Grávidas chinesas fazem posto de saúde ‘falar’ chinês em São Paulo

FABRÍCIO LOBEL
DE SÃO PAULO

23/08/2015

“He shui! He shui!”, repete a enfermeira Patrícia Pinheiro às gestantes que passam pelo pré-natal na UBS (Unidade Básica de Saúde) da Sé, nos arredores da avenida do Estado, no centro de SP.

A recomendação para que as grávidas bebam água é feita assim mesmo, em mandarim, a um contingente cada vez maior de chinesas que chegam ao local.

Segundo dois médicos, duas enfermeiras e uma tradutora ouvidos pela Folha, as imigrantes relatam a expectativa de, com um filho brasileiro, garantirem a permanência no país –a lei veta a expulsão de pais de crianças nascidas em território nacional.

“Assim como muitos brasileiros buscam ter filhos em outros países, o mesmo ocorre com estrangeiros aqui. É comum”, diz Clóvis Silveira Júnior, médico e coordenador das unidades de saúde municipais no centro de SP.

Além da busca pelo visto, também contribuem para a alta no movimento de chinesas a atuação de tradutores contratados pelas pacientes e o fluxo migratório em si –atualmente são mais de 58 mil chineses legalizados no país, segundo o Ministério da Justiça, sem contar os que estão em situação irregular ou em estágio de regulação.

China

A chinesa Weini Zhou, 33, leva o filho Lucas para consulta em UBS na companhia da tradutora Angélica Shou. Imagem: Bruno Santos/Folhapress

COMUNICAÇÃO

As grávidas chinesas também buscam consultórios particulares, mas as unidades do SUS registram o maior movimento –principalmente a UBS da Sé, aonde vão mulheres que trabalham no varejo da rua 25 de Março, e a maternidade estadual Leonor Mendes de Barros, no Belém.

Segundo Andréa Garanito, gerente da unidade municipal, cerca de 100 dos 300 pré-natais ativos na UBS são de mães chinesas –há cinco anos, havia a metade disso.

Em uma tarde de quinta-feira, a Folha encontrou, em pouco mais de uma hora no local, sete delas.

Quase todas tinham receio de falar. Uma exceção era a dona de casa Weini Zhou, 33, mãe do menino Lucas, de dez meses, que estava ali buscando ajuda para o filho com dores no ouvido.

Em chinês, traduzido por sua amiga, Weini diz que seria mais fácil se houvesse um tradutor fixo no consultório, mas que o esforço da equipe de saúde ajuda.

Para minimizar a dificuldade de comunicação, a UBS editou uma cartilha em mandarim com recomendações para o pré-natal e os cuidados após o parto -medida que também será adotada pela maternidade Leonor Mendes de Barros, segundo o diretor, Corintio Mariani Neto.

Os ideogramas explicam, por exemplo, que a amamentação reduz sangramentos comuns no pós-parto e o risco de doenças como câncer de mama, diabetes e anemia.

Segundo médicos, muitas imigrantes amamentam os filhos por pouco tempo. A lista de particularidades inclui ainda resistência a ultrassom e interrupção de relações sexuais durante a gestação.

O desafio é superar as diferenças culturais sem falar a mesma língua. Nessas horas, se a cartilha não dá conta, os profissionais apelam a dicionários, tablets, mímicas, Google Tradutor –e, se nada funcionar, à imaginação.

“Tem vez em que a gente até desenha uma lua para indicar que a medicação deve ser tomada à noite”, diz a enfermeira Patrícia.

ACOMPANHANTE

Há seis anos, Hsu Hui Min, 60, trabalhava como dentista em São Paulo. Mas decidiu mudar de atividade quando uma amiga chinesa indagou se ela conhecia alguém que poderia atuar como tradutora em uma consulta médica.

Hoje, ela, que é conhecida entre brasileiros como Noemi, cobra R$ 50 sempre que alguma cliente sua chinesa precisa ir ao médico.

“Elas não sabem nada de nada aqui do Brasil, nem aonde ir nem como andar de metrô. Eu ajudo, busco em casa e faço a tradução”, diz ela, com sotaque carregado, mesmo depois de décadas morando por aqui.

Na última semana, Hsu acompanhava as gestantes Shuixia Wang, 29, e Yanju Han, 30, em consultas de pré-natal, na UBS da Sé. As duas são donas de casa e mulheres de comerciantes que vieram explorar o mercado popular na região da 25 de Março e do Brás.

Há dois anos no Brasil, Yanju, que espera o primeiro filho, pouco aprendeu da língua portuguesa. Quando muito, diz um encabulado “brigada” aos profissionais de saúde. Sua amiga Shuixia está há oito meses no país e ainda não aprendeu nenhuma palavra local.

Por isso, as duas contrataram os serviços de Hsu, que entra na sala de consultório e acompanha a consulta. Ela traduz as dúvidas das gestantes e as recomendações de enfermeiros e médicos.

A tarefa só é interrompida quando o celular de Noemi toca -o que não é raro. “É assim o dia todo. A gente quase não dorme de tantos casos para atender”, afirma.

Ela diz ter atualmente cerca de cem gestantes chinesas como clientes em São Paulo.

Segundo Hsu, em geral, essas imigrantes acreditam que o SUS, por ser controlado pelo governo, é mais confiável do que um consultório privado –pensamento que seria um reflexo da cultura do Estado chinês.

“Aqui é bom, porque elas encontram todos os serviços num mesmo lugar”, diz Hsu na UBS da Sé. Ela admite, no entanto, que gestantes com mais dinheiro acabam indo a médicos particulares.

Enquanto isso, o SUS não nega atendimento às imigrantes, pois o sistema de saúde foi desenvolvido para ser universal, sem distinção entre brasileiros e estrangeiros residentes no país.

A dificuldade das chinesas com a língua dá margem à atuação de oportunistas.

A enfermeira Andréa Garanito conta que, certa vez, uma chinesa grávida chegou acompanhada de uma peruana, que havia prometido fazer a tradução da consulta.

“Quando nós falamos que o exame de sangue da chinesa não estava bom, a peruana começou a fazer mímicas e gritou: ‘Sangue. Ruim’. Em português”, conta. “Para fazer mímica, eu mesma faço”, diz. “Se for para se fazer de tradutora, aqui ela não entra mais.”

COSTUME DO FILHO ÚNICO

Quando chegou a sua consulta pré-natal, na UBS da Sé, Yajun Han carregava consigo uma garrafa térmica com água quente. Baseada em interpretações da medicina tradicional chinesa, Yajun diz que o líquido quente serve para manter os órgãos saudáveis, o que ajudaria no desenvolvimento bebê.

“As chinesas atendidas aqui não têm o costume de beber água. E, quando bebem, é água quente. Demorou até que a gente entendesse o motivo. No Brasil, a gente sempre recomenda água fresca para as pessoas”, diz a enfermeira Patrícia Pinheiro, que trabalha na unidade.

Além da barreira da língua, profissionais de saúde ouvidos pela Folha relatam que há outros abismos culturais entre o Brasil e a China nos cuidados durante a gravidez.

Segundo o ginecologista e obstetra Hsu Chih Chin, 55, muitas chinesas chegam a seu consultório, na Vila Olímpia (zona oeste de SP), acreditando que não se pode engravidar duas vezes num intervalo de cinco anos.

Para Chin, esse é um dos muitos boatos disseminados na China, na esteira da rígida política estatal de controle de natalidade.

“Algumas mães têm medo de fazer ultrassom, porque acham que o exame pode afetar o desenvolvimento da criança.” Para Chin, essa ideia surgiu da recomendação que médicos chineses recebem de não revelar o sexo das crianças aos pais.

Na China, desde o final da década de 1970, está instituída a política do filho único, que, com algumas exceções, impõe multas pesadas a casais que tenham mais de uma criança.

A política de controle do crescimento populacional, que tem se flexibilizado nos últimos anos, causou enormes desequilíbrios demográficos no país e uma série de abortos. Na imensa maioria, os fetos são de meninas, que são preteridas pela família.

A preferência pelo sexo masculino é sentida até nos consultórios brasileiros. “Muitas mães ficam deprimidas ao saberem que estão esperando uma menina. A gravidez de uma menina muitas vezes não é um evento feliz para a família”, conta a enfermeira Patrícia.

Outra prática mantida pela comunidade chinesa no Brasil é a abstenção ao sexo durante a gravidez.

Com medo de prejudicar o bebê, as mães evitam ter relações sexuais com o marido. Quando isso ocorre, não é raro que as chinesas concedam que os maridos tenham outras parceiras temporárias.

“Sem métodos contraceptivos, como a camisinha, aumenta a probabilidade de contração de uma doença sexualmente transmissível”, explica Patrícia.

LEITE MATERNO

Após o parto, as diferenças culturais continuam. Enquanto médicos brasileiros incentivam exercícios leves após o nascimento do bebê, o costume chinês é de repouso absoluto durante praticamente um mês. “Muitas ficam em quartos sem ventilação”, relata o obstetra.

Outro hábito é o da amamentação breve das crianças. É comum ver famílias chinesas alimentando bebês de apenas três meses de vida com leite em pó misturado a ovo de codorna.
A interrupção precoce da amamentação é foco de atenção até do governo chinês, que estuda combater a cultura do leite em pó.

Em 2014, a China anunciou que apenas 28% das crianças de até seis meses de idade são alimentadas exclusivamente com o leite materno. Segundo o governo local, a forte urbanização causou uma mudança na cultura chinesa e a abreviação do período de amamentação.

No Brasil, a alimentação exclusiva por leite materno até os seis meses ocorre em 41% dos casos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/08/1672455-gravidas-chinesas-fazem-posto-de-saude-falar-chines-em-sao-paulo.shtml

1 comentário

Arquivado em Migração, Natalidade

Uma resposta para “Grávidas chinesas fazem posto de saúde ‘falar’ chinês em São Paulo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s