“Projeto” de Pesquisa e os primeiros passos da vida acadêmica

Por Giovana Gonçalves Pereira*

Uma das maiores dificuldades que nós pesquisadores em formação encontramos ao longo da nossa trajetória acadêmica e profissional é a escrita do projeto de pesquisa. O tremor começa ainda lá nas primeiras tentativas de redigir um projeto ou plano de trabalho de iniciação científica na graduação. Frequentamos as reuniões dos grupos de pesquisa, retomamos os clássicos das áreas de interesse, reorganizamos pensamentos, mas seguimos ora com inúmeros parágrafos desorganizados, ora com ideias soltas na folha de papel.

O movimento de organização da ebulição de pensamentos buscando a sistematização de um raciocínio minimamente coerente se inicia desde a escolha de um grande tema de pesquisa. Esse momento, inclusive, é um dos que mais causa calafrios e confusão em nossa cabeça.

Como começar a organizar tudo isso? Será que existe mesmo um passo a passo linear e não retrospectivo? (Caso alguém tenha descoberto peço que encaminhe o tutorial).

Em meu caso posso afirmar que a prática do fazer científico é, muitas vezes, circular e preenchida por idas e vindas. Ou seja, muitas vezes quando estamos já no processo de escrita do relatório final, do trabalho de conclusão de curso, da dissertação e da tese, acabamos retornando ao processo de refazer o caminho do ciclo da pesquisa.

Ciclo da Pesquisa
PEREIRA (2017).

O ciclo da construção da pesquisa se inicia com uma inquietação. É o momento de superficialidade da pesquisa, é o que está aparente, a “ponta do iceberg” de uma realidade social. Gosto de pensar, neste momento, como a definição de o que pretendo entender, respondendo a mim mesma: O quê pretendo estudar? Qual “fato” ou “situação” está presente?

Nesse momento, ainda não saímos do senso-comum, ainda estaremos muitas vezes “naturalizando” nossos questionamentos e nossa percepção da realidade social. É o período de anotar as constatações, ou seja, o que você já “naturalmente” sabe sobre determinada inquietação.

Assim, costumamos partir para a construção de um roteiro (nem sempre muito ordenado, mas que fará sentido) de leituras na área. Em outras palavras, passamos para o levantamento bibliográfico e em alguns casos para a pesquisa pré-campo. Esse processo é fundamental durante todo o processo de escrita do projeto, particularmente porque é nele que conseguiremos visualizar o que de fato a gente consegue contribuir para a discussão. E o central para mim foi sempre pensar em termos de contribuição.

(E desconfiar sempre de alguém que diz dominar toda a produção bibliográfica de uma área temática, ler e compreender a produção científica é também atestar a si mesmo o tamanho crescente da necessidade de mais leitura. Só cuidado: Você não vai responder todas as perguntas agora e nem enquanto estiver elaborando o relatório final. Humanamente impossível).

Chegamos então ao momento de elaboração da pergunta de partida e a construção de hipóteses, processos que apesar de andarem juntos, representam momentos bem distintos da construção do projeto de pesquisa. A pergunta de partida é ainda o primeiro passo do tatear as ideias, é a parte mais “crua” do que a formalização da hipótese teórica. Contudo, ela se constitui como parte essencial do projeto de pesquisa. É nela que vamos focar nossos esforços para compreendermos determinado processo social ou fato, e ela inaugura, não raramente, a hipótese. Mas, tomemos cuidado: uma hipótese é sempre teórico-metodológica. Ou seja, é necessário que articulemos nossos esforços na construção de um arcabouço teórico que se sustente metodologicamente.

Deste modo, tendemos a passar para o momento da efetivação da pesquisa e consequentemente da análise de resultados e da revisão de nosso caminho até aqui. Recordando que com as evidências e dados que encontramos na pesquisa de campo ou em uma fonte de dados, acabamos sempre retornando o momento inicial do ciclo. Nem sempre todas as novas perguntas são sanadas de imediato. Por isso se torna tão necessário que saibamos: O trabalho científico (e suas idas e vindas) nunca acaba, o que acabam normalmente são nossos prazos, rs.

E falando em prazos é preciso que se escreva. A produção escrita será, portanto, o momento do encadeamento das ideias e de seus argumentos criados até aqui. E também não isenta de retomada dos processos anteriores, muitas vezes se faz necessário dar alguns passos para trás, rever a bibliografia, retomar a ideia inicial, reorganizar os dados. Porém dependendo do período “não se afobe que nada é pra já, alguns prazos pode ser sempre prorrogáveis”. Por isso, não nos esqueçamos que a construção de um bom projeto de pesquisa (e por projeto a gente entende que ele é passível de mudança) nos poupará de algumas retomadas desnecessárias ao longo da escrita do trabalho final.

Que não falte café, serenidade e inspirações!

[Esse texto se destina a ser um primeiro contato com a construção e (re)construção de um projeto de pesquisa, ele não visa substituir as conversas com seu/sua orientador/a e muito menos qualquer aula de metodologia. Principalmente por ter sido justamente baseado em discussões em sala de aulas sobre métodos e técnicas de pesquisa, assim como, nas participações em grupos de pesquisas. Articulações coletivas são fundamentais em qualquer momento de nossa trajetória acadêmica]

* Aluna de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGD-UNICAMP).

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