Cidade oca: Em SP, bairros do centro têm menos gente por moradia

EDUARDO GERAQUE
DE SÃO PAULO

Os bairros nobres da cidade de São Paulo passaram por uma espécie de “crescimento oco” entre 2000 e 2010.

Nessa década, quase um prédio subiu por dia no centro expandido da capital. Ao mesmo tempo, porém, o número de pessoas por apartamento diminuiu na cidade.

A análise feita pelo urbanista Kazuo Nakano, em tese de doutorado aprovada na Unicamp, ganha relevância no momento em que os moradores vão recomeçar a discutir o zoneamento paulistano.

Audiências públicas organizadas pela Câmara Municipal começam nesta semana.

Depois do Plano Diretor de 2002, que não enfrentou o problema de levar mais gente para o centro expandido de São Paulo, a nova versão da mesma lei aprovada no ano passado tem a proposta de aumentar o número de moradias pelo menos perto dos corredores de ônibus e metrô.

“O processo de crescimento reforça a ideia que adensamento e verticalização [mais prédios] são coisas totalmente distintas”, afirma Nakano.

Cidade_Oca

MORADOR ÚNICO

A explicação para o fenômeno identificado pela pesquisa passa por três pontos: 1) Maior número de apartamentos com uma só pessoa; 2) Habitações com casais sem filhos; 3) Imóveis vagos, que podem estar fechados apenas no aguardo de valorização.

“O nosso termômetro, de quem passa 24 horas vivendo da venda de apartamentos, atesta boa parte desse cenário”, diz Marcos Fontes, delegado do Creci-SP (conselho de corretores de imóveis).

Segundo ele, na área que engloba bairros como Pompeia, Perdizes e Vila Madalena, por exemplo, boa parte dos apartamentos estão habitados por uma só pessoa ou casais jovens, sem filhos.

“São pessoas até os 40 anos de idade aproximadamente, que moram em imóveis de até 70 metros quadrados. Agora, apartamento vago, isso não tem”, diz Fontes.

Para reforçar o conceito da chamada “cidade oca”, o urbanista Nakano utiliza o exemplo emblemático, segundo ele, do distrito da Barra Funda, na zona oeste da capital de São Paulo.

A região ganhou 3.198 apartamentos e uma população de 2.680 habitantes nesse período de dez anos.

Entretanto, se os 2,4 moradores por apartamento fossem mantidos (taxa de 2010 que representa a relação média dentro de todos os edifícios do distrito), mais 5.037 pessoas morariam no local.

“É como se o número de apartamentos lançados pelo mercado imobiliário comportasse uma população muito maior”, afirma Nakano.

CAPITAL SUSTENTÁVEL

Para ele, o poder público poderia intervir mais no sentido de realmente promover o adensamento de toda a cidade, posição também defendida por Rafael Rossi, sócio da Huma Empreendimentos.

“É um golaço querer levar mais gente para os centros de transporte público, como está nessa nova política, mas isso deveria ser feito em todas as regiões da cidade”, afirma.

Muito mais do que estimular as pessoas a morar em apartamentos pequenos, a discussão sobre densidade ideal visa criar parâmetros para uma cidade sustentável.

A finalidade é beneficiar uma parcela maior da população com os recursos em infraestrutura disponíveis.

Referência internacional, a estudiosa Jane Jacobs (1916-2006) chegou a considerar ideal a densidade habitacional de 430 habitantes por hectare registrada no Village, em Nova York, em 2000.

Em São Paulo, no mesmo período, havia 88 moradores em cada hectare de terreno.

Fonte: Folha de S. Paulo. B8 Cotidiano. 22 jun. 2015.

Disponível em:

http://goo.gl/jbHCB5

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