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Tese revela superexploração de mão de obra de haitianos em SC

Estudo embasou denúncias feitas pelos Observatórios das Migrações ao Ministério Público do Trabalho

Imigrantes haitianos que vieram para o Brasil entre 2010 e 2014 e, recrutados por setores da agroindústria ou da construção civil, foram trabalhar no Estado de Santa Catarina, tiveram a mão de obra superexplorada por seus empregadores, ou seja, sofreram a violação do valor da força de trabalho. Conforme detalhou a tese de doutorado defendida pelo pesquisador Luis Felipe Aires Magalhães, no Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo), as empresas utilizavam vários mecanismos para tirar o máximo dos trabalhadores.

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O pesquisador Luis Felipe Aires Magalhães, autor da tese: “O Estatuto enxerga o estrangeiro como uma ameaça”

A primeira estratégia era descontar dos salários a concessão do alojamento, seguida da chamada alocação discriminatória, que significava colocar o haitiano em setores que exigiam mais força física ou em setores que favoreciam doenças relacionadas ao trabalho. Por último, a tese apontou que, sem conhecer direito o português, os imigrantes eram obrigados a assinar contratos com cláusulas nas quais abriam mão dos direitos trabalhistas depois da demissão.

A superexploração da mão de obra dos imigrantes haitianos é detalhada na tese e embasou denúncias feitas por pesquisadores dos Observatórios das Migrações ao Ministério Público do Trabalho. Luís Felipe integra a seção do observatório em São Paulo, com um projeto Fapesp coordenado por sua orientadora, a docente Rosana Baeninger. Porém, as pesquisas, que abrangem outros Estados, por meio de uma rede de observatórios e outros grupos de pesquisa em outras regiões do Brasil, também mostraram a existência das práticas das empresas.

Segundo o pesquisador, eram descontados do salário de cada trabalhador em média 230 reais pelo alojamento. Em trabalho de campo, Luis Felipe identificou que as condições eram muito precárias. “Em alguns casos, 11 trabalhadores dividiam dois cômodos e um único banheiro, havia infiltrações e as construções tinham o pé direito baixo”, salienta.

Os haitianos, acrescenta o autor, mesmo recebendo menos que os brasileiros, eram alocados para os setores mais pesados, como o da “pendura” em frigoríficos e também o de miúdos. Frequentemente, os imigrantes levantavam peso além do permitido pela norma reguladora.

No setor de miúdos, os trabalhadores seguravam funis em alturas superiores às previstas na legislação, sendo obrigados a entre 8 ou 10 horas diárias com os braços situados numa angulação superior a 90 graus. “Um em cada quatro trabalhadores está afastado por doença de trabalho”, complementa.

As questões relacionadas ao trabalho estão situadas num contexto mais amplo abordado pela tese, de estudo das dinâmicas da imigração haitiana, entendendo o fenômeno como processo histórico e social e também a composição de um perfil sociodemográfico dos fluxos. “Sempre houve a emigração no Haiti, mas a quantidade de pessoas desejosas de viver em outro país aumentou após um conjunto de transformações basicamente depois de 2004, quando o presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto e se agravou a crise política e eleitoral no país”. O envio da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), “uma força estrangeira, militar, que supostamente tentaria estabilizar o Haiti”, além das crises financeiras mundiais de 2007 e 2008, foram outros fatores que contribuíram para favorecer a imigração como constata o pesquisador. Em 2010 houve o terremoto que matou mais de 200 mil pessoas.

Eldorado

Segundo o estudo, um dos motivos da escolha dos haitianos pelo Brasil foi o período de crescimento econômico e inclusão social entre 2003 e 2010. “Foram criados 14,7 milhões de empregos e isso chamou a atenção das famílias haitianas. O Brasil passou a ser considerado o novo eldorado da imigração haitiana. Paralelo a isto foi criado o visto de ajuda humanitária exclusivo e específico para os imigrantes daquele país”.

Os quatro primeiros anos da chegada de imigrantes haviam sido marcados pela indocumentação. O visto era muito restrito e obedecia a uma cota de 1.200 por ano. “Os que não tinham o visto de ajuda humanitária eram atraídos pela rede que opera as migrações, que envolve em alguma medida tráfico, venda de passagens, manipulação de informações e endividamento dos imigrantes”.

Luis Felipe observou que essa rede se aproveitava do fato de o Equador não exigir visto a nenhum cidadão do mundo, para usar o país como rota. “Foram articulados voos ou do Haiti ou da República Dominicana para o Equador. De lá os imigrantes faziam viagens de ônibus na clandestinidade cruzando todo o território peruano e chegavam à fronteira brasileira, nos estados do Acre ou do Amazonas, pedindo refúgio”.

Por conta da legislação, o Estado brasileiro era obrigado a abrir um processo de avaliação desse pedido, mas imediatamente oferecer carteira de trabalho e CPF ao imigrante. “A pessoa podia circular pelo território e procurar emprego”.

O fluxo que chegava documentado representava uma parcela pequena, de 10% a 15% do total de imigrantes, que vinha direto do Haiti para o aeroporto de Guarulhos. “A Resolução Normativa 102/2013, do Conselho Nacional de Imigração, além de revogar o limite para os vistos, permitiu a emissão em outras embaixadas brasileiras no exterior, não só no Haiti, mas também na República Dominicana, na Bolívia, no Equador e no Peru. Ampliou-se o leque de possibilidades para o imigrante”.

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Cenas do Haiti: saída intensificou-se depois da deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, em 2004

O recrutamento de trabalhadores começava nas áreas de concentração nas fronteiras ou em São Paulo, nos espaços de acolhimento. “Minha tese conseguiu identificar quais foram as empresas que inauguraram o processo. Empresas do Brasil inteiro estavam presentes, mas sobretudo as da construção civil, de serviços portuários e de limpeza urbana do Sul do Brasil, setores caracterizados por uma alta rotatividade da força de trabalho”.

Os imigrantes foram se deslocando, inicialmente para cidades do litoral norte de Santa Catarina. Depois os frigoríficos passaram a requisitar trabalhadores para o oeste do Estado. “Pudemos acompanhar esse processo nas duas pontas, participando das reuniões de recrutamento no litoral e vendo as condições de trabalho e de alojamento no interior”.

Perfil e dependência

Para compor o perfil sóciodemográfico dos fluxos migratórios, o pesquisador participou de um trabalho de campo que entrevistou quase 300 imigrantes haitianos em 16 cidades do Brasil. Ele mesmo entrevistou 99 imigrantes haitianos na cidade catarinense de Balneário Camboriú. “As principais características desse imigrante são: ser do sexo masculino, adulto jovem de religião evangélica com ensino médico completo ou superior incompleto. Não foram poucos os enfermeiros, professores e agrônomos ouvidos por nós”. O perfil também integrou em nível nacional uma pesquisa intitulada “Haitianos no Brasil, perfil e trajetórias” coordenada pelo professor Sidney Antonio da Silva, da Universidade Federal do Amazonas.

Luis Felipe concluiu a tese formulando um conceito de migração de dependência para os fluxos de imigrantes do Haiti. Ele constatou a dependência que as famílias haitianas têm das remessas de dinheiro provenientes de trabalhadores que residem fora do país, não somente no Brasil. Essa dependência chegou a representar entre 22% e 26% do PIB do país de 2005 a 2015.

“O fenômeno da dependência está presente em diversas instâncias na história do Haiti, que se converte na maior produtora de riquezas coloniais do mundo nos séculos 17 e 18, para o país mais pobre da América, atualmente”. Para o pesquisador, o Haiti está em posição de marginalidade e subalternalidade na dinâmica do capitalismo mundial. A tese é dedicada a entender a migração como um desafio, como um direito humano à mobilidade “não como um crime ou como um problema”.

Luis Felipe salienta que as políticas de acolhimento no Brasil ainda são muito frágeis e improvisadas, uma vez que ainda está vigente o Estatuto do Estrangeiro que é uma lei de 1980, do período de ditadura militar. “O Estatuto enxerga o estrangeiro como uma ameaça, justificando assim o fato de que o primeiro representante do Estado que o imigrante encontra, seja um policial federal”. A imigração haitiana vem cumprindo o importante papel de retomada de estudos e de uma certa militância a respeito da importância de políticas públicas específicas aos imigrantes e refugiados, considera.

 

Fonte: Jornal da Unicamp (16 de maio de 2017). Link para acesso AQUI.

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Um olhar sobre o novo envelhecer

Demógrafa analisa as características da transição à velhice no trabalho, na saúde e no âmbito doméstico

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A estimativa do IBGE para 2040 é de que aproximadamente 54 milhões de brasileiros (23% da população) estarão com 60 anos de idade ou mais. Se ainda prevalece a associação do idoso com a dependência, a fragilidade e a solidão – e a preocupação governamental com os custos aos sistemas de saúde e de seguridade social –, há a visão recente sobre a velhice como uma etapa de vida bem sucedida e saudável. A demógrafa Carolina Alondra Guidotti Gonzalez afirma, porém, que ambos os paradigmas tendem a homogeneizar a população idosa, num cenário em que as próprias características da velhice estão mudando.

“Envelhecimento demográfico e mudanças na transição à velhice entre brasileiros de distintas gerações” é a tese de doutorado desenvolvida por Carolina Guidotti, orientada pela professora Tirza Aidar, no âmbito do programa de pós-graduação em Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), e do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo). “Comparando gerações nascidas no início do século passado com gerações que atingirão idades superiores a 60 anos nas próximas décadas, são analisadas as características da transição à velhice no âmbito doméstico, no mercado de trabalho e nas condições de saúde, atentando-se para os diferenciais entre homens e mulheres e quanto ao nível socioeconômico”, explica a autora da pesquisa, que pede atenção para as diferentes formas de envelhecer.

Bacharel em sociologia, Carolina Guidotti possui mestrado em demografia também pela Unicamp, com uma dissertação sobre um dos países mais envelhecidos da América Latina: “Envelhecimento, família e transferências intergeracionais em Montevidéu, Uruguai”. Atualmente professora da Universidad de la Republica Uruguay, ela concedeu por e-mail a entrevista que segue:

Jornal da Unicamp – Qual a motivação para comparar a experiência do envelhecimento entre diferentes gerações da população brasileira? Você já tratou deste tema com foco em Montevidéu, e imagino que a questão seja particularmente preocupante para o Uruguai.

Carolina Guidotti – O envelhecimento da população é um tema que se encontra presente na agenda pública e nos meios de comunicação. Ao longo do tempo tem havido formas diferentes de conceituar o fenômeno: por um lado, existe um enfoque que associa a população idosa com a dependência, a fragilidade e a solidão; mais recentemente apareceu um paradigma oposto, que mostra a velhice como uma etapa bem sucedida e saudável. Ambos os paradigmas tendem a homogeneizar a população idosa. Além disso, o primeiro enfoque tem sido utilizado para sustentar a ideia de que o aumento da proporção de pessoas idosas acarretará em graves problemas para o financiamento dos sistemas de saúde e de seguridade social. Embora seja importante que as políticas públicas deem atenção para essa modificação da estrutura etária, é necessário ressaltar que o aumento relativo da população idosa se produz em um cenário em que as próprias caraterísticas da velhice estão mudando.

Nesse contexto, a principal motivação para a tese foi de gerar uma análise que permitisse conhecer as caraterísticas do envelhecimento da população brasileira sem sobredimensionar seus efeitos perversos na sociedade. O enfoque escolhido possibilita enxergar como a própria experiência da velhice se recobre de características diferentes entre distintas gerações, e ressalta a heterogeneidade dessa população. Isso significa enxergar o processo de mudança populacional sem dissociá-la das mudanças acontecidas na esfera social – focalizar como as transformações no contexto demográfico, político, econômico e sociocultural repercutem sobre as formas de entrar e viver a fase da velhice.

JU – Tendo utilizado dados dos Censos Demográficos e das PNADs, o que as análises lhe permitiram enxergar?

Carolina Guidotti – Focamos três coortes de nascimento (ou gerações): a nascida entre 1911 e 1920; a nascida entre 1931 e 1940, que em 2010 tinha entre 70 e 79 anos; e a nascida entre 1951 e 1960, que tinha entre 50 e 59 anos em 2010 e está ingressando agora na fase da velhice. Conhecer as características e ter uma medição do ritmo de mudança entre essas diferentes gerações torna-se relevante no contexto em que a população brasileira experimenta um acelerado processo de envelhecimento. Vale ressaltar a estimativa do IBGE de que, em 2040, 23% dos brasileiros (pouco mais de 54 milhões) estarão com 60 anos ou mais.

As análises mostraram substantivas diferenças das características de homens e mulheres entre essas gerações, assim como em relação a níveis de escolaridade. Para compreender esses diferenciais, ressalta-se a relevância do marco histórico e, dentro deste, do papel das políticas públicas na demarcação das condições de vida entre as gerações, o que contribui para experiências diferentes de envelhecer. Um diferencial a destacar é o acesso à educação: mais de 70% dos idosos nascidos nas primeiras décadas do século passado tinham completado no máximo três anos de educação formal; já para a geração nascida entre 1951 e 1960, esse percentual será inferior a 30% quando atingirem 60 anos ou mais. Pode-se esperar que em 2040 praticamente a metade da população entre 60 e 69 anos tenha ensino médio completo, o dobro que em 2010. A escolaridade tem implicações importantes nas formas viver a velhice, pois influencia a qualidade de vida e as condições de saúde, de participação social e de autonomia.

Em segundo lugar, verificamos que as mudanças nos sistemas de seguridade social e de saúde, com a progressiva tendência à universalização, tiveram importantíssimo impacto nesta população, influenciando tanto as condições domésticas quanto a situação de atividade econômica. Como exemplos, o Programa de Prestação Continuada (BPC) e a ampliação da aposentadoria rural entre a população socioeconomicamente menos favorecida das gerações nascidas após 1930; e o aumento da cobertura do sistema de saúde, refletido não somente pelas contínuas quedas da mortalidade na infância e entre adultos, como também na melhora da saúde autopercebida da população, o que implica maiores possibilidades de autonomia para o idoso.

JU – E quanto às mudanças no contexto econômico?

Carolina Guidotti – As mudanças, particularmente no mercado de trabalho formal, impactaram nas características das diferentes gerações de idosos. Nesse marco, pode ser interessante pensar em como as políticas de transferência de renda implantadas na década de 2000 (como o Bolsa Família) e o crescimento econômico que o país evidenciou recentemente influenciarão na configuração da velhice nas próximas décadas. A questão convida à realização de estudos específicos utilizando o enfoque do curso de vida.

JU – Seu estudo também trata das condições do envelhecimento na esfera doméstica.

Carolina Guidotti – Dentre as mudanças mais substantivas, vemos o aumento dos arranjos unipessoais [domicílios integrados por uma pessoa só] entre as gerações mais jovens. Tal arranjo residencial se verifica mais frequente entre mulheres e nas idades avançadas, mas tem aumentado entre as pessoas em idades adultas, principalmente as mais escolarizadas. Espera-se que entre as gerações que alcançarão a velhice em anos próximos, esse tipo de arranjo continue a crescer: as estimações indicam que, em 2030, uma em cada quatro mulheres entre 70 e 79 anos morará só. O estudo também sugere que a conformação do domicilio de casal sem filhos é uma situação relativamente passageira no curso de vida de grande parte da população idosa, especialmente no caso das mulheres.
Por outra parte, os domicílios estendidos [com um responsável ou cônjuge mais parentes] e compostos [mais moradores sem parentesco] têm perdido peso para as gerações mais jovens. Tais arranjos tendem a aumentar conforme avança a idade da geração nascida no começo do século passado; para a geração nascida entre 1931 e 1940, evidencia-se um crescimento até as faixas de início da velhice, e queda ou crescimento mais lento a partir dessa fase.
Nesse contexto, cabe assinalar a importância da implantação de políticas públicas que reconheçam as tendências das conformações domésticas, atendendo a demandas específicas e colaborando com a regulamentação do mercado destinado à provisão de serviços para cobrir as necessidades dessa população. E principalmente de políticas focadas na gestão pública do cuidado, socializando a responsabilidade pelo mesmo, função que ainda é depositada nas famílias, e especialmente nas mulheres.

JU – E em relação à atividade econômica, o que pôde constatar em sua pesquisa?

Carolina Guidotti – Os níveis de ocupação são elevados para a população com mais de 60 anos, especialmente entre os homens, apresentando tendência de queda para as gerações mais jovens. Porém, a diferença na proporção de ocupados entre as distintas gerações é mais acentuada para as mulheres e segue uma tendência oposta à da população masculina: a cada geração, a participação das mulheres na população ocupada aumenta, assim como aumentam as distâncias entre os índices de ocupação das mais e menos escolarizadas.
À medida que aumenta a idade, aumenta o percentual de aposentados e pensionistas. Porém, as idades consideradas de entrada na velhice (60 a 69 anos) não são o ponto de inflexão para a saída do mercado de trabalho. O percentual de aposentados e pensionistas se acentua entre 40 e 50 anos e continua a crescer até a faixa de 70 a 79 anos. Paralelamente, entre as gerações mais jovens, diminui o percentual de mulheres inativas que não recebem aposentadoria ou pensão, que tradicionalmente era bastante elevado.

JU – O que mostram os dados das PNADs sobre as condições socioeconômicas das diferentes gerações de idosos?

Carolina Guidotti – Foi possível observar que nas últimas décadas o curso de vida (a partir de idades adultas) tem se tornado mais diversificado. Não se observa uma associação direta entre condições gerais de perda de autonomia e a entrada na velhice: o curso de vida se mostra muito heterogêneo nessas idades, sendo que a heterogeneidade mostra tendência de aumento entre 1998 e 2008. Embora possamos pensar em tais evidências como um sinal de que a transição para a velhice está sendo protelada para idades mais avançadas, o enfoque aqui adotado indica que esse processo está em constante transformação, ganhando novos contornos e diversidade.
São evidências que permitem repensar a pertinência da demarcação das idades de 60 ou 65 anos como do limiar de entrada na velhice e considerar limites mais flexíveis, segundo as necessidades de se definir uma idade burocrática, por exemplo, para regulação de políticas. O envelhecimento nas próximas décadas dependerá em grande medida das características das gerações atualmente jovens, daí a importância de utilizar um enfoque que ilumine o curso de vida de forma global, a fim de gerar políticas públicas efetivas para melhorar as condições de vida da população.

Publicação
Tese: “Envelhecimento demográfico e mudanças na transição à velhice entre brasileiros de distintas gerações”
Autora: Carolina Guidotti
Orientadora: Tirza Aidar
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/619/um-olhar-sobre-o-novo-envelhecer

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‘Favelas poderiam servir de modelo para cidades do futuro’

Por Luiza Bandeira
Da BBC Brasil em Londres
10 fevereiro 2015

Uma cidade em que as pessoas caminhem mais e dirijam menos. Uma cidade em que a vontade da comunidade seja respeitada e considerada no planejamento urbano. Parece um sonho distante?
Para um dos ambientalistas mais respeitados da Grã-Bretanha, esses elementos já estão presentes em favelas brasileiras e poderiam ser um exemplo para as cidades-verdes do futuro.
“Precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto”, diz o físico britânico (nascido na África do Sul) sir David King, presidente do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult.
“É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários”, afirma ele, em entrevista à BBC Brasil.

Mas isso não significa que as favelas sejam um modelo em todos os sentidos. O que King defende é a adoção de duas de suas mais desejáveis características: a forma de auto-organização das comunidades, evitando o planejamento “de cima para baixo”, e distâncias que podem ser vencidas a pé.
King também traça um paralelo entre as favelas e as cidades medievais. Ele defende que uma cidade planejada “do zero” a partir do modelo de favelas e cidades medievais se aproximaria de Barcelona – e seria o oposto da capital econômica do Texas, Houston.
Leia trechos da entrevista a seguir:

BBC Brasil – Por que as favelas poderiam ser exemplos para as cidades no futuro?
David King – Há dois aspectos. Primeiro, precisamos aprender com o jeito como as comunidades se auto-organizam. Evitar o planejamento de cima para baixo, em que os urbanistas acham que sabem mais do que as comunidades. É uma questão de trabalhar com as pessoas do local e ver o que elas querem. No passado, governos já acabaram com favelas e colocaram prédios altos no lugar. A comunidade, quando se muda de volta para esses prédios, recria o ambiente comunitário que as favelas representavam. É quase gratificante ver que a vida local se passa, na verdade, no espaço entre esses prédios altos.

Meu ponto não é que as favelas são lugares bons, e nem é boa a ocupação ilegal e o comportamento que vem com isso. Mas precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto. Essas favelas muitas vezes viram motores para o crescimento econômico, como em Nairóbi e Mumbai. É uma questão de mostrar respeito às pessoas e demonstrar que a auto-organização delas pode ter resultados muito positivos.
Se trata de mostrar respeito às pessoas e demonstrar que a auto-organização pode ter resultados positivos.

Em Lima, arquitetos europeus fizeram um projeto em que construíram apenas as bases das casas e as partes mais difíceis, como banheiro e cozinha. E deixaram as pessoas continuarem as construções. Se você for nessas áreas hoje, verá que algumas dessas casas têm três andares, são todas diferentes. Mas todas se encaixam muito bem no ambiente que foi criado.
A possibilidade de andar é crucial (nas favelas). Você não precisa ter um carro para se locomover e isso é uma grande vantagem. O que existe em Lima é uma espécie de versão modelo do que estou falando. Existe um paralelo com as antigas cidades medievais da Europa, cujo design era em parte resultado da auto-organização, mas também determinado pelo fato de que as pessoas andavam de um lugar para o outro. A possibilidade de andar era um atributo chave para esses locais funcionarem. As pessoas podiam andar de casa para o trabalho, para locais de lazer, para locais de compras. Cada área dessas cidades medievais é uma combinação do que as pessoas querem e precisam no seu dia a dia. E ficam a uma distância razoável a pé.

BBC Brasil – Na prática, se fôssemos começar uma cidade do zero inspirada pelas favelas, como ela seria?
David King – Primeiro eu vou te dizer como uma cidade não deve ser: como Houston. É provavelmente a cidade menos densa do mundo. Ou Atlanta. São cidades que acreditam que todo mundo deve morar longe dos outros. E as pessoas chegam a pegar o carro para ver seus vizinhos. E, claro, para ir ao trabalho, comprar algo e para qualquer outra coisa.
Essas cidades, de baixa densidade, fazem as pessoas gastarem muita energia no dia a dia, são naturalmente caras e pobres em transporte de massa, pelas grandes distâncias que os ônibus teriam que percorrer, e não são agradáveis para as pessoas. Em Houston, a média de tempo gasto no carro é de 3 horas por dia, 7 dias por semana. E há muita obesidade.

Se começássemos uma cidade do zero, uma cidade modelo seria como Barcelona – uma cidade medieval que manteve a noção de poder andar e de alta densidade. As cidades modernas estão completamente congestionadas e ninguém quer ficar sentado dentro de um carro em um engarrafamento dia após dia.
É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários. É muito mais provável isso ocorrer em uma cidade de modelo medieval com alta densidade demográfica que do que nas Houstons e Atlantas.

BBC Brasil – Favelas são locais com diversos problemas, que vão de violência à poluição. Isso pode indicar que esta auto-gestão está fracassando?
David King – Em geral, quando falamos de favelas, falamos de pessoas que criaram estes espaços precisamente porque não há outro lugar para morar. Em ambientes urbanos que criam espaço suficiente para as pessoas, as favelas não se auto-organizam.

A favela é um ambiente urbano que funciona apesar dos problemas.
O desenvolvimento urbano que ocorreu de forma acelerada na América Latina entre 1950 e 2010 já chegou ao fim, mas levou – quanto seria? – 75% das pessoas nessa parte do mundo a viver em áreas auto-organizadas. Isso ocorreu porque havia falta de planejamento, mas também de financiamento para este rápido desenvolvimento urbano.
Não estou sugerindo que é boa ideia criar ambientes em que as pessoas vivam fora da sociedade normalmente organizada, ou usem eletricidade sem pagar, etc. Mas estou sugerindo que respeitar o ambiente que essas pessoas criaram é uma boa ideia. A favela é um ambiente urbano que funciona apesar dos problemas.

BBC Brasil – O sr. já esteve em alguma favela? O que achou?
David King – Já estive em favelas no Rio e em Caracas. Uma das coisas interessantes é que você espera encontrar casas construídas de forma precária, e que o espaço entre as casas seja muito precário. Então, como as favelas costumam ter muitas subidas, é interessante se ver subindo por uma escada sólida, ver que as pessoas criaram um ambiente que funciona. Acho que essa é a grande surpresa.

BBC Brasil – A chegada de serviços públicos às favelas muitas vezes resulta em gentrificação – processo acelerado, no Brasil e especialmento no Rio, pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas. As favelas podem tirar algum proveito destes eventos?
David King – Se olharmos para o legado de outros Jogos Olímpicos, houve exemplos bons e outros muito ruins.
A chave é ver que o legado das Olimpíadas é ainda mais importante que os Jogos.
Na Grécia, depois das Olimpíadas, muitas das instalações caíram em desuso e estão degradadas. Em Londres, quando começamos a planejar, não havia uma visão real de que o legado era mais importante que os Jogos em si. Depois do primeiro ano de planejamento, houve uma rápida percepção. A chave é ver que o legado é ainda mais importante que os Jogos.
E Londres também usou os Jogos como meio de promover um renascimento urbano. As Olimpíadas foram feitas no que era talvez a parte mais pobre da cidade, e houve uma regeneração do espaço urbano. Limpar e tornar verdes esses ambientes é a chave, e não remover as pessoas.
Isso nos leva a um ponto chave: a gentrificação.
Evitar a gentrificação, no sentido de obrigar as pessoas a sair de um lugar porque elas não podem mais pagar para viver lá, é uma parte muito importante do processo.
Se por gentrificação queremos dizer “melhorar o ambiente”, então tudo bem. Mas se queremos dizer desalojar pessoas para que a classe média possa se mudar para a área, entao é claro que é mais problemático.
Não quero usar a palavra gentrificação como necessariamente ruim. Melhorar a qualidade das casas, dos serviços, é crucial. Fornecer eletricidade legal, esgoto e água, ou seja, aumentar a possibilidade de as pessoas viverem bem.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150203_favelas_davidking_lab

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Sob nova roupagem: a grade regular para a disponibilização dos dados do Censo Demográfico 2010

Maria do Carmo Dias Bueno fala sobre sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em Demografia da UNICAMP.

Maria do Carmo Dias Bueno é Engenheira Civil Sanitarista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1986), tem mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995), mestrado em Geomática pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2004) e doutorado em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP (2014). Atualmente é Coordenadora de Projetos Especiais do Centro de Documentação e Disseminação de Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Tem interesse pela área de Geografia da População, Geodemografia, Demografia e Indicadores de Sustentabilidade.

Blog Demografia Unicamp: Qual tem sido exatamente seu trabalho no IBGE e como surgiu o interesse por fazer o doutorado em Demografia na UNICAMP?

Maria do Carmo Dias Bueno: Entrei no IBGE em 2003 como Analista de Geoprocessamento e comecei a trabalhar com disseminação de mapas temáticos (geográficos e estatísticos) na internet; depois, me envolvi com os trabalhos de preparação da Contagem 2007 e do Censo Agropecuário 2006 e desde então me dedico principalmente a essas duas tarefas. No final de 2009 decidi que estava na hora de fazer doutorado e comecei a procurar um programa que atendesse simultaneamente aos meus anseios pessoais e profissionais. Encontrei isso na UNICAMP, no programa de Demografia, que além de ser interdisciplinar oferece a linha de pesquisa População e Ambiente, que conjuga dois campos que me interessam bastante.

Você chegou a realizar intercâmbio acadêmico, não é? Por que escolheu a Inglaterra e especificamente a Universidade de Southampton? Quanto tempo você ficou por lá e quais os reflexos desse período no seu trabalho?

Quem trabalha com geoprocessamento e com dados de população certamente ouviu alguma vez o nome David Martin, já que ele tem grandes trabalhos nesta área. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em um seminário internacional em 2010 quando fiquei sabendo que o tema da minha tese de doutorado era objeto de algumas pesquisas dele. Daí para fazer o intercâmbio foi apenas uma questão de tempo. Fiquei seis meses na Universidade de Southampton, Inglaterra, onde ele trabalha, e foram meses muito proveitosos. Além de fazer toda a revisão bibliográfica e escrever a parte teórica durante este período que estive lá, ainda repensei a metodologia a partir dos conselhos diretos e precisos dados por ele.

Conte-nos mais um pouco especificamente sobre sua tese. Quais foram os elementos que motivaram seu trabalho?

De uma maneira simples e rápida, minha tese se resume a agregar os dados censitários em um conjunto de células regulares dispostas em um sistema de grade. Essa nova unidade geográfica – a célula – é arbitrária e fixa e, por isso mesmo, traz algumas vantagens, como não se alterar ao longo do tempo e ser independente de divisões político-administrativas ou operacionais. Além disso, essas unidades têm dimensões pequenas e podem ser vistas como “tijolos” que se juntam para formar qualquer recorte desejado. Isso traz enormes vantagens aos usuários, uma vez que facilita a realização de análises temporais e a integração de dados agregados em unidades diferentes, além de permitir a realização de estudos para áreas cujos limites não coincidem com divisões político-administrativas e possibilitar sua utilização diretamente como input em modelos de simulação.

A figura abaixo ilustra as vantagens da utilização da grade em termos de resolução espacial. Em áreas da Região Norte do Brasil, como no estado do Pará, onde existem grandes vazios de população, a utilização dos setores censitários mascara esta distribuição espacial, pois essas unidades apresentam grandes extensões. Com a utilização da grade estatística, as unidades são menores e os vazios de população podem ser vistos, permitindo um melhor reconhecimento e planejamento do território.

Maria

Creio que por ser uma usuária de dados eu sempre penso em tornar mais simples a utilização dos dados, tentando criar formas de superar as barreiras que dificultam o total aproveitamento do potencial de análise que os dados carregam consigo e que nem sempre pode ser totalmente explorado.

Quais foram as principais descobertas de sua tese? Em que sentido ela consegue avançar em relação aos desafios propostos no início do trabalho?

Eu acho que a minha tese não é do tipo que faz descobertas inovadoras, mas é daquelas que exploram caminhos que estavam ali o tempo todo e que simplesmente ainda não haviam sido seguidos. Uma frase de Schopenhauer resume bem isso: “A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou acerca daquilo que todo mundo vê.”

Com relação aos desafios colocados inicialmente, as aplicações executadas como exemplo na tese mostram que eles foram superados e que com a utilização da grade estatística o potencial analítico dos dados censitários foi ampliado e estendido.

Você acha que os resultados da sua tese estarão disponíveis para o grande público que utiliza os dados produzidos pelo IBGE? Existe alguma previsão para que isso aconteça?

Um conselho que me deram logo no início da tese foi: “Sua tese é a sua tese; seu trabalho no IBGE é seu trabalho no IBGE.” Ou seja, eu não deveria misturar as coisas. E foi o que eu tentei fazer, apesar de não ser tão fácil assim. Eu não decidi fazer doutorado para que minha tese fosse adotada pelo IBGE; isso foi um processo que aconteceu ao longo do tempo e não foi intencional. É claro que eu fico muito orgulhosa de ter um trabalho desenvolvido por mim adotado pela instituição para a qual eu trabalho. Mas não vamos misturar as coisas. Na minha tese eu posso decidir livremente os caminhos a seguir pensando apenas na técnica. Em uma instituição isso não acontece exatamente assim; existem diretrizes, planejamentos, integrações e interesses que devem ser considerados. O IBGE vai adotar a disseminação de dados censitários agregados em forma de grade, mas as características deste produto não serão necessariamente as mesmas adotadas na tese, já que os interesses da instituição devem ser considerados. Uma previsão preliminar é que o produto seja lançado em março do próximo ano.

* * *

Tese: “Grade estatística: uma abordagem para ampliar o potencial analítico de dados censitários”
Autor: Maria do Carmo Dias Bueno
Orientador: Álvaro de Oliveira D’Antona
Unidade: Programa de pós-graduação em Demografia – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UNICAMP).

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HAITI: do terremoto de 2010 aos processos migratórios contemporâneos – entrevista com Chandeline Jean Baptiste

Chandeline Jean Baptiste é aluna da pós-graduação em Demografia da Unicamp (Mestrado), tem como país de origem o Haiti e sua pesquisa pretende compreender o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos.

Demografia Unicamp – Chandeline, como aluna da pós-graduação em Demografia na Unicamp que tem como país de origem o Haiti, como poderia nos descrever seu percurso até aqui?

ChandieÉ uma longa história. Cheguei ao Brasil em agosto de 2011 por meio de um acordo entre os Ministérios de Educação e das Relações Exteriores do Brasil e do Minisério de Educação do Haiti. O objetivo era participar na reconstrução do Haiti fortalecendo o ensino superior no país.  Foi um programa de 18 meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A ideia era fazer um intercâmbio (graduação sanduíche) durante este tempo. O primeiro semestre foi consagrado à aprendizagem da língua portuguesa. Durante o ano acadêmico 2012, fiz algumas disciplinas isoladas em Geografia e Ciências Sociais, pois já havia concluído a minha graduação lá. Ao mesmo tempo, participei do processo seletivo do nosso programa de pós-graduação em Demografia, e agora estou aqui.

Fiquei muito feliz! Pois quando estava na faculdade lá no Haiti, estudei Ciências Sociais, mas na verdade a gente tinha a maioria das disciplinas de História e Geografia. Depois do terremoto, a Universidade de Poitiers (França) ofereceu duas bolsas em História para os dois primeiros alunos da minha turma (eu era a terceira, por isso não fui aprovada). Estes meus colegas que estão lá na França já estão no primeiro ano de doutorado, e aqueles que ficaram lá no Haiti já terminaram o mestrado em Geografia pela Universidade de Paris 8 [1]. Posso dizer que por causa das falhas do meu programa e talvez por causa da diferenciação nos sistemas escolares dos dois países (Haiti e Brasil), tenho um ano de atraso em relação aos meus colegas. Mas a minha alegria é que serei a única demógrafa da minha turma. E fiquei muito feliz por isso. O Haiti precisa tanto de demógrafos…

 

Demografia Unicamp – Historicamente o Haiti passa por situações bastante complexas em termos econômicos, políticos e sociais. Esta realidade foi ainda mais intensificada após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, que teve proporções catastróficas. Nessa ocasião o palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos e estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe, a capital do país, tenham sido destruídas ou seriamente danificadas. Como você visualiza a realidade haitiana atual? A que passo anda a reconstrução do país?

Se a situação do Haiti já era difícil, o terremoto de 12 de janeiro aumentou muito mais nossas dificuldades.  Atualmente o Haiti ainda está passando por vários problemas (políticos, econômicos, sociais e ambientais).  Como vocês já sabem, durante o terremoto de janeiro de 2010, o país foi destruído totalmente e hoje estamos numa fase de reconstrução. Recomeçaram as aulas, os poucos hospitais que a gente tem estão em funcionamento, a vida recomeçou na capital e no país inteiro. Mas, apesar de esta reconstrução estar ocorrendo demasiadamente devagar, em minhas conversas com os meus colegas que estão no Haiti e no exterior percebo um sopro de esperança em relação ao futuro do país.

Peacekeeping - MINUSTAH

Vista do Palácio Nacional, destruído pelo terremoto.

 

Demografia Unicamp – A realidade econômica do Haiti parece estar na raiz dos grandes fluxos migratórios que se direcionam para diversas partes do mundo. No contexto atual, o Brasil tem sido um dos principais países a receber migrantes haitianos. Qual é sua leitura sobre esses processos? Como eles podem impactar na vida da população haitiana diante da distância física entre os que vão e os que ficam?

Para entender o fluxo migratório recente do Haiti para o Brasil cabe entender a relação que existe entre os dois países desde 1928 (ano que marca o início das relações diplomáticas entre o Haiti e o Brasil). A presença dos militares brasileiros desde 2004 no país também é um fator importante na escolha do Brasil como país de destino. Vale ainda ressaltar que este fluxo de haitianos para o Brasil não é um fenômeno novo, pois antes deste já existia um fluxo composto de jovens estudantes participantes de intercâmbios ou pós-graduandos contemplados com bolsas de estudos dos Ministérios da Educação e das Relações Exteriores – através dos convênios PEC-G e PEC-PG. Estes convênios foram estabelecidos não apenas com o Haiti, mas também com outros países em desenvolvimento, sobretudo com aqueles da África e da América Latina, no âmbito da política de cooperação Sul-Sul. A única diferença é que agora a gente está vivenciando outro fluxo num contexto diferente.

Em minha opinião, os fluxos não têm só a ver com a realidade econômica do país, mas também com a realidade social (busca de melhores condições de vida) e a realidade educacional (buscando novas possibilidades de estudo). Enquanto os estudantes chegaram ao Brasil via rotas legais, após o terremoto, muitos haitianos chegaram pelas rotas ilegais. O que faz a situação desses haitianos se tornar muito preocupante, tal como afirma Foster Brown da universidade Federal do Acre[2]. Para mim, é um processo bem complicado tanto para o Brasil quanto para o Haiti.

Se, por um lado, a entrada em massa dos haitianos na Amazônia mostra a ascensão da imigração internacional para o Brasil, por outro, esse fluxo deve representar uma oportunidade para o país pensar sobre outros tipos de acontecimento, procurando soluções possíveis e formulação de políticas públicas sem esquecer uma política migratória que leve em conta os direitos humanos desses migrantes. Os responsáveis do Haiti, do seu lado, têm de criar novas medidas, novas oportunidades para que os nativos sejam livres para escolher ficar no país ou migrar para exterior. Pois, na maioria das vezes, o migrante haitiano deixa o país em busca de melhores condições de vida.  A migração não deve ser um motivo para fugir dos problemas do país.

De um lado, essa migração pode impactar bastante a vida da população e as remessas [de dinheiro] ajudam muito aqueles que ficam: ajudam na escolaridade, na saúde, no sustento da casa, etc. Do outro, deixa muita saudade e tristeza para os membros da família que permanecem no Haiti.

 

Demografia Unicamp – Conforme dados das Nações Unidas[3] para o ano de 2010 o Haiti apresentava uma população predominantemente jovem, com grande participação relativa dos grupos etários abaixo de 30 anos. Seriam principalmente jovens os grupos populacionais que saem do país atualmente? Já se sabe exatamente qual é o perfil sociodemográfico da população que realiza o processo migratório em termos de sexo, idade e nível de escolaridade?

Ao olhar a pirâmide etária de 2010 da população haitiana, podemos concluir que o Haiti possui uma população muito jovem. Em minha dissertação, estou querendo explicar o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos. Vamos, obviamente, apresentar o perfil desses migrantes. Todavia, minha pesquisa está em andamento, não tenho nenhum resultado ainda. No entanto, pesquisas já realizadas (trabalho dos professores Duval Magalhães e Sidney da Silva [4]), mostram que estes jovens são em sua maioria do sexo feminino e têm idade entre 20 e 35 anos. A escolaridade é de nível médio; alguns já fizeram cursos técnicos e outros atingiram nível superior completo ou incompleto.

População por grupos etários, Haiti – 2010 (em números absolutos)

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Fonte: United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision

 

Demografia Unicamp – Para finalizar, gostaríamos de saber quais são suas impressões sobre a recepção que o Brasil em especial tem realizado em relação aos migrantes haitianos. Em sua leitura, o sonho do emprego e de melhores condições de vida tem se concretizado por aqui? Em que termos ainda precisamos avançar?

Vou tentar responder a essa pergunta com as minhas limitações, considerando as minhas poucas leituras (risos). Como minha pesquisa está em andamento, pretendo ainda fazer um trabalho de campo lá no Acre, mas só em julho deste ano de 2014. A única coisa que posso dizer é que os haitianos que chegaram ao Brasil pela fronteira norte amazônica vieram sem documentação e em um contexto diferente daqueles que chegaram aqui com documentação para estudar ou para trabalhar. Obviamente, eles vão enfrentar dificuldades sérias, tais como a regularização de seus documentos e a obtenção de um emprego, embora seja difícil (especialmente pela língua e pela pouca qualificação). Mas, uma vez passada essa fase, esse sonho que todos têm do Brasil como um país próspero, onde eles podem ter um emprego e melhores condições de vida, começa a se concretizar. Agora a grande questão vai ser a percepção da sociedade face a estes migrantes, já que muitos brasileiros os veem como “mão de obra barata”, de portadores de doenças, etc.

É importante lembrar que migrar é um direito. Não importa a origem, a cor, a raça ou o contexto migratório. Embora os haitianos no Brasil não sejam considerados como refugiados, mas sim migrantes em decorrência de vulnerabilidades sociais – conforme o Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) – todos têm de ter os seus direitos devidamente assegurados

[1] Trata-se de um programa de mestrado em Geografia da Universidade do Haiti em acordo com a Universidade de Paris 8. Neste programa, quem ministra as aulas são alguns professores do Haiti, em sua grande maioria professores que foram formados pela Universidade de Paris 8. Assim, os estudantes assistiam as aulas no Haiti, mas obtinham também um diploma da Universidade de Paris 8.

[2] “Coiotes” conduzem mais haitianos até a fronteira Brasil-Peru. Blog da Amazônia. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/05/15/coiotes-conduzem-mais-haitianos-ate-a-fronteira-brasil-peru/. Acesso em mar. 2014.

[3] United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision, Volume II: Demographic Profiles. Disponível em: http://esa.un.org/wpp/Demographic-Profiles/pdfs/332.pdf. Acesso em mar. 2014.

[4] Haitianos: os novos imigrantes do Brasil. Entrevista especial com Duval Magalhães e Sidney da Silva. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/45912-haitianos-os-novos-imigrantes-do-brasil-entrevista-especial-com-duval-magalhaes-e-sidney-da-silva. Acesso em mar. 2014.

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Documentário Adeus, Haiti, disponível AQUI.

Entrevista – RTV UNICAMP – Catástrofe do Haiti, disponível AQUI.

Haitianos e senegaleses marcham pelo centro de Caxias do Sul, disponível AQUI.

Professores deixam escolas no Haiti para trabalhar até 15h por dia em SP, disponível AQUI.

 

Revisão e edição: Igor Johansen e Flávia Longo (rd.demografia.unicamp@gmail.com).

Para fazer contato com Chandeline Jean Baptiste, utilizar o seguinte e-mail: linoue87@yahoo.fr

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Campinas, 07 de maio de 2012 a 13 de maio de 2012 – ANO 2012 – Nº 525

Dossiê Demografia Unicamp

BAIXE AQUI:

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/525/dossie-demografia

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De Londres, Thais Tartalha fala sobre sua experiência de intercâmbio acadêmico

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Thais Tartalha do Nascimento Lombardi é doutoranda em Demografia no Programa de Pós-Graduação da Demografia do IFCH/Unicamp. Mestre em Antropologia Social e Bacharel em Ciências Sociais também pela Unicamp. Tem experiência de trabalho na área de Ciências Sociais, Antropologia e Demografia. Tem interesse e atua principalmente nos seguintes temas: etnografia e paisagem, Amazônia, população e ambiente, arranjos domiciliares, relação rural-urbano, organização social, urbanização na Amazônia, Antropologia demográfica, População e desenvolvimento, e mudanças na composição da população.

Blog Demografia Unicamp – O que levou você a optar por um intercâmbio acadêmico?

Thais Tartalha – Algumas motivações seriam curiosidade, necessidade e um pouquinho de ambição. No entanto, muito foi uma tentativa de “mudar de lugar”. Como minha formação desde a graduação foi na Unicamp achei que um pouco de diversidade me faria bem, afinal depois de quase dez anos aprendendo como funciona a Unicamp achei que um outro ambiente acadêmico não me deixaria “viciada” em apenas um jeito de fazer ciência. Além disso, sempre tive curiosidade de saber como era essa formação acadêmica fora do país, principalmente na Europa que de certa forma são espelhos ou modelos para o Brasil, tinha curiosidade de saber o quanto ser aluna no Brasil e fora dele fazia diferença. Queria também estar mais próxima de algumas discussões teóricas e metodológicas que são interessantes para mim, achei que isso enriqueceria meu trabalho. Além de tudo isso queria estar em alguma daquelas universidades nas quais grandes autores se formaram ou foram professores… queria poder andar nos corredores em que autores que me inspiram andaram.

Por que a Inglaterra e a London School of Economics (LSE)? Como foi o processo para o ingresso no intercâmbio? Quanto tempo você fica por aí?

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Hum… essa resposta vai ficar grande…

Quando comecei a graduação de alguma forma muitos dos autores que se tornaram minha bibliografia e norte teórico acabaram sendo ingleses e a opção pela Inglaterra enquanto destino de estudos sempre esteve em vista. Dentro dessa opção a LSE era um sonho dourado, sempre pensei como seria estar na universidade dos Karls: em que Karl Marx esteve e da qual Karl Popper foi professor. Então enquanto curiosamente procurava me informar sobre os programas de Demografia descobri que o Departamento de Social Policy, um dos mais antigos da LSE (fez 100 anos em 2012) era o responsável pelo Programa em Demografia, combinando toda a tradição das teorias sobre políticas públicas e projetos com discussões demográficas e um treinamento metodológico extensivo e diverso. Aqui estavam um especialista sobre Amazônia e uma especialista em Antropologia Demográfica e discussões sobre Household e Surveys, parecia o lugar certo para estar!

Então comecei a pensar seriamente em vir para a LSE e fui buscar opções. Eu tive muita sorte e mudanças nos programas de intercâmbio acadêmico da Capes e da Fapesp me beneficiaram. A Fapesp abriu uma linha de financiamento para bolsistas no Brasil que pretendiam fazer doutorado sanduíche e a Capes mudou o processo de seleção de bolsas de doutorado sanduíche tornando o processo mais ágil, aumentando o número de bolsas, e repassando o processo seletivo para uma avaliação pelas universidades. Dentre essas duas opções escolhi tentar a Capes entre outros motivos porque sabia que havia bolsas designadas para meu programa de doutorado e não havia muita competição naquele momento. Com isso reuni algumas pilhas de documentos, 12 itens se não me engano, entre eles um projeto do que faria no doutorado sanduíche e cartas dos meus orientadores na Unicamp e na LSE dizendo que aprovavam meu projeto e subscreviam minha inscrição para a bolsa. Há outros pequenos requisitos e o processo é encaminhado ao seu departamento de pós-graduação, na sua universidade, que deve abrir um processo de seleção e se aprovado encaminha para a reitoria que também deve aprovar e então entregar à Capes, que dará sequência à implantação da bolsa se todos os documentos estiverem em ordem. Tudo isso demora alguns meses, no meu caso três meses ao todo. E sendo um processo rápido e mais centrado na sua universidade a chance de conseguir a bolsa com um bom projeto é ainda maior.

De uma forma geral os orientadores da universidade de destino é que se encarregam de aceitar você e organizar os trâmites burocráticos aqui fora e você é mais ou menos informal, muita das vezes numa situação estranha porque você não é aluno, mas é, e isso depende muito como cada universidade de destino lida com a figura do aluno de fora que varia de lugar para lugar. No meu caso foi um pouco mais complicado… uma das questões que me colocaram é que eu deveria estar formalmente dentro do programa de “estudante pesquisador visitante” que é um programa da LSE que te reconhece como aluno e por isso tudo com relação à universidade fica incrivelmente mais fácil…do acesso a todos os serviços (incluindo as moradias da universidade) ao seu reconhecimento como alumni (ex-aluno) depois e o acesso perpétuo à biblioteca e ao acervo dela. Por isso tive de passar por um processo seletivo igualzinho ao que os alunos do doutorado daqui passam com a diferença que não precisei de entrevista. Foi bastante cansativo, mas conta como experiência porque tive de escrever um projeto em inglês e passar na prova de proficiência (no meu caso o IELTS). Por esse motivo também o tempo de sanduíche é o tempo estipulado pelo programa da LSE de 12 meses e só depois que soube do resultado daqui é que fui correr atrás da bolsa. Ao todo foram 10 meses de preparação de quando comecei a escrever o projeto até enviar a inscrição para a LSE, receber o resultado, começar o processo da Capes, receber o resultado, ter a bolsa implementada, e vir para o sanduíche.

E não posso deixar de agradecer a algumas pessoas. Primeiro ao Emerson, por seu apoio incondicional antes e durante o intercâmbio, por entender porque estamos longe e de longe ser minha safety net, me oferecendo todo o carinho e amor. Aos conselhos do Prof. Emílio Moran sobre quem procurar na LSE. Ao Eduardo Marandola que me incentivou a participar de um evento em Londres um ano antes de começar o processo de preparação para o sanduíche, o que me deu a chance de vir até aqui conversar com meus futuros orientadores e saber da disponibilidade e vontade de me receber, e nos fez ter a exata medida do que eu queria e do que iriam querer e poderiam me oferecer meus orientadores aqui. Por fim, ao meu orientador Roberto do Carmo e ao Programa de Demografia que me incentivaram, sendo também cuidadosos e criteriosos.

Quais os pontos positivos da sua experiência até agora?

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São muitos pontos positivos! A começar da própria experiência em estar em outra universidade e viver um outro cotidiano acadêmico que é muito diferente daquele que estava acostumada no Brasil. O formato das aulas, o que se demanda nas disciplinas, como se organizam os programas e quais resultados se espera dos alunos é algo que tem me ensinado muito! Principalmente pelo fato de que a acuidade metodológica é quase uma obsessão na LSE e de forma geral no Reino Unido. Quase todas as universidades têm departamentos de metodologia que cuidam de prover ferramentas para que os alunos encontrem, aprendam e executem as melhores técnicas aos seus problemas de pesquisa. Além da infraestrutura acadêmica e burocrática, que tem substanciais diferenças e é muito maior aqui. Claro que isso não significa perfeição em todos os trabalhos, mas faz as pesquisas serem mais objetivas e bem recortadas e dá mais segurança para os alunos que estão começando. Por outro lado, a exigência sobre o que você faz, como seu projeto contribui para o campo de conhecimento e o respeito a prazos previamente delimitados e relativamente curtos é grande também e você tem de aprender a lidar com isso. No meu caso teve ainda a questão de que quando apresento meu trabalho aqui a perspectiva pela qual olham minha pesquisa é ligeiramente diferente da que estava acostumada e isso faz muito bem para a pesquisa.

Além disso, tem a questão de que você é desafiado o tempo todo para que consiga se expressar e formular seus problemas de pesquisa em outra língua, o que de forma nenhuma é tarefa simples, mas te obriga a ter muita clareza e objetividade com relação a qual é sua pesquisa e quais são seus interesses.

Por outro lado, estar em Londres me deu a oportunidade de aproveitar essa cidade vibrante e cheia de história e conhecimento… eu também estou extremamente mal acostumada a ter opções de transporte público para todos os lugares em que quero ir e acessar uma infinidade de museus, concertos, eventos e sistema de saúde totalmente de graça. E não, aqui não é nem de longe o paraíso, os problemas são outros, mas a perspectiva pela qual olho os problemas e as possíveis soluções são muito diferentes agora.

Agora um ponto positivo que não era algo que estava pensando sobre quando cheguei é o quanto há boas pesquisas no Brasil e o quanto temos bons profissionais que com menos infraestrutura produzem excelentes pesquisas. A pesquisa brasileira é muito inteligente, criativa, e sintonizada com o que acontece dentro e fora do país. É uma pena que muitas dessas pesquisas são completamente desconhecidas aqui, pois a língua oficial da pesquisa é o inglês seguido do espanhol ou do francês e as publicações de profissionais brasileiros ainda são poucas aqui fora. Então isso é um incentivo para os que estão começando agora a serem mais ousados, a publicarem mais fora do país, a virem para intercâmbios e mostrarem que sabemos fazer ótimas pesquisas!

Quais as principais dificuldades que você encontrou, tanto por morar em Londres quando pelos estudos na London School?

Eu vou responder primeiro em relação à LSE e depois sobre aspectos mais gerais. Bom, vocês podem achar engraçado, mas o mais difícil é entender o inglês em todos os sotaques possíveis! A LSE é verdadeiramente uma universidade internacional e no começo sofri para entender e me fazer entender. E na verdade não foi um problema de total incapacidade de comunicação, mas as primeiras semanas te desgastam mental e fisicamente pelo esforço de organizar sua vida em outra língua. E outra coisa foi a forma correta de se expressar e comunicar sobre o que você faz e como. Fui muito, mas muito criticada no começo pela abordagem que queria dar para minha tese, mas criticada no bom sentido, no sentido de tentar me fazer ter um foco melhor e saber expressar o que eu queria fazer, além de colocar método e teoria de uma forma mais amalgamada. Não foi fácil, porque fui desafiada – e ainda sou – a todo momento.

A questão da crítica aqui é sempre no sentido de tentar fazer você ter mais acuidade e tem dias em que você tem vontade de sair chorando, mas tem de engolir seco, parar, pensar e dar uma resposta rápida. O interessante é que na maior parte das vezes as críticas e desafios são só porque as pessoas verdadeiramente gostam do que você faz e ficam absurdamente curiosas em saber absolutamente tudo sobre sua pesquisa, inclusive os limites dela. E essa questão dos limites da pesquisa é algo com o qual as pessoas aqui são quase obsessivas, você tem de saber os limites da sua pesquisa, e isso te faz humilde no sentido de que você se reconhece humano e, portanto, impossibilitado de compreender todas as faces do seu problema de pesquisa, mas te faz aprender que sua pesquisa é uma sequência de escolhas metodológicas e teóricas e por isso te leva a refletir sobre outros possíveis caminhos. Não é fácil, no início você acha que as pessoas são frias e arrogantes, mas depois percebe que na verdade é uma total gentileza, é compensador.

Depois disso veio a questão de que o clima aqui é diferente e faz bem mais frio do que no Brasil, por causa disso olho a previsão do tempo quase todo dia e tive de comprar galochas e guarda-chuva para não ficar sempre molhada e um casaco, meias e sapatos bem quentes. Além de que os dias no inverno são bem curtos e foi necessário me acostumar com o fato de que as 16h estava escuro e não amanhecia até quase 7.30 da manhã! Ainda está sendo uma adaptação, mas agora já estou mais acostumada e conforme caminhamos para a primavera as horas de sol do dia aumentam – quando tem sol, porque na maioria dos dias o sol está encoberto ou o céu está acinzentado… então quando sai um pouquinho de sol todo mundo corre para um parque para aproveitar!

Um outro aspecto que está sendo importante é saber administrar o dinheiro! Londres tem muitas opções gratuitas, mas é uma cidade muito cara, especialmente no quesito moradia. E mesmo morando em uma moradia da universidade foi necessário um planejamento porque os pagamentos pela moradia e o pagamento da bolsa algumas vezes se desencontraram e foi muito importante ter uma reserva comigo. Os primeiros meses foram bem apertados e só agora é que estou tendo um pouquinho mais de equilíbrio entre o que ganho e o que gasto. A LSE tem uma preocupação enorme com essa questão da administração do dinheiro e sugere que os alunos tenham uma média de £1000 por mês, o que no início achei exagerado, mas na verdade é um valor realista para ter uma vida tranquila, mas sem extravagâncias. Além de que tive de comprar coisas de cozinha que apesar de ter dividido com meus colegas de “apartamento” foi um custo a mais, coberto pela taxa de instalação da bolsa, mas comendo quase toda essa taxa.

Outra coisa é que comer pode ser muito caro se você não se propuser a cozinhar em casa e comer no restaurante da universidade. E pode parecer piada, mas só depois de uns três meses aqui comecei a fazer compras sem sofrer para achar as coisas nas prateleiras do supermercado, além de que os hábitos alimentares são muito diferentes… o que no começo é um pouco sofrido porque é adaptação, mas se você estiver disposto a modificar um pouco seus hábitos alimentares você tira isso de letra! Por fim, tem a saudade de quem ficou no Brasil que vai apertando com o passar do tempo… no meu caso além dos amigos, meus pais, e minha irmã, meu marido ficou. Está sendo difícil estar longe, muito mais do que poderia imaginar, mas o apoio na minha decisão de fazer o intercâmbio e suporte emocional mesmo de longe é fundamental!!

Quais as dicas e conselhos você daria para os alunos da Demografia da Unicamp que gostariam de fazer um intercâmbio acadêmico como você?

A mais importante é se perguntar por que fazer um intercâmbio e o quanto isso vai ajudar no trabalho da dissertação ou tese. Depois é se perguntar onde e quem seriam as pessoas com quem você gostaria ou acha que deveria trabalhar. Tendo a resposta a essas duas perguntas, é tentar entrar em contato com seus possíveis orientadores fora do país e ver o quanto vocês têm afinidades de interesses entre o que você quer para seu trabalho e o que ele ou ela podem te oferecer. Nesse momento os orientadores no Brasil podem ser de muita ajuda, pois eles já podem ter contatos com pessoas ou universidades que se encaixem nos seus interesses, além de que eles devem ser seus parceiros de pesquisa e por isso a decisão de ir deve ser sua, mas é necessário que vocês dois estejam felizes com essa possibilidade para que não haja problemas antes ou depois. Tente também conversar com seus colegas e tente saber se eles talvez teriam alguma indicação ou alguma sugestão caso tenham tido experiência fora ou se forem da mesma área e conhecerem pessoas de fora.

Outro ponto importante é ter o contato e a aprovação do professor que será seu orientador fora do Brasil. Não só porque a Capes ou mesmo a Fapesp vão te demandar cartas de aceite da Universidade de destino com o aceite do professor, mas principalmente porque você precisa ter aquele ponto de apoio entre você, a universidade de destino e o que você quer fazer do seu tempo fora e, se esse ponto da apoio não for dos melhores, isso pode fazer do seu sanduíche ou intercâmbio um pesadelo ao invés de um sonho! E principalmente ter em mente que todo o trabalho para conseguir fazer o intercâmbio é seu, porque o interesse é seu e é sua opção de formação. Professores e departamentos ajudam, mas é você quem deve procurar se informar sobre os meios para conseguir.

Decisão tomada, hora de paciência e calma para contatar o orientador de fora e aprender sobre os trâmites de lá. Orientador de fora contatado e feliz em te receber, é hora de ter paciência e calma. Se permita começar o processo de pedir a bolsa com antecedência e evite correrias e angústias de última hora, as bolsas saem rápido, mas cronogramas apertados e imprevistos não combinam… Comece a juntar todos os documentos com calma, veja se seu projeto faz sentido com o que você quer do intercâmbio e tente se informar o máximo possível sobre o lugar para onde você vai. Veja quando começa o ano letivo e como ele é organizado – aqui, por exemplo, começa em setembro e se você chega em março pega o final do segundo termo e pode perder aulas e palestras que talvez sejam importantes para você. Não se esqueça de que uma reserva pessoal (além da bolsa) é sempre útil, não só porque você queira viajar e conhecer lugares novos ou aproveitar o lugar onde você está, mas também porque imprevistos acontecem e coisas banais como gastar dinheiro comprando galochas e guarda-chuva podem ser investimentos fundamentais para seu intercâmbio. É importante ter certeza que se quer fazer o intercâmbio, pois não é só flores! Há momentos em que há dificuldade com a língua, outros em que dá saudade de casa, há dias de “blues feeling”, outros em que você tem dúvida do porque veio, imprevistos, desafios, dias de mau-humor, aborrecimento, e dias em que você sofre porque acha que nunca mais quer voltar.

Por fim é bom lembrar que há experiências de intercâmbio boas e ruins, e isso tudo é normal, e por isso a certeza do que se está fazendo é mais do que necessária, mas o importante é aproveitar tudo que essa oportunidade tiver a oferecer acadêmica e pessoalmente! Com certeza é uma experiência marcante! Eu super recomendo!

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