TETO DE VIDRO, por Igor Johansen e Flávia Longo

Aedes_aegypti

Mosquito Aedes aegypti, principal transmissor da dengue no Brasil

Que a dengue é um problema crônico já se sabe. Que os domicílios são um dos principais focos do mosquito vetor da dengue, o Aedes aegypti, também não é novidade nenhuma. Então se já é conhecida a dinâmica do vírus da dengue e os principais focos de reprodução do mosquito vetor, por que ainda não se conseguiu equacionar o problema? A resposta é simples, mas complexa ao mesmo tempo.

Simples porque falta transformar conhecimento em ação. Falta educação cidadã para mobilização social. Trata-se de UM processo, UM fenômeno, UMA iniciativa. Mas ao mesmo tempo é algo complexo porque, para que esta ação se concretize, é necessária a compreensão de que se deve compartilhar a responsabilidade pelo controle da dengue – e assim, concretizar no mundo real os debates já muito desenvolvidos no mundo das ideias. Aventa-se como potencial solução para a dengue no Brasil a conscientização, da população e dos representantes políticos, sobre a perspectiva das responsabilidades compartilhadas.

O que isso quer dizer? A responsabilidade compartilhada no controle da dengue significa que a população, sozinha, não resolve o problema dos criadouros do mosquito vetor. Desse modo, manter a caixa d’água fechada, remover pratos dos vasos de plantas e virar de boca para baixo as garrafas, cobrir pneus, entre tantas outras medidas é muitíssimo importante, mas insuficiente.  Isso porque a Prefeitura também precisa prover infraestrutura urbana a toda a população, tal como rede de água e esgoto, além de um sistema eficiente de coleta e disposição de lixo – políticas que evitam a geração de criadouros do mosquito vetor da dengue. Além disso, o cuidado com a limpeza de parques, praças e todos os espaços públicos também é – apesar de não só – uma responsabilidade da Prefeitura. Por outro lado, a Secretaria de Saúde não tem como organizar “arrastões” e operações “cata-treco” o tempo todo, de forma que deem conta de avaliar e cuidar de cada um dos quintais de todas as residências do município. Impossível. Os ambientes domésticos, esses devem ser de responsabilidade individual.

E se engana quem pensa que é somente a população de baixa renda que não cuida dos seus quintais e aguarda o poder público para “fazer o serviço”. Populações mais escolarizadas ou com maior poder aquisitivo não implicam, necessariamente, em pessoas mais educadas do ponto de vista da cidadania. Nas últimas epidemias de dengue no município de Campinas o distrito de Barão Geraldo, que abriga a Universidade Estadual de Campinas e compreende uma das regiões mais afluentes da cidade, apresentou uma das maiores concentrações de casos de dengue. Dentre um conjunto de motivos para isso está o descuido da população com os ambientes domésticos, sejam as piscinas abandonadas ou casas para alugar que, fechadas, não permitem a inspeção dos Agentes Comunitários de Saúde e mantêm criadouros do Aedes aegypti, como vasos sanitários destampados, ralos com água parada, calhas entupidas, etc.

A proposta deste texto não é culpabilizar o Poder Público ou a População, mas sim chamar a atenção para a única forma efetiva e sustentável de evitar que o mosquito da dengue se reproduza, ou seja, tirar do papel e aplicar de fato, na realidade social, a ideia da responsabilidade compartilhada. De outro modo, continuarão existindo os picos epidêmicos desta doença infecciosa no país, em áreas pobres e também naquelas providas com mais recursos financeiros. Enquanto não “cair a ficha” de que o problema é de todos, as políticas setorializadas de controle da dengue vão continuar gastando quantias vultuosas em iniciativas epidemiologicamente inócuas, socialmente ineficazes e ambientalmente perigosas.

 

Igor Johansen é doutorando no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: igor@nepo.unicamp.br

Flávia Longo é mestranda no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: longo.fla@gmail.com

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Arquivado em Educação, População e Ambiente, População e Espaço, Saúde

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