Discutindo relações de gênero: “Xingamento”

O texto abaixo, escrito por Gregorio Duvivier, apesar de curto é bastante preciso em questões centrais no que se refere às desigualdades nas relações de gênero, especialmente a opressão feminina, em pleno século XXI. Vale a pena ser lido!

crazy

Xingamento

Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: “Brother, essa Dilma é uma piranha”. Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?

Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: “Essa eu comeria fácil” ou “Até que não é tão baranga assim”. O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores.

Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: “O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou.” Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.

Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?

Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2014/01/1393513-xingamento.shtml

3 Comentários

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3 Respostas para “Discutindo relações de gênero: “Xingamento”

  1. Vivian Kosta

    Simplesmente esplendido! O que Duvivier conseguiu desvelar em seu texto eh o quanto este tipo de desvalorizacao da mulher estah intricado na sociedade no Brasil, e no mundo, fazendo com que se torne “comum” (mas nunca normal) tamanha agressao. Sinto como se a mulher soh tivesse serventia como um instrumento sexual e por isso toda avaliacao passa por esta dimensao. Entendo que passa principalmente pelas mulheres o compromisso de enfrentar e nao mais aceitar esse desgaste. Nao, nao eh normal julgarem sua capacidade pela forma de seu corpo, nao eh normal aferirem seu carater por meio do seu numero de parceiros sexuais, nao eh normal te inferiorizar e subjulgar ao homem, mas antes de tudo mulheres, voces devem acreditar na sua liberdade e no seu valor proprio.

  2. Denise grannier

    Muito bom. Ninguém para mesmo para pensar…

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