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Sobre flavia_longo

Sou mestre e doutoranda em Demografia pela Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição. Tenho interesse em temas relacionados à Educação, Demografia e Políticas Públicas. Se quiser entrar em contato, basta escrever para: flavialongo@nepo.unicamp.br / longo.fvs@gmail.com Meu currículo acadêmico pode ser encontrado na plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/2341694986862820

Setembro Amarelo: seleção de links com dados sobre suicídio

A mortalidade é uma dos eventos que mudam a estrutura e a composição de uma população – por isso, é um tema muito caro aos demógrafos. Dentre as diversas classificações por causa de morte, encontra-se o suicídio (lesões autoinfligidas).

Contudo, por trás da estatística existem nomes, histórias de vida. E aí entra a dimensão mais humana do tema, sobretudo quando aumenta a taxa de suicídio entre os jovens, como bem lembrou a pesquisadora Elza Berquó.

Sensíveis à campanha do Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, deixamos aqui alguns links sobre o tema. O primeiro deles refere-se ao I Boletim Epidemiológico sobre Suicídio, publicado ontem pelo Ministério da Saúde:

Aqui, o link oficial da campanha, com o slogan “Falar é a melhor solução”.

Dados sobre suicídio no Brasil e no mundo podem ser encontrados em:

 

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O que saber ao começar um doutorado

Algumas dicas para quem está começando.

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Breve publicação da Science (em inglês) traz alguns depoimentos de pós-graduandos. Apesar dos exemplos pertencerem à área de biológicas, as questões valem para quem se aventura no mundo da pesquisa:

1) Não tenha medo, faça perguntas

É OK fazer perguntas. Você precisa fazer perguntas. Um dia eu disse a ele [meu orientador] que eu estava assustada em ter que fazer perguntas, e ele disse ‘Meu Deus, você não precisa se assustar’. Existe muita informação que não podemos saber a fundo, todo o tempo. Então, é OK não saber. E é muito melhor poder perguntar.” (Alexandra Schober, doutoranda em neurociência na Albany Medical College, Nova Iorque. Tradução livre).

Assim como em outras áreas, na Demografia trabalhamos com alguns conceitos bastante abstratos: população estável, população estacionária… qual a diferença mesmo? Pesquise e estude por conta própria – e faça perguntas. Não entendeu ou tem dúvidas se entendeu corretamente? Pergunte!

2) Planejamento é a chave

Quanto tempo este experimento vai levar? E depois? Isso pode esperar até o dia seguinte? […] O mais importante, reivindiquei minhas noites. Agora, ainda que eu me anime com uma ideia nova, eu aprendi como planejá-la sem sacrificar meu tempo fora do trabalho.” (Juliana West, pós-doutoranda no Intituto de Tecnologia da Califórnia, Pasadena. Tradução livre.)

Dificilmente um demógrafo conduz um “experimento”, mas lidamos com bases de dados, modelagens, entrevistas. Sabe o item ‘cronograma’ do seu projeto? Não o menospreze 🙂

3) Cuide de si

Você precisa desenvolver questões que sejam interessantes – e tentar respondê-las. Com sorte, você tem apoio do seu orientador e dos seus colegas. E tudo isso leva algum tempo. Pode ser fácil você se sentir desencorajado quando as coisas não estão indo bem, pois seu senso de personalidade pode se mesclar as suas expectativas de pesquisa. Embora você possa se sentir vulnerável, se você conversar com seus pares, você provavelmente vai descobrir que essas ‘batalhas pessoais’ são recorrentes. Penso que todo mundo, em algum momento, já pensou em deixar a vida acadêmica – até mesmo as estrelas do seu departamento.” (Cecilia Sanchez, doutoranda em ecologia na Universidade da Georgia. Tradução livre)

Válido para qualquer trabalho: permita-se ter outras atividades não relacionadas com a pesquisa. É importante levar os olhos e a mente para passear, ver outras coisas, circular em espaços de arte, lazer, cultura e esportes. E, ao contrário do que possa parecer, não é perda de tempo, não. Ganha-se qualidade no tempo.

 

4) Não tome as falhas dos experimentos como pessoais

Toda vez que um experimento falhava, eu sentia como se fosse minha culpa: ‘eu devo ter feito algo errado, e estou desperdiçando o tempo e dinheiro de todo mundo’. (…) Fale sobre as falhas com seu orientador. Há o medo de que ele diga ‘obviamente você é um péssimo cientista e você não deveria estar aqui’. Mas, isso não acontece . Pelo menos não com a frequência que você imagina. Eles querem que você faça bem o seu trabalho. E é OK quando as coisas dão errado. Você só precisa aprender com isso e tirar algo útil dessa experiência.” ( Geoffrey Heinzl, pós-doutorando em química na U.S. Food and Drug Administration em Silver Spring, Maryland. Tradução livre.)

Quando lemos um artigo, não nos damos conta de todo o trabalho “omitido” naquela publicação. Dificilmente o autor/cientista/pesquisador acordou com aquela ideia brilhante e ela foi diretamente pro papel. Certeza que teve muita tentativa e erro antes daquele novo conhecimento vir a público.

5) Orientador e orientando: estilos de orientação nem sempre se ajustam. E tudo bem.

Eu não sabia que existiam tantos tipos de mentoria [orientação] – que algumas pessoas te deixam mais livres e outras não tão livres – e que você precisa se ajustar em um meio termo.” (Jessica Neuwer, doutoranda em neurociência na Albany Medical College, Nova Iorque. Tradução livre)

Seja qual for o estilo do seu orientador, sempre há algo que você pode aprender sobre a forma como ele conduz suas pesquisas e orienta seus alunos. Mesmo que seja um contra-exemplo!

6) Lembre-se de que você é bom o suficiente para estar na pós-graduação.

A pós-graduação pode ser muito ruim para a saúde mental. Você tem o desafio de fazer uma pesquisa rigorosa, com o adicional de dar aulas e procurar por financiamento. Some-se a isso o estresse pessoal por muitas vezes estar em uma cidade nova, distante de sua família e amigos. E fazendo tudo isso com um orçamento apertado. Tudo isso facilita pensar que não somos bons em ciência, ou para a vida acadêmica ou que não somos bons o suficiente para qualquer uma dessas coisas.

Por isso, é importante fazer o que for preciso para não entrar na síndrome do impostor. Tenha alguém que te anime – um parceiro, amigo, familiar – para te lembrar o quão esperto, motivado e trabalhador você é. Aceite o elogio, porque é verdade. E lembre-se de que todos estamos ‘fingindo até se tornar realidade’. Algumas pessoas se sentem bem ao dizerem para si mesmas que elas sabem tudo. Mas, qualquer acadêmico sabe que, o que sabemos, ainda é pouco comparado com o que ainda há para ser descoberto.” (Alyssa Frederick, doutoranda em fisiologia na Universidade da California – Irvine. Tradução livre).

Tentei ser fiel à tradução (como diriam os italianos, traduttoretradutor – tradutor, traidor), mas é preciso algum cuidado com essa ideia de ser “bom o suficiente”. Em caso de dúvida, procure lembrar-se do que o motivou a entrar nessa jornada 🙂

Fonte: http://www.sciencemag.org/careers/2017/09/what-know-starting-your-phd-program?utm_campaign=news_weekly_2017-09-08&et_rid=174537264&et_cid=1535895

 

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Dica de filme: “Quanto tempo o tempo tem?”

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Documentário nacional, dirigido por Adriana Dutra e Walter Carvalho (2016), trata da história de nossa percepção acerca do transcorrer do tempo.
Mas, por que esta postagem no blog de estudantes de Demografia?
O roteiro abrange questões como as mudanças nas fases da vida, o aumento da expectativa de vida, a revisão das idades esperadas para se dedicar aos estudos, ao trabalho e à aposentadoria. Um debate sobre o tempo cronológico, biológico e social: e o que podemos esperar dessas transformações em nossas vidas.

Trailer no Youtube.

Para quem tiver acesso, o filme completo está disponível no Netflix.

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Brasil tem nona maior taxa de homicídio das Américas, diz OMS

Publicado em: https://nacoesunidas.org/brasil-tem-nona-maior-taxa-de-homicidio-das-americas-diz-oms/ .

O Brasil tem a nona maior taxa de homicídio das Américas, com um índice de 30,5 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo dados de 2015. A informação consta de novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado nesta quarta-feira (17).

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Foto: Índice de homicídios no Brasil é o nono maior das Américas Foto: Agência Brasil/Fernando Frazão

O Brasil tem a nona maior taxa de homicídio das Américas, com um índice de 30,5 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo dados de 2015. A informação consta de novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado nesta quarta-feira (17).

Entre os países das Américas, o Brasil só é menos violento que Colômbia (48,8), Venezuela (51,7), El Salvador (63,2) e Honduras (85,7). Apesar disso, o indicador brasileiro teve leve melhora frente ao ano anterior, quando estava em 32,4.

De acordo com o documento, a situação do Brasil no que se refere ao número de homicídios proporcional à população é pior do que de países como Haiti (28,1) e México (19), cujos índices, apesar de altos, são inferiores aos brasileiros.

Em relatórios anteriores, a OMS já havia afirmado que um dos principais impulsionadores das taxas de assassinato no mundo é o acesso a armas, com aproximadamente metade de todos os homicídios cometidos com armas de fogo.

O Canadá tem as menores taxas de assassinatos das Américas, com um índice de 1,8 homicídio para cada 100 mil habitantes. Outros países no topo da lista entre as menores taxas incluem Chile (4,6), Argentina (4,7), Cuba (4,9), Estados Unidos (5,3) e Uruguai (7,6).

O documento apontou ainda que as taxas europeias são significativamente inferiores às das Américas, com grande parte dos países registrando índices menores de 1 para cada 100 mil habitantes. De acordo com o documento, a taxa de homicídios na Alemanha é de 0,7 para cada 100 mil habitantes, enquanto na Espanha é de 0,8.

A OMS estima que ocorreram 468 mil assassinatos no mundo em 2015, uma queda de 19% frente ao ano 2000. De acordo com a agência da ONU, outras 152 mil pessoas foram mortas em guerras e conflitos em 2015, o equivalente a cerca de 0,3% das mortes no mundo naquele ano.

Do total de homicídios cometidos em 2015, 80% das vítimas eram do sexo masculino. Os homens na região das Américas registraram a maior taxa do mundo, com índice de 32,9, 12 vezes maior que a taxa na região do Oeste do Pacífico, que inclui países como Austrália.

Os dados fazem parte do relatório “Estatísticas Globais de Saúde: Monitorando a Saúde para os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável)”.

Clique aqui para acessar o relatório completo.

Fonte: https://nacoesunidas.org/brasil-tem-nona-maior-taxa-de-homicidio-das-americas-diz-oms/

 

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Demografia e Educação VI – E o tal bônus demográfico?

Por Flávia Longo

Este é o sexto de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais. Hoje a ideia é problematizar a noção de bônus demográfico.

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Muito provavelmente você já ouviu a expressão “bônus demográfico”. Se você passou recentemente pelo Ensino Médio, deve ter visto nas aulas de Geografia ou de Sociologia, talvez associado à aula sobre Transição Demográfica. Se você já saiu da escola há um tempinho, deve ter se deparado com o bônus em alguma conversa ou talvez tenha lido em alguma matéria sobre a Previdência Social.

Mas, do que se trata mesmo esse bônus?

Existe um momento único da história de uma população em que a proporção de crianças e idosos é menor quando comparada à população de jovens adultos e adultos. O número de crianças diminui devido à queda da fecundidade e o grupo etário dos mais velhos, em função do aumento da expectativa de vida, vai crescendo em menor ritmo. Isto significa dizer que durante algumas décadas a população terá mais pessoas em idade potencialmente produtiva e menos em idades consideradas dependentes.

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envelhecimento.jpgVocê sabia que existe envelhecimento populacional relativo e envelhecimento absoluto?

O envelhecimento absoluto é o mais intuitivo e trata-se do aumento da média de expectativa de vida. O envelhecimento relativo, fruto da queda da fecundidade, é quando o peso proporcional dos idosos é maior em relação ao restante da população.

Fonte da imagem: http://www.revistapanoramahospitalar.com.br/2013-10-conahp-debate-envelhecimento-populacional-nesta-semana-746

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Para efeitos de cálculo, assume-se o grupo de crianças e adolescentes (0-14 anos) e de idosos (65 anos ou mais) como a parcela dependente da população e toma-se o grupo etário intermediário (15-64 anos) como a população em idade ativa ou que, teoricamente, teria condições de perfazer a força de trabalho. O professor José Eustáquio Diniz Alves (ENCE/IBGE) nos lembra que essa divisão é arbitrária. Existem outras formas de mensurar o bônus demográfico, dentre elas, a estimativa por meio da razão entre produtores e consumidores.

Quando a proporção de pessoas no grupo de 15-64 anos é maior do que os outros dois juntos (0-14 e 65+) ocorre a então denominada janela de oportunidades demográfica. Essa ideia foi trabalhada pelos professores Laura Wong e José Magno de Carvalho (CEDEPLAR/UFMG) no texto que hoje é referência para muitos demógrafos: “Uma janela de oportunidades: algumas implicações demográficas e socioeconômicas do rápido declínio da fecundidade no Brasil” (tradução livre).

De janela de oportunidades para bônus demográfico, está implícito que esse momento populacional teria uma conotação positiva. A palavra “oportunidade” vem da expressão ob portus – os ventos favoráveis que auxiliavam as embarcações a atracarem em seu porto de destino. Ou seja, esse momento populacional configura uma situação favorável, sobretudo para o crescimento econômico e para o ajuste do sistema previdenciário.

Mas, há que se relativizar o atributo de bônus. A ideia de bonificação pressupõe que toda a população ativa esteja em condições de produzir e gerar riquezas. Podemos nos questionar, principalmente, a definição de idade produtiva para o intervalo de 15-64 anos. Quantos desse grupo não estão tendo condições de trabalhar? Quantos aposentados permanecem no mercado de trabalho, porque a aposentadoria não é suficiente para cobrir as despesas? E quantos permanecem porque são extremamente saudáveis e ativos? Quantas crianças e adolescentes precisam conciliar escola e trabalho para ajudar no sustento familiar?

Além da dimensão econômica, a ideia de aproveitamento do bônus também perpassa outras questões. Nossa proposta aqui é explorar um pouco a relação com a Educação. Dentro de uma lógica neoliberal, podemos pensar que a escolarização é pré-requisito de qualificações exigidas pelo mercado de trabalho. Ainda que a escolaridade não seja mais garantia de ocupação no mundo do trabalho, não tê-la pode caracterizar uma situação ainda mais complicada… Outro aspecto a ser mencionado é o tipo de ensino ofertado. A quem se destinam as vagas nos cursos técnicos? E no Ensino Superior? Será que o bônus não teria também suas desigualdades internas?

Quando pensamos em bônus, pensamos também no potencial  da população de adolescentes e jovens. Para que isso se converta em força de trabalho (qualificada) é preciso, antes de mais nada, que essas pessoas estejam vivas. Pode parecer cômico, até mesmo óbvio. Mas, o aproveitamento do bônus requer também que olhemos para as estatísticas de violência e de mortalidade, sobretudo, dentre os jovens. Por exemplo, em trabalho sobre o México, o pesquisador do Colégio do México (COLMEX), Victor Guerrero indicou que o bônus mexicano tem sido perdido para o narcotráfico.

Bourdieu disse que juventude é apenas uma palavra. E como tal, seu significado muda de acordo com o contexto histórico. Hoje, a juventude é também um segmento etário que define, por exemplo, o direcionamento de políticas públicas. E em se tratando de bônus, é preciso uma análise mais compreensiva e abrangente acerca da condição juvenil. Não apenas capacitá-los para ocuparem uma posição no mercado de trabalho (e de consumo) – ou garantir que o mercado tenha condição de absorvê-los. É preciso ainda ouvir suas demandas, mesmo que elas estejam nas entrelinhas. No entanto, as estatísticas mostram: a primeira delas é o direito à vida. Com alguma dignidade, se possível.

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No Brasil a janela de oportunidades está prevista para começar a se fechar a partir de 2030, que é quando a proporção de idosos começa a crescer em relação ao restante da população. Há ainda pesquisadores que tratam da existência de um segundo bônus demográfico, proveniente da melhoria das condições de vida, que permitiria um maior tempo de vida produtiva. Diferente do primeiro, o segundo bônus não teria prazo para terminar.

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Fonte da imagem (image source): http://www.csstoday.com/Item/538.aspx

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Para saber mais:

Pesquisa da ONU sobre o que querem os jovens latino americanos

Pesquisa sobre a relação entre evasão escolar e aumento da violência em Porto Alegre

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

 

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Demografia e Educação V: Como a educação interfere nas dinâmicas de população? Fecundidade

Por Flávia Longo

Este é o quinto de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais. A ideia aqui é trazer algumas reflexões e possibilidades na abordagem entre educação enquanto nível de escolaridade e a fecundidade.

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Retomando o primeiro texto da série, lembro aqui que muitas vezes a relação estabelecida entre Demografia e educação pode ser dialética. De um lado, os níveis educacionais podem interferir sobre o nível da fecundidade (número de filhos por mulher); por outro, o próprio regime de fecundidade pode delinear a população potencial que demandará por vagas no sistema escolar. Nesse sentido, a queda da fecundidade seria um facilitador da expansão da cobertura educacional, pois tenderia a aumentar o investimento per capita (essa afirmação é muito comum nos estudos que avaliam o bônus demográfico; no entanto, é passível de inúmeras críticas – tema da nossa próxima conversa!).

A pergunta do título se insere no primeiro grupo de relações. Acontece que as categorias de níveis educacionais são marcadores que diferenciam o comportamento, o nível e o padrão das variáveis demográficas – o que inclui a fecundidade. Diversos estudos apontam para a correlação negativa entre fecundidade e nível de escolaridade, isto é, uma alta escolaridade estaria associada a um menor número de filhos e vice-versa.

Uma ressalva a ser feita é que a escolaridade, sozinha, não é responsável por explicar a diferença do número de filhos por mulher. Por exemplo, se tomarmos a educação como credencial necessária para o acesso ao mercado de trabalho, podemos supor que existe uma intersecção entre nível de escolaridade e renda. Logo, o nível e padrão da fecundidade também seriam influenciados pela participação e ocupação das mulheres no mundo do trabalho. Essas duas variáveis, educação e renda, também são corresponsáveis pela determinação da região de residência, pelo tipo e qualidade dos equipamentos de saúde a que as pessoas tem acesso. Não podemos esquecer ainda os diferenciais por cor: as chances de escolarização e de tipo de ocupação são desiguais entre brancas e negras.

A correlação entre escolaridade e número de filhos pode ser utilizada para sustentar discursos sobre os “problemas” em se ter filhos em idades muito novas, onde seria esperado que a fase da vida fosse dedicada integralmente aos estudos. Isto, pois o primeiro segmento etário nos cálculos de fecundidade (15-19 anos) é composto por mulheres com maiores chances de estarem também perfazendo a população de estudantes. O nível de instrução está associado às diversas transições que uma pessoa vivencia ao longo da vida, dentre elas, a transição para a maternidade, caracterizada pelo nascimento de um primeiro filho.

No entanto, mesmo a gravidez na adolescência precisa ser analisada com parcimônia, pois em determinados contextos sociais, a maternidade caracteriza uma maturidade que garante às jovens algum status social – por vezes mais valorizado do que a própria escolaridade.

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Em um trabalho considerando os dados dos censos demográficos brasileiros (IBGE), de 2000 e de 2010, as pesquisadoras Elza Berquó e Susana Cavenaghi registraram as diferenças da fecundidade entre os grupos etários. A redução da fecundidade observada no período  deveu-se, sobretudo, à contribuição da parcela das mulheres mais pobres e menos escolarizadas. As autoras atentam para o cuidado em se olhar esses dados: a informação sobre o nível de escolaridade corresponde ao momento da pesquisa do censo e não do momento do nascimento do filho. Outro fator importante é que mulheres expostas às taxas de maior fecundidade, e que no entanto puderam melhorar seu status escolar, levam consigo uma taxa de fecundidade elevada dentre grupos de mulheres mais escolarizadas.

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Por fim, sendo a fecundidade a variável que mais explica as mudanças nos cenários de projeções populacionais, pesquisadores do Instituto Internacional para Análise de Sistemas Aplicados (IIASA, Áustria) consideraram as diferenças de escolaridade nos exercícios de projeção. A tese é que a educação tem papel determinante no ritmo do crescimento populacional, e que quanto mais crescem os níveis educacionais, menores são as taxas de fecundidade, o que implica na redução do tamanho da população. A título de ilustração, segue abaixo um gráfico da estimativa do total da população por nível de escolaridade:

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Fonte (source): https://blog.iiasa.ac.at/2014/09/23/9-billion-or-11-billion-the-research-behind-new-population-projections/

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Para saber mais:

Release do livro organizado por Wolfgang Lutz (2014) com projeções populacionais para 195 países no período 2010-2100. As estimativas foram realizadas segundo sexo, idade e nível de escolaridade: World Population and Global Human Capital in the 21st Century.

Texto sobre Educação, crescimento populacional e bem-estar humano.

Educação – e não fecundidade – como chave para o desenvolvimento econômico“.

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

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Demografia e Educação IV – Por que filhos tendem a superar a escolaridade de seus pais?

Por Flávia Longo

Este é o quarto de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais. Hoje o teor é um pouco diferente, pois conto um pouco da minha trajetória pessoal.

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Foi com a pergunta do título que dei início a minha pesquisa do mestrado (2013-2015). Ao longo de dois anos, com orientação e aulas de metodologia ela foi sendo lapidada, aprimorada aos moldes requeridos pelo fazer científico. Mas, a essência é esta. Existe uma tendência mundial de que as gerações mais novas consigam estudar tanto quanto ou mesmo superar a escolaridade das gerações anteriores. Falo em tendência, porque não é uma regra absoluta – e ainda são muitos os casos de “imobilidade”, ou seja, quando diferentes gerações, pais e filhos, permanecem com o mesmo status de nível de escolaridade.

Acontece que essa pergunta de partida poderia ter sido respondida dentro de uma pós em Economia, ou Sociologia ou mesmo alguma área da Educação. Por que optei pela Demografia?

livros

Entrei em contato com as pesquisas em Demografia, em 2010, na linha de pesquisa sobre Família, Gênero e População, por meio de um projeto que investigava as mudanças nas famílias no Brasil. Foi quando aprendi sobre as transformações no tamanho e na composição das famílias e dos domicílios, e me perguntei se estas transformações teriam alguma relação com a melhoria das oportunidades de escolarização das crianças e jovens. A literatura há muito sinaliza que a escolaridade da mãe é positivamente correlacionada com a escolaridade dos filhos, e inversamente relacionada ao número de filhos tidos. (Há exceções: mulheres muito escolarizadas protelam o nascimento dos seus filhos para poderem se dedicar a sua formação e ao trabalho. Quando decidem ter filhos, tem dois ou três em um curto período de tempo).

A entrada teórica e conceitual não era exatamente demográfica. Tratava com teoria de estratificação social (alô Marx, alô Weber, alô Boudon!), disponibilidade de capital humano, social, cultural e financeiro (alô Bourdieu!), reprodução social (alô Durkheim!) e os efeitos da família e suas transformações (alô Ariès, alô Becker!). E foi neste último eixo teórico que se estabeleceu a ponte com as mudanças demográficas e a principal crítica ao trabalho.

As mudanças no perfil da fecundidade e a redução dessas taxas foram corresponsáveis pela diminuição do tamanho das famílias. Existe toda uma discussão sobre a razão do declínio da fecundidade, que envolve a transição urbana, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, as legislações sobre casamentos, uniões e divórcios, o próprio aumento da média da escolaridade…

Um risco em se assumir a redução da fecundidade para ajudar a responder à pergunta é o de reificar um modelo onde famílias pequenas e poucos filhos são o ideal. Isto pode ser acusado de sustentar uma lógica economicista onde muitos filhos podem ser sinônimos de dificuldades econômicas. Eles competiriam pelos recursos escassos, sendo que seu sexo ou mesmo ordem de nascimento poderiam justificar seu acesso aos estudos. Por exemplo, em pesquisa sobre mobilidade educacional em Taiwan, as meninas eram destinadas ao casamento, sendo que o filho mais velho era o que tinha mais chance de ser enviado para a escola. No Brasil, em um passado recente, já foi observado o contrário: as meninas teriam mais chance que os meninos, e os filhos mais novos teriam melhores condições de frequentarem a escola. Mas, se voltarmos nosso olhar para um passado mais distante, veremos que as meninas tinham poucas chances de estudar, que as condições para frequentar a escola eram um privilégio e quando muito, os filhos homens das classes mais abastadas é quem poderiam estudar e almejar uma formação no Ensino Superior.

Essas mudanças no contexto histórico perfazem outras variáveis que ajudariam a explicar as chances de um filho ou filha estudar mais que seus pais. Cada geração foi formada em um período específico, com legislações de acesso e obrigatoriedade escolar próprias, com composição familiar única. Estas características todas dialogam com uma abordagem muito cara à Demografia, que é a de curso de vida, das trajetórias estudantis, laborais e familiares – que não podem ser analisadas sem a observação dos tempos cronológico e social (tema para outra conversa! Tive o privilégio de cursar uma universidade pública. Meu pai fez faculdade particular em idade mais avançada, minha mãe se formou também em instituição privada, no ano em que ingressei no ensino superior. Meus avós paternos tampouco cursaram o grupo escolar, minha avó materna só pode estudar depois que se aposentou e se formou na faculdade em 2011 e hoje, aos 68 anos cursa pós-graduação. A minha história familiar ilustra pelo menos dois pontos: de que o nível de escolaridade não é estático e eles podem mudar ao longo da vida e, que mesmo a noção de superação da escolaridade dos mais velhos precisa ser relativizada).

Vemos que não apenas a redução da fecundidade poderia explicar as chances de escolarização, mas também as políticas públicas, a região de residência, a idade da mãe e mesmo a cor das pessoas – sim, no Brasil, a herança de um período colonial-escravista deixou profundas marcas de desigualdade que ainda permanecem. Outro aspecto que interfere na análise da mobilidade educacional é a natureza dos dados. No Brasil, a maioria dos dados disponíveis para este tipo de estudo são transversais, isto é, são uma fotografia de um determinado momento e não captam as dinâmicas da trajetória educacional. Mas, nem por isso podem ser desprezados. Uma fonte muito utilizada é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE), que em 1996, teve um suplemento especial sobre mobilidade social. Logo abaixo, deixo a indicação de duas pesquisas sobre esse tema no país e uma pesquisa internacional sobre a transição entre escola e trabalho, feita pela Organização Internacional do Trabalho com dados longitudinais e que também captam a mobilidade educacional.

 

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Para saber mais:

FERREIRA, S.G.; VELOSO, F.A. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil. (artigo).

PASCHOAL, I.P. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil (dissertação).

ILO. School to Work Transition Survey.

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Outros textos da série:

Texto 1

Texto 2

Texto 3

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

 

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