Carta a um jovem doutorando

Por Karina Kuschnir.

autoretrato2008p

Querido amigo,

ontem nos encontramos e você estava tão abatido, falando em desespero, Rivotril, caos… Não, eu não pensei que você estava fraco ou incapaz… Ao contrário: te ver me fez voltar no tempo, aos meses que antecederam a minha defesa de doutorado e ao estado em que cheguei naquela época. Quando o pior passa, é fácil a gente esquecer. Mas não esqueci. Vou te contar.

Em primeiro lugar, a culpa não é sua! É do seu orientador, claro. Tem dois tipos, os dois irritantes: aquele que não sai do seu pé, que não pára de cobrar os próximos capítulos ou mandar refazer os anteriores; e aquele que não está nem aí, que não lê nada que você entrega e ainda resolve viajar quando você mais precisa dele.

O meu era do primeiro tipo, e o meu sofrimento começou quando ele resolveu marcar a defesa da tese com seis meses de antecedência. Bem no momento em que eu não via luz no fim do túnel nem o próprio túnel! Aquele prazo (e tudo que ele significava) teve vários efeitos sobre mim.

O primeiro foi o “efeito paralisante”: toda vez que eu sentava para escrever, só conseguia pensar em assistir Friends… Esse é um dos meus sintomas típicos nos momentos de fuga. Passo a adorar coisas que normalmente odeio: comer pipoca cor-de-rosa, ver novela antiga na hora do almoço, inventar uma faxina geral nas tralhas da casa.

O segundo foi o “efeito obsessão-pelas-leituras-que-eu-não-fiz”: você passa a procurar por todos aqueles textos que tem certeza de que xerocou (ou que salvou em PDF). Você se convence de que os rumos da sua tese dependem de algum autor que você não leu, de algum artigo que estava em algum lugar mas você não se lembra.

O terceiro foi o “efeito preciso-organizar-mais-os-meus-dados”. Especialmente quem faz etnografia sofre desse mal (incurável). Primeiro você decide que não pode escrever a tese se não passar todos os diários de campo a limpo, transcrever pessoalmente todas as entrevistas gravadas, organizar todos os documentos e fotos que juntou ao longo dos anos (felizes) em que só fazia pesquisa. Depois resolve classificar tudo em variáveis, em tópicos, em sub-itens, em palavras-chaves, em diagramas e, finalmente, em sumários que vão resumir detalhadamente todo o conteúdo da tese. É isso: sem sumário não dá para começar a escrever!

O quarto foi o “efeito tudo-que-escrevo-é-horrível”. Pode parecer que não, mas a essa altura já sabemos muita coisa! Anos de mestrado e doutorado nos qualificam. Nossos parâmetros sobem; nossa capacidade de reconhecer um bom trabalho aumenta. Sonhamos com os professores mais admirados na nossa banca. Isso tudo forja um crítico interno implacável. Nada do que escrevemos chega aos pés dos nossos modelos.

Pronto: com esses quatro efeitos juntos, temos o “coquetel doutorando-derrotado”, como apelidou meu médico na época. Apesar das suas dezenas de diplomas, ele jurava que nunca ia deixar suas filhas fazerem doutorado (mas elas fizeram!), de tanto tratar de doutorandos doentes. Ele nos compreendia muito bem, porque era filho de mãe judia, daquela que só se satisfaz quando o filho ganha dois prêmios Nobel e em áreas diferentes!

Por sorte, esse médico olhava para mim e não para os meus exames. Ele se recusou a dizer que eu estava deprimida. Eu estava com sintomas-de-tese-de-doutorado-quase-atrasada: perda de peso, desânimo, palpitações, dor no corpo, torcicolo, insônia, tendinite… Receita: pegar sol, andar 20 minutos todos os dias, tomar vitaminas, comer bem e mandar o orientador adiar a defesa. E, como não sou de ferro, receitinha azul com um calmante leve para os momentos de desespero.

Claro que meus problemas não desapareceram — afinal, a tese continuava lá, por escrever – mas melhorei muito! Foi fundamental adiar o prazo e conversar com meu orientador sobre como eu estava me sentindo (orgulhosa, até então, quando encontrava com ele, insistia em dizer que estava “tudo bem”).

Te conto esses percalços não para me fazer de coitadinha, mas para te acolher e te mostrar que quase todos nós passamos por isso. Meu maravilhoso amigo Luis Rodolfo Vilhena, uma das pessoas mais brilhantes que já conheci, passou por várias dessas fases, adiou em um ano a defesa, e no final fez um trabalho primoroso. E também temos a companhia de intelectuais ilustres, como o Norbert Elias. Coloquei esse trecho da sua autobiografia ao lado do meu computador, para ler todos os dias de manhã:

“No que diz respeito à pesquisa, dispunha apenas de minha tese de doutorado para provar minha capacidade. E ela representava um trabalho duro. Tinha confiança em minhas capacidades intelectuais, e ideias não me faltavam. Mas o imenso trabalho intelectual que minha tese exigiu me parecera dificílimo. Só bem mais tarde fui pouco a pouco compreendendo que noventa por cento dos jovens encontram dificuldade ao redigir seu primeiro trabalho importante de pesquisa; e, às vezes, acontece o mesmo com o segundo, o terceiro ou o décimo, quando se consegue chegar aí. Teria agradecido se alguém me dissesse isso na época. Evidentemente pensamos: ‘Sou o único a ter tais dificuldades para escrever uma tese (ou outra coisa); para todos os outros, isso se dá mais facilmente’. Mas ninguém disse nada. É por isso que digo isso aqui. Essas dificuldades são absolutamente normais.” (Norbert Elias Por Ele Mesmo)

Bem, esta carta já está ficando muito longa… Prometo que na próxima escrevo coisas mais úteis (e práticas).

Para terminar, te lembro que só há uma fórmula mágica — irritante — para escrever tese ou qualquer outro texto: uma palavrinha de cada vez.

bjs — força aí.

K

Sobre o desenho: Auto-retrato feito em 2008, com uma técnica que se costuma chamar de “desenho cego”: você olha para o que vai desenhar (nesse caso, um espelho), mas não olha em nenhum momento para o papel onde está desenhando. Achei que era uma boa metáfora desse processo de escrever tese. A gente vê o caminho, mas não consegue ver o resultado. E tudo bem. Depois é só revisar!

Texto publicado originalmente no Blog da autora, disponível aqui.

 

2 Comentários

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2 Respostas para “Carta a um jovem doutorando

  1. Gostei de seu texto. Vi-me representada nele. Não sou jovem. Sou uma velha senhora. Karina, estou no início do doutoramento, e já estou me sentindo assim, olho e não vejo, leio e não entendo. Meus olhos estão estrábicos. Olho para todos os lados e não vejo nada, de tanto pensar no tempo que passa, e com tantos livros para fichar. Já não sei mais escrever. Faço e refaço o texto não sei quantas vezes. Imagine quando chegar a hora da entrega dos capítulos? Minha Nossa Senhora ajudai-me nesta minha empreitada junto ao meu Orientador.

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