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Setembro Amarelo: seleção de links com dados sobre suicídio

A mortalidade é uma dos eventos que mudam a estrutura e a composição de uma população – por isso, é um tema muito caro aos demógrafos. Dentre as diversas classificações por causa de morte, encontra-se o suicídio (lesões autoinfligidas).

Contudo, por trás da estatística existem nomes, histórias de vida. E aí entra a dimensão mais humana do tema, sobretudo quando aumenta a taxa de suicídio entre os jovens, como bem lembrou a pesquisadora Elza Berquó.

Sensíveis à campanha do Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, deixamos aqui alguns links sobre o tema. O primeiro deles refere-se ao I Boletim Epidemiológico sobre Suicídio, publicado ontem pelo Ministério da Saúde:

Aqui, o link oficial da campanha, com o slogan “Falar é a melhor solução”.

Dados sobre suicídio no Brasil e no mundo podem ser encontrados em:

 

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35% dos resgatados em ações de combate ao trabalho escravo são imigrantes

O agronegócio é o setor que mais apresentou ocorrências, seguido da construção civil
 
Luís Felipe Aires Magalhães* e Lidiane Maciel**
Brasil de Fato | São Paulo (SP), 29 de Março de 2017
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De 2.237 trabalhadores resgatados por meio das ações do MTE, 394 (35%) eram trabalhadores imigrantes / Missão Paz

Durante o primeiro seminário do ciclo de Diálogos no Centro de Estudos Migratórios (CEM) de 2017, que aconteceu na última sexta (24) na Missão Paz, no centro da capital paulista, o auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em São Paulo, Renato Bignami, apresentou dados relativos às ações de fiscalização e de combate ao trabalho escravo empreendidas pelo MTE no estado entre 2010 e 2016, relacionando-os com migração. O tema escolhido era “Trabalho escravo e migrações”.

Neste período, de todos os trabalhadores que foram resgatados por meio destas ações do MTE, 35% eram imigrantes. Dados de nacionalidade e sexo do resgatado não são disponíveis.

Segundo ele, o setor que mais foi alvo das ações fiscais do MTE no estado de São Paulo neste mesmo período foi o de confecção e vestuário (36% das ações), seguido da construção civil (20%), agricultura (13%) comércio varejista de vestuário (8%) e produção florestal (8%). Juntos, apenas estes cinco setores respondem por 85% das ações de combate ao trabalho escravo em território paulista.

No entanto, o que mais apresentou ocorrências de trabalho análogo ao escravo foi o do agronegócio (188 empresas e 2.583 trabalhadores nesta condição), seguido da construção civil (17 empresas e 196 trabalhadores), segundo a procuradora Tatiana Leal Bivar Simonetti, do Ministério Público de São Paulo (MPT/SP), que apresentou dados da Lista Suja do Trabalho Escravo (2017). Os dois setores são os que mais admitiram trabalhadores haitianos entre 2010 e 2014 em nosso país, se tomamos como referência a cadeia da agropecuária e seus abatedouros.

É importante lembrar a forte participação de mão-de-obra de migrantes nacionais, especialmente nordestinos no corte de cana-de-açúcar e colheita da laranja. Na cidade de São Paulo, o setor têxtil adquire predominância na lista, com 11 empresas e 122 trabalhadores. Bolivianos, peruanos e paraguaios se apresentaram como as vítimas da vez.

No seminário, esses dados foram apresentados ao conjunto de entidades da sociedade civil organizada, movimentos sociais, religiosos e grupos de pesquisa de diversas universidades ali presentes as ações de combate ao trabalho escravo empreendidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no estado de São Paulo.

Tipos de execução de trabalho escravo

Segundo o Código Penal Brasileiro, há quatro modalidades de execução de trabalho escravo. A primeira modalidade refere-se ao “trabalho forçado”, a partir da qual o trabalhador ou não se ofereceu espontaneamente ao serviço ou não consegue deixá-lo, caracterizando um regime de servidão no qual a mobilidade do trabalhador é cerceada e posto à serviço do empregador.

A segunda forma é através de jornada exaustiva.  Ela não significa tão somente jornada prolongada, mas também caracteriza aquelas circunstâncias em que o trabalhador está submetido a um grau tão extremo de superexploração de sua força de trabalho em que suas energias não são repostas devidamente, ocasionando danos à sua saúde física e/ou mental. A alta rotatividade existente em muitos setores de atividade econômica e a superexploração da força de trabalho que caracteriza o capitalismo dependente brasileiro dá-nos a real dimensão do quanto essa forma de execução de trabalho escravo pode ser comum em nosso país.

A terceira forma faz menção às condições degradantes não apenas das relações de trabalho em si como também da situação de higiene, saúde, segurança, alimentação e moradia a que os trabalhadores estão submetidos. No campo e nas cidades, ambientes de trabalho e de alojamento insalubres e prejudiciais à saúde do trabalho são, também, elementos que configuram trabalho análogo à escravidão.

A quarta e última modalidade é, desafortunadamente, muito aplicada a trabalhadores migrantes, sejam eles internos ou internacionais: a servidão por dívidas. Inúmeras pesquisas sobre mobilidade no Brasil têm revelado práticas de servidão de trabalhadores migrantes por anos a fio em razão de gastos que o empregador dispende no transporte dos trabalhadores de sua região de origem até o local de trabalho. Parte ou mesmo todo o salário é retido para a compensação destes custos e de “benefícios” que o empregador oferece, como alojamento, alimentação e vestimenta, também estes frequentemente precários.

Nas pesquisas levadas à cabo no Observatório das Migrações no estado de São Paulo, temos percebido múltiplas formas de violação dos direitos trabalhistas e humanos da população trabalhadora imigrante e migrantes internos no Brasil.

Quando se trata dos imigrantes e das quatro manifestações citadas anteriormente, somam-se a alocação discriminatória  nos setores mais pesados da produção, a remuneração ainda menor em relação aos brasileiros e fraudes contratuais que impedem os imigrantes sem domínio do idioma de receber qualquer direito trabalhista pós-demissão.

São trabalhadores que se encontram em alto nível de vulnerabilidade social. Especificamente em relação a imigração haitiana no Brasil, essas e outras violações foram tema da recente publicação do livro “A Imigração Haitiana no Brasil”.

O espectro da terceirização total 

Outro dado interessante apresentado no seminário foi que, para uma População Economicamente Ativa superior a 100 milhões de pessoas, o MTE dispõe de apenas 2.400 auditores fiscais do trabalho. Assim, enquanto aguarda realização de concurso para provimento de mais 1100 vagas abertas, eles se veem diante da insuficiente cobertura do sistema e do combate ao trabalho escravo.

Neste contexto, foi lançada a preocupação com a aprovação da Lei de Terceirização – Projeto de Lei (PL) 4.302, de 1998 –que apresenta ao mundo do trabalho no Brasil um futuro incerto e, possivelmente, mais precário. Paralelamente, são muitas as tentativas de flexibilização dos artigos 149 e 207 do Código Penal Brasileiro, que tipificam o trabalho escravo.

Esses intentos buscam não apenas minimizar combate ao trabalho escravo no Brasil como, ainda, abafar o seu conhecimento e impedir a divulgação dos números do trabalho escravo no Brasil – bem como dos nomes dos empregadores envolvidos. A Lista Suja do Trabalho Escravo de 2017, por exemplo, só pode ser conhecida por meio de decisão liminar da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, obrigando o governo a publicar a relação de empregadores nela contida.

Não nos resta dúvida que a fiscalização, mesmo insuficiente, dos órgãos do governo deve se somar ao trabalho das organizações de trabalhadores, dos órgãos da sociedade civil, dos movimentos populares e das investigações e análises dos grupos de pesquisa das universidades.

A construção de relações mais dignas de trabalho para brasileiros e imigrantes passa necessariamente pelo conhecimento e pela denúncia de suas condições e sujeição ao trabalho escravo no Brasil.

 * Doutor em Demografia pela Unicamp e pesquisador do Observatório das Migrações em de São Paulo

** Doutora em Sociologia pela Unicamp e pesquisadora do Observatório das Migrações em São Paulo

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Fonte: Brasil de Fato (https://www.brasildefato.com.br/2017/03/29/analise-or-35-dos-resgatados-em-acoes-de-combate-ao-trabalho-escravo-sao-imigrantes/?utm_source=bdf&utm_medium=referral&utm_campaign=facebook_share)

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HAITI: do terremoto de 2010 aos processos migratórios contemporâneos – entrevista com Chandeline Jean Baptiste

Chandeline Jean Baptiste é aluna da pós-graduação em Demografia da Unicamp (Mestrado), tem como país de origem o Haiti e sua pesquisa pretende compreender o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos.

Demografia Unicamp – Chandeline, como aluna da pós-graduação em Demografia na Unicamp que tem como país de origem o Haiti, como poderia nos descrever seu percurso até aqui?

ChandieÉ uma longa história. Cheguei ao Brasil em agosto de 2011 por meio de um acordo entre os Ministérios de Educação e das Relações Exteriores do Brasil e do Minisério de Educação do Haiti. O objetivo era participar na reconstrução do Haiti fortalecendo o ensino superior no país.  Foi um programa de 18 meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A ideia era fazer um intercâmbio (graduação sanduíche) durante este tempo. O primeiro semestre foi consagrado à aprendizagem da língua portuguesa. Durante o ano acadêmico 2012, fiz algumas disciplinas isoladas em Geografia e Ciências Sociais, pois já havia concluído a minha graduação lá. Ao mesmo tempo, participei do processo seletivo do nosso programa de pós-graduação em Demografia, e agora estou aqui.

Fiquei muito feliz! Pois quando estava na faculdade lá no Haiti, estudei Ciências Sociais, mas na verdade a gente tinha a maioria das disciplinas de História e Geografia. Depois do terremoto, a Universidade de Poitiers (França) ofereceu duas bolsas em História para os dois primeiros alunos da minha turma (eu era a terceira, por isso não fui aprovada). Estes meus colegas que estão lá na França já estão no primeiro ano de doutorado, e aqueles que ficaram lá no Haiti já terminaram o mestrado em Geografia pela Universidade de Paris 8 [1]. Posso dizer que por causa das falhas do meu programa e talvez por causa da diferenciação nos sistemas escolares dos dois países (Haiti e Brasil), tenho um ano de atraso em relação aos meus colegas. Mas a minha alegria é que serei a única demógrafa da minha turma. E fiquei muito feliz por isso. O Haiti precisa tanto de demógrafos…

 

Demografia Unicamp – Historicamente o Haiti passa por situações bastante complexas em termos econômicos, políticos e sociais. Esta realidade foi ainda mais intensificada após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, que teve proporções catastróficas. Nessa ocasião o palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos e estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe, a capital do país, tenham sido destruídas ou seriamente danificadas. Como você visualiza a realidade haitiana atual? A que passo anda a reconstrução do país?

Se a situação do Haiti já era difícil, o terremoto de 12 de janeiro aumentou muito mais nossas dificuldades.  Atualmente o Haiti ainda está passando por vários problemas (políticos, econômicos, sociais e ambientais).  Como vocês já sabem, durante o terremoto de janeiro de 2010, o país foi destruído totalmente e hoje estamos numa fase de reconstrução. Recomeçaram as aulas, os poucos hospitais que a gente tem estão em funcionamento, a vida recomeçou na capital e no país inteiro. Mas, apesar de esta reconstrução estar ocorrendo demasiadamente devagar, em minhas conversas com os meus colegas que estão no Haiti e no exterior percebo um sopro de esperança em relação ao futuro do país.

Peacekeeping - MINUSTAH

Vista do Palácio Nacional, destruído pelo terremoto.

 

Demografia Unicamp – A realidade econômica do Haiti parece estar na raiz dos grandes fluxos migratórios que se direcionam para diversas partes do mundo. No contexto atual, o Brasil tem sido um dos principais países a receber migrantes haitianos. Qual é sua leitura sobre esses processos? Como eles podem impactar na vida da população haitiana diante da distância física entre os que vão e os que ficam?

Para entender o fluxo migratório recente do Haiti para o Brasil cabe entender a relação que existe entre os dois países desde 1928 (ano que marca o início das relações diplomáticas entre o Haiti e o Brasil). A presença dos militares brasileiros desde 2004 no país também é um fator importante na escolha do Brasil como país de destino. Vale ainda ressaltar que este fluxo de haitianos para o Brasil não é um fenômeno novo, pois antes deste já existia um fluxo composto de jovens estudantes participantes de intercâmbios ou pós-graduandos contemplados com bolsas de estudos dos Ministérios da Educação e das Relações Exteriores – através dos convênios PEC-G e PEC-PG. Estes convênios foram estabelecidos não apenas com o Haiti, mas também com outros países em desenvolvimento, sobretudo com aqueles da África e da América Latina, no âmbito da política de cooperação Sul-Sul. A única diferença é que agora a gente está vivenciando outro fluxo num contexto diferente.

Em minha opinião, os fluxos não têm só a ver com a realidade econômica do país, mas também com a realidade social (busca de melhores condições de vida) e a realidade educacional (buscando novas possibilidades de estudo). Enquanto os estudantes chegaram ao Brasil via rotas legais, após o terremoto, muitos haitianos chegaram pelas rotas ilegais. O que faz a situação desses haitianos se tornar muito preocupante, tal como afirma Foster Brown da universidade Federal do Acre[2]. Para mim, é um processo bem complicado tanto para o Brasil quanto para o Haiti.

Se, por um lado, a entrada em massa dos haitianos na Amazônia mostra a ascensão da imigração internacional para o Brasil, por outro, esse fluxo deve representar uma oportunidade para o país pensar sobre outros tipos de acontecimento, procurando soluções possíveis e formulação de políticas públicas sem esquecer uma política migratória que leve em conta os direitos humanos desses migrantes. Os responsáveis do Haiti, do seu lado, têm de criar novas medidas, novas oportunidades para que os nativos sejam livres para escolher ficar no país ou migrar para exterior. Pois, na maioria das vezes, o migrante haitiano deixa o país em busca de melhores condições de vida.  A migração não deve ser um motivo para fugir dos problemas do país.

De um lado, essa migração pode impactar bastante a vida da população e as remessas [de dinheiro] ajudam muito aqueles que ficam: ajudam na escolaridade, na saúde, no sustento da casa, etc. Do outro, deixa muita saudade e tristeza para os membros da família que permanecem no Haiti.

 

Demografia Unicamp – Conforme dados das Nações Unidas[3] para o ano de 2010 o Haiti apresentava uma população predominantemente jovem, com grande participação relativa dos grupos etários abaixo de 30 anos. Seriam principalmente jovens os grupos populacionais que saem do país atualmente? Já se sabe exatamente qual é o perfil sociodemográfico da população que realiza o processo migratório em termos de sexo, idade e nível de escolaridade?

Ao olhar a pirâmide etária de 2010 da população haitiana, podemos concluir que o Haiti possui uma população muito jovem. Em minha dissertação, estou querendo explicar o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos. Vamos, obviamente, apresentar o perfil desses migrantes. Todavia, minha pesquisa está em andamento, não tenho nenhum resultado ainda. No entanto, pesquisas já realizadas (trabalho dos professores Duval Magalhães e Sidney da Silva [4]), mostram que estes jovens são em sua maioria do sexo feminino e têm idade entre 20 e 35 anos. A escolaridade é de nível médio; alguns já fizeram cursos técnicos e outros atingiram nível superior completo ou incompleto.

População por grupos etários, Haiti – 2010 (em números absolutos)

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Fonte: United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision

 

Demografia Unicamp – Para finalizar, gostaríamos de saber quais são suas impressões sobre a recepção que o Brasil em especial tem realizado em relação aos migrantes haitianos. Em sua leitura, o sonho do emprego e de melhores condições de vida tem se concretizado por aqui? Em que termos ainda precisamos avançar?

Vou tentar responder a essa pergunta com as minhas limitações, considerando as minhas poucas leituras (risos). Como minha pesquisa está em andamento, pretendo ainda fazer um trabalho de campo lá no Acre, mas só em julho deste ano de 2014. A única coisa que posso dizer é que os haitianos que chegaram ao Brasil pela fronteira norte amazônica vieram sem documentação e em um contexto diferente daqueles que chegaram aqui com documentação para estudar ou para trabalhar. Obviamente, eles vão enfrentar dificuldades sérias, tais como a regularização de seus documentos e a obtenção de um emprego, embora seja difícil (especialmente pela língua e pela pouca qualificação). Mas, uma vez passada essa fase, esse sonho que todos têm do Brasil como um país próspero, onde eles podem ter um emprego e melhores condições de vida, começa a se concretizar. Agora a grande questão vai ser a percepção da sociedade face a estes migrantes, já que muitos brasileiros os veem como “mão de obra barata”, de portadores de doenças, etc.

É importante lembrar que migrar é um direito. Não importa a origem, a cor, a raça ou o contexto migratório. Embora os haitianos no Brasil não sejam considerados como refugiados, mas sim migrantes em decorrência de vulnerabilidades sociais – conforme o Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) – todos têm de ter os seus direitos devidamente assegurados

[1] Trata-se de um programa de mestrado em Geografia da Universidade do Haiti em acordo com a Universidade de Paris 8. Neste programa, quem ministra as aulas são alguns professores do Haiti, em sua grande maioria professores que foram formados pela Universidade de Paris 8. Assim, os estudantes assistiam as aulas no Haiti, mas obtinham também um diploma da Universidade de Paris 8.

[2] “Coiotes” conduzem mais haitianos até a fronteira Brasil-Peru. Blog da Amazônia. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/05/15/coiotes-conduzem-mais-haitianos-ate-a-fronteira-brasil-peru/. Acesso em mar. 2014.

[3] United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision, Volume II: Demographic Profiles. Disponível em: http://esa.un.org/wpp/Demographic-Profiles/pdfs/332.pdf. Acesso em mar. 2014.

[4] Haitianos: os novos imigrantes do Brasil. Entrevista especial com Duval Magalhães e Sidney da Silva. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/45912-haitianos-os-novos-imigrantes-do-brasil-entrevista-especial-com-duval-magalhaes-e-sidney-da-silva. Acesso em mar. 2014.

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Documentário Adeus, Haiti, disponível AQUI.

Entrevista – RTV UNICAMP – Catástrofe do Haiti, disponível AQUI.

Haitianos e senegaleses marcham pelo centro de Caxias do Sul, disponível AQUI.

Professores deixam escolas no Haiti para trabalhar até 15h por dia em SP, disponível AQUI.

 

Revisão e edição: Igor Johansen e Flávia Longo (rd.demografia.unicamp@gmail.com).

Para fazer contato com Chandeline Jean Baptiste, utilizar o seguinte e-mail: linoue87@yahoo.fr

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O “visto mochileiro” e as relações franco-brasileiras

Por Gisele Maria Ribeiro de Almeida

Em 12 de dezembro de 2013, na ocasião de uma visita do presidente francês François Hollande ao país, foi assinado um acordo de reciprocidade entre o Brasil e a França que permite aos jovens de 18 a 30 anos se beneficiarem de vistos de permanência com autorização de trabalho para um período de até 1 ano. No Brasil, esse tipo de visto é chamado de “visto mochileiro” e já existe acordo semelhante com a Nova Zelândia desde 2010.

Foi uma solicitação da própria França, que tem esse tipo de parceria, chamado de “Programa Viagens Trabalhos”, com vários outros países, entre os quais: Austrália, Nova Zelândia, Japão, Coréia do Sul, Singapura e Argentina.

A princípio, a ideia de que jovens possam viajar e conhecer países e culturas diferentes assume contornos bastante positivos. É uma forma de se estimular a alteridade, pelo contato com o “diferente”, ao mesmo tempo em que se difunde a diversidade. Uma boa receita para um mundo que tem alimentado cada vez mais racismo e xenofobia.

Por outro lado, a medida permite também pensarmos os impactos para além desse intercâmbio cultural, afinal de contas, jovens franceses poderão vir para o Brasil para viver e trabalhar justamente em um momento no qual o desemprego tem afetado os franceses. A taxa de desemprego na França foi de 9,8% em 2012 segundo dados do INSEE (o IBGE da França), enquanto que no Brasil a taxa ficou em 6%. Entre aqueles que não tinham postos no mercado de trabalho, a taxa de desemprego de longa duração (um ano ou mais) era, entre jovens e adultos de 25 a 49 anos, de 40% em 2012.

Segundo dados da EUROSTAT, agência oficial de Estatísticas da União Europeia, no último quadrimestre de 2013, a taxa de desemprego entre jovens de 20 a 24 anos foi calculada em torno de 20% e entre a faixa etária de 25 a 29 anos a taxa registrada foi de 15%. Ao que parece, a situação da França não tem sido favorável aos seus jovens cidadãos…

Uma pesquisa realizada por uma agência francesa, o Instituto Montaigne, fez uma sondagem junto a estudantes franceses vinculados a universidades de elite, e identificou que quase 80% dos estudantes pretendiam sair da França após o término dos estudos em busca de oportunidades profissionais. Esses dados foram divulgados em um artigo do jornal Le Figaro, intitulado “Os jovens que não veem mais seu futuro na França”[1], que teve chamada de destaque na primeira página do jornal (ver figura abaixo).

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Fonte: http://www.presseurop.eu/fr/content/news-brief/4398601-ces-jeunes-qui-ne-voient-plus-leur-avenir-en-france

A notícia menciona ainda que em 2012, 20 mil jovens franceses, desembarcaram na Austrália, munidos de um “visto mochileiro”. Essa cifra evoca que o acordo bilateral estipula cotas anuais e ainda não se divulgou qual será o número adotado no caso do acordo entre o Brasil e a França. Com a Nova Zelândia, o Brasil estabeleceu o número de 300. Outras exigências deverão ser colocadas, como apresentação de seguro-saúde, além de comprovações de recursos financeiros.

O número que será determinado pelo acordo deveria ser objeto de discussão. Pois, afinal de contas, as amistosas relações França-Brasil estão marcadas por um significativo desequilíbrio de forças, ainda que as autoridades de ambos países insistam em apontar o caráter estratégico das relações franco-brasileiras.

No entanto, as boas relações diplomáticas entre os países mostram-se abaladas quando o assunto é a Guiana Francesa, território ultramarino francês. A imigração brasileira na região tem sido um tema delicado, que se evidencia pela decisão da França em manter a exigência de visto para brasileiros entrar no país a despeito dos esforços políticos e econômicos despendidos na construção da chamada ponte binacional do Oiapoque (a ponte liga o município de Oiapoque do Estado brasileiro de Amapá ao município de Saint George, região de Caiena na Guiana Francesa). Lembrando que em função de um acordo assinado entre o Brasil e a França, que vigora desde 27/06/1996, não há exigência de visto quando se trata de deslocamentos de curta duração (estada inferior a 90 dias) para a França metropolitana, mas para a Guiana Francesa, a necessidade de visto se mantém.

Outro fato que merece ser lembrado refere-se aos dados divulgados pela ONG chamada La Cimade que trabalha com a questão migratória na França. Segundo dados divulgados em relatório da referida ONG, relativo ao ano de 2011, os brasileiros ocupavam a quinta posição no ranking das nacionalidades encontradas nos Centros de Retenção Administrativa franceses, com a proporção 3,3% do total de retidos (806 casos).

No contexto de crise europeia e da falta de dinamismo econômico da França, as chances de um jovem brasileiro conseguir trabalho na França tende a ser muito menor daquelas que um francês pode encontrar no Brasil. O acordo que prevê o “visto mochileiro” entre a França e o Brasil torna-se, nessa perspectiva, um ponto de partida para pensarmos sobre a correlação de forças na política internacional e de como o Brasil parece não perder sua posição desprivilegiada de negociação, mesmo quando aparentemente o jogo está ao seu favor.

Links para notícias:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/12/acordo-permitira-mochileiro-obter-visto-para-passar-um-ano-na-franca.html

http://noticias.terra.com.br/brasil/brasil-e-franca-assinam-acordo-para-visto-mochileiro,670f32a6457e2410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

http://etudiant.lefigaro.fr/les-news/etudier-a-l-etranger/detail/article/enfin-un-visa-pour-les-jeunes-qui-veulent-partir-travailler-au-bresil0-3902/


[1] Em francês “Ces jeunes qui ne voient plus leur avenir en France”. A notícia foi assinada por Caroline Beyer e publicada em 12/12/2013.

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