“A Geração T arruinou-se”, tradução de Bárbara Roberto Estanislau e Revisão de Toni Lopez e Igor Johansen

Estamos inaugurando hoje uma nova seção no Blog Demografia Unicamp: A tradução!

Após a grande repercussão do texto publicado sobre a Geração Y e um conjunto amplo de notícias, informes e eventos sobre relações inter-geracionais que temos publicado no Blog, lançamos hoje a tradução de um texto publicado originalmente em catalão sobre a Geração T, que diz respeito aos nascidos entre 1945 e 1965. O texto é intitulado como “A Geração T arruinou-se” e, guardadas as devidas proporções, esperamos que favoreça a reflexão não apenas sobre a realidade vivida pela Catalunha, na Espanha, mas também nos traga elementos para pensar nossa atual situação em termos de relações – e conflitos? – entre gerações no Brasil. Desejamos a todos uma ótima leitura!

_______________________________________________________

“A Geração T arruinou-se”

Tradução de Bárbara Roberto Estanislau e Revisão de Toni Lopez e

Igor Johansen

Introdução

A geração T compreende, em números redondos, os nascidos entre 1945 e 1965. Correspondem aos baby boomers americanos, mas aqui tiveram circunstâncias históricas muito especiais que acabaram beneficiando-os. Controlam tudo: a política, os meios de comunicação, os sindicatos, as universidades, a indústria cultural. Acumulam um poder sem precedentes que nenhum outro grupo teve antes.

É a Geração da Transição, porque encontraram uma mudança de regime quando jovens, ocuparam posições de responsabilidade, e começaram a fazer e desfazer sem oposição e outorgar-se uma grande superioridade moral. O problema é que depois de trinta anos continuam no mesmo lugar e se converteram na Geração Tampa que impede uma renovação de ideias. Além disso, eles manipularam o sistema para se proteger em troca de arruinar o futuro dos seus filhos e netos, e assim acabaram por superar a crise muito melhor que os seus descendentes.

  • A política

Há pouco tempo atrás Josep Maria Terricabras mencionava o caso de Joaquim Nadal, que foi prefeito de Girona com apenas 31 anos, e que hoje essa situação seria impossível. Pouca gente confiaria, e eu acrescento que não poderiam subir dentro da estrutura partidária. Aqui vocês podem ver, porém, a foto do novo governo norueguês, constituído semana passada. Não há nada estranho?

estranho

Efetivamente parecem muito jovens. E de fato o são. Apresentamos a seguir a porcentagem de ministros (ou conselheiros) do governo norueguês, espanhol e catalão por grupo etário:

Grupo etário

Noruega

Espanha

Catalunha

30 a 39

33%

0%

0%

40 a 49

50%

14%

31%

50 a 59

17%

43%

46%

60 a 69

0%

43%

23%

Nos governos catalão e espanhol não se assume ninguém com menos de 40 anos. Na Noruega eles são 1 a cada 3. O ministro norueguês mais idoso tem 57 anos; na Espanha mais de 40% superam os 60 anos. De fato a média de idade dos governantes aumentou sem parar desde o início da democracia, desde os 41,6 anos do primeiro ministro González em 1982 até os 55,5 anos dos ministros de Rajoy em 2012.

Se isso não é a geritocracia da Geração T, já diremos o que é.

  • A Economia

oldsteveOld Economy Steve (O Steve da velha economia) é um meme da Internet que se tornou popular no Estados Unidos. O Steve tornou-se adulto em meados dos anos setenta, dono de uma camisa azul da época, nos recorda a situação que ele encontrou quando era jovem: ele pôde comprar um apartamento aos 22 anos após não mais que um ano de salário, conseguiu um trabalho mesmo não tendo experiência, e sobretudo começou a sua vida profissional sem milhões de dólares em débito pelos estudos. Este último é um tema primordial nos EUA, tratado em artigos como We must hate our children (Devemos odiar nossos filhos).

No entanto, na Espanha não se fala nada do fosso econômico geracional, que é maior do que parece. Essa semana chegaram dois dados de quando a economia do país era supostamente pujante: em 2005 cerca de 90% dos jovens entre 16 e 35 anos tinha um contrato temporal, e 53% dos desempregados tinham menos de 35 anos. Em 2011, em plena queda, já se publicava que 86% dos postos de trabalhos perdidos durante a crise eram ocupados por pessoas entre 16 e 29 anos (fonte).

Como chegamos a esta situação? Porque sempre que houve uma negociação laboral e desde os tempos de Felipe González tentou-se manter todos os direitos sociais das pessoas idosas e acabar com os dos jovens, em lugar de se buscar um equilíbrio. Isso com o apoio da esquerda e dos sindicatos. E dos trabalhadores empregados, o que não se precisa dizer.

Assim muitos jovens têm sido expulsos do mercado de trabalho apesar de estarem mais preparados e bem formados que os trabalhadores mais velhos, também porque esses estavam protegidos pelas leis feitas pelos companheiros de geração. Vejamos por exemplo as redações dos jornais e o comprovaremos (com exceção dos estagiários), ou os hospitais. O argumento foi sempre de que “devemos proteger os trabalhadores de mais de 50 anos porque será mais difícil pra eles conseguir um trabalho”, mas para cada veterano de 50 anos ou mais que salvamos, quantos jovens de 30 ou menos estamos condenando à precariedade e a não poder formar a sua vida adulta?

E o que dizer das vergonhosas pré-aposentadorias que fizeram as grandes empresas e bancos, em que mandaram para casa pessoas de 55 anos com aposentadorias astronômicas que todos vão pagar? E da brutal especulação imobiliária que fomentou a Geração T e que arruinou centenas de milhares de jovens que ficaram presos com hipotecas impossíveis de serem pagas? E as dívidas que os nossos líderes provocaram e que pagaremos durante décadas?

A conclusão de tudo isso é que agora na Espanha o salário mais frequente se igualou à pensão média. E cuidado, porque agora também estamos pagando aposentadoria a uma geração anterior à T, mas quando os da T se aposentarem massivamente a média aumentará. Assim, o sistema paga a pensionistas 2000 euros ao mês e a engenheiros salários de 900. Alguém me explica como isso se sustenta?

  • As seguintes gerações

Até o momento vimos como a Geração T está há 30 anos controlando a política, a economia e o discurso intelectual e midiático do país, e tem mantido privilégios às custas de arruinar os mais jovens. Agora falaremos dos que vêm depois.

Se seguimos a classificação habitual, depois da T vem a Geração X, dos nascidos entre 1965 e 1981, e que é a minha. Somos os que eram uma massa de crianças durante a transição, mas que viveram os sórdidos anos 80, fizemos o BUP e o COU (Ensino Médio), e depois inundamos as universidades, porque ir à FP (Formação Profissional ou curso profissionalizante) era coisa de fracassados. Entramos no mercado de trabalho em condições muito mais precárias, embora tivéssemos a opção de, gradualmente, prosperar pouco a pouco, e chegamos a uns períodos de bonança, quando razoavelmente tivemos uma rede de contatos fomos nos inserindo.

A crise nos afetou o presente, em função da sorte e da trajetória que tivemos: o que estudamos, onde encontramos trabalho (na administração, na construção civil) e sobretudo se precisamos contrair hipotecas ou não para conquistar nossos bens. A nossa geração deparou-se dentro da bolha imobiliária, diante de uma forte especulação justamente quando começamos a formar família e a ter filhos, e isso significa que muitos compraram casas a preços inflacionados e com hipotecas de 30 anos ou mais.

Além disso, diz-se que os da Geração X chegaram tarde: à nossa idade os da Geração T já eram ministros, diretores de jornal e de escolas, professores universitários titulares, trabalhadores fixos com muitos anos de trabalho, donos de apartamentos, pais há  tempos. Em muitas destas situações é impossível prosperar pela tampa dos que nasceram antes, e deles ainda temos que ouvir falar que lidam conosco com condescendência e nos olham sobre os ombros.

time_meNo entanto, muito pior estão os mais jovens, os millenium, os que entraram no século XXI ainda menores de idade e cresceram envoltos nas novas tecnologias. Apesar de serem descritos como “narcisistas mandões e que só reclamam os seus direitos” (em uma célebre e vergonhosa capa da revista TIME), são os que sofreram mais com a crise.

Os millenium foram afetados diretamente pelo terremoto da LOGSE e das guerras educativas, pelo aumento brutal das taxas educativas, pelo dumping social causado pela onda migratória e pela redução de vagas na administração pública. Pela primeira vez em séculos, o nível de estudos não será a chave para o seu futuro, mas o fato de ter algum parente veterano com influência que pode colocá-los em uma posição no mercado de trabalho. Caso contrário, as poucas opções passam por aceitar contratos que pagam salários de miséria, converter-se em estudantes perpétuos (ou indivíduos improdutivos), ou tentar a fortuna no estrangeiro.

As tendências geracionais são comuns em todo o mundo ocidental, mas são especialmente sérias na Espanha pelo seu modelo de país. A ditadura da Geração T é baseada na precariedade imposta aos mais jovens, e está impedindo que haja ideias novas, que renovem as caras, que a sociedade possa prosperar. E o que é pior, o controle que a Geração T tem dos meios de comunicação faz com que não se fale sobre isso.

Crise econômica, política e dos bancos? Sem dúvida. Mas o que vivemos é, sobretudo, uma crise geracional.

Por: Josep Sala Cullell. 

Fonte do texto original (em catalão): http://desdelfiord.wordpress.com/2013/11/04/la-generacio-t-ens-ha-arruinat/

Tradução e revisão:

Bárbara Roberto Estanislau é Mestre em Demografia pela Unicamp. Contato: barbararestanislau@gmail.com

Toni Lopez é Demógrafo e trabalha no Centro de Estudos Demográficos da Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha). Contato: tlopez@ced.uab.es

Igor Johansen é Mestre e Doutorando em Demografia pela Unicamp. Contato: igor@nepo.unicamp.br

2 Comentários

Arquivado em Tradução

2 Respostas para ““A Geração T arruinou-se”, tradução de Bárbara Roberto Estanislau e Revisão de Toni Lopez e Igor Johansen

  1. Republicou isso em {RCRISTO – Tecnologia e Informação}e comentado:
    Trata-se de um ótimo estudo sobre as crises das três principais gerações: T, X, Y – leitura recomendada!

  2. Agora sim, algo extremamente realista e fora da normose imposta pela geração dominante.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s