Sob nova roupagem: a grade regular para a disponibilização dos dados do Censo Demográfico 2010

Maria do Carmo Dias Bueno fala sobre sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em Demografia da UNICAMP.

Maria do Carmo Dias Bueno é Engenheira Civil Sanitarista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1986), tem mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995), mestrado em Geomática pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2004) e doutorado em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP (2014). Atualmente é Coordenadora de Projetos Especiais do Centro de Documentação e Disseminação de Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Tem interesse pela área de Geografia da População, Geodemografia, Demografia e Indicadores de Sustentabilidade.

Blog Demografia Unicamp: Qual tem sido exatamente seu trabalho no IBGE e como surgiu o interesse por fazer o doutorado em Demografia na UNICAMP?

Maria do Carmo Dias Bueno: Entrei no IBGE em 2003 como Analista de Geoprocessamento e comecei a trabalhar com disseminação de mapas temáticos (geográficos e estatísticos) na internet; depois, me envolvi com os trabalhos de preparação da Contagem 2007 e do Censo Agropecuário 2006 e desde então me dedico principalmente a essas duas tarefas. No final de 2009 decidi que estava na hora de fazer doutorado e comecei a procurar um programa que atendesse simultaneamente aos meus anseios pessoais e profissionais. Encontrei isso na UNICAMP, no programa de Demografia, que além de ser interdisciplinar oferece a linha de pesquisa População e Ambiente, que conjuga dois campos que me interessam bastante.

Você chegou a realizar intercâmbio acadêmico, não é? Por que escolheu a Inglaterra e especificamente a Universidade de Southampton? Quanto tempo você ficou por lá e quais os reflexos desse período no seu trabalho?

Quem trabalha com geoprocessamento e com dados de população certamente ouviu alguma vez o nome David Martin, já que ele tem grandes trabalhos nesta área. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em um seminário internacional em 2010 quando fiquei sabendo que o tema da minha tese de doutorado era objeto de algumas pesquisas dele. Daí para fazer o intercâmbio foi apenas uma questão de tempo. Fiquei seis meses na Universidade de Southampton, Inglaterra, onde ele trabalha, e foram meses muito proveitosos. Além de fazer toda a revisão bibliográfica e escrever a parte teórica durante este período que estive lá, ainda repensei a metodologia a partir dos conselhos diretos e precisos dados por ele.

Conte-nos mais um pouco especificamente sobre sua tese. Quais foram os elementos que motivaram seu trabalho?

De uma maneira simples e rápida, minha tese se resume a agregar os dados censitários em um conjunto de células regulares dispostas em um sistema de grade. Essa nova unidade geográfica – a célula – é arbitrária e fixa e, por isso mesmo, traz algumas vantagens, como não se alterar ao longo do tempo e ser independente de divisões político-administrativas ou operacionais. Além disso, essas unidades têm dimensões pequenas e podem ser vistas como “tijolos” que se juntam para formar qualquer recorte desejado. Isso traz enormes vantagens aos usuários, uma vez que facilita a realização de análises temporais e a integração de dados agregados em unidades diferentes, além de permitir a realização de estudos para áreas cujos limites não coincidem com divisões político-administrativas e possibilitar sua utilização diretamente como input em modelos de simulação.

A figura abaixo ilustra as vantagens da utilização da grade em termos de resolução espacial. Em áreas da Região Norte do Brasil, como no estado do Pará, onde existem grandes vazios de população, a utilização dos setores censitários mascara esta distribuição espacial, pois essas unidades apresentam grandes extensões. Com a utilização da grade estatística, as unidades são menores e os vazios de população podem ser vistos, permitindo um melhor reconhecimento e planejamento do território.

Maria

Creio que por ser uma usuária de dados eu sempre penso em tornar mais simples a utilização dos dados, tentando criar formas de superar as barreiras que dificultam o total aproveitamento do potencial de análise que os dados carregam consigo e que nem sempre pode ser totalmente explorado.

Quais foram as principais descobertas de sua tese? Em que sentido ela consegue avançar em relação aos desafios propostos no início do trabalho?

Eu acho que a minha tese não é do tipo que faz descobertas inovadoras, mas é daquelas que exploram caminhos que estavam ali o tempo todo e que simplesmente ainda não haviam sido seguidos. Uma frase de Schopenhauer resume bem isso: “A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou acerca daquilo que todo mundo vê.”

Com relação aos desafios colocados inicialmente, as aplicações executadas como exemplo na tese mostram que eles foram superados e que com a utilização da grade estatística o potencial analítico dos dados censitários foi ampliado e estendido.

Você acha que os resultados da sua tese estarão disponíveis para o grande público que utiliza os dados produzidos pelo IBGE? Existe alguma previsão para que isso aconteça?

Um conselho que me deram logo no início da tese foi: “Sua tese é a sua tese; seu trabalho no IBGE é seu trabalho no IBGE.” Ou seja, eu não deveria misturar as coisas. E foi o que eu tentei fazer, apesar de não ser tão fácil assim. Eu não decidi fazer doutorado para que minha tese fosse adotada pelo IBGE; isso foi um processo que aconteceu ao longo do tempo e não foi intencional. É claro que eu fico muito orgulhosa de ter um trabalho desenvolvido por mim adotado pela instituição para a qual eu trabalho. Mas não vamos misturar as coisas. Na minha tese eu posso decidir livremente os caminhos a seguir pensando apenas na técnica. Em uma instituição isso não acontece exatamente assim; existem diretrizes, planejamentos, integrações e interesses que devem ser considerados. O IBGE vai adotar a disseminação de dados censitários agregados em forma de grade, mas as características deste produto não serão necessariamente as mesmas adotadas na tese, já que os interesses da instituição devem ser considerados. Uma previsão preliminar é que o produto seja lançado em março do próximo ano.

* * *

Tese: “Grade estatística: uma abordagem para ampliar o potencial analítico de dados censitários”
Autor: Maria do Carmo Dias Bueno
Orientador: Álvaro de Oliveira D’Antona
Unidade: Programa de pós-graduação em Demografia – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UNICAMP).

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