim, quanto ao uso da expressão ‘pirâmide da solidão’. Depois da publicação dos resultados e da divulgação pela imprensa, inclusive por meio da Ciência Hoje [ver ‘A família no século 21’, em CH n° 58], grupos de mulheres passaram a questionar o uso da expressão ‘pirâmide da solidão’, atribuindo a ela um juízo de valor, tanto no sentido de não incorporar orientações sexuais diversas como no de atribuir solidão a quem não encontrou parceiros no mercado matrimonial. Aceitei prontamente essas críticas, até porque, antes de esse assunto chegar à imprensa, eu já havia rebatizado a pirâmide, passando a chamá-la nas apresentações acadêmicas de a ‘pirâmide dos não casados ou não unidos’. Fiz isso porque percebi que minha interpretação precisava se ampliar, abarcando outras formas de relacionamentos. Mas, do ponto de vista da divulgação ou da imagem que eu queria passar, é óbvio que não era a mesma coisa: a expressão ‘pirâmide da solidão’ foi como uma inspiração. Ela tornava claramente acessível e inteligível aos leigos a noção que os dados de pesquisa revelavam e que eu queria divulgar, ou seja, a ideia de que uma conjunção de fatores demográficos, como o envelhecimento da população e a maior expectativa de vida das mulheres, associada a certas normas culturais, como a escolha preferencial dos homens por mulheres mais jovens, estava gerando um grande número de mulheres não casadas ou não unidas. Ao fazer suas escolhas para relacionamentos, os homens, em geral, ‘olham’ para baixo, na pirâmide populacional, escolhendo mulheres mais jovens, enquanto as mulheres ‘olham’ para cima, escolhendo homens mais velhos. A crítica, parte fundamental do processo de construção do conhecimento, foi aceita, mas o fenômeno tratado no estudo ainda é referido por muitas pessoas como “pirâmide da solidão”.
A senhora casou mais de uma vez, certo? Teve filhos? Hoje, mora sozinha?

Sim. Casei-me duas vezes e não tive filhos. Atualmente sou viúva e continuo morando na casa do Artigas – tesouro encantado que toma a forma do tempo.

Por que a senhora não retornou à universidade quando veio a anistia?

Quando veio a anistia, recebi dois convites para essa volta. Um deles partiu do diretor da Faculdade de Saúde Pública na época, o saudoso Oswaldo Paulo Forattini [1924-2007], que insistia em que eu voltasse às minhas origens acadêmicas. O outro veio do professor Chaim [Samuel Hönig], então diretor do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Não foi fácil decidir, pois a razão me dizia para ir para a estatística e o coração me chamava de volta à saúde pública. Fiquei realmente dividida e lembro-me de ter conversado com o Mário Schenberg sobre isso. Depois, isolei-me em casa por três dias para pensar e tomar uma decisão. Minha opção foi retornar à saúde pública, mas quando comuniquei minha decisão ao Forattini soube que era preciso uma aprovação formal da Congregação para minha volta. Foi feita uma reunião da Congregação e houve empate na votação: 50% dos membros foram a favor de meu retorno e os outros 50%, contra. O voto de Minerva coube ao Forattini, que aprovou meu retorno. Mas, quando eu soube disso, desisti
de retornar. Nessa época, eu já tinha uma vida intelectual muito ativa graças às atividades do Cebrap. Tinha contatos internacionais importantes, viajava muito ao exterior e não poderia depender da aprovação de uma congregação que, pelo que revelava a votação, era só em parte simpática a mim e ao meu trabalho. Mas, de certa forma, foi bom isso acontecer porque em seguida veio o convite do reitor da Unicamp, José Aristodemo Pinotti [1934-2009], para ir para lá, com a possibilidade de criar um núcleo de estudos da população.

Não retornar à universidade acabou, então, sendo providencial?

Isso mesmo. Embora, é claro, ao aceitar o convite do Pinotti eu estivesse, de certa forma, voltando à universidade. A diferença estava em que, em meu acordo com a Unicamp, ficou acertado que eu não integraria o corpo docente. Seria responsável apenas pela criação e direção do Nepo [Núcleo de Estudos de População] e teria um contrato até que o grupo se tornasse autossuficiente. Fiquei muito empolgada com isso, sobretudo por antever a possibilidade de levar para lá pessoas com muita experiência profissional e intelectual, algumas das quais, como a Neide Lopes Patarra, que estavam dispersas em outras instituições. Produziu-se muito no Nepo, tanto que, em 1992, 10 anos depois de sua criação, já tínhamos reconhecimento suficiente para criar um Departamento de Demografia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, e isso foi feito. Então, o que posso dizer sobre o Nepo? Ele foi, ao lado do Cebrap, importantíssimo em minha vida profissional.
O Cebrap foi o meu porto seguro quando me vi expulsa da universidade, e o Nepo foi um enorme estímulo quando me vi com dificuldades de retornar a ela. Por isso, nestes últimos 30 anos, mantenho essa ‘vida dupla’, de muita colaboração tanto com o Cebrap quanto com o Nepo.
E quais seus planos atuais?

Mantenho-me ativa aqui no Cebrap, à frente de várias pesquisas, como a de reprodução na juventude e reprodução após os 30 anos. Conduzo também o projeto ‘Dar voz aos jovens’, que busca contribuir para o campo temático de educação em sexualidade, comprometida com o respeito a valores, preferências, crenças religiosas e proteção de direitos. Minha colaboração com o Nepo ainda é intensa. Justamente agora, estamos montando um projeto que deverá nortear o futuro das pesquisas do Núcleo. Quando fundamos o Nepo, fizemos um grande projeto sobre a dinâmica demográfica brasileira. Esse projeto foi, durante vários anos, um grande ‘guarda-chuva’ que abrigou uma produção acadêmica enorme e, sem dúvida, alavancou a pesquisa em demografia no país. Agora, sentimos que chegou o momento de repensar e redefinir as metas, envolvendo a nova geração de pesquisadores que se formou nas últimas décadas num novo ‘projetão’. Já temos a ideia geral: nos debruçar sobre a dinâmica de reprodução das gerações, sob o ponto de vista demográfico e social. Ou seja, buscar entender melhor como as gerações foram se reproduzindo, qual a interferência das migrações nesse processo, como o desenvolvimento socioeconômico influenciou essa reprodução e como o acesso à informação e o maior conhecimento sobre anticoncepção interferiu nessa dinâmica. Mas esses são apenas exemplos de temáticas possíveis para pesquisa e análise. Há muito mais, certamente.

Como a senhora avalia o impacto das tecnologias na vida das pessoas? Este mundo em mudança lhe causa admiração ou lhe assusta?

Admiração, sem dúvida. Vejo as mudanças tecnológicas de forma positiva, apesar de me preocupar com certo isolamento individual que as tecnologias de comunicação estão gerando. Atualmente, nos comunicamos mais, de maneira eletrônica e virtualmente, mas fisicamente estamos perdendo espaço de convivência, o que considero um bem precioso. Valorizo muito isso e faço um esforço muito grande para criar e cultivar um entorno, uma zona de conforto de amigos. Atualmente, o convívio no trabalho e com os amigos são a minha maior fortuna. Todo mundo sabe mandar e-mail, torpedo etc. etc., mas nada substitui o calor humano do encontro olho no olho. Acho, portanto, que a tecnologia é muito bem-vinda, pois alavanca o avanço em vários campos do conhecimento, mas que devemos resistir ao distanciamento físico. Devemos resistir ao sumiço do telefone e, ao contrário disso, cultivar mais e mais o hábito de falar com as pessoas e ouvi-las. Mais do que isso, acho que devemos fazer de tudo para estar com as pessoas e cultivar os encontros
pessoais, pois é por meio desses encontros que realmente nos enriquecemos emocionalmente.

 

Acesse a reportagem com todas as fotos aqui: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/305/pdf_aberto/perfil305.pdf/at_download/file

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