Diários da Pós-Graduação: Kelly Camargo

Trazemos hoje na série “Diários da Pós-Graduação” a doutoranda em demografia Kelly Camargo. Acompanhe a seguir:

Numa manhã chuvosa do ano de 2004, devido a presença de poucos alunos, a professora de gramática resolveu não explicar conteúdo novo para a antiga sexta série. Em vez disso, ela nos contou sobre a universidade que ela frequentou, ela nos contou sobre a Universidade de São Paulo (USP). Eu não sabia nada sobre universidades públicas, mas a USP nos foi apresentada como a “melhor universidade do Brasil”. Por isso, chegando em casa fiquei ansiosa para poder pesquisar sobre a USP e outras universidades públicas com ajuda da internet discada.

E assim, antes de saber o que eu “queria ser quando crescer”, eu sabia onde eu queria estar. O sonho da universidade pública foi se construindo em mim, e eu pedi aos meus pais para ser transferida para uma escola que me preparasse para o vestibular. Sei que não foi fácil para eles arcarem com essa despesa, mas no ano seguinte eu e minha irmã fomos matriculadas em uma escola voltada ao vestibular.

E enquanto eu terminava o ensino fundamental e ingressava no ensino médio, a universidade se tornava algo palpável. Os governos estavam investindo em todos os níveis de ensino, mas, principalmente, notava-se a expansão das universidades federais. Inclusive, em Sorocaba, cidade em que eu morava, foi construído um campus da UFSCAR. Cabe destacar que nesses anos o ENEM ainda estava se constituindo como uma forma de acesso ao ensino superior, tal qual conhecemos hoje.

No primeiro momento eu queria fazer jornalismo na USP, mas eu também me inscrevi para o vestibular em ciências sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O curso de ciências sociais não era meu objetivo principal, mas eu sempre soube que eu não era de exatas. Afinal, eu deixava meu professor de matemática de cabelo em pé, porque eu precisava de informações filosóficas sobre tudo, até para entender as coordenadas do plano cartesiano.

Eu passei em ciências sociais na Unicamp no final do terceiro ano do ensino médio, e resolvi cursar o primeiro semestre como teste. Só que eu fui convencida na primeira aula de “Introdução à Ciência Política” com a professora Luciana Tatagiba. Ela nos disse:

Nas ciências sociais, em todo começo de aula nós tiramos a mochila das costas e colocamos seu conteúdo em cima da mesa, com nossas experiências de vida, nossas leituras, nossos preconceitos. E no final da aula, a gente vai devolver para a mochila as experiências e os conhecimentos adquiridos, o preconceito que se disfarça de senso comum a gente joga no lixo. E na próxima aula o ciclo se repete”.

Acredito que cursar ciências sociais não foi uma escolha fácil, mas foi a escolha que me tornou quem eu sou hoje. Talvez, se eu tivesse optado por um ano de cursinho e entrado em jornalismo eu seria uma pessoa mais leve. Talvez não conhecer com a profundidade de um sociólogo as raízes da desigualdade no Brasil faria com que os problemas sociais e políticos me sensibilizassem menos. Ou talvez não, talvez eu fosse uma jornalista investigativa atrás de assassinos em série, desiludida após conhecer a brutalidade humana em sua forma mais crua. Contudo, no fundo eu sei que se eu tivesse que escolher novamente, eu sempre escolheria as ciências sociais. Apesar de não ser um curso voltado para o mercado de trabalho, é o curso que me formou para a vida.

Na aula de metodologia, no segundo ano da faculdade, a monitora, a dra. Thais Tartalha, teve uma longa conversa comigo. Eu tinha um projeto sobre sociologia da cultura, mas eu me interessava muito pelas questões ambientais, por isso, a Thais me encorajou a conversar com o professor Roberto do Carmo, da linha de População e Ambiente do departamento de demografia.

Assim eu conheci a demografia, através do prof. Roberto que me escutou com calma e consideração -, qualidades características dele. O professor me incentivou a escrever um projeto sobre as mudanças populacionais que estavam acontecendo em cidades do Mato Grosso, em razão da expansão da soja na região. O professor Roberto também me concedeu uma bolsa de apoio técnico para a digitação dos questionários oriundos de surveys realizados pelo grupo de População e Ambiente. E assim eu mergulhei nesse tema que rendeu três anos de iniciação científica, e o mestrado em demografia.

Uma questão interessante da linha de pesquisa em População e Ambiente é que temos reuniões frequentes, nas quais não há hierarquia. Todos os alunos (seja de iniciação científica, mestrado ou doutorado) têm o mesmo espaço e segurança para expor seus pontos de vista. Não há intimidação, há dialogo e compreensão. Escrevo isso porque acho importante se sentir acolhido. A vida acadêmica nos coloca muita pressão, e isso, por si só, já é estressante. Agora, experimente ser um acadêmico em formação quando o mundo lá fora parece estar caindo aos pedaços, e os governantes desmerecem a sua escolha profissional e a sua área de atuação. O estresse é intensificado, pode acreditar.

Mas eu não tenho do que reclamar. Eu tive bolsa PIBIC para iniciação científica por praticamente três anos durante a graduação (R$400,00 por mês). E eu fiz aulas de inglês e francês de graça através do Centro de Estudos de Língua (CEL) da Unicamp. No mestrado eu tive meu salário desde o primeiro mês, através da bolsa concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Eu, como muitos estudantes, recebi durante o mestrado R$1.500,00 por mês -, uma quantia que apesar de não ser muito, é essencial. Durante o mestrado eu também tive bolsa de estágio docente (PED) em um semestre (R$550,00 por mês), e fui monitora voluntária em outro semestre.

Hoje eu sou doutoranda em demografia. Eu e Sofia Furtado estamos à frente da representação dos alunos da pós-graduação em demografia durante 2019. E eu também faço parte do corpo editorial da Revista Temáticas do IFCH desde o ano passado.

A pesquisa que desenvolvo no doutorado tem como objetivo analisar como as legislações urbanas têm impactado o crescimento populacional e a redistribuição da população nas megacidades do Sul Global. Para tanto, realizo estudo comparativo de Planos Diretores/Development Plans de São Paulo (Brasil) e de Mumbai (Índia). Acredito que os países do sul precisam parar de olhar para os países do Norte Global em busca de soluções para seus problemas urbanos, e começar a construir as próprias soluções a partir da comparação de experiências. 

Legenda: Trabalho apresentado no 8º Congreso Internacional de la Asociación Latinoamericana de
Población que aconteceu em Puebla (México), entre os dias 23 e 26 de Outubro de 2018

Aos poucos vejo o reconhecimento do meu trabalho através de artigos publicados; alunos da graduação que mandam e-mail porque leram meu texto e pedem minha ajuda; ou então, a aprovação para curso de verão sobre “as fronteiras e aproximações entre sociedade e ecossistema” na França. Mas essas pequenas vitórias não são minhas, são nossas.

E, por isso, eu agradeço aos meus pais que sempre me apoiaram. Agradeço aos meus (minhas) professores(as) por terem acreditado em mim. Eu agradeço aos governos que implantaram projetos de expansão à educação e à ciência. Eu agradeço também à Unicamp e as agências de fomento pela oportunidade. Agradeço especialmente ao financiamento concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa de doutorado.

Porém, o CNPq está com recursos escassos, e pode ser que só consiga pagar as nossas bolsas (que de doutorando é a “fortuna” de R$2.200,00 por mês) até setembro desse ano. É fato que as universidades públicas e a pesquisa estão sofrendo pesados cortes nos últimos anos. Contudo, em 2019 o governo federal realmente declarou guerra contra a educação e a ciência.

Assim, acho importante agradecer, porque tive a oportunidade de estudar na época em que a educação e a ciência foram (minimamente) valorizadas, e eu não sei como será daqui para a frente.  O contexto é de desmonte do Estado, desmonte da educação em todos os seus níveis e desmonte da ciência. Eu fui a primeira da minha família a ter condições de estudar numa universidade pública e a fazer pós-graduação nela. É por isso que hoje eu luto contra o desmonte. Eu luto para que eu não seja a última.

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