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O que saber ao começar um doutorado

Algumas dicas para quem está começando.

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Breve publicação da Science (em inglês) traz alguns depoimentos de pós-graduandos. Apesar dos exemplos pertencerem à área de biológicas, as questões valem para quem se aventura no mundo da pesquisa:

1) Não tenha medo, faça perguntas

É OK fazer perguntas. Você precisa fazer perguntas. Um dia eu disse a ele [meu orientador] que eu estava assustada em ter que fazer perguntas, e ele disse ‘Meu Deus, você não precisa se assustar’. Existe muita informação que não podemos saber a fundo, todo o tempo. Então, é OK não saber. E é muito melhor poder perguntar.” (Alexandra Schober, doutoranda em neurociência na Albany Medical College, Nova Iorque. Tradução livre).

Assim como em outras áreas, na Demografia trabalhamos com alguns conceitos bastante abstratos: população estável, população estacionária… qual a diferença mesmo? Pesquise e estude por conta própria – e faça perguntas. Não entendeu ou tem dúvidas se entendeu corretamente? Pergunte!

2) Planejamento é a chave

Quanto tempo este experimento vai levar? E depois? Isso pode esperar até o dia seguinte? […] O mais importante, reivindiquei minhas noites. Agora, ainda que eu me anime com uma ideia nova, eu aprendi como planejá-la sem sacrificar meu tempo fora do trabalho.” (Juliana West, pós-doutoranda no Intituto de Tecnologia da Califórnia, Pasadena. Tradução livre.)

Dificilmente um demógrafo conduz um “experimento”, mas lidamos com bases de dados, modelagens, entrevistas. Sabe o item ‘cronograma’ do seu projeto? Não o menospreze 🙂

3) Cuide de si

Você precisa desenvolver questões que sejam interessantes – e tentar respondê-las. Com sorte, você tem apoio do seu orientador e dos seus colegas. E tudo isso leva algum tempo. Pode ser fácil você se sentir desencorajado quando as coisas não estão indo bem, pois seu senso de personalidade pode se mesclar as suas expectativas de pesquisa. Embora você possa se sentir vulnerável, se você conversar com seus pares, você provavelmente vai descobrir que essas ‘batalhas pessoais’ são recorrentes. Penso que todo mundo, em algum momento, já pensou em deixar a vida acadêmica – até mesmo as estrelas do seu departamento.” (Cecilia Sanchez, doutoranda em ecologia na Universidade da Georgia. Tradução livre)

Válido para qualquer trabalho: permita-se ter outras atividades não relacionadas com a pesquisa. É importante levar os olhos e a mente para passear, ver outras coisas, circular em espaços de arte, lazer, cultura e esportes. E, ao contrário do que possa parecer, não é perda de tempo, não. Ganha-se qualidade no tempo.

 

4) Não tome as falhas dos experimentos como pessoais

Toda vez que um experimento falhava, eu sentia como se fosse minha culpa: ‘eu devo ter feito algo errado, e estou desperdiçando o tempo e dinheiro de todo mundo’. (…) Fale sobre as falhas com seu orientador. Há o medo de que ele diga ‘obviamente você é um péssimo cientista e você não deveria estar aqui’. Mas, isso não acontece . Pelo menos não com a frequência que você imagina. Eles querem que você faça bem o seu trabalho. E é OK quando as coisas dão errado. Você só precisa aprender com isso e tirar algo útil dessa experiência.” ( Geoffrey Heinzl, pós-doutorando em química na U.S. Food and Drug Administration em Silver Spring, Maryland. Tradução livre.)

Quando lemos um artigo, não nos damos conta de todo o trabalho “omitido” naquela publicação. Dificilmente o autor/cientista/pesquisador acordou com aquela ideia brilhante e ela foi diretamente pro papel. Certeza que teve muita tentativa e erro antes daquele novo conhecimento vir a público.

5) Orientador e orientando: estilos de orientação nem sempre se ajustam. E tudo bem.

Eu não sabia que existiam tantos tipos de mentoria [orientação] – que algumas pessoas te deixam mais livres e outras não tão livres – e que você precisa se ajustar em um meio termo.” (Jessica Neuwer, doutoranda em neurociência na Albany Medical College, Nova Iorque. Tradução livre)

Seja qual for o estilo do seu orientador, sempre há algo que você pode aprender sobre a forma como ele conduz suas pesquisas e orienta seus alunos. Mesmo que seja um contra-exemplo!

6) Lembre-se de que você é bom o suficiente para estar na pós-graduação.

A pós-graduação pode ser muito ruim para a saúde mental. Você tem o desafio de fazer uma pesquisa rigorosa, com o adicional de dar aulas e procurar por financiamento. Some-se a isso o estresse pessoal por muitas vezes estar em uma cidade nova, distante de sua família e amigos. E fazendo tudo isso com um orçamento apertado. Tudo isso facilita pensar que não somos bons em ciência, ou para a vida acadêmica ou que não somos bons o suficiente para qualquer uma dessas coisas.

Por isso, é importante fazer o que for preciso para não entrar na síndrome do impostor. Tenha alguém que te anime – um parceiro, amigo, familiar – para te lembrar o quão esperto, motivado e trabalhador você é. Aceite o elogio, porque é verdade. E lembre-se de que todos estamos ‘fingindo até se tornar realidade’. Algumas pessoas se sentem bem ao dizerem para si mesmas que elas sabem tudo. Mas, qualquer acadêmico sabe que, o que sabemos, ainda é pouco comparado com o que ainda há para ser descoberto.” (Alyssa Frederick, doutoranda em fisiologia na Universidade da California – Irvine. Tradução livre).

Tentei ser fiel à tradução (como diriam os italianos, traduttoretradutor – tradutor, traidor), mas é preciso algum cuidado com essa ideia de ser “bom o suficiente”. Em caso de dúvida, procure lembrar-se do que o motivou a entrar nessa jornada 🙂

Fonte: http://www.sciencemag.org/careers/2017/09/what-know-starting-your-phd-program?utm_campaign=news_weekly_2017-09-08&et_rid=174537264&et_cid=1535895

 

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Elza Berquó, um depoimento. Por Débora Thomé.

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Por Débora Thomé [1]

A professora Elza Berquó não almoça. Ela prefere tomar um bom café da manhã, comer um sanduíche e depois, uma vez em casa no fim da tarde, almoçar. Trabalha o tempo todo. Faz musculação e hidroginástica duas vezes por semana. Casou-se duas vezes. Do primeiro marido, se separou. Do segundo, ficou viúva. Por opção, não teve filhas ou filhos. Mas a viuvez e a idade mais avançada a aproximaram de Gaia, fêmea beagle tricolor que lhe dá ternura e carinho todos os dias. Passou a vida inteira estudando fecundidade, as mulheres, a violência, os jovens. Escolheu ser demógrafa e ter, como filhos, suas pesquisas e seus alunos. Mantém o trabalho, as idas regulares ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e às reuniões do conselho do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo), em Campinas (SP), as leituras, os passeios e o cinema. “Você viu O quarto de Jack?”, me pergunta, sobre um filme recém-lançado. Acompanhou a votação do impeachment na Câmara, que ocorrera dias antes, e ficou chocada com o nível e a qualidade das declarações dos deputados, majoritariamente homens brancos.

A entrevista com Elza Berquó foi realizada em São Paulo, em agosto de 2016, e transcrita a seguir na forma de depoimento em primeira pessoa.

***

Do lado materno, faço parte dos 25 milhões de descendentes de italianos que vivem no Brasil. Meu avô, Salvatori, veio de Gênova para cumprir um castigo imposto pela família. Enquanto estudava para ser padre, apaixonou-se pela filha de criação da casa. Acabou sendo mandado para o Brasil e foi para Minas Gerais. Deixando o latim de lado, e usando os recursos que trouxe, abriu uma oficina mecânica, que logo se tornaria a maior da cidade de Uberaba (MG). Virou maçom. Minha avó, caçula de uma família de sete irmãos, os Abbate, veio da região rural de Bolonha, na grande leva que, a partir da metade do século XIX, migrava à procura de trabalho. Foram colonos em Conquista (MG). Minha avó estava de casamento marcado na colônia em que vivia, quando por acaso conheceu meu avô, no dia em que foi à cidade para comprar o vestido de noiva. Foi amor à primeira vista, e acabaram se casando. Tiveram apenas uma filha, minha mãe, o que na época era bastante raro, dada a alta fecundidade que prevalecia no país. Soube mais tarde que eles praticavam o coito interrompido, muito usado no país de origem.

Do lado paterno, os Berquó vieram com a corte portuguesa. Cresci na religião católica, indo à missa todos os domingos e comungando com frequência. Na adolescência, passei por várias crises quanto à existência de Deus, que me acompanharam até a universidade. Eu me graduei em matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1947. Tive excelentes professores, com quem aprendi muito sobre análise e geometria. Quando conheci a geometria de Lobachevsky[2], segundo a qual, ao contrário da euclidiana, duas retas paralelas se encontram em algum lugar, a noção de infinito, de religiosa, passou a ser apenas científica. Tornei-me agnóstica, o que sou até hoje.

Meu primeiro emprego foi como assistente do Departamento de Bioestatística, dirigido pelo médico-matemático Pedro Egydio de Oliveira Carvalho, na então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Vim direto de Campinas, a despeito das preocupações familiares. Conhecia poucas pessoas, era uma vida muito solitária.

Fui morar na casa de uns parentes distantes, com a condição de que, todas as tardes, voltasse do trabalho para casa. Com poucos recursos, lanchava na própria faculdade. Certo dia, cheguei mais cedo e descobri que a dona do apartamento organizava carteado a dinheiro, no período da tarde, em meio a uma fumaceira danada. Eu sempre fui apaixonada por jogos. Ela me pediu sigilo quanto ao fato; prometi, desde que um dia pudesse jogar. Em uma tarde, perdi meu salário inteiro, sem me sobrar dinheiro sequer para o bonde. Com muita vergonha, fui até o Dr. Pedro Egydio pedir um empréstimo. Ele me fez prometer que não jogaria novamente — o que, evidentemente, não cumpri.

Os primeiros passos na estatística eram como caminhar em um mundo novo. Os modelos probabilísticos, em contraste com o determinismo matemático, alargavam e arejavam o pensamento. Particularmente marcante foi um curso de especialização em inferência estatística, ministrado na Faculdade de Filosofia da USP pelo professor convidado William Meadow. Baseava-se no livro recém-publicado do estatístico sueco Harald Cramér (1893-1985),[3] disponível apenas em inglês. Com a ajuda do dr. Pedro Egydio, digerimos as quase seiscentas páginas do que se tornou nossa bíblia. Em diversas ocasiões, folheio Cramér e saudosamente afago as anotações deixadas pelo dr. Egydio, na tentativa de, às vezes com sucesso, propor alternativas para demonstrações de algumas fórmulas.

Em 1951, aos 26 anos, saltei o doutorado e, após concurso de títulos e provas, tornei-me livre-docente em bioestatística pela USP.

Com bolsa concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), fiz, no período 1956-1957, especialização em bioestatística na Escola de Saúde Pública e Medicina Administrativa da Universidade Columbia, em Nova York, situada fora do campus, na rua 168. Na saúde pública, três professores marcaram meu aprendizado, não só pela competência, mas também pela humanidade: William Fertig, Agnes Burger e Ruth Gold. Combinava esse curso com outro sobre probabilidades, à noite, no campus, na rua 116, onde brilhava o talento de Herbert Robbins. Durante o verão, fiz ainda um curso sobre teoria da amostragem, na Universidade de Michigan, em Ann Arbor.

Durante minha permanência nos Estados Unidos, enfrentei algumas dificuldades, principalmente na vida universitária, ligadas a diferenças ou choques de cultura: atenção e cuidado com o outro interpretados como invasão de privacidade (já crime naquela época); trocas de anotações de aulas perdidas entre colegas de curso veementemente negadas, dada a competitividade no futuro.

Pude apreciar também o que representava no imaginário das jovens estudantes americanas as noites das sextas-feiras, quando aconteciam, ou não podiam deixar de acontecer, os dates e os double-dates.

No cadastro da universidade, o item religião não podia aceitar a alternativa “sem religião”. Contra minha vontade, registrei que havia sido educada na religião católica. A partir daí, a senhoria do apartamento onde morávamos vários latino-americanos em Nova York não me poupava nenhum domingo, batendo com força na porta de meu quarto para que eu não perdesse a missa. Como não tinha nenhum interesse em ir à missa, aproveitava o tempo para conhecer os vários museus da cidade.

Em Nova York, senti a beleza da neve pela primeira vez e, com o passar do tempo, fui perdendo a vontade de voltar ao Brasil. Contudo, esse era o meu compromisso.

Na volta, em 1958, pude verificar algumas mudanças no conteúdo e na didática das aulas, parte delas fruto de uma correspondência robusta mantida com o dr. Pedro, conforme promessa feita a ele antes de viajar. Com entusiasmo, conversamos sobre novos planos para o departamento. A convivência foi muito curta, devido à sua morte prematura, aos 48 anos. A orfandade doeu muito fundo.

Diante do infortúnio, o sentimento entre os colegas do departamento e também da diretoria da faculdade era de que deveríamos estar preparados para concorrer à cátedra, quando o concurso fosse aberto. Por decisão unânime, caberia a mim a difícil missão.

Em correspondência com Agnes Burger e Ruth Gold, pensamos que uma tese apropriada deveria considerar a aplicação de um método estatístico relativamente novo a problemas de saúde pública. Concordei, embarquei e passei dois meses com elas em Nova York. Encontramos nos trabalhos do húngaro Abraham Wald (1902-1950),[4] professor do Departamento de Estatística Matemática da própria Columbia, a possibilidade desejada, ou seja, trabalhar com sua análise estatística sequencial. Esse método se diferencia dos testes de hipóteses consagrados, no sentido de que uma hipótese pode ser aceita, rejeitada, ou a decisão adiada por falta de evidências suficientes para decidir. Com isso, o tamanho da amostra deixa de ser fixado a priori e torna-se uma variável aleatória. Decidiu-se, em colaboração com o Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Columbia, utilizar dados de um estudo já concluído, que visava comparar dois medicamentos para tratamento de prematuros.

Assim nasceu minha tese para o concurso de cátedra da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, realizado em 1960: Sobre a análise sequencial para testes de hipóteses relativas a proporções.

Ao assumir a coordenação do departamento, este já contava com as disciplinas bioestatística e estatística vital, bem como com o Centro de Classificação de Enfermidade e Doenças, apoiado pela Opas, cujo propósito era manter atualizadas normas estabelecidas. Senti logo a necessidade de criar formalmente uma área de estatística matemática e fortalecê-la com a presença de jovens assistentes, com formação em matemática. Eram os ecos das leituras de Cramér. Fui então ao reitor, e eminente médico, Antonio Barros de Ulhôa Cintra, para expor a situação da não área na universidade e a necessidade de dar-lhe vida. Foi a inspiração necessária para que Cintra, em consultoria com a Fundação Ford, de Nova York, sugerisse um convite ao prof. Jerzy Neyman, diretor do Departamento de Estatística da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Um dos mais renomados estatísticos-matemáticos do mundo, o húngaro Neyman chega em São Paulo em 1961, com o objetivo de propor a estrutura de um instituto de estatística na USP. Na época, ele desenvolvia modelos estocásticos para estudo de epidemias e prestava grande contribuição para o campo da astronomia.

Uma vez que o campus da USP estava em fase final de construção, Cintra achou por bem que Neyman trabalhasse no hotel, oferecendo-lhe, para tanto, uma suíte extra. A pedido de Cintra, eu deveria ser uma espécie de chefe de cerimônia. Juntos, marcamos entrevistas com pessoas de diversos setores: Departamento Estadual de Estatística, Faculdade de Economia, Faculdade de Filosofia, Instituto Biológico, Instituto Agronômico, Faculdade de Medicina, além da de Matemática. O grupo se encontrava nesse mesmo hotel para as reuniões de trabalho. Ao longo das reuniões, Neyman tomava vitaminas de todas as cores, e nem eu escapei das coloridinhas. Após vários debates e trocas de opiniões, Neyman já tinha o material necessário para seu relatório final. Chegou o dia da entrega do documento ao reitor. Ambos fizeram questão de selar o compromisso na reitoria da USP.

Como prédio ainda em obras, não tendo sequer vidros nas janelas, subimos as escadas debaixo de chuva até a sala do reitor, onde havia somente uma cadeira. Nessas condições, Neyman disse: “Here is my report”.[5] Nada mais foi debatido ou falado. Após a partida de Neyman, o reitor convocou uma reunião com todas as pessoas que estiveram envolvidas na preparação do relatório. Diga-se de passagem que Neyman, ao nominar alguns professores ou pesquisadores com alguma chance de, após uma permanência em Berkeley, assumir a direção do futuro instituto, descontentou muita gente. Isso deu margem a uma acalorada discussão, com enorme disputa de poder. Em meio ao desentendimento, Cintra deu um murro na mesa: “Vocês não querem um instituto de estatística, vocês querem um clube!”. Esse murro ressoou por vários anos, e um instituto de estatística, autônomo, nunca foi criado. Em 1970, a USP o incorporou no Instituto de Matemática e Estatística (IME).

A etapa seguinte foi encaminhar os jovens assistentes formados em matemática, recém-contratados, a fazerem doutorado nos Estados Unidos, inclusive em Berkeley.

No Brasil, repercutia o acalorado debate, iniciado em meados dos anos 1960 pelos países ditos mais desenvolvidos. A preocupação residia no rápido crescimento populacional no bloco dos países mais pobres. Começava em vários países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, a primeira fase da transição demográfica, caracterizada pelo declínio da mortalidade e pela manutenção de altos níveis de fecundidade. A redução da mortalidade, iniciada nos anos 1950, resultou de esforços concentrados de organismos internacionais, em torno de uma visão de prevenção e erradicação de doenças e controle de epidemias.

Nos anos 1960, contava-se apenas com a herança dos trabalhos de Giorgio Mortara, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseados nos censos de 1940 e 1950, conduzidos sob sua inspiração e responsabilidade. O atraso, ocorrido durante o regime militar, na divulgação dos resultados do recenseamento de 1960 dificultou a análise da tendência da fecundidade no Brasil.

Surpreendidos pelo neomalthusianismo que se instalava no país, e contando com muito poucas pesquisas para esclarecer tendências e condicionantes das mudanças de comportamento da população no campo da reprodução, o departamento inicia em setembro de 1965 a pesquisa sobre “Reprodução humana no distrito de São Paulo”. Seus objetivos eram investigar os antecedentes reprodutivos da população do distrito da capital e acompanhar, durante um determinado período, o comportamento da mulher residente em São Paulo com relação à reprodução. A pesquisa permitiu observar o início do declínio no número médio de filhos por mulher, a partir de 1965, o que seria mais tarde confirmado com a publicação, em 1978, dos resultados do censo de 1960. Ou seja, o país iniciou a segunda fase da transição demográfica entre 1960 e 1970.

Da perspectiva institucional,o país dispunha,na época, do Centro Brasileiro de Estudos Populacionais, na Escola Nacional de Estatística do IBGE, criada em 1952. Contava também, desde 1966, com o Setor de Demografia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e o Banco do Nordeste completavam o quadro de órgãos públicos que incluíam elementos de demografia para nortear suas políticas.

No âmbito da América Latina, contava-se com o Centro Latino- americano y Caribeño de Demografía (Celade), criado no Chile, em 1957, pela Divisão de População da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Nesse contexto, ganha força a ideia da criação, junto ao Departamento de Estatística Aplicada, de um centro de ensino e pesquisa em demografia. Contando com o apoio da Opas, cria-se em 1966 o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip), único de cunho acadêmico no país. Esse processo se dá em plena vigência do regime militar, que até então havia baixado quatro Atos Institucionais, dois dos quais em 1966.

Aliás, na questão do aumento populacional, os militares estavam divididos: para alguns, o crescimento populacional seria bem-vindo, dada a extensão territorial do país; para outros, o crescimento populacional poderia reprimir o desenvolvimento. Mas, de modo geral, eles faziam vistas grossas ao controle da natalidade, promovido de fora para dentro do país.

O convênio entre a Faculdade de Higiene e Saúde Pública e a Opas previa recursos por cinco anos, incluindo salários e bolsas, para implantação do Cedip. Após esse período, os valores deveriam ser garantidos pela própria faculdade. Em primeiro lugar, contaríamos com uma consultoria de alto nível na área de demografia. Isso se concretizou com a visita, por um mês, da eminente demógrafa Irene Tauber, da Universidade Princeton. Com ela foram planejados currículos para os futuros cursos de pós-graduação em demografia. Desse plano, fazia parte também a escolha de universidades estrangeiras de notório saber em estudos populacionais. Todo esse esforço compartilhado para construir ferramentas capazes de expor as marcas das desigualdades de direitos, sociais, econômicos e étnico-raciais, na população brasileira se deu como que dentro de uma muralha, que nunca chegou a ser invadida pelas Forças Armadas, como ocorreu em outras unidades da USP.

De volta ao Brasil, os bolsistas estavam cheios de planos para o futuro do Cedip e da demografia.

Em 13 de dezembro de 1968,o ministro da Justiça, Luís Antônioda Gama e Silva, assina o Ato Institucional nº 5, o mais violento e autoritário de todos. Desrespeita a Constituição de 24 de janeiro de 1967, suspende garantias constitucionais, cerceia as liberdades civis e direitos individuais.

Entre todas, aquela foi a noite mais longa e mais escura. Ao ouvir A voz do Brasil, fiquei sabendo que o AI-5 havia interrompido carreiras de eminentes professores e pesquisadores da USP. Dentre eles, muitos colegas e amigos. Do Cedip, Paul Singer e eu fomos aposentados compulsoriamente.

Viemos para o Cebrap, criado em maio de 1969, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso, com apoio da Fundação Ford. Cândido Procópio Ferreira de Camargo dividiu, durante algum tempo, a coordenação do Cedip e a presidência do Cebrap.

Eu morava num local distante, e tudo estava sendo muito controlado. Mas felizmente pude esconder em minha casa vários jovens que optaram pela via da luta armada. Apesar de essa nunca ter sido minha opção, acreditava que era meu dever ajudá-los. Eles eram uns cinco ou seis em esquema de revezamento, mas em comum tinham o fato de estar sempre lendo. As turmas iam mudando, mas toda hora havia alguns lá em casa. Depois de uns dias de leituras sem fim, começavam a ficar entediados com o cativeiro. Certa vez, um deles se ofereceu para fazer algum serviço na casa, fosse conserto ou pintura. Acabaram, então, se ocupando em pintar com óleo queimado as lajotas do piso. Todos os que passaram por lá acabaram mortos. Em casa ficaram para sempre as marcas de suas emoções.

No Cebrap, com o espírito ainda vagando pelo departamento, pudemos dar prosseguimento, com os colegas do Cedip, aos trabalhos em curso. A pesquisa “Reprodução humana no distrito de São Paulo”, iniciada em 1965, produziu inúmeros trabalhos, reunidos no livro A fecundidade em São Paulo: características demográficas, biológicas e socioeconômicas, que veio a lume em 1977, pela Editora Brasileira de Ciências-Cebrap.

Em 1974, por um descuido de um jovem pesquisador do Cebrap, um pacote foi levado ao correio para ser despachado. No guichê, o funcionário notou que o pacote estava úmido (possivelmente por estar guardado havia muito tempo, em lugar insalubre). Isso nos levou todos à Operação Bandeirante (Oban), em que foi cumprido todo o ritual de terror, ou seja, fomos encapuzados. Sabendo que iria ser interrogada, optei por me apresentar como uma mulher rica e chique, uma autêntica anticomunista. Fazia parte do disfarce uma bolsa grande, bastante sofisticada, que foi aberta e revistada. O interrogatório foi bem longo, uma vez que recentemente eu havia voltado da Conferência Mundial de População, sediada em Bucareste, na Romênia, país comunista. Após várias horas, constatei que o militar que me interrogava estava interessado no porta-níqueis encontrado em minha bolsa, uma vez que seu filho era colecionador de moedas estrangeiras.

Para realizar essa viagem e todas as outras, que foram muitas, durante o período de chumbo, era preciso uma licença especial de Brasília, e o conselho que circulava na época era não embarcar para fora e desembarcar no Brasil sem a presença de um parente ou amigo que pudesse garantir que você de fato viajou e voltou.

Dois anos depois, na madrugada de 4 de setembro, a sede do Cebrap, na rua Bahia, foi atingida por uma bomba. Um grupo que se intitulava anticomunista assumiu a autoria do atentado. O centro de estudos acabara de publicar o livro São Paulo 1975: crescimento e pobreza, com apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Esses dois acontecimentos abalaram muito o Cebrap. Foi quando tivemos a certeza de que precisávamos ter acesso a alguém do alto escalão do Exército, para explicar que não éramos um centro de “terroristas”, e sim um lugar de pesquisa, com trabalhos publicados em diversos países. O Cebrap sempre foi uma instituição aberta ao contraditório com um éthos da pluralidade muito forte.

Foi quando me lembrei que havia um general na minha família. Em contato com Olavo Berquó, meu primo, advogado em Goiânia, expliquei a situação, pedindo-lhe que intermediasse uma conversa com o general Bragança, meu parente. Fomos atendidos, Procópio e eu, mas só pudemos conversar com o militar em Goiás Velho, para não dar na vista. Na casa modesta de uma tetravó de meu pai, contamos nossa história enquanto galinhas soltas ciscavam no chão da sala. Na despedida, ela me entregou um envelope em que guardava recortes de jornal e fotos minhas.

A beleza da demografia como disciplina é lançar mão de recursos matemáticos e probabilísticos para o convívio da riqueza das ciências humanas. Ela busca entender o âmbito das desigualdades em suas variadas faces, sendo propositiva no caminho das mudanças. O meu principal interesse é formar pesquisadores, transmitir conhecimento, buscar recursos para que isso possa acontecer. Até hoje tenho inquietação pelo conhecimento e a crença na potência transformadora que ele tem.

Cada vez mais vejo que as decisões políticas são tomadas levando em conta a demografia. Não dá mais para políticos e empresários ignorarem nossa dinâmica populacional em suas decisões. Agora falta nós, demógrafos, falarmos uma linguagem mais amigável, ou seja, descer alguns degraus de forma que a população compreenda. As fronteiras entre as disciplinas devem ser quebradas.

Gostaria de chamar atenção para o fato de que, como pesquisadora, cometi erros e enganos. A gente aprende muito com os erros. Por isso é fundamental ter um grupo para nos contestar — os próprios alunos são importantes críticos no aperfeiçoamento do trabalho. Eles fazem perguntas que não nos permitimos, ou que não nos ocorre. A convivência com equipes mais jovens é muito salutar, inclusive porque se trata de uma geração mais ousada, com menos hierarquias. Abre-se mais o diálogo, surgem novas maneiras de pensar, metodologias diferentes. Compartir é um aspecto fundamental no trabalho de pesquisa. E, para a ciência avançar, é sempre importante aparecer alguém que se insurja, que vá inovar, que proponha um novo olhar.

Olhando para o futuro, sinto que ainda falta trabalhar mais extensivamente como enfoque das gerações. Voltar no tempo o quanto for possível, observando as coortes. Que geração marcou mais uma determinada mudança? É isso que andamos buscando para diversos temas. Particularmente, estudar a reprodução tardia por gerações, para ver quando começou o processo de postergar a maternidade e seus determinantes.

Também vejo como um campo promissor para pesquisa a questão do aumento da prematuridade em face do crescimento de partos por cesárea; da vida estressante nos centros urbanos, da luta insistente para conquistar ou manter patamares de empoderamento; viver a gestação em ambientes altamente poluídos; carregar uma gravidez não desejada, muitas vezes solitária.

Ainda não conseguimos avançar o necessário nos direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos, a todo momento ameaçados por visões retrógadas e conservadoras.

O conceito de família vem passando por mudanças profundas na sociedade, que se afastam de um ranço conservador. Relações afetivas dão conta do verdadeiro caleidoscópio que as abrange. Cada vez mais os instrumentos de coleta de informações precisariam ser sensíveis a essa riqueza de possibilidades das formas de viver.

Continuar a ouvir os jovens é prioritário para compreender porque precisam correr tantos riscos para se sentirem vivos.

Uma das pesquisas de que mais me orgulho foi sobre mulheres negras, conduzida nos anos 1990. A intenção era trabalhar a saúde da população negra com foco na mulher negra. Notei que, quando eram publicados editais para bolsas de pesquisa, as mulheres negras em geral perdiam na competição. Decidi então abrir um edital só para mulheres negras para, com bolsas de pesquisa, financiadas pela Fundação MacArthur, trabalharem no primeiro estudo de ação afirmativa no Brasil. Na primeira edição do programa foram selecionadas quatro pesquisadoras negras, todas graduadas em ciências sociais, que durante dois anos adquiriram conhecimentos, treinamento para pesquisa de campo e produziram o estudo Eu, mulher negra. Com essa base, elas fizeram seus doutorados. O sucesso alcançado no programa levou a Fundação MacArthur a financiar uma segunda edição. Dessa vez, a seleção era feita novamente só entre pessoas negras, que já tivessem feito mestrado em ciências sociais. Ao final, elas fizeram seus doutorados, e algumas vieram a ocupar cargos docentes em universidades e/ou em organismos internacionais.

Com a anistia, fui convidada a voltar para a USP. Com a reforma universitária, a disciplina de estatística matemática migrou do Departamento de Bioestatísica da Faculdade de Saúde Pública para o Instituto de Matemática e Estatística (IME). Havia duas possibilidades: voltar para a Saúde Pública ou ir para o IME. Tomada a decisão, procurei o prof. Oswaldo Forattini, diretor da Faculdade de Saúde Pública. Mesmo com o seu voto de minerva a meu favor, dado que 50% da congregação votou contra minha volta, decidi não retornar e continuar no Cebrap.

Em 1982, o prof. José Aristodemo Pinotti, reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), me convidou para montar um núcleo de estudos de população. Com muita alegria, aceitei o convite de um visionário que sentia a necessidade da demografia em uma universidade jovem. A única condição que impus foi não assumir os encargos burocráticos da universidade. O Nepo a princípio foi instalado em uma casa no distrito de Barão Geraldo, dividindo o espaço com o Centro de Políticas Públicas. Foram comigo, inicialmente, Maria Coleta de Oliveira e as saudosas Maria Isabel Baltar da Rocha e Neide Patarra. Da prata da casa, vieram o saudoso sociólogo Daniel Hogan e o médico Aníbal Faúndes. O núcleo aos poucos ganhou um espaço novo no campus, e desde então suas atividades de pesquisa, estudos e consultorias são sobejamente reconhecidas.

***

[1] Este texto integrará o livro co­memorativo dos quarenta anos da Associação Brasileira de Estudos Po­pulacionais (Abep), em preparação. Débora Thomé é jornalista, mestre em ciência política pelo Iesp-UFRJ, doutoranda em ciência política pela UFF, e autora de O Bolsa Família e a social-democracia (Editora FGV, 2013).

[2] Nikolai Lobachevsky, matemá­ tico russo do século XIX.

[3] Cramér, Harold. Mathematical Methods of Statistics. Princeton: Prin­ ceton University Press, 1946.

[4] Wald, Abraham. “Sequential Tests of Statistical Hypotheses”. The Annals of Mathematical Statistics, v. 16, n. 2, pp. 117­186, 1945.

[5] “Organizational Outline of the Proposed Institute of Statistics at the University of São Paulo”, 1961.

O PDF do texto para download está disponível AQUI.

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Tese revela superexploração de mão de obra de haitianos em SC

Estudo embasou denúncias feitas pelos Observatórios das Migrações ao Ministério Público do Trabalho

Imigrantes haitianos que vieram para o Brasil entre 2010 e 2014 e, recrutados por setores da agroindústria ou da construção civil, foram trabalhar no Estado de Santa Catarina, tiveram a mão de obra superexplorada por seus empregadores, ou seja, sofreram a violação do valor da força de trabalho. Conforme detalhou a tese de doutorado defendida pelo pesquisador Luis Felipe Aires Magalhães, no Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo), as empresas utilizavam vários mecanismos para tirar o máximo dos trabalhadores.

LFAM
O pesquisador Luis Felipe Aires Magalhães, autor da tese: “O Estatuto enxerga o estrangeiro como uma ameaça”

A primeira estratégia era descontar dos salários a concessão do alojamento, seguida da chamada alocação discriminatória, que significava colocar o haitiano em setores que exigiam mais força física ou em setores que favoreciam doenças relacionadas ao trabalho. Por último, a tese apontou que, sem conhecer direito o português, os imigrantes eram obrigados a assinar contratos com cláusulas nas quais abriam mão dos direitos trabalhistas depois da demissão.

A superexploração da mão de obra dos imigrantes haitianos é detalhada na tese e embasou denúncias feitas por pesquisadores dos Observatórios das Migrações ao Ministério Público do Trabalho. Luís Felipe integra a seção do observatório em São Paulo, com um projeto Fapesp coordenado por sua orientadora, a docente Rosana Baeninger. Porém, as pesquisas, que abrangem outros Estados, por meio de uma rede de observatórios e outros grupos de pesquisa em outras regiões do Brasil, também mostraram a existência das práticas das empresas.

Segundo o pesquisador, eram descontados do salário de cada trabalhador em média 230 reais pelo alojamento. Em trabalho de campo, Luis Felipe identificou que as condições eram muito precárias. “Em alguns casos, 11 trabalhadores dividiam dois cômodos e um único banheiro, havia infiltrações e as construções tinham o pé direito baixo”, salienta.

Os haitianos, acrescenta o autor, mesmo recebendo menos que os brasileiros, eram alocados para os setores mais pesados, como o da “pendura” em frigoríficos e também o de miúdos. Frequentemente, os imigrantes levantavam peso além do permitido pela norma reguladora.

No setor de miúdos, os trabalhadores seguravam funis em alturas superiores às previstas na legislação, sendo obrigados a entre 8 ou 10 horas diárias com os braços situados numa angulação superior a 90 graus. “Um em cada quatro trabalhadores está afastado por doença de trabalho”, complementa.

As questões relacionadas ao trabalho estão situadas num contexto mais amplo abordado pela tese, de estudo das dinâmicas da imigração haitiana, entendendo o fenômeno como processo histórico e social e também a composição de um perfil sociodemográfico dos fluxos. “Sempre houve a emigração no Haiti, mas a quantidade de pessoas desejosas de viver em outro país aumentou após um conjunto de transformações basicamente depois de 2004, quando o presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto e se agravou a crise política e eleitoral no país”. O envio da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), “uma força estrangeira, militar, que supostamente tentaria estabilizar o Haiti”, além das crises financeiras mundiais de 2007 e 2008, foram outros fatores que contribuíram para favorecer a imigração como constata o pesquisador. Em 2010 houve o terremoto que matou mais de 200 mil pessoas.

Eldorado

Segundo o estudo, um dos motivos da escolha dos haitianos pelo Brasil foi o período de crescimento econômico e inclusão social entre 2003 e 2010. “Foram criados 14,7 milhões de empregos e isso chamou a atenção das famílias haitianas. O Brasil passou a ser considerado o novo eldorado da imigração haitiana. Paralelo a isto foi criado o visto de ajuda humanitária exclusivo e específico para os imigrantes daquele país”.

Os quatro primeiros anos da chegada de imigrantes haviam sido marcados pela indocumentação. O visto era muito restrito e obedecia a uma cota de 1.200 por ano. “Os que não tinham o visto de ajuda humanitária eram atraídos pela rede que opera as migrações, que envolve em alguma medida tráfico, venda de passagens, manipulação de informações e endividamento dos imigrantes”.

Luis Felipe observou que essa rede se aproveitava do fato de o Equador não exigir visto a nenhum cidadão do mundo, para usar o país como rota. “Foram articulados voos ou do Haiti ou da República Dominicana para o Equador. De lá os imigrantes faziam viagens de ônibus na clandestinidade cruzando todo o território peruano e chegavam à fronteira brasileira, nos estados do Acre ou do Amazonas, pedindo refúgio”.

Por conta da legislação, o Estado brasileiro era obrigado a abrir um processo de avaliação desse pedido, mas imediatamente oferecer carteira de trabalho e CPF ao imigrante. “A pessoa podia circular pelo território e procurar emprego”.

O fluxo que chegava documentado representava uma parcela pequena, de 10% a 15% do total de imigrantes, que vinha direto do Haiti para o aeroporto de Guarulhos. “A Resolução Normativa 102/2013, do Conselho Nacional de Imigração, além de revogar o limite para os vistos, permitiu a emissão em outras embaixadas brasileiras no exterior, não só no Haiti, mas também na República Dominicana, na Bolívia, no Equador e no Peru. Ampliou-se o leque de possibilidades para o imigrante”.

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Cenas do Haiti: saída intensificou-se depois da deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, em 2004

O recrutamento de trabalhadores começava nas áreas de concentração nas fronteiras ou em São Paulo, nos espaços de acolhimento. “Minha tese conseguiu identificar quais foram as empresas que inauguraram o processo. Empresas do Brasil inteiro estavam presentes, mas sobretudo as da construção civil, de serviços portuários e de limpeza urbana do Sul do Brasil, setores caracterizados por uma alta rotatividade da força de trabalho”.

Os imigrantes foram se deslocando, inicialmente para cidades do litoral norte de Santa Catarina. Depois os frigoríficos passaram a requisitar trabalhadores para o oeste do Estado. “Pudemos acompanhar esse processo nas duas pontas, participando das reuniões de recrutamento no litoral e vendo as condições de trabalho e de alojamento no interior”.

Perfil e dependência

Para compor o perfil sóciodemográfico dos fluxos migratórios, o pesquisador participou de um trabalho de campo que entrevistou quase 300 imigrantes haitianos em 16 cidades do Brasil. Ele mesmo entrevistou 99 imigrantes haitianos na cidade catarinense de Balneário Camboriú. “As principais características desse imigrante são: ser do sexo masculino, adulto jovem de religião evangélica com ensino médico completo ou superior incompleto. Não foram poucos os enfermeiros, professores e agrônomos ouvidos por nós”. O perfil também integrou em nível nacional uma pesquisa intitulada “Haitianos no Brasil, perfil e trajetórias” coordenada pelo professor Sidney Antonio da Silva, da Universidade Federal do Amazonas.

Luis Felipe concluiu a tese formulando um conceito de migração de dependência para os fluxos de imigrantes do Haiti. Ele constatou a dependência que as famílias haitianas têm das remessas de dinheiro provenientes de trabalhadores que residem fora do país, não somente no Brasil. Essa dependência chegou a representar entre 22% e 26% do PIB do país de 2005 a 2015.

“O fenômeno da dependência está presente em diversas instâncias na história do Haiti, que se converte na maior produtora de riquezas coloniais do mundo nos séculos 17 e 18, para o país mais pobre da América, atualmente”. Para o pesquisador, o Haiti está em posição de marginalidade e subalternalidade na dinâmica do capitalismo mundial. A tese é dedicada a entender a migração como um desafio, como um direito humano à mobilidade “não como um crime ou como um problema”.

Luis Felipe salienta que as políticas de acolhimento no Brasil ainda são muito frágeis e improvisadas, uma vez que ainda está vigente o Estatuto do Estrangeiro que é uma lei de 1980, do período de ditadura militar. “O Estatuto enxerga o estrangeiro como uma ameaça, justificando assim o fato de que o primeiro representante do Estado que o imigrante encontra, seja um policial federal”. A imigração haitiana vem cumprindo o importante papel de retomada de estudos e de uma certa militância a respeito da importância de políticas públicas específicas aos imigrantes e refugiados, considera.

 

Fonte: Jornal da Unicamp (16 de maio de 2017). Link para acesso AQUI.

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Um olhar sobre o novo envelhecer

Demógrafa analisa as características da transição à velhice no trabalho, na saúde e no âmbito doméstico

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A estimativa do IBGE para 2040 é de que aproximadamente 54 milhões de brasileiros (23% da população) estarão com 60 anos de idade ou mais. Se ainda prevalece a associação do idoso com a dependência, a fragilidade e a solidão – e a preocupação governamental com os custos aos sistemas de saúde e de seguridade social –, há a visão recente sobre a velhice como uma etapa de vida bem sucedida e saudável. A demógrafa Carolina Alondra Guidotti Gonzalez afirma, porém, que ambos os paradigmas tendem a homogeneizar a população idosa, num cenário em que as próprias características da velhice estão mudando.

“Envelhecimento demográfico e mudanças na transição à velhice entre brasileiros de distintas gerações” é a tese de doutorado desenvolvida por Carolina Guidotti, orientada pela professora Tirza Aidar, no âmbito do programa de pós-graduação em Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), e do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo). “Comparando gerações nascidas no início do século passado com gerações que atingirão idades superiores a 60 anos nas próximas décadas, são analisadas as características da transição à velhice no âmbito doméstico, no mercado de trabalho e nas condições de saúde, atentando-se para os diferenciais entre homens e mulheres e quanto ao nível socioeconômico”, explica a autora da pesquisa, que pede atenção para as diferentes formas de envelhecer.

Bacharel em sociologia, Carolina Guidotti possui mestrado em demografia também pela Unicamp, com uma dissertação sobre um dos países mais envelhecidos da América Latina: “Envelhecimento, família e transferências intergeracionais em Montevidéu, Uruguai”. Atualmente professora da Universidad de la Republica Uruguay, ela concedeu por e-mail a entrevista que segue:

Jornal da Unicamp – Qual a motivação para comparar a experiência do envelhecimento entre diferentes gerações da população brasileira? Você já tratou deste tema com foco em Montevidéu, e imagino que a questão seja particularmente preocupante para o Uruguai.

Carolina Guidotti – O envelhecimento da população é um tema que se encontra presente na agenda pública e nos meios de comunicação. Ao longo do tempo tem havido formas diferentes de conceituar o fenômeno: por um lado, existe um enfoque que associa a população idosa com a dependência, a fragilidade e a solidão; mais recentemente apareceu um paradigma oposto, que mostra a velhice como uma etapa bem sucedida e saudável. Ambos os paradigmas tendem a homogeneizar a população idosa. Além disso, o primeiro enfoque tem sido utilizado para sustentar a ideia de que o aumento da proporção de pessoas idosas acarretará em graves problemas para o financiamento dos sistemas de saúde e de seguridade social. Embora seja importante que as políticas públicas deem atenção para essa modificação da estrutura etária, é necessário ressaltar que o aumento relativo da população idosa se produz em um cenário em que as próprias caraterísticas da velhice estão mudando.

Nesse contexto, a principal motivação para a tese foi de gerar uma análise que permitisse conhecer as caraterísticas do envelhecimento da população brasileira sem sobredimensionar seus efeitos perversos na sociedade. O enfoque escolhido possibilita enxergar como a própria experiência da velhice se recobre de características diferentes entre distintas gerações, e ressalta a heterogeneidade dessa população. Isso significa enxergar o processo de mudança populacional sem dissociá-la das mudanças acontecidas na esfera social – focalizar como as transformações no contexto demográfico, político, econômico e sociocultural repercutem sobre as formas de entrar e viver a fase da velhice.

JU – Tendo utilizado dados dos Censos Demográficos e das PNADs, o que as análises lhe permitiram enxergar?

Carolina Guidotti – Focamos três coortes de nascimento (ou gerações): a nascida entre 1911 e 1920; a nascida entre 1931 e 1940, que em 2010 tinha entre 70 e 79 anos; e a nascida entre 1951 e 1960, que tinha entre 50 e 59 anos em 2010 e está ingressando agora na fase da velhice. Conhecer as características e ter uma medição do ritmo de mudança entre essas diferentes gerações torna-se relevante no contexto em que a população brasileira experimenta um acelerado processo de envelhecimento. Vale ressaltar a estimativa do IBGE de que, em 2040, 23% dos brasileiros (pouco mais de 54 milhões) estarão com 60 anos ou mais.

As análises mostraram substantivas diferenças das características de homens e mulheres entre essas gerações, assim como em relação a níveis de escolaridade. Para compreender esses diferenciais, ressalta-se a relevância do marco histórico e, dentro deste, do papel das políticas públicas na demarcação das condições de vida entre as gerações, o que contribui para experiências diferentes de envelhecer. Um diferencial a destacar é o acesso à educação: mais de 70% dos idosos nascidos nas primeiras décadas do século passado tinham completado no máximo três anos de educação formal; já para a geração nascida entre 1951 e 1960, esse percentual será inferior a 30% quando atingirem 60 anos ou mais. Pode-se esperar que em 2040 praticamente a metade da população entre 60 e 69 anos tenha ensino médio completo, o dobro que em 2010. A escolaridade tem implicações importantes nas formas viver a velhice, pois influencia a qualidade de vida e as condições de saúde, de participação social e de autonomia.

Em segundo lugar, verificamos que as mudanças nos sistemas de seguridade social e de saúde, com a progressiva tendência à universalização, tiveram importantíssimo impacto nesta população, influenciando tanto as condições domésticas quanto a situação de atividade econômica. Como exemplos, o Programa de Prestação Continuada (BPC) e a ampliação da aposentadoria rural entre a população socioeconomicamente menos favorecida das gerações nascidas após 1930; e o aumento da cobertura do sistema de saúde, refletido não somente pelas contínuas quedas da mortalidade na infância e entre adultos, como também na melhora da saúde autopercebida da população, o que implica maiores possibilidades de autonomia para o idoso.

JU – E quanto às mudanças no contexto econômico?

Carolina Guidotti – As mudanças, particularmente no mercado de trabalho formal, impactaram nas características das diferentes gerações de idosos. Nesse marco, pode ser interessante pensar em como as políticas de transferência de renda implantadas na década de 2000 (como o Bolsa Família) e o crescimento econômico que o país evidenciou recentemente influenciarão na configuração da velhice nas próximas décadas. A questão convida à realização de estudos específicos utilizando o enfoque do curso de vida.

JU – Seu estudo também trata das condições do envelhecimento na esfera doméstica.

Carolina Guidotti – Dentre as mudanças mais substantivas, vemos o aumento dos arranjos unipessoais [domicílios integrados por uma pessoa só] entre as gerações mais jovens. Tal arranjo residencial se verifica mais frequente entre mulheres e nas idades avançadas, mas tem aumentado entre as pessoas em idades adultas, principalmente as mais escolarizadas. Espera-se que entre as gerações que alcançarão a velhice em anos próximos, esse tipo de arranjo continue a crescer: as estimações indicam que, em 2030, uma em cada quatro mulheres entre 70 e 79 anos morará só. O estudo também sugere que a conformação do domicilio de casal sem filhos é uma situação relativamente passageira no curso de vida de grande parte da população idosa, especialmente no caso das mulheres.
Por outra parte, os domicílios estendidos [com um responsável ou cônjuge mais parentes] e compostos [mais moradores sem parentesco] têm perdido peso para as gerações mais jovens. Tais arranjos tendem a aumentar conforme avança a idade da geração nascida no começo do século passado; para a geração nascida entre 1931 e 1940, evidencia-se um crescimento até as faixas de início da velhice, e queda ou crescimento mais lento a partir dessa fase.
Nesse contexto, cabe assinalar a importância da implantação de políticas públicas que reconheçam as tendências das conformações domésticas, atendendo a demandas específicas e colaborando com a regulamentação do mercado destinado à provisão de serviços para cobrir as necessidades dessa população. E principalmente de políticas focadas na gestão pública do cuidado, socializando a responsabilidade pelo mesmo, função que ainda é depositada nas famílias, e especialmente nas mulheres.

JU – E em relação à atividade econômica, o que pôde constatar em sua pesquisa?

Carolina Guidotti – Os níveis de ocupação são elevados para a população com mais de 60 anos, especialmente entre os homens, apresentando tendência de queda para as gerações mais jovens. Porém, a diferença na proporção de ocupados entre as distintas gerações é mais acentuada para as mulheres e segue uma tendência oposta à da população masculina: a cada geração, a participação das mulheres na população ocupada aumenta, assim como aumentam as distâncias entre os índices de ocupação das mais e menos escolarizadas.
À medida que aumenta a idade, aumenta o percentual de aposentados e pensionistas. Porém, as idades consideradas de entrada na velhice (60 a 69 anos) não são o ponto de inflexão para a saída do mercado de trabalho. O percentual de aposentados e pensionistas se acentua entre 40 e 50 anos e continua a crescer até a faixa de 70 a 79 anos. Paralelamente, entre as gerações mais jovens, diminui o percentual de mulheres inativas que não recebem aposentadoria ou pensão, que tradicionalmente era bastante elevado.

JU – O que mostram os dados das PNADs sobre as condições socioeconômicas das diferentes gerações de idosos?

Carolina Guidotti – Foi possível observar que nas últimas décadas o curso de vida (a partir de idades adultas) tem se tornado mais diversificado. Não se observa uma associação direta entre condições gerais de perda de autonomia e a entrada na velhice: o curso de vida se mostra muito heterogêneo nessas idades, sendo que a heterogeneidade mostra tendência de aumento entre 1998 e 2008. Embora possamos pensar em tais evidências como um sinal de que a transição para a velhice está sendo protelada para idades mais avançadas, o enfoque aqui adotado indica que esse processo está em constante transformação, ganhando novos contornos e diversidade.
São evidências que permitem repensar a pertinência da demarcação das idades de 60 ou 65 anos como do limiar de entrada na velhice e considerar limites mais flexíveis, segundo as necessidades de se definir uma idade burocrática, por exemplo, para regulação de políticas. O envelhecimento nas próximas décadas dependerá em grande medida das características das gerações atualmente jovens, daí a importância de utilizar um enfoque que ilumine o curso de vida de forma global, a fim de gerar políticas públicas efetivas para melhorar as condições de vida da população.

Publicação
Tese: “Envelhecimento demográfico e mudanças na transição à velhice entre brasileiros de distintas gerações”
Autora: Carolina Guidotti
Orientadora: Tirza Aidar
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/619/um-olhar-sobre-o-novo-envelhecer

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‘Favelas poderiam servir de modelo para cidades do futuro’

Por Luiza Bandeira
Da BBC Brasil em Londres
10 fevereiro 2015

Uma cidade em que as pessoas caminhem mais e dirijam menos. Uma cidade em que a vontade da comunidade seja respeitada e considerada no planejamento urbano. Parece um sonho distante?
Para um dos ambientalistas mais respeitados da Grã-Bretanha, esses elementos já estão presentes em favelas brasileiras e poderiam ser um exemplo para as cidades-verdes do futuro.
“Precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto”, diz o físico britânico (nascido na África do Sul) sir David King, presidente do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult.
“É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários”, afirma ele, em entrevista à BBC Brasil.

Mas isso não significa que as favelas sejam um modelo em todos os sentidos. O que King defende é a adoção de duas de suas mais desejáveis características: a forma de auto-organização das comunidades, evitando o planejamento “de cima para baixo”, e distâncias que podem ser vencidas a pé.
King também traça um paralelo entre as favelas e as cidades medievais. Ele defende que uma cidade planejada “do zero” a partir do modelo de favelas e cidades medievais se aproximaria de Barcelona – e seria o oposto da capital econômica do Texas, Houston.
Leia trechos da entrevista a seguir:

BBC Brasil – Por que as favelas poderiam ser exemplos para as cidades no futuro?
David King – Há dois aspectos. Primeiro, precisamos aprender com o jeito como as comunidades se auto-organizam. Evitar o planejamento de cima para baixo, em que os urbanistas acham que sabem mais do que as comunidades. É uma questão de trabalhar com as pessoas do local e ver o que elas querem. No passado, governos já acabaram com favelas e colocaram prédios altos no lugar. A comunidade, quando se muda de volta para esses prédios, recria o ambiente comunitário que as favelas representavam. É quase gratificante ver que a vida local se passa, na verdade, no espaço entre esses prédios altos.

Meu ponto não é que as favelas são lugares bons, e nem é boa a ocupação ilegal e o comportamento que vem com isso. Mas precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto. Essas favelas muitas vezes viram motores para o crescimento econômico, como em Nairóbi e Mumbai. É uma questão de mostrar respeito às pessoas e demonstrar que a auto-organização delas pode ter resultados muito positivos.
Se trata de mostrar respeito às pessoas e demonstrar que a auto-organização pode ter resultados positivos.

Em Lima, arquitetos europeus fizeram um projeto em que construíram apenas as bases das casas e as partes mais difíceis, como banheiro e cozinha. E deixaram as pessoas continuarem as construções. Se você for nessas áreas hoje, verá que algumas dessas casas têm três andares, são todas diferentes. Mas todas se encaixam muito bem no ambiente que foi criado.
A possibilidade de andar é crucial (nas favelas). Você não precisa ter um carro para se locomover e isso é uma grande vantagem. O que existe em Lima é uma espécie de versão modelo do que estou falando. Existe um paralelo com as antigas cidades medievais da Europa, cujo design era em parte resultado da auto-organização, mas também determinado pelo fato de que as pessoas andavam de um lugar para o outro. A possibilidade de andar era um atributo chave para esses locais funcionarem. As pessoas podiam andar de casa para o trabalho, para locais de lazer, para locais de compras. Cada área dessas cidades medievais é uma combinação do que as pessoas querem e precisam no seu dia a dia. E ficam a uma distância razoável a pé.

BBC Brasil – Na prática, se fôssemos começar uma cidade do zero inspirada pelas favelas, como ela seria?
David King – Primeiro eu vou te dizer como uma cidade não deve ser: como Houston. É provavelmente a cidade menos densa do mundo. Ou Atlanta. São cidades que acreditam que todo mundo deve morar longe dos outros. E as pessoas chegam a pegar o carro para ver seus vizinhos. E, claro, para ir ao trabalho, comprar algo e para qualquer outra coisa.
Essas cidades, de baixa densidade, fazem as pessoas gastarem muita energia no dia a dia, são naturalmente caras e pobres em transporte de massa, pelas grandes distâncias que os ônibus teriam que percorrer, e não são agradáveis para as pessoas. Em Houston, a média de tempo gasto no carro é de 3 horas por dia, 7 dias por semana. E há muita obesidade.

Se começássemos uma cidade do zero, uma cidade modelo seria como Barcelona – uma cidade medieval que manteve a noção de poder andar e de alta densidade. As cidades modernas estão completamente congestionadas e ninguém quer ficar sentado dentro de um carro em um engarrafamento dia após dia.
É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários. É muito mais provável isso ocorrer em uma cidade de modelo medieval com alta densidade demográfica que do que nas Houstons e Atlantas.

BBC Brasil – Favelas são locais com diversos problemas, que vão de violência à poluição. Isso pode indicar que esta auto-gestão está fracassando?
David King – Em geral, quando falamos de favelas, falamos de pessoas que criaram estes espaços precisamente porque não há outro lugar para morar. Em ambientes urbanos que criam espaço suficiente para as pessoas, as favelas não se auto-organizam.

A favela é um ambiente urbano que funciona apesar dos problemas.
O desenvolvimento urbano que ocorreu de forma acelerada na América Latina entre 1950 e 2010 já chegou ao fim, mas levou – quanto seria? – 75% das pessoas nessa parte do mundo a viver em áreas auto-organizadas. Isso ocorreu porque havia falta de planejamento, mas também de financiamento para este rápido desenvolvimento urbano.
Não estou sugerindo que é boa ideia criar ambientes em que as pessoas vivam fora da sociedade normalmente organizada, ou usem eletricidade sem pagar, etc. Mas estou sugerindo que respeitar o ambiente que essas pessoas criaram é uma boa ideia. A favela é um ambiente urbano que funciona apesar dos problemas.

BBC Brasil – O sr. já esteve em alguma favela? O que achou?
David King – Já estive em favelas no Rio e em Caracas. Uma das coisas interessantes é que você espera encontrar casas construídas de forma precária, e que o espaço entre as casas seja muito precário. Então, como as favelas costumam ter muitas subidas, é interessante se ver subindo por uma escada sólida, ver que as pessoas criaram um ambiente que funciona. Acho que essa é a grande surpresa.

BBC Brasil – A chegada de serviços públicos às favelas muitas vezes resulta em gentrificação – processo acelerado, no Brasil e especialmento no Rio, pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas. As favelas podem tirar algum proveito destes eventos?
David King – Se olharmos para o legado de outros Jogos Olímpicos, houve exemplos bons e outros muito ruins.
A chave é ver que o legado das Olimpíadas é ainda mais importante que os Jogos.
Na Grécia, depois das Olimpíadas, muitas das instalações caíram em desuso e estão degradadas. Em Londres, quando começamos a planejar, não havia uma visão real de que o legado era mais importante que os Jogos em si. Depois do primeiro ano de planejamento, houve uma rápida percepção. A chave é ver que o legado é ainda mais importante que os Jogos.
E Londres também usou os Jogos como meio de promover um renascimento urbano. As Olimpíadas foram feitas no que era talvez a parte mais pobre da cidade, e houve uma regeneração do espaço urbano. Limpar e tornar verdes esses ambientes é a chave, e não remover as pessoas.
Isso nos leva a um ponto chave: a gentrificação.
Evitar a gentrificação, no sentido de obrigar as pessoas a sair de um lugar porque elas não podem mais pagar para viver lá, é uma parte muito importante do processo.
Se por gentrificação queremos dizer “melhorar o ambiente”, então tudo bem. Mas se queremos dizer desalojar pessoas para que a classe média possa se mudar para a área, entao é claro que é mais problemático.
Não quero usar a palavra gentrificação como necessariamente ruim. Melhorar a qualidade das casas, dos serviços, é crucial. Fornecer eletricidade legal, esgoto e água, ou seja, aumentar a possibilidade de as pessoas viverem bem.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150203_favelas_davidking_lab

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Sob nova roupagem: a grade regular para a disponibilização dos dados do Censo Demográfico 2010

Maria do Carmo Dias Bueno fala sobre sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em Demografia da UNICAMP.

Maria do Carmo Dias Bueno é Engenheira Civil Sanitarista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1986), tem mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995), mestrado em Geomática pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2004) e doutorado em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP (2014). Atualmente é Coordenadora de Projetos Especiais do Centro de Documentação e Disseminação de Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Tem interesse pela área de Geografia da População, Geodemografia, Demografia e Indicadores de Sustentabilidade.

Blog Demografia Unicamp: Qual tem sido exatamente seu trabalho no IBGE e como surgiu o interesse por fazer o doutorado em Demografia na UNICAMP?

Maria do Carmo Dias Bueno: Entrei no IBGE em 2003 como Analista de Geoprocessamento e comecei a trabalhar com disseminação de mapas temáticos (geográficos e estatísticos) na internet; depois, me envolvi com os trabalhos de preparação da Contagem 2007 e do Censo Agropecuário 2006 e desde então me dedico principalmente a essas duas tarefas. No final de 2009 decidi que estava na hora de fazer doutorado e comecei a procurar um programa que atendesse simultaneamente aos meus anseios pessoais e profissionais. Encontrei isso na UNICAMP, no programa de Demografia, que além de ser interdisciplinar oferece a linha de pesquisa População e Ambiente, que conjuga dois campos que me interessam bastante.

Você chegou a realizar intercâmbio acadêmico, não é? Por que escolheu a Inglaterra e especificamente a Universidade de Southampton? Quanto tempo você ficou por lá e quais os reflexos desse período no seu trabalho?

Quem trabalha com geoprocessamento e com dados de população certamente ouviu alguma vez o nome David Martin, já que ele tem grandes trabalhos nesta área. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em um seminário internacional em 2010 quando fiquei sabendo que o tema da minha tese de doutorado era objeto de algumas pesquisas dele. Daí para fazer o intercâmbio foi apenas uma questão de tempo. Fiquei seis meses na Universidade de Southampton, Inglaterra, onde ele trabalha, e foram meses muito proveitosos. Além de fazer toda a revisão bibliográfica e escrever a parte teórica durante este período que estive lá, ainda repensei a metodologia a partir dos conselhos diretos e precisos dados por ele.

Conte-nos mais um pouco especificamente sobre sua tese. Quais foram os elementos que motivaram seu trabalho?

De uma maneira simples e rápida, minha tese se resume a agregar os dados censitários em um conjunto de células regulares dispostas em um sistema de grade. Essa nova unidade geográfica – a célula – é arbitrária e fixa e, por isso mesmo, traz algumas vantagens, como não se alterar ao longo do tempo e ser independente de divisões político-administrativas ou operacionais. Além disso, essas unidades têm dimensões pequenas e podem ser vistas como “tijolos” que se juntam para formar qualquer recorte desejado. Isso traz enormes vantagens aos usuários, uma vez que facilita a realização de análises temporais e a integração de dados agregados em unidades diferentes, além de permitir a realização de estudos para áreas cujos limites não coincidem com divisões político-administrativas e possibilitar sua utilização diretamente como input em modelos de simulação.

A figura abaixo ilustra as vantagens da utilização da grade em termos de resolução espacial. Em áreas da Região Norte do Brasil, como no estado do Pará, onde existem grandes vazios de população, a utilização dos setores censitários mascara esta distribuição espacial, pois essas unidades apresentam grandes extensões. Com a utilização da grade estatística, as unidades são menores e os vazios de população podem ser vistos, permitindo um melhor reconhecimento e planejamento do território.

Maria

Creio que por ser uma usuária de dados eu sempre penso em tornar mais simples a utilização dos dados, tentando criar formas de superar as barreiras que dificultam o total aproveitamento do potencial de análise que os dados carregam consigo e que nem sempre pode ser totalmente explorado.

Quais foram as principais descobertas de sua tese? Em que sentido ela consegue avançar em relação aos desafios propostos no início do trabalho?

Eu acho que a minha tese não é do tipo que faz descobertas inovadoras, mas é daquelas que exploram caminhos que estavam ali o tempo todo e que simplesmente ainda não haviam sido seguidos. Uma frase de Schopenhauer resume bem isso: “A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou acerca daquilo que todo mundo vê.”

Com relação aos desafios colocados inicialmente, as aplicações executadas como exemplo na tese mostram que eles foram superados e que com a utilização da grade estatística o potencial analítico dos dados censitários foi ampliado e estendido.

Você acha que os resultados da sua tese estarão disponíveis para o grande público que utiliza os dados produzidos pelo IBGE? Existe alguma previsão para que isso aconteça?

Um conselho que me deram logo no início da tese foi: “Sua tese é a sua tese; seu trabalho no IBGE é seu trabalho no IBGE.” Ou seja, eu não deveria misturar as coisas. E foi o que eu tentei fazer, apesar de não ser tão fácil assim. Eu não decidi fazer doutorado para que minha tese fosse adotada pelo IBGE; isso foi um processo que aconteceu ao longo do tempo e não foi intencional. É claro que eu fico muito orgulhosa de ter um trabalho desenvolvido por mim adotado pela instituição para a qual eu trabalho. Mas não vamos misturar as coisas. Na minha tese eu posso decidir livremente os caminhos a seguir pensando apenas na técnica. Em uma instituição isso não acontece exatamente assim; existem diretrizes, planejamentos, integrações e interesses que devem ser considerados. O IBGE vai adotar a disseminação de dados censitários agregados em forma de grade, mas as características deste produto não serão necessariamente as mesmas adotadas na tese, já que os interesses da instituição devem ser considerados. Uma previsão preliminar é que o produto seja lançado em março do próximo ano.

* * *

Tese: “Grade estatística: uma abordagem para ampliar o potencial analítico de dados censitários”
Autor: Maria do Carmo Dias Bueno
Orientador: Álvaro de Oliveira D’Antona
Unidade: Programa de pós-graduação em Demografia – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UNICAMP).

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HAITI: do terremoto de 2010 aos processos migratórios contemporâneos – entrevista com Chandeline Jean Baptiste

Chandeline Jean Baptiste é aluna da pós-graduação em Demografia da Unicamp (Mestrado), tem como país de origem o Haiti e sua pesquisa pretende compreender o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos.

Demografia Unicamp – Chandeline, como aluna da pós-graduação em Demografia na Unicamp que tem como país de origem o Haiti, como poderia nos descrever seu percurso até aqui?

ChandieÉ uma longa história. Cheguei ao Brasil em agosto de 2011 por meio de um acordo entre os Ministérios de Educação e das Relações Exteriores do Brasil e do Minisério de Educação do Haiti. O objetivo era participar na reconstrução do Haiti fortalecendo o ensino superior no país.  Foi um programa de 18 meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A ideia era fazer um intercâmbio (graduação sanduíche) durante este tempo. O primeiro semestre foi consagrado à aprendizagem da língua portuguesa. Durante o ano acadêmico 2012, fiz algumas disciplinas isoladas em Geografia e Ciências Sociais, pois já havia concluído a minha graduação lá. Ao mesmo tempo, participei do processo seletivo do nosso programa de pós-graduação em Demografia, e agora estou aqui.

Fiquei muito feliz! Pois quando estava na faculdade lá no Haiti, estudei Ciências Sociais, mas na verdade a gente tinha a maioria das disciplinas de História e Geografia. Depois do terremoto, a Universidade de Poitiers (França) ofereceu duas bolsas em História para os dois primeiros alunos da minha turma (eu era a terceira, por isso não fui aprovada). Estes meus colegas que estão lá na França já estão no primeiro ano de doutorado, e aqueles que ficaram lá no Haiti já terminaram o mestrado em Geografia pela Universidade de Paris 8 [1]. Posso dizer que por causa das falhas do meu programa e talvez por causa da diferenciação nos sistemas escolares dos dois países (Haiti e Brasil), tenho um ano de atraso em relação aos meus colegas. Mas a minha alegria é que serei a única demógrafa da minha turma. E fiquei muito feliz por isso. O Haiti precisa tanto de demógrafos…

 

Demografia Unicamp – Historicamente o Haiti passa por situações bastante complexas em termos econômicos, políticos e sociais. Esta realidade foi ainda mais intensificada após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, que teve proporções catastróficas. Nessa ocasião o palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos e estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe, a capital do país, tenham sido destruídas ou seriamente danificadas. Como você visualiza a realidade haitiana atual? A que passo anda a reconstrução do país?

Se a situação do Haiti já era difícil, o terremoto de 12 de janeiro aumentou muito mais nossas dificuldades.  Atualmente o Haiti ainda está passando por vários problemas (políticos, econômicos, sociais e ambientais).  Como vocês já sabem, durante o terremoto de janeiro de 2010, o país foi destruído totalmente e hoje estamos numa fase de reconstrução. Recomeçaram as aulas, os poucos hospitais que a gente tem estão em funcionamento, a vida recomeçou na capital e no país inteiro. Mas, apesar de esta reconstrução estar ocorrendo demasiadamente devagar, em minhas conversas com os meus colegas que estão no Haiti e no exterior percebo um sopro de esperança em relação ao futuro do país.

Peacekeeping - MINUSTAH

Vista do Palácio Nacional, destruído pelo terremoto.

 

Demografia Unicamp – A realidade econômica do Haiti parece estar na raiz dos grandes fluxos migratórios que se direcionam para diversas partes do mundo. No contexto atual, o Brasil tem sido um dos principais países a receber migrantes haitianos. Qual é sua leitura sobre esses processos? Como eles podem impactar na vida da população haitiana diante da distância física entre os que vão e os que ficam?

Para entender o fluxo migratório recente do Haiti para o Brasil cabe entender a relação que existe entre os dois países desde 1928 (ano que marca o início das relações diplomáticas entre o Haiti e o Brasil). A presença dos militares brasileiros desde 2004 no país também é um fator importante na escolha do Brasil como país de destino. Vale ainda ressaltar que este fluxo de haitianos para o Brasil não é um fenômeno novo, pois antes deste já existia um fluxo composto de jovens estudantes participantes de intercâmbios ou pós-graduandos contemplados com bolsas de estudos dos Ministérios da Educação e das Relações Exteriores – através dos convênios PEC-G e PEC-PG. Estes convênios foram estabelecidos não apenas com o Haiti, mas também com outros países em desenvolvimento, sobretudo com aqueles da África e da América Latina, no âmbito da política de cooperação Sul-Sul. A única diferença é que agora a gente está vivenciando outro fluxo num contexto diferente.

Em minha opinião, os fluxos não têm só a ver com a realidade econômica do país, mas também com a realidade social (busca de melhores condições de vida) e a realidade educacional (buscando novas possibilidades de estudo). Enquanto os estudantes chegaram ao Brasil via rotas legais, após o terremoto, muitos haitianos chegaram pelas rotas ilegais. O que faz a situação desses haitianos se tornar muito preocupante, tal como afirma Foster Brown da universidade Federal do Acre[2]. Para mim, é um processo bem complicado tanto para o Brasil quanto para o Haiti.

Se, por um lado, a entrada em massa dos haitianos na Amazônia mostra a ascensão da imigração internacional para o Brasil, por outro, esse fluxo deve representar uma oportunidade para o país pensar sobre outros tipos de acontecimento, procurando soluções possíveis e formulação de políticas públicas sem esquecer uma política migratória que leve em conta os direitos humanos desses migrantes. Os responsáveis do Haiti, do seu lado, têm de criar novas medidas, novas oportunidades para que os nativos sejam livres para escolher ficar no país ou migrar para exterior. Pois, na maioria das vezes, o migrante haitiano deixa o país em busca de melhores condições de vida.  A migração não deve ser um motivo para fugir dos problemas do país.

De um lado, essa migração pode impactar bastante a vida da população e as remessas [de dinheiro] ajudam muito aqueles que ficam: ajudam na escolaridade, na saúde, no sustento da casa, etc. Do outro, deixa muita saudade e tristeza para os membros da família que permanecem no Haiti.

 

Demografia Unicamp – Conforme dados das Nações Unidas[3] para o ano de 2010 o Haiti apresentava uma população predominantemente jovem, com grande participação relativa dos grupos etários abaixo de 30 anos. Seriam principalmente jovens os grupos populacionais que saem do país atualmente? Já se sabe exatamente qual é o perfil sociodemográfico da população que realiza o processo migratório em termos de sexo, idade e nível de escolaridade?

Ao olhar a pirâmide etária de 2010 da população haitiana, podemos concluir que o Haiti possui uma população muito jovem. Em minha dissertação, estou querendo explicar o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos. Vamos, obviamente, apresentar o perfil desses migrantes. Todavia, minha pesquisa está em andamento, não tenho nenhum resultado ainda. No entanto, pesquisas já realizadas (trabalho dos professores Duval Magalhães e Sidney da Silva [4]), mostram que estes jovens são em sua maioria do sexo feminino e têm idade entre 20 e 35 anos. A escolaridade é de nível médio; alguns já fizeram cursos técnicos e outros atingiram nível superior completo ou incompleto.

População por grupos etários, Haiti – 2010 (em números absolutos)

Haiti002

Fonte: United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision

 

Demografia Unicamp – Para finalizar, gostaríamos de saber quais são suas impressões sobre a recepção que o Brasil em especial tem realizado em relação aos migrantes haitianos. Em sua leitura, o sonho do emprego e de melhores condições de vida tem se concretizado por aqui? Em que termos ainda precisamos avançar?

Vou tentar responder a essa pergunta com as minhas limitações, considerando as minhas poucas leituras (risos). Como minha pesquisa está em andamento, pretendo ainda fazer um trabalho de campo lá no Acre, mas só em julho deste ano de 2014. A única coisa que posso dizer é que os haitianos que chegaram ao Brasil pela fronteira norte amazônica vieram sem documentação e em um contexto diferente daqueles que chegaram aqui com documentação para estudar ou para trabalhar. Obviamente, eles vão enfrentar dificuldades sérias, tais como a regularização de seus documentos e a obtenção de um emprego, embora seja difícil (especialmente pela língua e pela pouca qualificação). Mas, uma vez passada essa fase, esse sonho que todos têm do Brasil como um país próspero, onde eles podem ter um emprego e melhores condições de vida, começa a se concretizar. Agora a grande questão vai ser a percepção da sociedade face a estes migrantes, já que muitos brasileiros os veem como “mão de obra barata”, de portadores de doenças, etc.

É importante lembrar que migrar é um direito. Não importa a origem, a cor, a raça ou o contexto migratório. Embora os haitianos no Brasil não sejam considerados como refugiados, mas sim migrantes em decorrência de vulnerabilidades sociais – conforme o Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) – todos têm de ter os seus direitos devidamente assegurados

[1] Trata-se de um programa de mestrado em Geografia da Universidade do Haiti em acordo com a Universidade de Paris 8. Neste programa, quem ministra as aulas são alguns professores do Haiti, em sua grande maioria professores que foram formados pela Universidade de Paris 8. Assim, os estudantes assistiam as aulas no Haiti, mas obtinham também um diploma da Universidade de Paris 8.

[2] “Coiotes” conduzem mais haitianos até a fronteira Brasil-Peru. Blog da Amazônia. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/05/15/coiotes-conduzem-mais-haitianos-ate-a-fronteira-brasil-peru/. Acesso em mar. 2014.

[3] United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision, Volume II: Demographic Profiles. Disponível em: http://esa.un.org/wpp/Demographic-Profiles/pdfs/332.pdf. Acesso em mar. 2014.

[4] Haitianos: os novos imigrantes do Brasil. Entrevista especial com Duval Magalhães e Sidney da Silva. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/45912-haitianos-os-novos-imigrantes-do-brasil-entrevista-especial-com-duval-magalhaes-e-sidney-da-silva. Acesso em mar. 2014.

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Documentário Adeus, Haiti, disponível AQUI.

Entrevista – RTV UNICAMP – Catástrofe do Haiti, disponível AQUI.

Haitianos e senegaleses marcham pelo centro de Caxias do Sul, disponível AQUI.

Professores deixam escolas no Haiti para trabalhar até 15h por dia em SP, disponível AQUI.

 

Revisão e edição: Igor Johansen e Flávia Longo (rd.demografia.unicamp@gmail.com).

Para fazer contato com Chandeline Jean Baptiste, utilizar o seguinte e-mail: linoue87@yahoo.fr

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