Brasileiras estão tendo menos filhos e engravidam cada vez mais tarde, mostra pesquisa

Pesquisa do Ministério da Saúde mostra que taxa de fecundidade é inferior à de 2,1 filhos por mulher

POR ANDRÉ DE SOUZA, EDUARDO VANINI E FLÁVIA MILHORANCE

A jornalista Flávia Lopes, de 32 anos, deu à luz Rafael há dois meses. Ela preferiu se estabilizar antes de ser mãe Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista Flávia Lopes, de 32 anos, deu à luz Rafael há dois meses. Ela preferiu se estabilizar antes de ser mãe – Arquivo Pessoal

BRASÍLIA E RIO – Rafael tem dois meses de vida e é o primeiro filho da jornalista Flávia Lopes, de 32 anos. Casada há cinco anos, ela vive com o marido em Juiz de Fora (MG) e planejou todo o processo para a chegada do bebê. Eles esperaram por mais segurança profissional e financeira. A hora certa veio quando Flávia foi aprovada num concurso público e concluiu o mestrado.

— Havia uma série de etapas profissionais que queria concluir antes de ser mãe — conta. — Além de ter mais estabilidade, pude contar com licença maternidade de seis meses.

Não é apenas Flávia que pondera o momento da gravidez. As mulheres brasileiras estão tendo menos filhos e, quando engravidam, o fazem cada vez mais tarde. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Além disso, já são 30% das brasileiras que têm o primeiro filho depois dos 30 anos (sendo de 22,5% em 2000). As conclusões são da pesquisa “Saúde Brasil”, divulgada ontem pelo Ministério da Saúde.

— Os dados estão refletindo duas grandes revoluções do século passado: a feminina, quando a mulher passa a optar pela idade da reprodução; e a da longevidade, com o aumento da esperança de vida — comentou Laura Machado, da ONG HelpAge Internacional.

POPULAÇÃO BRASILEIRA ENCOLHENDO

O estudo mostra que desde 2005 a taxa de fecundidade tem se mantido abaixo de 2,1 filhos por mulher, ou seja, menor do que a necessária para que a população não venha a diminuir no futuro. Além disso, o índice de mulheres abaixo de 19 anos com filhos caiu de 23,5% para 19,2%.

Para a diretora do Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas do Ministério da Saúde, Thereza de Lamare Franco Netto, o aumento da idade para ter o primeiro filho indica aspectos positivos, como maiores oportunidades no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, traz algumas preocupações, uma vez que, quanto maior a idade, maior também a dificuldade de engravidar.

— Elas estão buscando uma estabilidade maior para ter seu primeiro filho. Isso mostra um avanço nas oportunidades no trabalho e também na programação da gravidez e no acesso a métodos contraceptivos — exemplifica.

A médica Luciana Nicodemus, de Petrópolis (RJ), seguiu essa linha de raciocínio. Formada aos 26 anos e casada aos 29, ela preferiu esperar um bom momento profissional para engravidar pela primeira vez. No ano passado, aos 36, foi a hora de se preparar para a chegada de Lívia.

— Queria curtir o casamento por alguns anos e estar com a vida mais estabelecida. Ser mãe mais madura é mais fácil. Acho que essa maturidade ajuda a conduzir melhor uma boa educação da criança — avalia, dizendo que ainda planeja mais um filho.

Mas, num país de contrastes e proporções continentais, a tendência não é homogênea. Nas camadas de menor escolaridade e em regiões menos desenvolvidas, as famílias são maiores, e as adolescentes ainda têm filhos por falta de planejamento. A Região Norte está acima da taxa de reposição: 2,24 filhos por mulher, enquanto que a Sul tem a menor taxa: 1,66. As mães com 30 anos ou mais são mais numerosas no Sudeste (34,6%) e no Sul (33,6%). Em seguida vêm Centro-Oeste (28,8%), Nordeste (26,1%) e Norte (21,2%).

Entre as mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 45,1% têm o primeiro filho depois dos 30. No faixa de menor escolaridade (até três anos de estudo), 51,4% têm filhos antes dos 20. No grupo entre quatro e sete anos de estudo, o grupo de mães com filhos antes dos 20 chega a 69,4%.

— Mesmo com uma tendência de queda, a América Latina, com exceção da África Subsaariana, ainda tem a maior fecundidade da adolescência no mundo — pondera José Eustáquio Alves, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, lembrando que é alto o índice de gravidezes indesejadas na adolescência, fruto, diz, do pouco acesso a contraceptivos e da baixa educação sexual.

Já Laura Machado, da HelpAge, cobra mais políticas para idosos, visto que a tendência é de envelhecimento:

— A grande questão é: quem vai cuidar de quem? Pois mães mais velhas, que requisitariam a ajuda das avós na criação dos filhos para se manterem no mercado de trabalho, precisarão, ao contrário, cuidar tanto de filhos quanto das mães, já idosas e mais dependentes.

SURTO DE CESÁREAS

Segundo o Ministério da Saúde, esse processo de envelhecimento vai se intensificar, levando à estabilização do crescimento demográfico em duas décadas. A partir daí, as perspectivas são de redução da população do país.

— A população está envelhecendo rapidamente. E isso tem a ver com a taxa de reposição, que está insuficiente — avalia Thereza de Lamare.

Segundo a pesquisa, de cada quatro nascimentos, em três houve pelo menos seis consultas de pré-natal, o mínimo recomendado. Entre 2003 e 2012, o número de consultas cresceu 87%. A pesquisa também mostrou aumento de 47% no número de cesarianas entre 2000 e 2012. Os altos números levaram o ministério e a Agência Nacional de Saúde Suplementar a anunciar há duas semanas propostas para incentivar o parto normal.

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/brasileiras-estao-tendo-menos-filhos-engravidam-cada-vez-mais-tarde-mostra-pesquisa-14398520?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo

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