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Demografia e Educação IV – Por que filhos tendem a superar a escolaridade de seus pais?

Por Flávia Longo

Este é o quarto de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais. Hoje o teor é um pouco diferente, pois conto um pouco da minha trajetória pessoal.

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Foi com a pergunta do título que dei início a minha pesquisa do mestrado (2013-2015). Ao longo de dois anos, com orientação e aulas de metodologia ela foi sendo lapidada, aprimorada aos moldes requeridos pelo fazer científico. Mas, a essência é esta. Existe uma tendência mundial de que as gerações mais novas consigam estudar tanto quanto ou mesmo superar a escolaridade das gerações anteriores. Falo em tendência, porque não é uma regra absoluta – e ainda são muitos os casos de “imobilidade”, ou seja, quando diferentes gerações, pais e filhos, permanecem com o mesmo status de nível de escolaridade.

Acontece que essa pergunta de partida poderia ter sido respondida dentro de uma pós em Economia, ou Sociologia ou mesmo alguma área da Educação. Por que optei pela Demografia?

livros

Entrei em contato com as pesquisas em Demografia, em 2010, na linha de pesquisa sobre Família, Gênero e População, por meio de um projeto que investigava as mudanças nas famílias no Brasil. Foi quando aprendi sobre as transformações no tamanho e na composição das famílias e dos domicílios, e me perguntei se estas transformações teriam alguma relação com a melhoria das oportunidades de escolarização das crianças e jovens. A literatura há muito sinaliza que a escolaridade da mãe é positivamente correlacionada com a escolaridade dos filhos, e inversamente relacionada ao número de filhos tidos. (Há exceções: mulheres muito escolarizadas protelam o nascimento dos seus filhos para poderem se dedicar a sua formação e ao trabalho. Quando decidem ter filhos, tem dois ou três em um curto período de tempo).

A entrada teórica e conceitual não era exatamente demográfica. Tratava com teoria de estratificação social (alô Marx, alô Weber, alô Boudon!), disponibilidade de capital humano, social, cultural e financeiro (alô Bourdieu!), reprodução social (alô Durkheim!) e os efeitos da família e suas transformações (alô Ariès, alô Becker!). E foi neste último eixo teórico que se estabeleceu a ponte com as mudanças demográficas e a principal crítica ao trabalho.

As mudanças no perfil da fecundidade e a redução dessas taxas foram corresponsáveis pela diminuição do tamanho das famílias. Existe toda uma discussão sobre a razão do declínio da fecundidade, que envolve a transição urbana, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, as legislações sobre casamentos, uniões e divórcios, o próprio aumento da média da escolaridade…

Um risco em se assumir a redução da fecundidade para ajudar a responder à pergunta é o de reificar um modelo onde famílias pequenas e poucos filhos são o ideal. Isto pode ser acusado de sustentar uma lógica economicista onde muitos filhos podem ser sinônimos de dificuldades econômicas. Eles competiriam pelos recursos escassos, sendo que seu sexo ou mesmo ordem de nascimento poderiam justificar seu acesso aos estudos. Por exemplo, em pesquisa sobre mobilidade educacional em Taiwan, as meninas eram destinadas ao casamento, sendo que o filho mais velho era o que tinha mais chance de ser enviado para a escola. No Brasil, em um passado recente, já foi observado o contrário: as meninas teriam mais chance que os meninos, e os filhos mais novos teriam melhores condições de frequentarem a escola. Mas, se voltarmos nosso olhar para um passado mais distante, veremos que as meninas tinham poucas chances de estudar, que as condições para frequentar a escola eram um privilégio e quando muito, os filhos homens das classes mais abastadas é quem poderiam estudar e almejar uma formação no Ensino Superior.

Essas mudanças no contexto histórico perfazem outras variáveis que ajudariam a explicar as chances de um filho ou filha estudar mais que seus pais. Cada geração foi formada em um período específico, com legislações de acesso e obrigatoriedade escolar próprias, com composição familiar única. Estas características todas dialogam com uma abordagem muito cara à Demografia, que é a de curso de vida, das trajetórias estudantis, laborais e familiares – que não podem ser analisadas sem a observação dos tempos cronológico e social (tema para outra conversa! Tive o privilégio de cursar uma universidade pública. Meu pai fez faculdade particular em idade mais avançada, minha mãe se formou também em instituição privada, no ano em que ingressei no ensino superior. Meus avós paternos tampouco cursaram o grupo escolar, minha avó materna só pode estudar depois que se aposentou e se formou na faculdade em 2011 e hoje, aos 68 anos cursa pós-graduação. A minha história familiar ilustra pelo menos dois pontos: de que o nível de escolaridade não é estático e eles podem mudar ao longo da vida e, que mesmo a noção de superação da escolaridade dos mais velhos precisa ser relativizada).

Vemos que não apenas a redução da fecundidade poderia explicar as chances de escolarização, mas também as políticas públicas, a região de residência, a idade da mãe e mesmo a cor das pessoas – sim, no Brasil, a herança de um período colonial-escravista deixou profundas marcas de desigualdade que ainda permanecem. Outro aspecto que interfere na análise da mobilidade educacional é a natureza dos dados. No Brasil, a maioria dos dados disponíveis para este tipo de estudo são transversais, isto é, são uma fotografia de um determinado momento e não captam as dinâmicas da trajetória educacional. Mas, nem por isso podem ser desprezados. Uma fonte muito utilizada é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE), que em 1996, teve um suplemento especial sobre mobilidade social. Logo abaixo, deixo a indicação de duas pesquisas sobre esse tema no país e uma pesquisa internacional sobre a transição entre escola e trabalho, feita pela Organização Internacional do Trabalho com dados longitudinais e que também captam a mobilidade educacional.

 

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Para saber mais:

FERREIRA, S.G.; VELOSO, F.A. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil. (artigo).

PASCHOAL, I.P. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil (dissertação).

ILO. School to Work Transition Survey.

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Outros textos da série:

Texto 1

Texto 2

Texto 3

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

 

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Mapeamento traça perfil da juventude paulistana

Trabalho elaborado pelo IE e Nepo identifica áreas mais vulneráveis

Jovens participam de passeio ciclístico em São PauloA pedido da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania (SDHC) da Prefeitura de São Paulo, a Unicamp produziu um “mapa da juventude” da capital paulista, apontando os perfis e as principais carências da população de 15 a 29 anos pelos distritos e subprefeituras da cidade. O trabalho foi conduzido pelo Instituto de Economia (IE) e pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo), sob coordenação dos pesquisadores Marcelo Weishaupt Proni, então diretor associado do IE, e Estela María García de Pinto da Cunha, na época coordenadora do Nepo.

“Uma excelente contribuição deste projeto foi ter disponibilizado as informações de forma georreferenciada”, disse Cunha. “Porque o mapa permite ao gestor observar cada um dos indicadores e identificar áreas de maior ou menor vulnerabilidade num aspecto específico. É uma visualização rápida muito valiosa para subsidiar o seu trabalho. Acredito que isso seja uma excelente contribuição do projeto para a secretaria”, disse. “O que motivou a pesquisa foi a necessidade de reunir informações, montar bancos de dados, para subsidiar as políticas públicas em várias áreas, mas com foco nas questões que afetam diretamente os jovens”, acrescentou Proni.

“São 96 distritos no município de São Paulo”, lembrou o pesquisador. “A prefeitura quis contar com uma base de dados ampla, que permitisse ver tendências, porque a ideia era perceber os movimentos mais gerais: quais são os distritos em que cresce mais a população jovem, onde houve melhorias mais expressivas do ponto de vista do emprego, da saúde… Com essa finalidade foram definidos oito eixos temáticos”.

O mapa congrega dados de perfil sociodemográfico, habitação, educação, trabalho, saúde, violência, proteção social, cultura e cidadania digital dos jovens, extraídos de fontes secundárias, como o censo demográfico do IBGE.

“A ideia da Coordenação da Juventude era primeiro montar esse mapa com base nos dados disponíveis”, disse ele. Esses dados permitiram a construção de uma série histórica para os indicadores, indo de 2000 até, em alguns casos, 2013. E essa série poderá ser atualizada de forma permanente.

“Entregamos à secretaria uma proposta de metodologia e um banco de dados”, disse Cunha. “Tendo essa metodologia e o banco, organizado em planilhas, é possível incorporar dados novos e atualizar os indicadores. Ou seja, a secretaria já tem independência técnica para fazer a atualização permanente do mapa”.

“Jovens”, na definição usada para a elaboração do mapa, são as pessoas de 15 a 29 anos, subdivididas em três faixas etárias: de 15 a 19, 20 a 24 e 25 a 29.

“Na bibliografia internacional e nas estatísticas divulgadas pelas Nações Unidas, a faixa etária da juventude geralmente compreende pessoas entre 15 e 24 anos”, disse Proni. “No Brasil, as políticas públicas do governo federal ampliaram essa faixa, então a gente tem as políticas para jovens alcançando de 15 a 29 anos”.

Nesse intervalo mais amplo, explicou ele, é importante a distinção entre grupos etários. “É diferente a situação de um jovem de 25 anos que já é pai de família, e outro de 15 que mora com os pais”.

RESULTADOS

O mapa da juventude mostra um crescimento da população jovem em alguns distritos e diminuição em outros; e uma melhoria nas condições de vida dos jovens paulistanos desde 2000. “Na zona sul e na zona leste há uma maior porcentagem de jovens com diferentes carências”, disse Proni. “E há uma sobreposição de carências: os mais vulneráveis são aqueles que residem em moradias precárias, têm renda familiar per capita baixa, chance menor de completar o ensino médio, inserção informal no mercado de trabalho…”. Em geral, os distritos da área central do município apresentam os melhores indicadores, mas as melhorias são mais perceptíveis na periferia da cidade.

“Na zona leste reside uma população enorme, mas durante muito tempo o crescimento da cidade foi desordenado, as políticas públicas não alcançavam aquelas pessoas. Em 2015, fomos fazer o lançamento do mapa, junto com outros produtos da Secretaria, na Cidade Tiradentes, que é lá no extremo da zona leste. Dá para perceber uma mudança visível: para quem conheceu o que era Cidade Tiradentes dez anos atrás e o que é hoje, é nítido que melhorou bastante, houve uma urbanização, agora existem escolas equipadas, postos de saúde, programas sociais. Mas, em comparação com outros distritos da cidade, continua com uma série de carências comparativas”, relatou o ex-diretor associado do IE.

Ao mesmo tempo em que o mapa permite ver a mudança que houve desde 2000, disse Proni, mostrando que os indicadores melhoraram em vários aspectos, também revela que os contrastes permanecem muito grandes. “As desigualdades dentro da cidade continuam, embora possam ter diminuído em vários aspectos. A redução das desigualdades depende da combinação de crescimento econômico com políticas sociais universais e programas de redistribuição de renda. É importante que a geração de empregos seja acompanhada de uma oferta ampla de bens e serviços públicos, contribuindo assim para reduzir a pobreza e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Mas, isso não basta. É preciso manter políticas focalizadas nos grupos mais vulneráveis, nas carências mais graves”.

Nos indicadores mais básicos, a melhora foi maior entre aqueles que tinham condições piores. “Os jovens, até o começo da década passada, até 2003, mais ou menos, sofriam muito com o desemprego. Isso mudou com a possibilidade do jovem continuar estudando e ter um emprego formal, mesmo que fosse para ganhar um salário mínimo. Isso melhorou muito a condição de vida de jovens de baixa renda”.

“Agora, sobre essa crise econômica atual, o mapa também pode ser útil. A crise afeta mais as populações vulneráveis socialmente, então é importante ter um mapa para saber onde essas populações estão. É nesses momentos que os jovens mais precisam de políticas focalizadas, de uma rede de proteção social”, ponderou.

MÉDIAS E DADOS

Tanto Proni quanto Cunha destacam que o objetivo do mapa não foi produzir um retrato, ou perfil, do jovem paulistano, mas sim revelar as especificidades da juventude em cada distrito da capital.

“Não estávamos atrás desse perfil. Não é o que a secretaria solicitou”, disse a ex-coordenadora do Nepo. “Queríamos saber onde estavam localizados, espacialmente, os adolescentes mais vulneráveis, isso sim nos importava. Queríamos saber como a Secretaria de Saúde, segundo nossos indicadores de saúde, teria de atuar em programa de assistência à gravidez adolescente, ou onde há mais registro de mortes violentas, ou onde se localizam os mais vulneráveis dos domicílios com chefia feminina e renda comparativamente menor”, exemplificou.

O professor Marcelo Proni, um dos coordenadores do projeto: “Uma excelente contribuição deste projeto foi ter disponibilizado as informações de forma georreferenciada”“Geralmente, as médias enganam muito”, afirmou o ex-diretor associado do IE.  “A ideia do mapa é mostrar as diferenças. Porque os dados agregados, para o município, a prefeitura já tinha. A riqueza do mapa está exatamente no contraste, por exemplo, entre um distrito de mais alta renda, onde o perfil é mais do jovem branco que mora com os pais, e algumas áreas da periferia onde a população negra é muito maior. A riqueza do mapa está justamente nisso, em localizar onde existe uma probabilidade maior de ter um jovem que não estuda nem trabalha, o chamado nem-nem, onde é mais provável você encontrar mulheres jovens com mais carência de assistência médica, onde a violência afeta mais os homens jovens, e assim por diante”.

Cunha recordou o trabalho cuidadoso de desagregação de dados feito no Nepo, para transformar os registros agregados divulgados pelo censo demográfico ou disponíveis nas secretarias municipais em indicadores mais desagregados e localizados geograficamente.

“Esse estudo requeria uma primeira etapa de levantamento das fontes de dados disponíveis, a atualização dessas fontes, ou seja, em que período temporal dispomos desses dados, e uma consolidação. Para isso, primeiramente, foi feito um mapeamento do que já se tinha divulgado, para que período temporal, com que abrangência territorial, já que nos foi pedido desagregar nos 96 distritos do município”, relatou. “E assim, poder afirmar que mesmo precisando de uma determinada estimativa desagregada por distrito, a consistência e/ou a cobertura não nos permitiria realizar uma inferência científica”.

“Sabíamos que havia dados que tinham limitações para serem utilizados”, disse. “Por isso, tivemos o cuidado de analisar estas dimensões”. No relatório final do mapa (disponível online na página www.portaldajuventude.prefeitura.sp.gov.br/noticia/mapa-da-juventude-de-sao-paulo/) constam, por exemplo, as dificuldades no levantamento de dados sobre violência, apresentando alta subnotificação de crimes contra a mulher assim como a dificuldade em acessar as bases de dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública do Estado, referentes à população jovem.

Fonte: Jornal da Unicamp

Disponível em:

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/645/mapeamento-traca-perfil-da-juventude-paulistana

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O mundo é dos jovens: ONU registra recorde histórico na população de 10 a 24 anos

Relatório mostra que 25% da população do planeta está nessa faixa. Saúde, educação e emprego são desafios

POR RENATO GRANDELLE

Mundo tem 1,8 bilhão de pessoas entre 10 e 24 anos – Free Photos

RIO – Um relatório inédito lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) traça um retrato da atual juventude mundial, uma multidão de 1,8 bilhão de pessoas que passa por problemas centenários, ao mesmo tempo em que carrega a responsabilidade de garantir um futuro sustentável para o planeta.

O tamanho da população jovem não tem precedentes. As pessoas entre 10 e 24 anos, alvo do estudo, correspondem a 25% dos seres humanos — um recorde histórico. E a tendência é de crescimento: em 2050, serão 2 bilhões. Sua distribuição, no entanto, é desigual. Noventa por cento estão nos países em desenvolvimento, confirmando a tendência ao envelhecimento das sociedades mais ricas.

Mesmo ocupando um quinhão avantajado da população mundial, os jovens estão na lanterna entre os grupos contemplados por políticas públicas. Segundo o relatório do UNFPA, faltam investimentos em programas de qualidade de vida, educação e oportunidades de emprego. O resultado é a sua vulnerabilidade à violência, drogas, depressão e gravidez na adolescência, entre um leque de fatores que reduz o potencial econômico e social deste contingente.

SAÚDE É ÁREA DEFICIENTE

Chamado “O poder de 1,8 bilhão: adolescentes, jovens e a transformação para o futuro”, o documento é divulgado no mesmo momento em que a comunidade internacional discute as medidas que substituirão os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, como são conhecidos os oito compromissos que deveriam ser seguidos pelos governos entre 2000 e 2015 (erradicação da pobreza e da fome, atingir o ensino básico universal, promover a igualdade entre os sexos, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater HIV, malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e estabelecer parceria mundial para o desenvolvimento).

A situação dos jovens mostra as pendengas que resistiram aos avanços. A saúde é uma das áreas mais deficientes. Em 2012, cerca de 1,3 milhão de adolescentes morreram de doenças preveníveis ou tratáveis, segundo a Organização Mundial de Saúde. Pelo menos 160 milhões de jovens estão desnutridos.

— O HIV é a segunda maior causa de morte entre os jovens — destaca Anna Cunha, oficial do UNFPA. — Entre as meninas, este ranking é liderado pelo suicídio. E temos observado uma ligação cada vez maior entre estes problemas de saúde mental com outros desafios, como a gravidez indesejada.

Nos países mais pobres, os transtornos mentais são observados em meninas a partir dos 12 anos. Estes problemas são agravados com costumes tradicionais, como o casamento infantil. A cada dia, cerca de 39 mil crianças tornam-se noivas. Anna lembra que o matrimônio precoce é proibido em muitos países, mas ainda assim praticado. Com a prática, as jovens tornam-se mais vulneráveis a doenças sexualmente transmissíveis.

— A educação sexual ainda representa um grande obstáculo — lamenta Anna. — Os jovens têm acesso limitado à informação, recursos e serviços. Em muitos países a lei dificulta a chegada de preservativos. O tema é ensinado na escola de forma distorcida, sem base científica. E os profissionais de saúde têm preconceito em lidar com quem precisa de assistência.

Entre os rapazes, a maior vilã é a violência. Em 2012, cerca de 1,3 milhão de adolescentes morreram em conflitos, sendo que 97% ocorreram em países pobres. Fugir da criminalidade significa, em muitos casos, abandonar a casa. A criminalidade foi apontada como o maior motivo do êxodo de jovens de Honduras para os EUA este ano.

A educação também figura entre os temas que mais preocupam os redatores do relatório. Aproximadamente 175 milhões de pessoas não conseguem ler uma frase completa. A Unesco destaca que, embora frequentem o ensino primário por quatro anos, a falta de recursos básicos faz os alunos deixarem a escola sem qualquer aprendizado. Como as adolescentes são mães muito cedo, há muito mais rapazes dentro da sala de aula do que mulheres.

Alguns países têm feito seu dever de casa. Brasil e México são citados entre aqueles com programas de transferência de renda que aumentam o nível de escolaridade dos jovens e acesso a saúde, inclusive para as meninas.

— A educação de qualidade tem uma ligação direta com a economia — assinala o nigeriano Babatunde Osotimehin, diretor-executivo do UNFPA. — Se tem uma universidade à disposição, por exemplo, o jovem tem mais capacidade para se inserir no mercado de trabalho e criar pequenos e médios negócios, uma grande fonte de empregos.

Esta é a senha para Osotimehin indicar o lado promissor descoberto pelo levantamento. Dos 210 países, 59 estão em transição demográfica — a diminuição das taxas de fecundidade e mortalidade. Este fenômeno provoca um “bônus”. Durante um certo período, variável em cada nação, há mais pessoas em idade ativa (de 15 a 64 anos) do que dependentes da população que está fora do mercado (crianças de até dez anos e idosos com 65 anos ou mais). É o momento ideal para o crescimento econômico.

— Este é um sinal, o melhor para que os países em desenvolvimento consigam dar acesso à população a políticas públicas — descreve Osotimehin. — É quando os jovens ganham maior perspectiva, um papel ativo na economia.

No ano passado, pouco mais de 73 milhões de jovens entre 15 e 24 anos — o equivalente a 36% de todas as pessoas nesta faixa etária — está desempregada. A maioria está nos países em desenvolvimento, que precisam correr atrás dos investimentos necessários para fazer esta curva ascendente.

MAIS FINANCIAMENTO PARA AS MULHERES

O modelo a ser seguido tem endereço. Nos últimos 40 anos, o Leste Asiático conseguiu expandir o mercado de trabalho e aumentar os padrões de vida da maioria dos estratos da população. A receita é básica: aumentar o acesso e a qualidade da educação; criar oportunidades em outros setores da economia, além da tradicional agricultura; e disponibilizar mais crédito no sistema bancário à população, principalmente para as mulheres. Quando elas contam com mais dinheiro na conta, o número de crianças na escola é elevado em 8%, e há menos desigualdades sociais entre jovens de ambos os sexos.

“O exemplo dado pelos países do Leste Asiático, que transformaram suas trajetórias econômicas nas décadas de 1970 e 1980, mostra que as políticas prescritas no relatório têm sido bem sucedidas no passado. Países agora à beira de uma transição demográfica podem alcançar esse crescimento, mas apenas com o investimento adequado em suas populações jovens”, ressalta o documento do UNFPA.

O relatório afirma que dois caminhos podem ser seguidos. Um deles, em que o governo abre o cofre para políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes, resulta em “uma enorme recompensa a longo prazo no desenvolvimento econômico e social”. E cita a região mais pobre do planeta: se os países da África Subsaariana fizerem os investimentos necessários em capital humano, seus dividendos demográficos podem render US$ 500 bilhões por ano nas próximas três décadas. É um ganho expressivo, considerando que o continente é teto da maioria dos 500 milhões de jovens que vivem com menos de US$ 2 por dia.

O segundo caminho é o seguido atualmente. Sem investimentos em saúde e educação, as desigualdades sociais vão se perpetuar.

— O contingente inédito de jovens não é nem deve ser encarado como um obstáculo. É um grande segmento da população que tem capacidade para conduzir o planeta — garante Osotimehin.

Anna acrescenta:

— Mostramos como não existe a possibilidade de aproveitar a oportunidade demográfica se não houver direitos para a população jovem, como a vida sem violência e o trabalho digno.

Fonte da notícia:

http://oglobo.globo.com/sociedade/o-mundo-dos-jovens-onu-registra-recorde-historico-na-populacao-de-10-24-anos-14587036

Acesse o relatório completo do UNFPA (disponível em inglês, francês e espanhol):

http://www.unfpa.org/public/home/publications/pid/18634

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Fundo de População da ONU lança a campanha Jovens Somamos Mais

Iniciativa #InvestirEmJuventude – Jovens Somamos Mais visa inclusão da juventude na futura agenda global de desenvolvimento, a ser adotada a partir de 2015.

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Para promover o bem-estar e o cumprimento dos direitos de jovens e adolescentes e estimular sua participação na busca de soluções, o Fundo de População das Nações Unidas, o UNFPA, lança hoje (14/08) no Brasil a campanha virtual “#InvestirEmJuventude – Jovens Somamos Mais”. A iniciativa integra a ação global de mobilização do UNFPA #showyourselfie, cujo objetivo é a discussão e a inclusão de temas prioritários para a juventude na agenda de desenvolvimento Pós-2015.

A campanha “Jovens Somamos Mais” será realizada por meio de redes sociais e pretende criar espaços para que os próprios jovens e adolescentes expressem suas necessidades e aspirações, participando mais ativamente do debate sobre as novas metas globais de desenvolvimento – mais especificamente na construção dos chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que irão substituir os atuais Objetivos de Desenvolvimento do Milênio a partir do próximo ano. A campanha se soma às ações desenvolvidas pelo UNFPA no âmbito do Grupo de Trabalho Interagencial de Juventude do Sistema ONU no Brasil.

“Os jovens não estavam em foco nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o último plano de desenvolvimento global que foi aprovada em 2000. Eles não podem ser esquecidos novamente”, disse o Diretor Executivo do UNFPA, Dr. Babatunde Osotimehin. “Os jovens são uma força poderosa, individual e coletivamente. Eles estão moldando realidades sociais e econômicas, desafiando normas e valores e construindo a base do futuro do mundo. A forma como nós atendemos às suas necessidades e aspirações irá definir o futuro do mundo”, completou.

O lançamento campanha Jovens Somamos Mais coincide com a realização, nesta quinta-feira 14/08, do debate virtual “Falemos de Juventude – Desafios da Agenda Pós-2015”, promovido pelo Grupo Interagencial de Juventude da América Latina e o Caribe da ONU com representantes das instituições de juventude do Brasil, México e Uruguai, entre outros. O Brasil estará representado no debate pela secretária-adjunta da Secretaria Nacional de Juventude, da Secretaria-Geral da Presidência da República, Ângela Guimarães.

Como participar

Para participar da campanha Jovens Somamos Mais, basta tirar um autorretrato (“selfie”) individual ou coletivo e enviar, juntamente com uma mensagem, para divulgação nas redes sociais do UNFPA, usando a hashtag #investiremjuventude. A pessoa poderá “curtir” e compartilhar a foto e a mensagem com sua rede de relacionamento ou, se preferir, publicá-las diretamente no seu perfil pessoal, usando a mesma hashtag.
O UNFPA irá disponibilizar uma página web com materiais que poderão ser utilizados pelas/os participantes da campanha, incluindo ícones temáticos que poderão ser impressos e utilizados nas fotos, permitindo a personalização do autorretrato com os temas de maior interesse de cada um.

São sugeridos oito temas principais para serem discutidos: Saúde Integral e de Qualidade; Igualdade de Gênero; Igualdade Racial; Educação de Qualidade; Cultura e Lazer; Trabalho, Emprego e Renda; Meio Ambiente; e Participação e Oportunidades. Cada semana será dedicada a um assunto principal, sendo o primeiro tema a Igualdade Racial.

“O Brasil tem mais de 51 milhões de jovens, uma enorme força produtiva que é a chave para o desenvolvimento do país. Mas, para isso, é necessário continuar e ampliar os investimentos no cumprimento de seus direitos básicos, desenvolvimento de habilidades para a vida, criação de oportunidades e maior participação dessa população na tomada de decisões”, explica o Representante do UNFPA no Brasil, Harold Robinson. “Quando isso ocorre, as pessoas jovens podem alcançar seu pleno potencial e contribuir efetivamente para o desenvolvimento inclusivo e sustentável. Essa é a lógica da campanha – para que jovens possam somar mais, é preciso investir em juventude.”

#showyourselfie
A campanha Jovens Somamos Mais é um desdobramento da iniciativa global #showyourselfie do UNFPA, que também busca coletar autorretratos de jovens de todos o mundo e mensagens sobre importância da juventude ter um papel central nos ODS. A iniciativa é fruto da parceria entre o UNFPA e a Global Citizen, plataforma online de mobilização.
Durante um ano, o UNFPA e a Global Citizen trabalharão com parceiros, redes e organizações de todo o mundo para reunir o maior número possível de “selfies”, que serão entregues aos Estados-Membros na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2014 e setembro de 2015, para lembrá-los de que o tempo para investir nos jovens é agora.
Todas as fotos e mensagens postadas na campanha “Jovens Somamos Mais”, com a hashtag #InvestirEmJuventude, serão contabilizadas na iniciativa global. Quem desejar, poderá postar sua participação utilizando ambas hashtags.

Visite a página da campanha #InvestirEmJuventude – Jovens Somamos Mais em http://www.unfpa.org.br/investiremjuventude e participe!
Para mais informações sobre a iniciativa global #showyourselfie, visite http://www.showyourselfie.org.
Acompanhe e participe do debate “Falemos de Juventude – Desafios da Agenda Pós-2015” pelo endereço http://on.fb.me/1ll2ko7; o encontro acontece a partir do meio-dia (horário de Brasília)

Maiores informações:
Ulisses Lacava (UNFPA) – (61) 3038-9259 e (61) 9181.1000
Gabriela Borelli (UNFPA) – (61) 3038-9246
Midiã Santana (UNFPA) – (71) 3183-5718

Fonte: http://www.unfpa.org.br/novo/index.php/noticias/ultimas/839-fundo-de-populacao-da-onu-lanca-a-campanha-jovens-somamos-mais

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HAITI: do terremoto de 2010 aos processos migratórios contemporâneos – entrevista com Chandeline Jean Baptiste

Chandeline Jean Baptiste é aluna da pós-graduação em Demografia da Unicamp (Mestrado), tem como país de origem o Haiti e sua pesquisa pretende compreender o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos.

Demografia Unicamp – Chandeline, como aluna da pós-graduação em Demografia na Unicamp que tem como país de origem o Haiti, como poderia nos descrever seu percurso até aqui?

ChandieÉ uma longa história. Cheguei ao Brasil em agosto de 2011 por meio de um acordo entre os Ministérios de Educação e das Relações Exteriores do Brasil e do Minisério de Educação do Haiti. O objetivo era participar na reconstrução do Haiti fortalecendo o ensino superior no país.  Foi um programa de 18 meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A ideia era fazer um intercâmbio (graduação sanduíche) durante este tempo. O primeiro semestre foi consagrado à aprendizagem da língua portuguesa. Durante o ano acadêmico 2012, fiz algumas disciplinas isoladas em Geografia e Ciências Sociais, pois já havia concluído a minha graduação lá. Ao mesmo tempo, participei do processo seletivo do nosso programa de pós-graduação em Demografia, e agora estou aqui.

Fiquei muito feliz! Pois quando estava na faculdade lá no Haiti, estudei Ciências Sociais, mas na verdade a gente tinha a maioria das disciplinas de História e Geografia. Depois do terremoto, a Universidade de Poitiers (França) ofereceu duas bolsas em História para os dois primeiros alunos da minha turma (eu era a terceira, por isso não fui aprovada). Estes meus colegas que estão lá na França já estão no primeiro ano de doutorado, e aqueles que ficaram lá no Haiti já terminaram o mestrado em Geografia pela Universidade de Paris 8 [1]. Posso dizer que por causa das falhas do meu programa e talvez por causa da diferenciação nos sistemas escolares dos dois países (Haiti e Brasil), tenho um ano de atraso em relação aos meus colegas. Mas a minha alegria é que serei a única demógrafa da minha turma. E fiquei muito feliz por isso. O Haiti precisa tanto de demógrafos…

 

Demografia Unicamp – Historicamente o Haiti passa por situações bastante complexas em termos econômicos, políticos e sociais. Esta realidade foi ainda mais intensificada após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, que teve proporções catastróficas. Nessa ocasião o palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos e estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe, a capital do país, tenham sido destruídas ou seriamente danificadas. Como você visualiza a realidade haitiana atual? A que passo anda a reconstrução do país?

Se a situação do Haiti já era difícil, o terremoto de 12 de janeiro aumentou muito mais nossas dificuldades.  Atualmente o Haiti ainda está passando por vários problemas (políticos, econômicos, sociais e ambientais).  Como vocês já sabem, durante o terremoto de janeiro de 2010, o país foi destruído totalmente e hoje estamos numa fase de reconstrução. Recomeçaram as aulas, os poucos hospitais que a gente tem estão em funcionamento, a vida recomeçou na capital e no país inteiro. Mas, apesar de esta reconstrução estar ocorrendo demasiadamente devagar, em minhas conversas com os meus colegas que estão no Haiti e no exterior percebo um sopro de esperança em relação ao futuro do país.

Peacekeeping - MINUSTAH

Vista do Palácio Nacional, destruído pelo terremoto.

 

Demografia Unicamp – A realidade econômica do Haiti parece estar na raiz dos grandes fluxos migratórios que se direcionam para diversas partes do mundo. No contexto atual, o Brasil tem sido um dos principais países a receber migrantes haitianos. Qual é sua leitura sobre esses processos? Como eles podem impactar na vida da população haitiana diante da distância física entre os que vão e os que ficam?

Para entender o fluxo migratório recente do Haiti para o Brasil cabe entender a relação que existe entre os dois países desde 1928 (ano que marca o início das relações diplomáticas entre o Haiti e o Brasil). A presença dos militares brasileiros desde 2004 no país também é um fator importante na escolha do Brasil como país de destino. Vale ainda ressaltar que este fluxo de haitianos para o Brasil não é um fenômeno novo, pois antes deste já existia um fluxo composto de jovens estudantes participantes de intercâmbios ou pós-graduandos contemplados com bolsas de estudos dos Ministérios da Educação e das Relações Exteriores – através dos convênios PEC-G e PEC-PG. Estes convênios foram estabelecidos não apenas com o Haiti, mas também com outros países em desenvolvimento, sobretudo com aqueles da África e da América Latina, no âmbito da política de cooperação Sul-Sul. A única diferença é que agora a gente está vivenciando outro fluxo num contexto diferente.

Em minha opinião, os fluxos não têm só a ver com a realidade econômica do país, mas também com a realidade social (busca de melhores condições de vida) e a realidade educacional (buscando novas possibilidades de estudo). Enquanto os estudantes chegaram ao Brasil via rotas legais, após o terremoto, muitos haitianos chegaram pelas rotas ilegais. O que faz a situação desses haitianos se tornar muito preocupante, tal como afirma Foster Brown da universidade Federal do Acre[2]. Para mim, é um processo bem complicado tanto para o Brasil quanto para o Haiti.

Se, por um lado, a entrada em massa dos haitianos na Amazônia mostra a ascensão da imigração internacional para o Brasil, por outro, esse fluxo deve representar uma oportunidade para o país pensar sobre outros tipos de acontecimento, procurando soluções possíveis e formulação de políticas públicas sem esquecer uma política migratória que leve em conta os direitos humanos desses migrantes. Os responsáveis do Haiti, do seu lado, têm de criar novas medidas, novas oportunidades para que os nativos sejam livres para escolher ficar no país ou migrar para exterior. Pois, na maioria das vezes, o migrante haitiano deixa o país em busca de melhores condições de vida.  A migração não deve ser um motivo para fugir dos problemas do país.

De um lado, essa migração pode impactar bastante a vida da população e as remessas [de dinheiro] ajudam muito aqueles que ficam: ajudam na escolaridade, na saúde, no sustento da casa, etc. Do outro, deixa muita saudade e tristeza para os membros da família que permanecem no Haiti.

 

Demografia Unicamp – Conforme dados das Nações Unidas[3] para o ano de 2010 o Haiti apresentava uma população predominantemente jovem, com grande participação relativa dos grupos etários abaixo de 30 anos. Seriam principalmente jovens os grupos populacionais que saem do país atualmente? Já se sabe exatamente qual é o perfil sociodemográfico da população que realiza o processo migratório em termos de sexo, idade e nível de escolaridade?

Ao olhar a pirâmide etária de 2010 da população haitiana, podemos concluir que o Haiti possui uma população muito jovem. Em minha dissertação, estou querendo explicar o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos. Vamos, obviamente, apresentar o perfil desses migrantes. Todavia, minha pesquisa está em andamento, não tenho nenhum resultado ainda. No entanto, pesquisas já realizadas (trabalho dos professores Duval Magalhães e Sidney da Silva [4]), mostram que estes jovens são em sua maioria do sexo feminino e têm idade entre 20 e 35 anos. A escolaridade é de nível médio; alguns já fizeram cursos técnicos e outros atingiram nível superior completo ou incompleto.

População por grupos etários, Haiti – 2010 (em números absolutos)

Haiti002

Fonte: United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision

 

Demografia Unicamp – Para finalizar, gostaríamos de saber quais são suas impressões sobre a recepção que o Brasil em especial tem realizado em relação aos migrantes haitianos. Em sua leitura, o sonho do emprego e de melhores condições de vida tem se concretizado por aqui? Em que termos ainda precisamos avançar?

Vou tentar responder a essa pergunta com as minhas limitações, considerando as minhas poucas leituras (risos). Como minha pesquisa está em andamento, pretendo ainda fazer um trabalho de campo lá no Acre, mas só em julho deste ano de 2014. A única coisa que posso dizer é que os haitianos que chegaram ao Brasil pela fronteira norte amazônica vieram sem documentação e em um contexto diferente daqueles que chegaram aqui com documentação para estudar ou para trabalhar. Obviamente, eles vão enfrentar dificuldades sérias, tais como a regularização de seus documentos e a obtenção de um emprego, embora seja difícil (especialmente pela língua e pela pouca qualificação). Mas, uma vez passada essa fase, esse sonho que todos têm do Brasil como um país próspero, onde eles podem ter um emprego e melhores condições de vida, começa a se concretizar. Agora a grande questão vai ser a percepção da sociedade face a estes migrantes, já que muitos brasileiros os veem como “mão de obra barata”, de portadores de doenças, etc.

É importante lembrar que migrar é um direito. Não importa a origem, a cor, a raça ou o contexto migratório. Embora os haitianos no Brasil não sejam considerados como refugiados, mas sim migrantes em decorrência de vulnerabilidades sociais – conforme o Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) – todos têm de ter os seus direitos devidamente assegurados

[1] Trata-se de um programa de mestrado em Geografia da Universidade do Haiti em acordo com a Universidade de Paris 8. Neste programa, quem ministra as aulas são alguns professores do Haiti, em sua grande maioria professores que foram formados pela Universidade de Paris 8. Assim, os estudantes assistiam as aulas no Haiti, mas obtinham também um diploma da Universidade de Paris 8.

[2] “Coiotes” conduzem mais haitianos até a fronteira Brasil-Peru. Blog da Amazônia. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/05/15/coiotes-conduzem-mais-haitianos-ate-a-fronteira-brasil-peru/. Acesso em mar. 2014.

[3] United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision, Volume II: Demographic Profiles. Disponível em: http://esa.un.org/wpp/Demographic-Profiles/pdfs/332.pdf. Acesso em mar. 2014.

[4] Haitianos: os novos imigrantes do Brasil. Entrevista especial com Duval Magalhães e Sidney da Silva. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/45912-haitianos-os-novos-imigrantes-do-brasil-entrevista-especial-com-duval-magalhaes-e-sidney-da-silva. Acesso em mar. 2014.

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Documentário Adeus, Haiti, disponível AQUI.

Entrevista – RTV UNICAMP – Catástrofe do Haiti, disponível AQUI.

Haitianos e senegaleses marcham pelo centro de Caxias do Sul, disponível AQUI.

Professores deixam escolas no Haiti para trabalhar até 15h por dia em SP, disponível AQUI.

 

Revisão e edição: Igor Johansen e Flávia Longo (rd.demografia.unicamp@gmail.com).

Para fazer contato com Chandeline Jean Baptiste, utilizar o seguinte e-mail: linoue87@yahoo.fr

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INTERNATIONAL CONFERENCE – Young voices from the global south: stories of vulnerabilities and resilience

Durante a participação no BIARI (Brown International Advanced Research Institutes), que aconteceu em 2013 na Universidade Brown, que fica em Providence-Rhode Island, nos Estados Unidos, um grupo de estudantes ganhou o seed grant (financiamento inicial) para a realização de um projeto que começou a ser desenhado enquanto estavam lá. Ana Carolina Soares Bertho, uma de nossas colegas da pós-graduação em Demografia da Unicamp, faz parte desse grupo.

O projeto se chama “Young voices from the global south: stories of vulnerability and resilience”. Cada membro do grupo pesquisou sobre um aspecto específico relacionado à juventude (juventude e arte de rua na Argentina; juventude e acidentes de trânsito no Brasil; juventude e emprego na Colômbia; juventude e conflito armado na Colômbia; fecundidade adolescente e educação na Costa Rica; juventude e violência carcerária em Honduras; juventude, ócio e entretenimento na Nigéria e juventude e famílias transnacionais nas Filipinas). Estão produzindo pequenos vídeo documentários sobre cada um dos temas e no dia 29 de maio farão uma conferência internacional na Universidade Militar Nova Granada, em Bogotá. 

Caso alguém esteja por lá nesta época, não deixe de participar! Com certeza o produto final realizado por este grupo de vencedores será fantástico. Então anotem na agenda:

O QUE: Apresentação de vídeo documentários do projeto “Young voices from the global south: stories of vulnerability and resilience”

ONDE: Universidade Militar Nova Granada, em Bogotá – Colômbia.

QUANDO: 29 de maio de 2014 (14h-21h)

encuentro internacional 2014-1-ingles-02

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Brasil evolui, mas segue nas últimas posições em ranking de educação

Desempenho em matemática no Pisa subiu de 356 para 391 (2003 a 2012). Ainda assim, país ficou em 58º lugar entre 65 países que fizeram a  prova.

O Brasil foi o país com maior avanço no desempenho de alunos de 15 anos em matemática entre 2003 e 2012, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) divulgados nesta terça-feira (3) (veja o ranking). Essa avaliação é aplicada a cada três anos com estudantes de 15 anos – perto de concluírem o ciclo básico de ensino – para analisar até que ponto os alunos aprenderam conceitos e habilidades consideradas “essenciais para a completa participação em sociedades modernas”, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O ministro Aloizo Mercadante afirmou em entrevista coletiva nesta manhã que os números representam uma ‘grande vitória’ para a educação no Brasil. Ao todo, a comparação entre 2003 e 2012 inclui 60 países que participaram da prova nos dois anos. Nesse período, a média de desempenho dos estudantes brasileiros saltou de 356 para 391, um aumento de 35 pontos. No ranking de matemática, porém, o país ocupa a 58ª posição entre os 65 países participantes da última edição, duas posições a menos que em 2009, e mais de 100 pontos abaixo da média dos países da OCDE, que foi de 494 pontos.

China teve o melhor desempenho em matemática, seguida por Cingapura e Hong Kong (Foto: Liu Jin/Simin Wang/Mandy Cheng/AFP)
China teve o melhor desempenho em matemática,
seguida por Cingapura e Hong Kong (Fotos: Liu Jin/
Simin Wang/Mandy Cheng/AFP)

Em matemática, o Brasil ficou atrás de países latino-americanos como Chile, México, Uruguai e Costa Rica e à frente de Argentina, Colômbia e Peru. Os outros países piores que o Brasil são Tunísia, Jordânia, Qatar e Indonésia. “Nossa fotografia não é boa, mas o nosso filme é muito bom. (…) Não temos que acomodar, temos que ser rigorosos, tomando medidas cada vez mais rigorosas para avançarmos. (…) Partimos de patamar baixo, apesar de sermos o país que mais evoluiu, temos que ser rigorosos, se não nós não estaríamos tomando mais medidas para tentar melhorar o ensino médio, que é o maior desafio do ensino”, disse Mercadante.

Os melhores desempenhos do Pisa em matemática foram da China (Xangai), Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, Macau e Japão. A China (Xangai) também teve os melhores índices em leitura e ciências.

As provas do Pisa duram até duas horas e as questões podem ser de múltipla escolha ou dissertativas. Em alguns países, incluindo o Brasil, uma amostra dos estudantes também fez provas em computadores. O exame foi aplicado a uma amostra de alunos matriculados na rede pública ou privada de ensino a partir do 7° ano do ensino fundamental. Além de responderem às questões, os jovens preencheram um questionário com detalhes sobre sua vida na escola, em família e suas experiências de aprendizagem.

Em 2012, o Pisa foi aplicado a 510 mil alunos em 60 países que, segundo a OCDE, representam estatisticamente cerca de 28 milhões de estudantes de 15 anos. No Brasil, 19.877 alunos de 837 escolas completaram o exame, segundo o estudo.

As questões avaliam três áreas do conhecimento: matemática, leitura e ciências. Este ano, o foco da avaliação foi matemática. A média aritmética de desempenho nessas três áreas em 2012 foi de 402, um ponto acima da média alcançada em 2009. Veja abaixo o desempenho do Brasil nas últimas cinco edições do programa internacional:

A EVOLUÇÃO DO BRASIL NO PISA (pontuação e posição no ranking mundial)
Brasil Pisa 2000 Pisa 2003 Pisa 2006 Pisa 2009 Pisa 2012
Matemática 334 356 370 386 (57ª) 391 (58ª)
Leitura 396 403 393 412 (53ª) 410 (55ª)
Ciências 375 390 390 405 (53ª) 405 (59ª)
Média geral 368 383 384 401 402
Fonte: OCDE e Inep/MEC (veja o ranking completo)

No relatório elaborado especificamente com os resultados brasileiros, a OCDE destacou a evolução do país em matemática entre 2003 e 2012, em leitura entre 2000 e 2012 e em ciências entre 2006 e 2012.

“Levando em conta que nós somos um dos países que mais avançou em matemática e o país que mais avançou na média, é uma grande vitória. (…) E acho que avançou pelo esforço do estado brasileiro, pela dedicação dos professores, que condições adversas ensinando nossos estudantes, e pelo próprio empenho dos estudantes”, afirmou o ministro, em entrevista coletiva.

Matemática Apesar da melhoria acelerada no desempenho dos estudantes brasileiros em matemática nesse período, 67,1% dos alunos do país ainda estão abaixo da linha básica de proficiência, segundo o Pisa 2012. Isso quer dizer que dois terços dos alunos são capazes apenas de extrair informações relevantes de uma única fonte e usar algoritmos, fórmulas, procedimentos e convenções básicas para resolver problemas envolvendo números inteiros.

A OCDE aponta que essa porcentagem está acima da média dos países-membros da entidade, mas que caiu em relação ao patamar de dez anos atrás, quando 75,2% dos alunos brasileiros estavam nessa situação. Ainda de acordo com a avaliação, os alunos do país têm mais dificuldades em lidar com conteúdos ligados à álgebra e ao estudo de funções matemáticas.

Leitura e ciências A cada edição do Pisa, uma das três áreas do conhecimento recebe enfoque especial, mas as outras duas também são incluídas entre as questões aplicadas. Tanto em leitura como em ciências, o Brasil está abaixo da média da OCDE. Em leitura, o crescimento dos estudantes do país foi de 396 em 2000 e de 410 pontos em 2010 – a média da OCDE é 496. Segundo os dados, porém, nas últimas cinco edições do Pisa o Brasil tem tido altos e baixos em leitura: em 2009, o desempenho foi de 412 pontos, mas recuou para 410 três anos depois.

Pelos dados do último Pisa, 49,2% dos estudantes brasileiros sabem apenas o básico em leitura, como reconhecer o tema principal ou o objetivo do autor de textos sobre temas familiares a ele, e fazer uma conexão simples entre as informações em um texto e o conhecimento do cotidiano. Esse é o nível 2 de conhecimento no espectro da avaliação, considerado “abaixo da linha de base da proficiência”. Apenas um em cada 200 alunos alcançou proficiência de nível 5 e consegue, por exemplo, compreender textos com formato e conteúdo que eles não conhecem, ou analisar textos em detalhes.

Já em ciências, o desempenho do país em 2012 foi o mesmo de 2009: 405 pontos, quase 100 pontos abaixo da média dos países da OCDE, que é de 501. Entre 2003 e 2006, o Brasil havia estagnado em 390 pontos. Na última edição, 61% dos estudantes estavam no patamar considerado de “baixo desempenho”, demonstrando capacidade de apresentar apenas explicações científicas óbvias e seguir somente evidências explícitas. Só 0,3% dos alunos conseguiram demonstrar alto desempenho na área, incluindo habilidades como “identificar, explicar e aplicar conhecimento científico em uma variedade de situações complexas de vida”.

Saiba mais

Fonte: http://g1.globo.com/educacao/noticia/2013/12/brasil-evolui-mas-segue-nas-ultimas-posicoes-em-ranking-de-educacao.html

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