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Desastres no nosso Pa-tropi ??!!

Desastres no nosso Pa-tropi ??!! artigo de César Marques

[EcoDebate] Era inverno de 1969. Plena ditadura militar. O AI-5, ato mais feroz daquele governo, já havia saído do forno e sua primeira ação seria o fechamento do Congresso Nacional, em outubro daquele ano. Se na política a tensão era grande, na cultura os artistas brasileiros produziam cada vez mais. Naquele inverno de 1969 essa efervescência levou Wilson Simonal a gravar uma das músicas mais famosas escritas por Jorge Ben: País Tropical. Seus versos proclamavam em alto e bom som uma versão ufanista do Brasil, o País Tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza! E quem vai discordar? Quem chega ao Rio e não se impressiona com suas praias recortadas por maciços de rocha que formam paisagens raríssimas em meio a um centro urbano dessa dimensão? Ou quem sobrevoa a Amazônia e vê a floresta “sem fim”? E as praias de águas quentes e recifes do Nordeste? Os lençóis maranhenses? A Serra da Canastra, a Chapada Diamantina, as grutas e cavernas de Bonito… Parece uma lista sem fim do “bonito por natureza”…

Mas nem todo mundo concordou com o carioca de Madureira. Juca Chaves gravou sua resposta em “Take me back to Piauí”, cantando para quem quisesse ouvir: “Adeus paris tropical, adeus brigite bardot… o champanhe me fez mal, caviar já me enjoou”. Jorge Ben retrucou ao seu estilo com a música “Cosa Nostra”. A música dizia, em um quase tom de ameaça: “mas o que vai, vai, o que vai, vem”. E reafirmava: “é cosa nostra, esse sol de 40 graus, é cosa nostra, o peixinho da lagoa, é cosa nostra, esse Pa-tropi, esse Pa-tropi…”. Jorge Ben foi acusado de estar do lado dos militares, de ser delator ao DOPS. Juca Chaves era crítico da ditadura. Nessa briga de peixe grande (e não de peixinho de lagoa), ninguém lembra da música do Juca, já o Jorge, foi regravado e por todos os cantos ouvimos a proclamação do país bonito por natureza…

Mas o que essa visão esconde são as catástrofes que ano após ano passamos. Se a beleza do país é “natural”, a “naturalização” das desastres que vivemos de Norte a Sul, ano após ano, só propaga uma visão míope sobre esses desastres.

Em 2014, as cheias que ilharam o Acre, principalmente com a interdição da BR-364 (que liga o Estado a nada menos do que todo o resto do país), trouxeram prejuízos que foram estimados em mais de R$200 milhões, como noticiou O Estado de São Paulo. Foram mais de 2 meses sobre as águas, que também atingiu outros áreas, como Roraima. Mas parecia que esse evento mostrou uma realidade que é distante do eixo Sul-Sudeste. Alguém lembra de ter visto notícias falando sobre a melhora da situação ali? Ou sobre como as pessoas estão fazendo para se recuperar das enormes perdas que tiveram? Por esses lados, muito pouco se fala disso. Parece importar mais a indignação do governo de São Paulo com a chegada de haitianos que supostamente foram enviados pelo governo do Acre.

Mas agora, mesmo que tardiamente, as cheias chegaram no eixo Sul-Sudeste. Meses após o término do verão, período de maior pluviosidade nessa região, os Estados do Paraná e de Santa Catarina tiveram grande parte de suas áreas alagadas nesse início de junho.

No Paraná já se fala em mais de 20 mil pessoas deixando suas casas, 500 mil sendo afetados e já são 77 municípios que decretaram situação de emergência. O pior, já são 10 mortos em função das enchentes. Em Santa Catarina foram 21 municípios em situação de emergência, cerca de 120 mil pessoas atingidas e duas mortes.

E quem morre não necessariamente morre por afogamento. Os riscos de choques elétricos aumenta e os deslizamentos e desabamentos também ficam mais frequentes. Isso sem dizer nos problemas de saúde física e emocional que emergem depois que “o pior já passou”.

É necessário parar de pensar que a culpa é da natureza, e que estamos livres de grandes catástrofes. Quantos morros do Bumba ou tragédias em regiões serranas serão necessárias? O recalque, que tem sido difundido no funk, tem que ser pensado na sua outra dimensão, que não faz parte desse mundo onde parece que só existe a ostentação. No campo dos riscos, esse é o recalcamento que significa a recusa inconsciente dos riscos, através da resistência em admitir as imagens, os acontecimentos, as lembranças e as representações do perigo, como mostra o excelente artigo de Amaro (2003).

Mas a necessidade de assumir o risco não é nova. Em 1755, quando um terremoto de grandes proporções atingiu Lisboa, a discussão sobre o que teria causado o mesmo levou dois dos maiores pensadores da história recente, Voltaire e Rousseau, a uma polêmica que permanece até hoje sobre as causas do mesmo. Para Voltaire a natureza explicava o terremoto. Rousseau discordou: se a cidade está em uma zona sísmica, quem ocupou a cidade é o responsável: a própria sociedade! Como o sociólogo Max Weber disse, é necessário passar da ética da fatalidade à época da responsabilidade (para os interessados nessa discussão, Linayo (2012) e Amador (2007) as fazem com maior detalhe).

No Brasil, a academia e as ciências sociais já tem em sua agenda de pesquisa desse desafio.

Uma das publicações mais recentes e atuais sobre o tema é o livro “Segurança Humana no Contexto de Desastres”, de acesso gratuito. Organizado por Roberto do Carmo (UNICAMP) e Norma Valêncio (UFSCAR), o livro traz uma perspectiva crítica sobre o que são os desastres, suas causas, consequências e as respostas a eles. Mas mais importante que isso, ele é resultado de um trabalho de parceria entre cientistas e agentes que atuam diretamente nos desastres, como profissionais da Defesa Civil, Assistência social, Ministério Público, Ministério da Defesa, entidades da sociedade civil e Ongs.

Outros exemplos de questões importantes para a compreensão dos desastres no Brasil são os relatórios sobre Vulnerabilidades e Megacidades produzidos para as regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Essas obras são fundamentais para a compreensão dos mecanismos de produção das cidades brasileiras. Elas são excludentes e desiguais socialmente, e ambientalmente não levaram em consideração que, uma vez ocupadas, áreas de cheias de rios e deslizamentos de encostas vão, mais cedo ou mais tarde, sofrer com os efeitos dos riscos ambientais.

Mas e o nosso Pa-tropi? Como fica? Nesse caso, assumir o recalcamento da nossa consciência coletiva é fundamental. Não só para evitar as grandes tragédias e desastres, como também para conhecer melhor as dinâmicas ambientais nas cidades, incentivando um modelo de ocupação que permita a promoção de ambientes mais seguros, e também para que assumamos que é necessário conviver com o risco, ou seja, nos adaptarmos sem que riscos venham a ser desastres.

Enfim, como disse Jorge Bem, “Mas o que vai, vai, o que vem, vem…”.

REFERÊNCIAS

AMADOR, F. O terramoto de Lisboa de 1755: colecções de textos do século XVIII.História, Ciência, saúde. Manguinhos, vol.14, no.1, Rio de Janeiro, Jan./Mar., 2007.

AMARO, Antonio. Para uma cultura dos riscos. Territorium. Coimbra, 2003.

LINAYO, A. Aproximaciones a la problemática de lós desastres desde tres concepciones de la relación hombre-naturaleza. Revista Académica e Institucional, Arquetipo de la UCP, 4, pp.39-42, 2012.

César Marques, Doutor em Demografia (NEPO/UNICAMP). Atualmente é Professor e Pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE). Apresenta suas opiniões em caráter pessoal.

EcoDebate, 17/06/2014

http://www.ecodebate.com.br/2014/06/17/desastres-no-nosso-pa-tropi-artigo-de-cesar-marques/

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2 Comentários

Arquivado em César Augusto Marques da Silva, Mudanças ambientais globais, População e Ambiente, População e Espaço, Urbanização

Alguns dos maiores muros do mundo! (E seus significados…)

Em edição on-line de meados de novembro, o jornal The Guardian trouxe um retrato de alguns dos maiores e mais importantes muros que foram e estão sendo construídos em todo o mundo. O Brasil recebeu destaque com um muro privado e cheio de simbolismos: o muro do Alphaville de Barueri, com seus aproximadamente 65km lineares construídos.

Além de trazer as histórias dos muros em si, a reportagem buscou ouvir histórias de pessoas com vidas marcadas pela separação que essas construções trazem. São relatos impressionantes sobre a vivência na fronteira murada dos 555km entre México e Estados Unidos, dos 500km construídos pelos israelitas na área de conflito com a palestina, dos 250km que dividem as Coréias do Sul e do Norte e dos mais de 4000 km que estão sendo construídos pela Índia ao redor de Bangladesh, dentre outros. São retratos impressionantes, relacionados a história recente da migração internacional, da xenofobia, dos conflitos étnicos e das profundas desigualdes econômicas e territoriais ao redor do globo. Vale a pena conferir!

http://www.theguardian.com/world/ng-interactive/2013/nov/walls#intro

Reproduzimos abaixos alguns dos trechos de relatos daqueles que cotidianamente vivem ao redor do Alphaville brasileiro (em tradução livre):

C. L., 60 anos , construtor.

” Nossas cercas reduzem drasticamente o risco de arrombamentos. Elas não podem ser cortadas, derrubadas ou escalas. São perfeitas… E não há nenhum risco para a vida pelo choque.”

H. K. e R. F., empresários e residentes do Alphaville.

“É como viver no campo. Todo mundo conhece todo mundo. É um belo lugar e os padrões de educação dos moradores são mais altos que a média. Em um mundo perfeito , isso não seria necessário. Paredes aumentam as divisões sociais, mas estou feliz em morar do lado certo delas. Se eu acordar e perceber que o muro desapareceu de repente, minha vida iria mudar totalmente. Eu ficaria triste e preocupada porque iria perder a paz de espírito de saber que os meus filhos podem ir e vir com segurança. Acho que procuraria outro condomínio. “

D. C., jardineiro.

Douglas Cunha

“Alphaville é ali, o Alfavela é aqui. Os ricos estão dentro e os pobres fora. É um problema. É complicado. Eu gosto dos condomínios, eles são bonitos. As pessoas para quem eu trabalho não são muito amigáveis.

A. O., 21, residente de Alphaville.

Antônio De Oliveira, 21, resident

“Há um preconceito contra as pessoas pobres em razão da forma em que moradores são separados dos trabalhadores. Quando os trabalhadores vêm aqui, eles têm que passar pela segurança, como em um aeroporto. Isso me lembra do apartheid…”

Quando eu morei na cidade por alguns meses, eu me sentia livre, porque não é natural para viver em um condomínio, onde você tem que dirigir quilômetros até chegar na loja mais próxima.

É um lugar que distancia os moradores da realidade. Meus próprios pais chamam o lugar do Show de Truman.”

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