Preciso escrever: E agora?

computador

Foto retirada do Blog de Ezio de Castro.

Por:
Giovana Gonçalves Pereira
giovana.ggp@gmail.com
Aluna de Doutorado em Demografia, Mestra em Demografia e Cientista Social
(IFCH-UNICAMP)

            Ao longo do dia, você já deve ter iniciado muitas frases e as apagado. Eu, por exemplo, ao iniciar este artigo já apaguei três vezes minhas primeiras digitações. Mas, vamos tentar pensar nisso aqui como uma conversa entre velhos e bons amigos.

Uma das maiores dificuldades de graduandos e pós-graduandos é essa tal de escrita acadêmica, há quem defenda o robusto, claro e conciso e existe também que preferira aquele tom mais denso, detalhado e minucioso. Há variâncias é claro, mas antes de escolhermos qual será o teor do nosso texto, vamos começar?

Escrever não é algo fácil, mas não é um dom ou algo inato que somente algumas pessoas possuem. Escrever é, antes de tudo, um exercício. Assim se não temos o hábito, ou se estamos iniciando nossas atividades agora, após um longo período de sedentarismo, precisaremos ir com calma, reaprender a respirar, focar no alongamento e não forçar demais para não nos machucarmos ou distendermos algum músculo. Irei compartilhar alguns macetes pessoais com vocês, mas gostaria de lembrá-los que eles não são (nem de longe) as únicas opções que dispomos. Aliás, aproveito aqui para recomendar blogs sobre isso como do Prof. Gilson Volpato e da Karina Kuschnir

  1. Página em branco não é sinal de fracasso. Mesmo que você esteja com o Word aberto há mais de meia hora, a página em branco só está lá para nos lembrar de que devemos em algum momento começar algo. Isso pode ser um parágrafo, uma discussão de algum texto, a análise de alguma entrevista ou de algum gráfico. A página em branco pode potencialmente representar várias partes da sua dissertação, da sua tese ou de seu projeto, mas ela não é seu trabalho inteiro. Não conheci ninguém, até hoje, que tenha escrito tudo em uma sentada só.
  2. Liberte-se da ilusão da escrita perfeita e redonda em primeira mão. Eu sei, nós estamos acostumados a lermos pesquisas de referência e de ponta em nossas áreas. Temos até nossos autores e autoras mais xodós e aqueles livros de cabeceira que nos fazem desejar nos tornarmos, pelo menos, pupilos de grandes mestres. Mas, nenhuns destes grandes mestres publicaram suas primeiras versões da pesquisa, certo? São necessárias revisões, reorganização de pensamentos e parágrafos, cortes e até acréscimos para construirmos uma linha de argumento e raciocínio minimamente coerente. O importante é começar! Dica: Escreva, ninguém estará atrás do computador fiscalizando e julgando você, enquanto você começa a montar seu primeiro argumento. E, neste primeiro momento, ele deve ficar o mais claro possível para você. Gosta de tópicos? Escreva-os. Prefere mapas mentais? Pegue o lápis e desenhe-os.
  3. Mescle os momentos de escrita. Ainda que muitas pessoas gostem de especialização e focos direcionados, no caso da escrita, ao concentrar nossos esforços somente em um momento pode ter efeito nocivo. É importante mesclar essas atividades: escreva a parte teórica, quando cansar dela pare. E depois de um descanso vá para a parte de análise, depois você retorna para a discussão teórica. Nada vai sumir do lugar. E no final, tudo se encaixa e fará sentido.
  4. Tenha vários arquivos de Word. Uma das formas que aprendi a trabalhar, isso com minha orientadora, foi a de ter o hábito de cultivar vários arquivos em Word. Um discutindo algumas tabelas, o outro falando de uma discussão teórica importante, mas que eu não tenho ideia de onde vai parar na tese ainda, em todo caso, devo guardá-la e tratá-la bem. Em momentos oportunos, a gente vai unindo os arquivos em um só e criando unidade.
  5. Tenha sempre em mãos o seu projeto ou mapa de pesquisa. Quando você for escrever um artigo ou parte de seu TCC, dissertação ou tese não se esqueça de ter em mãos seu projeto. O que isso significa? Seu projeto funciona como um guia – que não deve ser limitante ou impossível de mudanças e ajustes, é claro – para que você construa seus argumentos. O bom projeto de pesquisa contém informações importantes como seu tema, seu objetivo, sua hipótese e sua metodologia. Todas essas informações são imprescindíveis para nós, e inclusive nos dão segurança na hora de escrever. Outro bom guia é o resumo. Um bom resumo guiará você no momento da escrita e deve informar ao seu leitor: o objetivo central da pesquisa, a metodologia ou as fontes de dados utilizadas, a hipótese ou pressuposto teórico – depende do momento da pesquisa -, e alguns resultados centrais.
  6. Descubra seu ritmo e não se compare. Cada pessoa possui um ritmo de escrita, tem pessoas que só conseguem escrever após os dados e as análises estarem prontas, já outras escrevem gradualmente conforme vão evoluindo na pesquisa. Não há jeito certo ou errado aqui. Apenas o mais confortável e adequado para você. Em outras palavras: De qual forma você se sentirá mais tranquilo? Contudo, não se esqueça, para descobrir seu ritmo é necessário (tcharam) escrever! Não é para nos perdermos nas fugas para trás (lendo cada vez mais referências bibliográficas), nem nas projeções para o futuro (perdendo o foco da análise no banco de dados ou na pesquisa de campo). Foco direcionado é preciso, sim.
  7. Sua obra deve ter início, meio e fim. Deste modo, é central termos em mente qual o papel de cada parte do nosso texto. A introdução será o nosso início de conversa com nosso leitor e interlocutores e pode ser construída de maneiras distintas, mas seu objetivo central é apresentar seu tema e objeto de pesquisa. Eu gosto de delimitar, neste momento, os conceitos-norteadores da minha pesquisa, ou então, tento demonstrar porque devemos falar sobre aquele tema. O desenvolvimento do artigo ou a justificativa teórica (no caso de projeto de pesquisa) é o momento no qual você vai contar para seu leitor parte da trajetória científica do seu “objeto de pesquisa”. O que já foi dito sobre ele? O que você pode contribuir? Recordando que nas ciências sociais, as pessoas não são nossos objetos, mas sim as relações sociais imbricadas em processos sociais construídos socialmente, historicamente, economicamente e culturalmente. É interessante dialogar com sua bibliografia. Isso demonstra que você reconhece a contribuição de cada trabalho e deixa o texto menos “duro”. Gosto bastante de usar “Segundo x”, “De acordo com y”, “Para z”, “X destaca que”. As considerações finais são extremamente centrais, elas ditam a amarração final do seu argumento e lógica de raciocínio, e podem indicar os possíveis desdobramentos de seus “achados”.
  8. Compartilhe e circule seus textos. A troca entre colegas, pares, amigos e conhecidos, não necessariamente de nossa área de atuação, é fundamental para nos habituarmos a escrever de maneira mais clara. Isso evita que fiquemos com vícios de termos e linguagens, além de construirmos um conhecimento mais democrático. Uma ideia é pensarmos em como explicaríamos nossas pesquisas para nossos pais e avós, ou para um desconhecido na rua.
  9. Leia em voz alta. Na impossibilidade de circular e até mesmo antes disso, leia seu texto para si mesmo em voz alta, isso dará dimensão de como você estruturou sua linha de pensamento.
  10. As maiores sacadas do seu trabalho ocorrerão em momentos distintos ao seu estudo. Às vezes isso acontece enquanto você está no bar com amigos, viajando no busão, ou tomando um café sozinho. Sempre tenha um caderninho de ideias consigo. 
  11. Deseje que sua pesquisa seja superada. O conhecimento tem idas e vindas, mas o progresso científico acontecerá sempre com quebras de paradigmas. Não é de todo ruim rever nossos escritos anteriores e não concordarmos com eles, mas sim um sinal de que amadurecemos intelectualmente.
  12. Aprenda a descansar e deixar seu texto decantar. Na medida do possível, reserve um tempo para seu texto “decantar”, mas sempre que possível descanse. O descanso é um ponto-chave para o avanço de nossos textos. Não se esqueçam: Cabeça cansada não move artigos.

Além disso, caso interesse, deixo o link aqui de uma pastinha no Dropbox com alguns textos de metodologia científica. Boas inspirações para todos nós!

 

 

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1 comentário

Arquivado em Carreira acadêmica, Vida acadêmica

Uma resposta para “Preciso escrever: E agora?

  1. E vamos nós estudar redação científica. Obrigada pelas dicas. escritas com tanto carinho. Parabéns pela iniciativa.

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