Sobre a vida acadêmica

Por Giovana Gonçalves Pereira*

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Alice no País das Maravilhas (1956)

É claro que existem professores doutores com livre-docência com maior aptidão e conhecimento para falar sobre a vida acadêmica e a rotina de pesquisa e docência. É um saber consolidado que existem especificidades entre as áreas do conhecimento. O ponto de vista aqui é representativo, majoritariamente, para uma aluna de Pós-Graduação da área de Ciências Sociais Aplicadas, de uma das maiores universidades brasileiras, branca, cisgênera, filha de pais com ensino superior e bolsista, sem interrupção, desde a Iniciação Científica. Dada essa pequena introdução das limitações do meu lugar de fala, vamos aos fatos:

Diariamente eu me questiono sobre a estrutura da pós-graduação no Brasil, semanalmente eu me deparo com ora estudantes-pesquisadores (de distintas áreas) se lamuriando pelos cantos sobre a pressão dos prazos, e ora com conhecidos – muitas vezes, de ignorância cultivada – se lamuriando por não terem uma vida em que “pudessem estudar”. Ou seja, a vida de contos de fadas que muitos “acreditam” ser a “realidade” dos pós-graduandos.

Mensalmente eu me questiono quando se aproxima do quinto dia útil do mês se receber os R$ 2.200 vale mesmo a pena até quando eu não me recordo, assim como muitos colegas, qual foi o último final de semana em que eu realmente vivi como final de semana. Isso vale também para pseudo-recesso, feriados e pontos facultativos.

Para estudantes-pesquisadores o dia, e muitas vezes a noite, é sempre dia útil. O que isso significa na prática? Nós temos a vantagem de conseguirmos marcar consultas médicas em horários decentes, ir ao banco fora do horário de pico e articular nossa própria rotina. Mas, temos a desvantagem de que não existem expedientes ou turnos, não existe hora-extra, nem registro em carteira. Ou seja, nós temos as mesmas condições de insalubridade que o mercado de trabalho. Temos que lidar com prazos novos e inflexíveis, compromissos na agenda que não param de acumular, rotinas de estudo e pesquisa que consomem nossa vida pessoal, gostemos (ou não e confesso que não é tão descolado ser assim): Nós somos uma força de trabalho produtiva. De conhecimento, de dados, de diagnósticos, de reflexões, de novas descobertas e por aí vai.

Além disso, é extremamente comum a sensação de estar atrasado e ter perdido o fio da meada do cronograma que você fez com tanto carinho lá no projeto de pesquisa. É uma síndrome do Coelho da Alice, você corre, faz mil coisas, apaga mil incêndios (porque a base de dados não roda, porque remarcaram a entrevista, porque o equipamento não chegou, porque o orientador e você – veja bem – também têm ou pelo menos deveriam ter uma vida fora da academia, dentre tantos outros porquês). Isso costuma vir acompanhado com uma sensação absurda de ansiedade e do famoso: Não vai dar tempo. E é incrível como eu vejo inúmeros colegas altamente qualificados entregarem as pontas e dizerem que não “prestam” para a vida acadêmica. Mas de onde vem essa pressão?

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Alice no País das Maravilhas (2010)

Do capitalismo, do seu orientador, do seu programa de pós-graduação, das disciplinas, enfim, você pode chamar quem quiser para distribuir a responsabilidade pela cobrança. E provavelmente você estará certo. Mas, dadas as devidas limitações da minha experiência, devo confessar que eu descobri que uma das principais responsáveis pela minha rotina insana sou eu mesma. Sim, doeu eu perceber isso. E a dor só ficou mais latejante quando eu percebi que ainda era uma “máxima” mesmo depois de pensar sobre as formas de apropriação do tempo, a falácia por detrás do “monte sua própria rotina” e da “flexibilidade” da vida acadêmica, particularmente, nos seus primeiros anos.

No meu primeiro ano de graduação, uma professora de Antropologia disse a nossa sala que a pior coisa que poderia acontecer era você se tornar o próprio chefe. Sim, porque você precisava ter alguém para ter reações de raiva e direcionar a sua demanda por arrego dado seu esgotamento emocional, físico e mental. Mas, essa sábia e ilustre professora também me ensinou como um não posso, não quero e não dá podem ser libertadores, principalmente após o baque inicial de ter falado primeiramente para você e depois para o professor, orientador, colega, amigo (coloque quem você quiser aqui) que “poxa, sinto muito, mas dessa vez não consigo”. É claro que não devemos nos esquecer de todos os mecanismos de competição criados e legitimados dentro e fora de departamentos e centros de pesquisa como possuir um rendimento mínimo no histórico escolar, produção consolidada na área, número de publicações e participação em eventos para problematizar toda essa questão.

Contudo o que me vem chamando mais a atenção é como nosso corpo e nossa mente sabem quando toca o sinal vermelho e nós precisamos nos conhecer.

Nenhum evento, nenhuma pesquisa de campo, nenhuma madrugada rodando dados, nenhum currículo, nenhuma disciplina vale sua paz de espírito e seu esgotamento.

Nenhum desses cenários estará com você quando você começar a perceber que não se lembra mais de datas importantes na sua vida pessoal, se perder no meio do supermercado e não se recordar o que fazia naquele corredor ou chorar compulsivamente questionando sua inteligência porque não conseguiu resolver um exercício. Sim, porque fazer pós-graduação será um peso e uma responsabilidade que você terá que lidar diariamente. E eu juro que gostaria de falar sobre ela de forma mais romântica, mas seria injusto e infiel.

Não posso negar que: Sim, a vida acadêmica me proporcionou conhecer pessoas e lugares que jamais imaginei. A primeira vez que andei de avião (e de pau de arara) foi em pesquisa de campo, a primeira vez que sai do país, a primeira vez que viajei sozinha, foram várias primeiras vezes extremamente significativas que constituem minha trajetória pessoal e profissional.

Contudo, também não posso negar que: Sim, a vida acadêmica já me proporcionou os dias mais difíceis da minha vida. Como a primeira vez em que me senti impotente por talvez não conseguir cumprir um prazo, a primeira vez em que chorei copiosamente em um domingo após ficar a madrugada de sábado inteira tentando resolver um exercício, a primeira vez em que chorei em posição fetal por me questionar se realmente tinha o tal do “perfil de pesquisador” que todo mundo me dizia que eu tinha, mas que aparentemente isso não era um consenso (e nunca vai ser, mas tudo bem).

E por fim, não eu não posso deixar de me questionar se tudo valeu a pena todos os dias. E sim, eu me questiono. E sim, majoritariamente, a resposta é que sim. A resposta é sim quando eu me recordo de um dos principais ensinamentos que tive com a minha orientadora oficial e com a minha co-orientadora (não oficial, mas de coração): A vida acadêmica é só uma parte da sua vida.

Sim, você também tem uma vida fora da academia. Você tem família e amigos. Você tem uma vida social. Você tem uma vida pessoal. Você tem que ter direito ao tédio. Não, você não é obrigado a tirar a nota máxima em tudo (isso em realidade não quer dizer muito sobre o que você absorveu). Não, você não precisa sair do país e fazer “sanduíche” se não quiser. Não, você não precisa emendar o mestrado no doutorado. Não, você não pode e nem deve abdicar das suas demandas emocionais e pessoais.

Mas, devo confessar que é mais poético escrever todas essas afirmações do que vivê-las no dia a dia. Nem sempre é fácil lembrar que “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Em palavras mais pragmáticas, não se esqueça: o bar com os amigos, a visita a casa dos pais, jogar conversa fora, viajar de forma despretensiosa, se perder no Netflix, aceitar a companhia da preguiça são elementos tão essenciais quanto um objetivo e uma hipótese no momento de escrita de uma dissertação ou tese.

* Aluna de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGD) da UNICAMP.

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