A crise do ensino médio

Resultados do Ideb são preocupantes por mostrarem que país não foi capaz de aproveitar conjuntura favorável

Por Antônio Gois*

Os pífios resultados do ensino médio no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), finalmente divulgado pelo MEC na sexta-feira passada, levantam uma questão pertinente: por que não conseguimos aproveitar ventos favoráveis de mudança que, ao menos em tese, contribuiriam para a melhoria da qualidade do ensino?

Por causa da redução das taxas de fecundidade, a população de 15 a 17 anos, faixa etária considerada adequada para o ensino médio, ficou estabilizada ao redor de 10,5 milhões de habitantes nos últimos dez anos. Como reflexo disso, o número de alunos frequentando o ensino médio também se manteve. Em 2005, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, eram 8,6 milhões de jovens no antigo segundo grau. Em 2012, o total foi de 8,8 milhões. Não houve, portanto, pressão para abrir mais vagas, e o número de matrículas teve pouca alteração.

Nos anos 90, quando os indicadores de aprendizado registraram piora no Brasil, atribuiu-se a queda no desempenho acadêmico ao ingresso de alunos mais pobres no sistema. Foi uma explicação bastante contestada na época por soar como desculpa pela má gestão, mas o raciocínio tinha alguma legitimidade, pois é fato cientificamente comprovado que o nível socioeconômico dos estudantes é o principal fator a influenciar seu desempenho. Desta vez, ao menos no ensino médio, o argumento não cola. Em 2005, quando a série do Ideb começou a ser calculada, a renda média nos domicílios por pessoa dos alunos frequentando o antigo segundo grau era de R$ 549 (já considerando a inflação do período). Em 2012, o valor observado foi R$ 635.

O futuro do ensino médio é ainda mais preocupante se considerarmos que há uma parcela significativa dos jovens, justamente os mais pobres, fora da escola. Em 2005, 18% da população de 15 a 17 anos já não frequentava mais uma sala de aula. Em 2012, último dado disponível da Pnad, o percentual era quase o mesmo: 16%.

Teriam faltado recursos? Para um país que ainda gasta por estudante cerca de um terço da média dos países desenvolvidos, dizer que já estamos num patamar suficiente é exagero. Mas é preciso registrar que, de 2005 a 2011, último ano para o qual o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) fez este cálculo, o valor investido por aluno do ensino médio mais do que triplicou, passando de R$ 1.348 anuais para R$ 4.212. Em período parecido (de 2005 a 2012), a Pnad indicou um aumento real de 57% na média salarial do professor desse nível de ensino.

Em educação, é sabido que é preciso tempo para colher resultados. Ninguém espera um salto de qualidade imediatamente após a injeção de mais recursos. No entanto, com ventos externos favoráveis ao ensino médio, seria justo cobrar, ao menos, que não estivéssemos estagnados, quadro verificado nesta divulgação do Ideb.

Diante disso, fica claro que não adianta fazer mais do mesmo para enfrentar a crise do ensino médio. É preciso discutir seriamente soluções que mudem para valer a realidade do que acontece dentro da sala de aula, a começar pelo currículo e pela formação dos professores.

*Antônio Gois é jornalista e especialista em educação. Sua coluna sai às segundas na editoria Sociedade, do GLOBO.

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2014/09/08/a-crise-do-ensino-medio-548856.asp

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