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Elza Berquó, um depoimento. Por Débora Thomé.

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Por Débora Thomé [1]

A professora Elza Berquó não almoça. Ela prefere tomar um bom café da manhã, comer um sanduíche e depois, uma vez em casa no fim da tarde, almoçar. Trabalha o tempo todo. Faz musculação e hidroginástica duas vezes por semana. Casou-se duas vezes. Do primeiro marido, se separou. Do segundo, ficou viúva. Por opção, não teve filhas ou filhos. Mas a viuvez e a idade mais avançada a aproximaram de Gaia, fêmea beagle tricolor que lhe dá ternura e carinho todos os dias. Passou a vida inteira estudando fecundidade, as mulheres, a violência, os jovens. Escolheu ser demógrafa e ter, como filhos, suas pesquisas e seus alunos. Mantém o trabalho, as idas regulares ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e às reuniões do conselho do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo), em Campinas (SP), as leituras, os passeios e o cinema. “Você viu O quarto de Jack?”, me pergunta, sobre um filme recém-lançado. Acompanhou a votação do impeachment na Câmara, que ocorrera dias antes, e ficou chocada com o nível e a qualidade das declarações dos deputados, majoritariamente homens brancos.

A entrevista com Elza Berquó foi realizada em São Paulo, em agosto de 2016, e transcrita a seguir na forma de depoimento em primeira pessoa.

***

Do lado materno, faço parte dos 25 milhões de descendentes de italianos que vivem no Brasil. Meu avô, Salvatori, veio de Gênova para cumprir um castigo imposto pela família. Enquanto estudava para ser padre, apaixonou-se pela filha de criação da casa. Acabou sendo mandado para o Brasil e foi para Minas Gerais. Deixando o latim de lado, e usando os recursos que trouxe, abriu uma oficina mecânica, que logo se tornaria a maior da cidade de Uberaba (MG). Virou maçom. Minha avó, caçula de uma família de sete irmãos, os Abbate, veio da região rural de Bolonha, na grande leva que, a partir da metade do século XIX, migrava à procura de trabalho. Foram colonos em Conquista (MG). Minha avó estava de casamento marcado na colônia em que vivia, quando por acaso conheceu meu avô, no dia em que foi à cidade para comprar o vestido de noiva. Foi amor à primeira vista, e acabaram se casando. Tiveram apenas uma filha, minha mãe, o que na época era bastante raro, dada a alta fecundidade que prevalecia no país. Soube mais tarde que eles praticavam o coito interrompido, muito usado no país de origem.

Do lado paterno, os Berquó vieram com a corte portuguesa. Cresci na religião católica, indo à missa todos os domingos e comungando com frequência. Na adolescência, passei por várias crises quanto à existência de Deus, que me acompanharam até a universidade. Eu me graduei em matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1947. Tive excelentes professores, com quem aprendi muito sobre análise e geometria. Quando conheci a geometria de Lobachevsky[2], segundo a qual, ao contrário da euclidiana, duas retas paralelas se encontram em algum lugar, a noção de infinito, de religiosa, passou a ser apenas científica. Tornei-me agnóstica, o que sou até hoje.

Meu primeiro emprego foi como assistente do Departamento de Bioestatística, dirigido pelo médico-matemático Pedro Egydio de Oliveira Carvalho, na então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Vim direto de Campinas, a despeito das preocupações familiares. Conhecia poucas pessoas, era uma vida muito solitária.

Fui morar na casa de uns parentes distantes, com a condição de que, todas as tardes, voltasse do trabalho para casa. Com poucos recursos, lanchava na própria faculdade. Certo dia, cheguei mais cedo e descobri que a dona do apartamento organizava carteado a dinheiro, no período da tarde, em meio a uma fumaceira danada. Eu sempre fui apaixonada por jogos. Ela me pediu sigilo quanto ao fato; prometi, desde que um dia pudesse jogar. Em uma tarde, perdi meu salário inteiro, sem me sobrar dinheiro sequer para o bonde. Com muita vergonha, fui até o Dr. Pedro Egydio pedir um empréstimo. Ele me fez prometer que não jogaria novamente — o que, evidentemente, não cumpri.

Os primeiros passos na estatística eram como caminhar em um mundo novo. Os modelos probabilísticos, em contraste com o determinismo matemático, alargavam e arejavam o pensamento. Particularmente marcante foi um curso de especialização em inferência estatística, ministrado na Faculdade de Filosofia da USP pelo professor convidado William Meadow. Baseava-se no livro recém-publicado do estatístico sueco Harald Cramér (1893-1985),[3] disponível apenas em inglês. Com a ajuda do dr. Pedro Egydio, digerimos as quase seiscentas páginas do que se tornou nossa bíblia. Em diversas ocasiões, folheio Cramér e saudosamente afago as anotações deixadas pelo dr. Egydio, na tentativa de, às vezes com sucesso, propor alternativas para demonstrações de algumas fórmulas.

Em 1951, aos 26 anos, saltei o doutorado e, após concurso de títulos e provas, tornei-me livre-docente em bioestatística pela USP.

Com bolsa concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), fiz, no período 1956-1957, especialização em bioestatística na Escola de Saúde Pública e Medicina Administrativa da Universidade Columbia, em Nova York, situada fora do campus, na rua 168. Na saúde pública, três professores marcaram meu aprendizado, não só pela competência, mas também pela humanidade: William Fertig, Agnes Burger e Ruth Gold. Combinava esse curso com outro sobre probabilidades, à noite, no campus, na rua 116, onde brilhava o talento de Herbert Robbins. Durante o verão, fiz ainda um curso sobre teoria da amostragem, na Universidade de Michigan, em Ann Arbor.

Durante minha permanência nos Estados Unidos, enfrentei algumas dificuldades, principalmente na vida universitária, ligadas a diferenças ou choques de cultura: atenção e cuidado com o outro interpretados como invasão de privacidade (já crime naquela época); trocas de anotações de aulas perdidas entre colegas de curso veementemente negadas, dada a competitividade no futuro.

Pude apreciar também o que representava no imaginário das jovens estudantes americanas as noites das sextas-feiras, quando aconteciam, ou não podiam deixar de acontecer, os dates e os double-dates.

No cadastro da universidade, o item religião não podia aceitar a alternativa “sem religião”. Contra minha vontade, registrei que havia sido educada na religião católica. A partir daí, a senhoria do apartamento onde morávamos vários latino-americanos em Nova York não me poupava nenhum domingo, batendo com força na porta de meu quarto para que eu não perdesse a missa. Como não tinha nenhum interesse em ir à missa, aproveitava o tempo para conhecer os vários museus da cidade.

Em Nova York, senti a beleza da neve pela primeira vez e, com o passar do tempo, fui perdendo a vontade de voltar ao Brasil. Contudo, esse era o meu compromisso.

Na volta, em 1958, pude verificar algumas mudanças no conteúdo e na didática das aulas, parte delas fruto de uma correspondência robusta mantida com o dr. Pedro, conforme promessa feita a ele antes de viajar. Com entusiasmo, conversamos sobre novos planos para o departamento. A convivência foi muito curta, devido à sua morte prematura, aos 48 anos. A orfandade doeu muito fundo.

Diante do infortúnio, o sentimento entre os colegas do departamento e também da diretoria da faculdade era de que deveríamos estar preparados para concorrer à cátedra, quando o concurso fosse aberto. Por decisão unânime, caberia a mim a difícil missão.

Em correspondência com Agnes Burger e Ruth Gold, pensamos que uma tese apropriada deveria considerar a aplicação de um método estatístico relativamente novo a problemas de saúde pública. Concordei, embarquei e passei dois meses com elas em Nova York. Encontramos nos trabalhos do húngaro Abraham Wald (1902-1950),[4] professor do Departamento de Estatística Matemática da própria Columbia, a possibilidade desejada, ou seja, trabalhar com sua análise estatística sequencial. Esse método se diferencia dos testes de hipóteses consagrados, no sentido de que uma hipótese pode ser aceita, rejeitada, ou a decisão adiada por falta de evidências suficientes para decidir. Com isso, o tamanho da amostra deixa de ser fixado a priori e torna-se uma variável aleatória. Decidiu-se, em colaboração com o Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Columbia, utilizar dados de um estudo já concluído, que visava comparar dois medicamentos para tratamento de prematuros.

Assim nasceu minha tese para o concurso de cátedra da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, realizado em 1960: Sobre a análise sequencial para testes de hipóteses relativas a proporções.

Ao assumir a coordenação do departamento, este já contava com as disciplinas bioestatística e estatística vital, bem como com o Centro de Classificação de Enfermidade e Doenças, apoiado pela Opas, cujo propósito era manter atualizadas normas estabelecidas. Senti logo a necessidade de criar formalmente uma área de estatística matemática e fortalecê-la com a presença de jovens assistentes, com formação em matemática. Eram os ecos das leituras de Cramér. Fui então ao reitor, e eminente médico, Antonio Barros de Ulhôa Cintra, para expor a situação da não área na universidade e a necessidade de dar-lhe vida. Foi a inspiração necessária para que Cintra, em consultoria com a Fundação Ford, de Nova York, sugerisse um convite ao prof. Jerzy Neyman, diretor do Departamento de Estatística da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Um dos mais renomados estatísticos-matemáticos do mundo, o húngaro Neyman chega em São Paulo em 1961, com o objetivo de propor a estrutura de um instituto de estatística na USP. Na época, ele desenvolvia modelos estocásticos para estudo de epidemias e prestava grande contribuição para o campo da astronomia.

Uma vez que o campus da USP estava em fase final de construção, Cintra achou por bem que Neyman trabalhasse no hotel, oferecendo-lhe, para tanto, uma suíte extra. A pedido de Cintra, eu deveria ser uma espécie de chefe de cerimônia. Juntos, marcamos entrevistas com pessoas de diversos setores: Departamento Estadual de Estatística, Faculdade de Economia, Faculdade de Filosofia, Instituto Biológico, Instituto Agronômico, Faculdade de Medicina, além da de Matemática. O grupo se encontrava nesse mesmo hotel para as reuniões de trabalho. Ao longo das reuniões, Neyman tomava vitaminas de todas as cores, e nem eu escapei das coloridinhas. Após vários debates e trocas de opiniões, Neyman já tinha o material necessário para seu relatório final. Chegou o dia da entrega do documento ao reitor. Ambos fizeram questão de selar o compromisso na reitoria da USP.

Como prédio ainda em obras, não tendo sequer vidros nas janelas, subimos as escadas debaixo de chuva até a sala do reitor, onde havia somente uma cadeira. Nessas condições, Neyman disse: “Here is my report”.[5] Nada mais foi debatido ou falado. Após a partida de Neyman, o reitor convocou uma reunião com todas as pessoas que estiveram envolvidas na preparação do relatório. Diga-se de passagem que Neyman, ao nominar alguns professores ou pesquisadores com alguma chance de, após uma permanência em Berkeley, assumir a direção do futuro instituto, descontentou muita gente. Isso deu margem a uma acalorada discussão, com enorme disputa de poder. Em meio ao desentendimento, Cintra deu um murro na mesa: “Vocês não querem um instituto de estatística, vocês querem um clube!”. Esse murro ressoou por vários anos, e um instituto de estatística, autônomo, nunca foi criado. Em 1970, a USP o incorporou no Instituto de Matemática e Estatística (IME).

A etapa seguinte foi encaminhar os jovens assistentes formados em matemática, recém-contratados, a fazerem doutorado nos Estados Unidos, inclusive em Berkeley.

No Brasil, repercutia o acalorado debate, iniciado em meados dos anos 1960 pelos países ditos mais desenvolvidos. A preocupação residia no rápido crescimento populacional no bloco dos países mais pobres. Começava em vários países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, a primeira fase da transição demográfica, caracterizada pelo declínio da mortalidade e pela manutenção de altos níveis de fecundidade. A redução da mortalidade, iniciada nos anos 1950, resultou de esforços concentrados de organismos internacionais, em torno de uma visão de prevenção e erradicação de doenças e controle de epidemias.

Nos anos 1960, contava-se apenas com a herança dos trabalhos de Giorgio Mortara, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseados nos censos de 1940 e 1950, conduzidos sob sua inspiração e responsabilidade. O atraso, ocorrido durante o regime militar, na divulgação dos resultados do recenseamento de 1960 dificultou a análise da tendência da fecundidade no Brasil.

Surpreendidos pelo neomalthusianismo que se instalava no país, e contando com muito poucas pesquisas para esclarecer tendências e condicionantes das mudanças de comportamento da população no campo da reprodução, o departamento inicia em setembro de 1965 a pesquisa sobre “Reprodução humana no distrito de São Paulo”. Seus objetivos eram investigar os antecedentes reprodutivos da população do distrito da capital e acompanhar, durante um determinado período, o comportamento da mulher residente em São Paulo com relação à reprodução. A pesquisa permitiu observar o início do declínio no número médio de filhos por mulher, a partir de 1965, o que seria mais tarde confirmado com a publicação, em 1978, dos resultados do censo de 1960. Ou seja, o país iniciou a segunda fase da transição demográfica entre 1960 e 1970.

Da perspectiva institucional,o país dispunha,na época, do Centro Brasileiro de Estudos Populacionais, na Escola Nacional de Estatística do IBGE, criada em 1952. Contava também, desde 1966, com o Setor de Demografia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e o Banco do Nordeste completavam o quadro de órgãos públicos que incluíam elementos de demografia para nortear suas políticas.

No âmbito da América Latina, contava-se com o Centro Latino- americano y Caribeño de Demografía (Celade), criado no Chile, em 1957, pela Divisão de População da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Nesse contexto, ganha força a ideia da criação, junto ao Departamento de Estatística Aplicada, de um centro de ensino e pesquisa em demografia. Contando com o apoio da Opas, cria-se em 1966 o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip), único de cunho acadêmico no país. Esse processo se dá em plena vigência do regime militar, que até então havia baixado quatro Atos Institucionais, dois dos quais em 1966.

Aliás, na questão do aumento populacional, os militares estavam divididos: para alguns, o crescimento populacional seria bem-vindo, dada a extensão territorial do país; para outros, o crescimento populacional poderia reprimir o desenvolvimento. Mas, de modo geral, eles faziam vistas grossas ao controle da natalidade, promovido de fora para dentro do país.

O convênio entre a Faculdade de Higiene e Saúde Pública e a Opas previa recursos por cinco anos, incluindo salários e bolsas, para implantação do Cedip. Após esse período, os valores deveriam ser garantidos pela própria faculdade. Em primeiro lugar, contaríamos com uma consultoria de alto nível na área de demografia. Isso se concretizou com a visita, por um mês, da eminente demógrafa Irene Tauber, da Universidade Princeton. Com ela foram planejados currículos para os futuros cursos de pós-graduação em demografia. Desse plano, fazia parte também a escolha de universidades estrangeiras de notório saber em estudos populacionais. Todo esse esforço compartilhado para construir ferramentas capazes de expor as marcas das desigualdades de direitos, sociais, econômicos e étnico-raciais, na população brasileira se deu como que dentro de uma muralha, que nunca chegou a ser invadida pelas Forças Armadas, como ocorreu em outras unidades da USP.

De volta ao Brasil, os bolsistas estavam cheios de planos para o futuro do Cedip e da demografia.

Em 13 de dezembro de 1968,o ministro da Justiça, Luís Antônioda Gama e Silva, assina o Ato Institucional nº 5, o mais violento e autoritário de todos. Desrespeita a Constituição de 24 de janeiro de 1967, suspende garantias constitucionais, cerceia as liberdades civis e direitos individuais.

Entre todas, aquela foi a noite mais longa e mais escura. Ao ouvir A voz do Brasil, fiquei sabendo que o AI-5 havia interrompido carreiras de eminentes professores e pesquisadores da USP. Dentre eles, muitos colegas e amigos. Do Cedip, Paul Singer e eu fomos aposentados compulsoriamente.

Viemos para o Cebrap, criado em maio de 1969, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso, com apoio da Fundação Ford. Cândido Procópio Ferreira de Camargo dividiu, durante algum tempo, a coordenação do Cedip e a presidência do Cebrap.

Eu morava num local distante, e tudo estava sendo muito controlado. Mas felizmente pude esconder em minha casa vários jovens que optaram pela via da luta armada. Apesar de essa nunca ter sido minha opção, acreditava que era meu dever ajudá-los. Eles eram uns cinco ou seis em esquema de revezamento, mas em comum tinham o fato de estar sempre lendo. As turmas iam mudando, mas toda hora havia alguns lá em casa. Depois de uns dias de leituras sem fim, começavam a ficar entediados com o cativeiro. Certa vez, um deles se ofereceu para fazer algum serviço na casa, fosse conserto ou pintura. Acabaram, então, se ocupando em pintar com óleo queimado as lajotas do piso. Todos os que passaram por lá acabaram mortos. Em casa ficaram para sempre as marcas de suas emoções.

No Cebrap, com o espírito ainda vagando pelo departamento, pudemos dar prosseguimento, com os colegas do Cedip, aos trabalhos em curso. A pesquisa “Reprodução humana no distrito de São Paulo”, iniciada em 1965, produziu inúmeros trabalhos, reunidos no livro A fecundidade em São Paulo: características demográficas, biológicas e socioeconômicas, que veio a lume em 1977, pela Editora Brasileira de Ciências-Cebrap.

Em 1974, por um descuido de um jovem pesquisador do Cebrap, um pacote foi levado ao correio para ser despachado. No guichê, o funcionário notou que o pacote estava úmido (possivelmente por estar guardado havia muito tempo, em lugar insalubre). Isso nos levou todos à Operação Bandeirante (Oban), em que foi cumprido todo o ritual de terror, ou seja, fomos encapuzados. Sabendo que iria ser interrogada, optei por me apresentar como uma mulher rica e chique, uma autêntica anticomunista. Fazia parte do disfarce uma bolsa grande, bastante sofisticada, que foi aberta e revistada. O interrogatório foi bem longo, uma vez que recentemente eu havia voltado da Conferência Mundial de População, sediada em Bucareste, na Romênia, país comunista. Após várias horas, constatei que o militar que me interrogava estava interessado no porta-níqueis encontrado em minha bolsa, uma vez que seu filho era colecionador de moedas estrangeiras.

Para realizar essa viagem e todas as outras, que foram muitas, durante o período de chumbo, era preciso uma licença especial de Brasília, e o conselho que circulava na época era não embarcar para fora e desembarcar no Brasil sem a presença de um parente ou amigo que pudesse garantir que você de fato viajou e voltou.

Dois anos depois, na madrugada de 4 de setembro, a sede do Cebrap, na rua Bahia, foi atingida por uma bomba. Um grupo que se intitulava anticomunista assumiu a autoria do atentado. O centro de estudos acabara de publicar o livro São Paulo 1975: crescimento e pobreza, com apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Esses dois acontecimentos abalaram muito o Cebrap. Foi quando tivemos a certeza de que precisávamos ter acesso a alguém do alto escalão do Exército, para explicar que não éramos um centro de “terroristas”, e sim um lugar de pesquisa, com trabalhos publicados em diversos países. O Cebrap sempre foi uma instituição aberta ao contraditório com um éthos da pluralidade muito forte.

Foi quando me lembrei que havia um general na minha família. Em contato com Olavo Berquó, meu primo, advogado em Goiânia, expliquei a situação, pedindo-lhe que intermediasse uma conversa com o general Bragança, meu parente. Fomos atendidos, Procópio e eu, mas só pudemos conversar com o militar em Goiás Velho, para não dar na vista. Na casa modesta de uma tetravó de meu pai, contamos nossa história enquanto galinhas soltas ciscavam no chão da sala. Na despedida, ela me entregou um envelope em que guardava recortes de jornal e fotos minhas.

A beleza da demografia como disciplina é lançar mão de recursos matemáticos e probabilísticos para o convívio da riqueza das ciências humanas. Ela busca entender o âmbito das desigualdades em suas variadas faces, sendo propositiva no caminho das mudanças. O meu principal interesse é formar pesquisadores, transmitir conhecimento, buscar recursos para que isso possa acontecer. Até hoje tenho inquietação pelo conhecimento e a crença na potência transformadora que ele tem.

Cada vez mais vejo que as decisões políticas são tomadas levando em conta a demografia. Não dá mais para políticos e empresários ignorarem nossa dinâmica populacional em suas decisões. Agora falta nós, demógrafos, falarmos uma linguagem mais amigável, ou seja, descer alguns degraus de forma que a população compreenda. As fronteiras entre as disciplinas devem ser quebradas.

Gostaria de chamar atenção para o fato de que, como pesquisadora, cometi erros e enganos. A gente aprende muito com os erros. Por isso é fundamental ter um grupo para nos contestar — os próprios alunos são importantes críticos no aperfeiçoamento do trabalho. Eles fazem perguntas que não nos permitimos, ou que não nos ocorre. A convivência com equipes mais jovens é muito salutar, inclusive porque se trata de uma geração mais ousada, com menos hierarquias. Abre-se mais o diálogo, surgem novas maneiras de pensar, metodologias diferentes. Compartir é um aspecto fundamental no trabalho de pesquisa. E, para a ciência avançar, é sempre importante aparecer alguém que se insurja, que vá inovar, que proponha um novo olhar.

Olhando para o futuro, sinto que ainda falta trabalhar mais extensivamente como enfoque das gerações. Voltar no tempo o quanto for possível, observando as coortes. Que geração marcou mais uma determinada mudança? É isso que andamos buscando para diversos temas. Particularmente, estudar a reprodução tardia por gerações, para ver quando começou o processo de postergar a maternidade e seus determinantes.

Também vejo como um campo promissor para pesquisa a questão do aumento da prematuridade em face do crescimento de partos por cesárea; da vida estressante nos centros urbanos, da luta insistente para conquistar ou manter patamares de empoderamento; viver a gestação em ambientes altamente poluídos; carregar uma gravidez não desejada, muitas vezes solitária.

Ainda não conseguimos avançar o necessário nos direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos, a todo momento ameaçados por visões retrógadas e conservadoras.

O conceito de família vem passando por mudanças profundas na sociedade, que se afastam de um ranço conservador. Relações afetivas dão conta do verdadeiro caleidoscópio que as abrange. Cada vez mais os instrumentos de coleta de informações precisariam ser sensíveis a essa riqueza de possibilidades das formas de viver.

Continuar a ouvir os jovens é prioritário para compreender porque precisam correr tantos riscos para se sentirem vivos.

Uma das pesquisas de que mais me orgulho foi sobre mulheres negras, conduzida nos anos 1990. A intenção era trabalhar a saúde da população negra com foco na mulher negra. Notei que, quando eram publicados editais para bolsas de pesquisa, as mulheres negras em geral perdiam na competição. Decidi então abrir um edital só para mulheres negras para, com bolsas de pesquisa, financiadas pela Fundação MacArthur, trabalharem no primeiro estudo de ação afirmativa no Brasil. Na primeira edição do programa foram selecionadas quatro pesquisadoras negras, todas graduadas em ciências sociais, que durante dois anos adquiriram conhecimentos, treinamento para pesquisa de campo e produziram o estudo Eu, mulher negra. Com essa base, elas fizeram seus doutorados. O sucesso alcançado no programa levou a Fundação MacArthur a financiar uma segunda edição. Dessa vez, a seleção era feita novamente só entre pessoas negras, que já tivessem feito mestrado em ciências sociais. Ao final, elas fizeram seus doutorados, e algumas vieram a ocupar cargos docentes em universidades e/ou em organismos internacionais.

Com a anistia, fui convidada a voltar para a USP. Com a reforma universitária, a disciplina de estatística matemática migrou do Departamento de Bioestatísica da Faculdade de Saúde Pública para o Instituto de Matemática e Estatística (IME). Havia duas possibilidades: voltar para a Saúde Pública ou ir para o IME. Tomada a decisão, procurei o prof. Oswaldo Forattini, diretor da Faculdade de Saúde Pública. Mesmo com o seu voto de minerva a meu favor, dado que 50% da congregação votou contra minha volta, decidi não retornar e continuar no Cebrap.

Em 1982, o prof. José Aristodemo Pinotti, reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), me convidou para montar um núcleo de estudos de população. Com muita alegria, aceitei o convite de um visionário que sentia a necessidade da demografia em uma universidade jovem. A única condição que impus foi não assumir os encargos burocráticos da universidade. O Nepo a princípio foi instalado em uma casa no distrito de Barão Geraldo, dividindo o espaço com o Centro de Políticas Públicas. Foram comigo, inicialmente, Maria Coleta de Oliveira e as saudosas Maria Isabel Baltar da Rocha e Neide Patarra. Da prata da casa, vieram o saudoso sociólogo Daniel Hogan e o médico Aníbal Faúndes. O núcleo aos poucos ganhou um espaço novo no campus, e desde então suas atividades de pesquisa, estudos e consultorias são sobejamente reconhecidas.

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[1] Este texto integrará o livro co­memorativo dos quarenta anos da Associação Brasileira de Estudos Po­pulacionais (Abep), em preparação. Débora Thomé é jornalista, mestre em ciência política pelo Iesp-UFRJ, doutoranda em ciência política pela UFF, e autora de O Bolsa Família e a social-democracia (Editora FGV, 2013).

[2] Nikolai Lobachevsky, matemá­ tico russo do século XIX.

[3] Cramér, Harold. Mathematical Methods of Statistics. Princeton: Prin­ ceton University Press, 1946.

[4] Wald, Abraham. “Sequential Tests of Statistical Hypotheses”. The Annals of Mathematical Statistics, v. 16, n. 2, pp. 117­186, 1945.

[5] “Organizational Outline of the Proposed Institute of Statistics at the University of São Paulo”, 1961.

O PDF do texto para download está disponível AQUI.

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Demografia e Educação IV – Por que filhos tendem a superar a escolaridade de seus pais?

Por Flávia Longo

Este é o quarto de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais. Hoje o teor é um pouco diferente, pois conto um pouco da minha trajetória pessoal.

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Foi com a pergunta do título que dei início a minha pesquisa do mestrado (2013-2015). Ao longo de dois anos, com orientação e aulas de metodologia ela foi sendo lapidada, aprimorada aos moldes requeridos pelo fazer científico. Mas, a essência é esta. Existe uma tendência mundial de que as gerações mais novas consigam estudar tanto quanto ou mesmo superar a escolaridade das gerações anteriores. Falo em tendência, porque não é uma regra absoluta – e ainda são muitos os casos de “imobilidade”, ou seja, quando diferentes gerações, pais e filhos, permanecem com o mesmo status de nível de escolaridade.

Acontece que essa pergunta de partida poderia ter sido respondida dentro de uma pós em Economia, ou Sociologia ou mesmo alguma área da Educação. Por que optei pela Demografia?

livros

Entrei em contato com as pesquisas em Demografia, em 2010, na linha de pesquisa sobre Família, Gênero e População, por meio de um projeto que investigava as mudanças nas famílias no Brasil. Foi quando aprendi sobre as transformações no tamanho e na composição das famílias e dos domicílios, e me perguntei se estas transformações teriam alguma relação com a melhoria das oportunidades de escolarização das crianças e jovens. A literatura há muito sinaliza que a escolaridade da mãe é positivamente correlacionada com a escolaridade dos filhos, e inversamente relacionada ao número de filhos tidos. (Há exceções: mulheres muito escolarizadas protelam o nascimento dos seus filhos para poderem se dedicar a sua formação e ao trabalho. Quando decidem ter filhos, tem dois ou três em um curto período de tempo).

A entrada teórica e conceitual não era exatamente demográfica. Tratava com teoria de estratificação social (alô Marx, alô Weber, alô Boudon!), disponibilidade de capital humano, social, cultural e financeiro (alô Bourdieu!), reprodução social (alô Durkheim!) e os efeitos da família e suas transformações (alô Ariès, alô Becker!). E foi neste último eixo teórico que se estabeleceu a ponte com as mudanças demográficas e a principal crítica ao trabalho.

As mudanças no perfil da fecundidade e a redução dessas taxas foram corresponsáveis pela diminuição do tamanho das famílias. Existe toda uma discussão sobre a razão do declínio da fecundidade, que envolve a transição urbana, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, as legislações sobre casamentos, uniões e divórcios, o próprio aumento da média da escolaridade…

Um risco em se assumir a redução da fecundidade para ajudar a responder à pergunta é o de reificar um modelo onde famílias pequenas e poucos filhos são o ideal. Isto pode ser acusado de sustentar uma lógica economicista onde muitos filhos podem ser sinônimos de dificuldades econômicas. Eles competiriam pelos recursos escassos, sendo que seu sexo ou mesmo ordem de nascimento poderiam justificar seu acesso aos estudos. Por exemplo, em pesquisa sobre mobilidade educacional em Taiwan, as meninas eram destinadas ao casamento, sendo que o filho mais velho era o que tinha mais chance de ser enviado para a escola. No Brasil, em um passado recente, já foi observado o contrário: as meninas teriam mais chance que os meninos, e os filhos mais novos teriam melhores condições de frequentarem a escola. Mas, se voltarmos nosso olhar para um passado mais distante, veremos que as meninas tinham poucas chances de estudar, que as condições para frequentar a escola eram um privilégio e quando muito, os filhos homens das classes mais abastadas é quem poderiam estudar e almejar uma formação no Ensino Superior.

Essas mudanças no contexto histórico perfazem outras variáveis que ajudariam a explicar as chances de um filho ou filha estudar mais que seus pais. Cada geração foi formada em um período específico, com legislações de acesso e obrigatoriedade escolar próprias, com composição familiar única. Estas características todas dialogam com uma abordagem muito cara à Demografia, que é a de curso de vida, das trajetórias estudantis, laborais e familiares – que não podem ser analisadas sem a observação dos tempos cronológico e social (tema para outra conversa! Tive o privilégio de cursar uma universidade pública. Meu pai fez faculdade particular em idade mais avançada, minha mãe se formou também em instituição privada, no ano em que ingressei no ensino superior. Meus avós paternos tampouco cursaram o grupo escolar, minha avó materna só pode estudar depois que se aposentou e se formou na faculdade em 2011 e hoje, aos 68 anos cursa pós-graduação. A minha história familiar ilustra pelo menos dois pontos: de que o nível de escolaridade não é estático e eles podem mudar ao longo da vida e, que mesmo a noção de superação da escolaridade dos mais velhos precisa ser relativizada).

Vemos que não apenas a redução da fecundidade poderia explicar as chances de escolarização, mas também as políticas públicas, a região de residência, a idade da mãe e mesmo a cor das pessoas – sim, no Brasil, a herança de um período colonial-escravista deixou profundas marcas de desigualdade que ainda permanecem. Outro aspecto que interfere na análise da mobilidade educacional é a natureza dos dados. No Brasil, a maioria dos dados disponíveis para este tipo de estudo são transversais, isto é, são uma fotografia de um determinado momento e não captam as dinâmicas da trajetória educacional. Mas, nem por isso podem ser desprezados. Uma fonte muito utilizada é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE), que em 1996, teve um suplemento especial sobre mobilidade social. Logo abaixo, deixo a indicação de duas pesquisas sobre esse tema no país e uma pesquisa internacional sobre a transição entre escola e trabalho, feita pela Organização Internacional do Trabalho com dados longitudinais e que também captam a mobilidade educacional.

 

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Para saber mais:

FERREIRA, S.G.; VELOSO, F.A. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil. (artigo).

PASCHOAL, I.P. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil (dissertação).

ILO. School to Work Transition Survey.

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Outros textos da série:

Texto 1

Texto 2

Texto 3

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

 

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Mapeamento traça perfil da juventude paulistana

Trabalho elaborado pelo IE e Nepo identifica áreas mais vulneráveis

Jovens participam de passeio ciclístico em São PauloA pedido da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania (SDHC) da Prefeitura de São Paulo, a Unicamp produziu um “mapa da juventude” da capital paulista, apontando os perfis e as principais carências da população de 15 a 29 anos pelos distritos e subprefeituras da cidade. O trabalho foi conduzido pelo Instituto de Economia (IE) e pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo), sob coordenação dos pesquisadores Marcelo Weishaupt Proni, então diretor associado do IE, e Estela María García de Pinto da Cunha, na época coordenadora do Nepo.

“Uma excelente contribuição deste projeto foi ter disponibilizado as informações de forma georreferenciada”, disse Cunha. “Porque o mapa permite ao gestor observar cada um dos indicadores e identificar áreas de maior ou menor vulnerabilidade num aspecto específico. É uma visualização rápida muito valiosa para subsidiar o seu trabalho. Acredito que isso seja uma excelente contribuição do projeto para a secretaria”, disse. “O que motivou a pesquisa foi a necessidade de reunir informações, montar bancos de dados, para subsidiar as políticas públicas em várias áreas, mas com foco nas questões que afetam diretamente os jovens”, acrescentou Proni.

“São 96 distritos no município de São Paulo”, lembrou o pesquisador. “A prefeitura quis contar com uma base de dados ampla, que permitisse ver tendências, porque a ideia era perceber os movimentos mais gerais: quais são os distritos em que cresce mais a população jovem, onde houve melhorias mais expressivas do ponto de vista do emprego, da saúde… Com essa finalidade foram definidos oito eixos temáticos”.

O mapa congrega dados de perfil sociodemográfico, habitação, educação, trabalho, saúde, violência, proteção social, cultura e cidadania digital dos jovens, extraídos de fontes secundárias, como o censo demográfico do IBGE.

“A ideia da Coordenação da Juventude era primeiro montar esse mapa com base nos dados disponíveis”, disse ele. Esses dados permitiram a construção de uma série histórica para os indicadores, indo de 2000 até, em alguns casos, 2013. E essa série poderá ser atualizada de forma permanente.

“Entregamos à secretaria uma proposta de metodologia e um banco de dados”, disse Cunha. “Tendo essa metodologia e o banco, organizado em planilhas, é possível incorporar dados novos e atualizar os indicadores. Ou seja, a secretaria já tem independência técnica para fazer a atualização permanente do mapa”.

“Jovens”, na definição usada para a elaboração do mapa, são as pessoas de 15 a 29 anos, subdivididas em três faixas etárias: de 15 a 19, 20 a 24 e 25 a 29.

“Na bibliografia internacional e nas estatísticas divulgadas pelas Nações Unidas, a faixa etária da juventude geralmente compreende pessoas entre 15 e 24 anos”, disse Proni. “No Brasil, as políticas públicas do governo federal ampliaram essa faixa, então a gente tem as políticas para jovens alcançando de 15 a 29 anos”.

Nesse intervalo mais amplo, explicou ele, é importante a distinção entre grupos etários. “É diferente a situação de um jovem de 25 anos que já é pai de família, e outro de 15 que mora com os pais”.

RESULTADOS

O mapa da juventude mostra um crescimento da população jovem em alguns distritos e diminuição em outros; e uma melhoria nas condições de vida dos jovens paulistanos desde 2000. “Na zona sul e na zona leste há uma maior porcentagem de jovens com diferentes carências”, disse Proni. “E há uma sobreposição de carências: os mais vulneráveis são aqueles que residem em moradias precárias, têm renda familiar per capita baixa, chance menor de completar o ensino médio, inserção informal no mercado de trabalho…”. Em geral, os distritos da área central do município apresentam os melhores indicadores, mas as melhorias são mais perceptíveis na periferia da cidade.

“Na zona leste reside uma população enorme, mas durante muito tempo o crescimento da cidade foi desordenado, as políticas públicas não alcançavam aquelas pessoas. Em 2015, fomos fazer o lançamento do mapa, junto com outros produtos da Secretaria, na Cidade Tiradentes, que é lá no extremo da zona leste. Dá para perceber uma mudança visível: para quem conheceu o que era Cidade Tiradentes dez anos atrás e o que é hoje, é nítido que melhorou bastante, houve uma urbanização, agora existem escolas equipadas, postos de saúde, programas sociais. Mas, em comparação com outros distritos da cidade, continua com uma série de carências comparativas”, relatou o ex-diretor associado do IE.

Ao mesmo tempo em que o mapa permite ver a mudança que houve desde 2000, disse Proni, mostrando que os indicadores melhoraram em vários aspectos, também revela que os contrastes permanecem muito grandes. “As desigualdades dentro da cidade continuam, embora possam ter diminuído em vários aspectos. A redução das desigualdades depende da combinação de crescimento econômico com políticas sociais universais e programas de redistribuição de renda. É importante que a geração de empregos seja acompanhada de uma oferta ampla de bens e serviços públicos, contribuindo assim para reduzir a pobreza e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Mas, isso não basta. É preciso manter políticas focalizadas nos grupos mais vulneráveis, nas carências mais graves”.

Nos indicadores mais básicos, a melhora foi maior entre aqueles que tinham condições piores. “Os jovens, até o começo da década passada, até 2003, mais ou menos, sofriam muito com o desemprego. Isso mudou com a possibilidade do jovem continuar estudando e ter um emprego formal, mesmo que fosse para ganhar um salário mínimo. Isso melhorou muito a condição de vida de jovens de baixa renda”.

“Agora, sobre essa crise econômica atual, o mapa também pode ser útil. A crise afeta mais as populações vulneráveis socialmente, então é importante ter um mapa para saber onde essas populações estão. É nesses momentos que os jovens mais precisam de políticas focalizadas, de uma rede de proteção social”, ponderou.

MÉDIAS E DADOS

Tanto Proni quanto Cunha destacam que o objetivo do mapa não foi produzir um retrato, ou perfil, do jovem paulistano, mas sim revelar as especificidades da juventude em cada distrito da capital.

“Não estávamos atrás desse perfil. Não é o que a secretaria solicitou”, disse a ex-coordenadora do Nepo. “Queríamos saber onde estavam localizados, espacialmente, os adolescentes mais vulneráveis, isso sim nos importava. Queríamos saber como a Secretaria de Saúde, segundo nossos indicadores de saúde, teria de atuar em programa de assistência à gravidez adolescente, ou onde há mais registro de mortes violentas, ou onde se localizam os mais vulneráveis dos domicílios com chefia feminina e renda comparativamente menor”, exemplificou.

O professor Marcelo Proni, um dos coordenadores do projeto: “Uma excelente contribuição deste projeto foi ter disponibilizado as informações de forma georreferenciada”“Geralmente, as médias enganam muito”, afirmou o ex-diretor associado do IE.  “A ideia do mapa é mostrar as diferenças. Porque os dados agregados, para o município, a prefeitura já tinha. A riqueza do mapa está exatamente no contraste, por exemplo, entre um distrito de mais alta renda, onde o perfil é mais do jovem branco que mora com os pais, e algumas áreas da periferia onde a população negra é muito maior. A riqueza do mapa está justamente nisso, em localizar onde existe uma probabilidade maior de ter um jovem que não estuda nem trabalha, o chamado nem-nem, onde é mais provável você encontrar mulheres jovens com mais carência de assistência médica, onde a violência afeta mais os homens jovens, e assim por diante”.

Cunha recordou o trabalho cuidadoso de desagregação de dados feito no Nepo, para transformar os registros agregados divulgados pelo censo demográfico ou disponíveis nas secretarias municipais em indicadores mais desagregados e localizados geograficamente.

“Esse estudo requeria uma primeira etapa de levantamento das fontes de dados disponíveis, a atualização dessas fontes, ou seja, em que período temporal dispomos desses dados, e uma consolidação. Para isso, primeiramente, foi feito um mapeamento do que já se tinha divulgado, para que período temporal, com que abrangência territorial, já que nos foi pedido desagregar nos 96 distritos do município”, relatou. “E assim, poder afirmar que mesmo precisando de uma determinada estimativa desagregada por distrito, a consistência e/ou a cobertura não nos permitiria realizar uma inferência científica”.

“Sabíamos que havia dados que tinham limitações para serem utilizados”, disse. “Por isso, tivemos o cuidado de analisar estas dimensões”. No relatório final do mapa (disponível online na página www.portaldajuventude.prefeitura.sp.gov.br/noticia/mapa-da-juventude-de-sao-paulo/) constam, por exemplo, as dificuldades no levantamento de dados sobre violência, apresentando alta subnotificação de crimes contra a mulher assim como a dificuldade em acessar as bases de dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública do Estado, referentes à população jovem.

Fonte: Jornal da Unicamp

Disponível em:

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/645/mapeamento-traca-perfil-da-juventude-paulistana

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O mundo é dos jovens: ONU registra recorde histórico na população de 10 a 24 anos

Relatório mostra que 25% da população do planeta está nessa faixa. Saúde, educação e emprego são desafios

POR RENATO GRANDELLE

Mundo tem 1,8 bilhão de pessoas entre 10 e 24 anos – Free Photos

RIO – Um relatório inédito lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) traça um retrato da atual juventude mundial, uma multidão de 1,8 bilhão de pessoas que passa por problemas centenários, ao mesmo tempo em que carrega a responsabilidade de garantir um futuro sustentável para o planeta.

O tamanho da população jovem não tem precedentes. As pessoas entre 10 e 24 anos, alvo do estudo, correspondem a 25% dos seres humanos — um recorde histórico. E a tendência é de crescimento: em 2050, serão 2 bilhões. Sua distribuição, no entanto, é desigual. Noventa por cento estão nos países em desenvolvimento, confirmando a tendência ao envelhecimento das sociedades mais ricas.

Mesmo ocupando um quinhão avantajado da população mundial, os jovens estão na lanterna entre os grupos contemplados por políticas públicas. Segundo o relatório do UNFPA, faltam investimentos em programas de qualidade de vida, educação e oportunidades de emprego. O resultado é a sua vulnerabilidade à violência, drogas, depressão e gravidez na adolescência, entre um leque de fatores que reduz o potencial econômico e social deste contingente.

SAÚDE É ÁREA DEFICIENTE

Chamado “O poder de 1,8 bilhão: adolescentes, jovens e a transformação para o futuro”, o documento é divulgado no mesmo momento em que a comunidade internacional discute as medidas que substituirão os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, como são conhecidos os oito compromissos que deveriam ser seguidos pelos governos entre 2000 e 2015 (erradicação da pobreza e da fome, atingir o ensino básico universal, promover a igualdade entre os sexos, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater HIV, malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e estabelecer parceria mundial para o desenvolvimento).

A situação dos jovens mostra as pendengas que resistiram aos avanços. A saúde é uma das áreas mais deficientes. Em 2012, cerca de 1,3 milhão de adolescentes morreram de doenças preveníveis ou tratáveis, segundo a Organização Mundial de Saúde. Pelo menos 160 milhões de jovens estão desnutridos.

— O HIV é a segunda maior causa de morte entre os jovens — destaca Anna Cunha, oficial do UNFPA. — Entre as meninas, este ranking é liderado pelo suicídio. E temos observado uma ligação cada vez maior entre estes problemas de saúde mental com outros desafios, como a gravidez indesejada.

Nos países mais pobres, os transtornos mentais são observados em meninas a partir dos 12 anos. Estes problemas são agravados com costumes tradicionais, como o casamento infantil. A cada dia, cerca de 39 mil crianças tornam-se noivas. Anna lembra que o matrimônio precoce é proibido em muitos países, mas ainda assim praticado. Com a prática, as jovens tornam-se mais vulneráveis a doenças sexualmente transmissíveis.

— A educação sexual ainda representa um grande obstáculo — lamenta Anna. — Os jovens têm acesso limitado à informação, recursos e serviços. Em muitos países a lei dificulta a chegada de preservativos. O tema é ensinado na escola de forma distorcida, sem base científica. E os profissionais de saúde têm preconceito em lidar com quem precisa de assistência.

Entre os rapazes, a maior vilã é a violência. Em 2012, cerca de 1,3 milhão de adolescentes morreram em conflitos, sendo que 97% ocorreram em países pobres. Fugir da criminalidade significa, em muitos casos, abandonar a casa. A criminalidade foi apontada como o maior motivo do êxodo de jovens de Honduras para os EUA este ano.

A educação também figura entre os temas que mais preocupam os redatores do relatório. Aproximadamente 175 milhões de pessoas não conseguem ler uma frase completa. A Unesco destaca que, embora frequentem o ensino primário por quatro anos, a falta de recursos básicos faz os alunos deixarem a escola sem qualquer aprendizado. Como as adolescentes são mães muito cedo, há muito mais rapazes dentro da sala de aula do que mulheres.

Alguns países têm feito seu dever de casa. Brasil e México são citados entre aqueles com programas de transferência de renda que aumentam o nível de escolaridade dos jovens e acesso a saúde, inclusive para as meninas.

— A educação de qualidade tem uma ligação direta com a economia — assinala o nigeriano Babatunde Osotimehin, diretor-executivo do UNFPA. — Se tem uma universidade à disposição, por exemplo, o jovem tem mais capacidade para se inserir no mercado de trabalho e criar pequenos e médios negócios, uma grande fonte de empregos.

Esta é a senha para Osotimehin indicar o lado promissor descoberto pelo levantamento. Dos 210 países, 59 estão em transição demográfica — a diminuição das taxas de fecundidade e mortalidade. Este fenômeno provoca um “bônus”. Durante um certo período, variável em cada nação, há mais pessoas em idade ativa (de 15 a 64 anos) do que dependentes da população que está fora do mercado (crianças de até dez anos e idosos com 65 anos ou mais). É o momento ideal para o crescimento econômico.

— Este é um sinal, o melhor para que os países em desenvolvimento consigam dar acesso à população a políticas públicas — descreve Osotimehin. — É quando os jovens ganham maior perspectiva, um papel ativo na economia.

No ano passado, pouco mais de 73 milhões de jovens entre 15 e 24 anos — o equivalente a 36% de todas as pessoas nesta faixa etária — está desempregada. A maioria está nos países em desenvolvimento, que precisam correr atrás dos investimentos necessários para fazer esta curva ascendente.

MAIS FINANCIAMENTO PARA AS MULHERES

O modelo a ser seguido tem endereço. Nos últimos 40 anos, o Leste Asiático conseguiu expandir o mercado de trabalho e aumentar os padrões de vida da maioria dos estratos da população. A receita é básica: aumentar o acesso e a qualidade da educação; criar oportunidades em outros setores da economia, além da tradicional agricultura; e disponibilizar mais crédito no sistema bancário à população, principalmente para as mulheres. Quando elas contam com mais dinheiro na conta, o número de crianças na escola é elevado em 8%, e há menos desigualdades sociais entre jovens de ambos os sexos.

“O exemplo dado pelos países do Leste Asiático, que transformaram suas trajetórias econômicas nas décadas de 1970 e 1980, mostra que as políticas prescritas no relatório têm sido bem sucedidas no passado. Países agora à beira de uma transição demográfica podem alcançar esse crescimento, mas apenas com o investimento adequado em suas populações jovens”, ressalta o documento do UNFPA.

O relatório afirma que dois caminhos podem ser seguidos. Um deles, em que o governo abre o cofre para políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes, resulta em “uma enorme recompensa a longo prazo no desenvolvimento econômico e social”. E cita a região mais pobre do planeta: se os países da África Subsaariana fizerem os investimentos necessários em capital humano, seus dividendos demográficos podem render US$ 500 bilhões por ano nas próximas três décadas. É um ganho expressivo, considerando que o continente é teto da maioria dos 500 milhões de jovens que vivem com menos de US$ 2 por dia.

O segundo caminho é o seguido atualmente. Sem investimentos em saúde e educação, as desigualdades sociais vão se perpetuar.

— O contingente inédito de jovens não é nem deve ser encarado como um obstáculo. É um grande segmento da população que tem capacidade para conduzir o planeta — garante Osotimehin.

Anna acrescenta:

— Mostramos como não existe a possibilidade de aproveitar a oportunidade demográfica se não houver direitos para a população jovem, como a vida sem violência e o trabalho digno.

Fonte da notícia:

http://oglobo.globo.com/sociedade/o-mundo-dos-jovens-onu-registra-recorde-historico-na-populacao-de-10-24-anos-14587036

Acesse o relatório completo do UNFPA (disponível em inglês, francês e espanhol):

http://www.unfpa.org/public/home/publications/pid/18634

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Fundo de População da ONU lança a campanha Jovens Somamos Mais

Iniciativa #InvestirEmJuventude – Jovens Somamos Mais visa inclusão da juventude na futura agenda global de desenvolvimento, a ser adotada a partir de 2015.

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Para promover o bem-estar e o cumprimento dos direitos de jovens e adolescentes e estimular sua participação na busca de soluções, o Fundo de População das Nações Unidas, o UNFPA, lança hoje (14/08) no Brasil a campanha virtual “#InvestirEmJuventude – Jovens Somamos Mais”. A iniciativa integra a ação global de mobilização do UNFPA #showyourselfie, cujo objetivo é a discussão e a inclusão de temas prioritários para a juventude na agenda de desenvolvimento Pós-2015.

A campanha “Jovens Somamos Mais” será realizada por meio de redes sociais e pretende criar espaços para que os próprios jovens e adolescentes expressem suas necessidades e aspirações, participando mais ativamente do debate sobre as novas metas globais de desenvolvimento – mais especificamente na construção dos chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que irão substituir os atuais Objetivos de Desenvolvimento do Milênio a partir do próximo ano. A campanha se soma às ações desenvolvidas pelo UNFPA no âmbito do Grupo de Trabalho Interagencial de Juventude do Sistema ONU no Brasil.

“Os jovens não estavam em foco nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o último plano de desenvolvimento global que foi aprovada em 2000. Eles não podem ser esquecidos novamente”, disse o Diretor Executivo do UNFPA, Dr. Babatunde Osotimehin. “Os jovens são uma força poderosa, individual e coletivamente. Eles estão moldando realidades sociais e econômicas, desafiando normas e valores e construindo a base do futuro do mundo. A forma como nós atendemos às suas necessidades e aspirações irá definir o futuro do mundo”, completou.

O lançamento campanha Jovens Somamos Mais coincide com a realização, nesta quinta-feira 14/08, do debate virtual “Falemos de Juventude – Desafios da Agenda Pós-2015”, promovido pelo Grupo Interagencial de Juventude da América Latina e o Caribe da ONU com representantes das instituições de juventude do Brasil, México e Uruguai, entre outros. O Brasil estará representado no debate pela secretária-adjunta da Secretaria Nacional de Juventude, da Secretaria-Geral da Presidência da República, Ângela Guimarães.

Como participar

Para participar da campanha Jovens Somamos Mais, basta tirar um autorretrato (“selfie”) individual ou coletivo e enviar, juntamente com uma mensagem, para divulgação nas redes sociais do UNFPA, usando a hashtag #investiremjuventude. A pessoa poderá “curtir” e compartilhar a foto e a mensagem com sua rede de relacionamento ou, se preferir, publicá-las diretamente no seu perfil pessoal, usando a mesma hashtag.
O UNFPA irá disponibilizar uma página web com materiais que poderão ser utilizados pelas/os participantes da campanha, incluindo ícones temáticos que poderão ser impressos e utilizados nas fotos, permitindo a personalização do autorretrato com os temas de maior interesse de cada um.

São sugeridos oito temas principais para serem discutidos: Saúde Integral e de Qualidade; Igualdade de Gênero; Igualdade Racial; Educação de Qualidade; Cultura e Lazer; Trabalho, Emprego e Renda; Meio Ambiente; e Participação e Oportunidades. Cada semana será dedicada a um assunto principal, sendo o primeiro tema a Igualdade Racial.

“O Brasil tem mais de 51 milhões de jovens, uma enorme força produtiva que é a chave para o desenvolvimento do país. Mas, para isso, é necessário continuar e ampliar os investimentos no cumprimento de seus direitos básicos, desenvolvimento de habilidades para a vida, criação de oportunidades e maior participação dessa população na tomada de decisões”, explica o Representante do UNFPA no Brasil, Harold Robinson. “Quando isso ocorre, as pessoas jovens podem alcançar seu pleno potencial e contribuir efetivamente para o desenvolvimento inclusivo e sustentável. Essa é a lógica da campanha – para que jovens possam somar mais, é preciso investir em juventude.”

#showyourselfie
A campanha Jovens Somamos Mais é um desdobramento da iniciativa global #showyourselfie do UNFPA, que também busca coletar autorretratos de jovens de todos o mundo e mensagens sobre importância da juventude ter um papel central nos ODS. A iniciativa é fruto da parceria entre o UNFPA e a Global Citizen, plataforma online de mobilização.
Durante um ano, o UNFPA e a Global Citizen trabalharão com parceiros, redes e organizações de todo o mundo para reunir o maior número possível de “selfies”, que serão entregues aos Estados-Membros na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2014 e setembro de 2015, para lembrá-los de que o tempo para investir nos jovens é agora.
Todas as fotos e mensagens postadas na campanha “Jovens Somamos Mais”, com a hashtag #InvestirEmJuventude, serão contabilizadas na iniciativa global. Quem desejar, poderá postar sua participação utilizando ambas hashtags.

Visite a página da campanha #InvestirEmJuventude – Jovens Somamos Mais em http://www.unfpa.org.br/investiremjuventude e participe!
Para mais informações sobre a iniciativa global #showyourselfie, visite http://www.showyourselfie.org.
Acompanhe e participe do debate “Falemos de Juventude – Desafios da Agenda Pós-2015” pelo endereço http://on.fb.me/1ll2ko7; o encontro acontece a partir do meio-dia (horário de Brasília)

Maiores informações:
Ulisses Lacava (UNFPA) – (61) 3038-9259 e (61) 9181.1000
Gabriela Borelli (UNFPA) – (61) 3038-9246
Midiã Santana (UNFPA) – (71) 3183-5718

Fonte: http://www.unfpa.org.br/novo/index.php/noticias/ultimas/839-fundo-de-populacao-da-onu-lanca-a-campanha-jovens-somamos-mais

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HAITI: do terremoto de 2010 aos processos migratórios contemporâneos – entrevista com Chandeline Jean Baptiste

Chandeline Jean Baptiste é aluna da pós-graduação em Demografia da Unicamp (Mestrado), tem como país de origem o Haiti e sua pesquisa pretende compreender o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos.

Demografia Unicamp – Chandeline, como aluna da pós-graduação em Demografia na Unicamp que tem como país de origem o Haiti, como poderia nos descrever seu percurso até aqui?

ChandieÉ uma longa história. Cheguei ao Brasil em agosto de 2011 por meio de um acordo entre os Ministérios de Educação e das Relações Exteriores do Brasil e do Minisério de Educação do Haiti. O objetivo era participar na reconstrução do Haiti fortalecendo o ensino superior no país.  Foi um programa de 18 meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A ideia era fazer um intercâmbio (graduação sanduíche) durante este tempo. O primeiro semestre foi consagrado à aprendizagem da língua portuguesa. Durante o ano acadêmico 2012, fiz algumas disciplinas isoladas em Geografia e Ciências Sociais, pois já havia concluído a minha graduação lá. Ao mesmo tempo, participei do processo seletivo do nosso programa de pós-graduação em Demografia, e agora estou aqui.

Fiquei muito feliz! Pois quando estava na faculdade lá no Haiti, estudei Ciências Sociais, mas na verdade a gente tinha a maioria das disciplinas de História e Geografia. Depois do terremoto, a Universidade de Poitiers (França) ofereceu duas bolsas em História para os dois primeiros alunos da minha turma (eu era a terceira, por isso não fui aprovada). Estes meus colegas que estão lá na França já estão no primeiro ano de doutorado, e aqueles que ficaram lá no Haiti já terminaram o mestrado em Geografia pela Universidade de Paris 8 [1]. Posso dizer que por causa das falhas do meu programa e talvez por causa da diferenciação nos sistemas escolares dos dois países (Haiti e Brasil), tenho um ano de atraso em relação aos meus colegas. Mas a minha alegria é que serei a única demógrafa da minha turma. E fiquei muito feliz por isso. O Haiti precisa tanto de demógrafos…

 

Demografia Unicamp – Historicamente o Haiti passa por situações bastante complexas em termos econômicos, políticos e sociais. Esta realidade foi ainda mais intensificada após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, que teve proporções catastróficas. Nessa ocasião o palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos e estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe, a capital do país, tenham sido destruídas ou seriamente danificadas. Como você visualiza a realidade haitiana atual? A que passo anda a reconstrução do país?

Se a situação do Haiti já era difícil, o terremoto de 12 de janeiro aumentou muito mais nossas dificuldades.  Atualmente o Haiti ainda está passando por vários problemas (políticos, econômicos, sociais e ambientais).  Como vocês já sabem, durante o terremoto de janeiro de 2010, o país foi destruído totalmente e hoje estamos numa fase de reconstrução. Recomeçaram as aulas, os poucos hospitais que a gente tem estão em funcionamento, a vida recomeçou na capital e no país inteiro. Mas, apesar de esta reconstrução estar ocorrendo demasiadamente devagar, em minhas conversas com os meus colegas que estão no Haiti e no exterior percebo um sopro de esperança em relação ao futuro do país.

Peacekeeping - MINUSTAH

Vista do Palácio Nacional, destruído pelo terremoto.

 

Demografia Unicamp – A realidade econômica do Haiti parece estar na raiz dos grandes fluxos migratórios que se direcionam para diversas partes do mundo. No contexto atual, o Brasil tem sido um dos principais países a receber migrantes haitianos. Qual é sua leitura sobre esses processos? Como eles podem impactar na vida da população haitiana diante da distância física entre os que vão e os que ficam?

Para entender o fluxo migratório recente do Haiti para o Brasil cabe entender a relação que existe entre os dois países desde 1928 (ano que marca o início das relações diplomáticas entre o Haiti e o Brasil). A presença dos militares brasileiros desde 2004 no país também é um fator importante na escolha do Brasil como país de destino. Vale ainda ressaltar que este fluxo de haitianos para o Brasil não é um fenômeno novo, pois antes deste já existia um fluxo composto de jovens estudantes participantes de intercâmbios ou pós-graduandos contemplados com bolsas de estudos dos Ministérios da Educação e das Relações Exteriores – através dos convênios PEC-G e PEC-PG. Estes convênios foram estabelecidos não apenas com o Haiti, mas também com outros países em desenvolvimento, sobretudo com aqueles da África e da América Latina, no âmbito da política de cooperação Sul-Sul. A única diferença é que agora a gente está vivenciando outro fluxo num contexto diferente.

Em minha opinião, os fluxos não têm só a ver com a realidade econômica do país, mas também com a realidade social (busca de melhores condições de vida) e a realidade educacional (buscando novas possibilidades de estudo). Enquanto os estudantes chegaram ao Brasil via rotas legais, após o terremoto, muitos haitianos chegaram pelas rotas ilegais. O que faz a situação desses haitianos se tornar muito preocupante, tal como afirma Foster Brown da universidade Federal do Acre[2]. Para mim, é um processo bem complicado tanto para o Brasil quanto para o Haiti.

Se, por um lado, a entrada em massa dos haitianos na Amazônia mostra a ascensão da imigração internacional para o Brasil, por outro, esse fluxo deve representar uma oportunidade para o país pensar sobre outros tipos de acontecimento, procurando soluções possíveis e formulação de políticas públicas sem esquecer uma política migratória que leve em conta os direitos humanos desses migrantes. Os responsáveis do Haiti, do seu lado, têm de criar novas medidas, novas oportunidades para que os nativos sejam livres para escolher ficar no país ou migrar para exterior. Pois, na maioria das vezes, o migrante haitiano deixa o país em busca de melhores condições de vida.  A migração não deve ser um motivo para fugir dos problemas do país.

De um lado, essa migração pode impactar bastante a vida da população e as remessas [de dinheiro] ajudam muito aqueles que ficam: ajudam na escolaridade, na saúde, no sustento da casa, etc. Do outro, deixa muita saudade e tristeza para os membros da família que permanecem no Haiti.

 

Demografia Unicamp – Conforme dados das Nações Unidas[3] para o ano de 2010 o Haiti apresentava uma população predominantemente jovem, com grande participação relativa dos grupos etários abaixo de 30 anos. Seriam principalmente jovens os grupos populacionais que saem do país atualmente? Já se sabe exatamente qual é o perfil sociodemográfico da população que realiza o processo migratório em termos de sexo, idade e nível de escolaridade?

Ao olhar a pirâmide etária de 2010 da população haitiana, podemos concluir que o Haiti possui uma população muito jovem. Em minha dissertação, estou querendo explicar o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos. Vamos, obviamente, apresentar o perfil desses migrantes. Todavia, minha pesquisa está em andamento, não tenho nenhum resultado ainda. No entanto, pesquisas já realizadas (trabalho dos professores Duval Magalhães e Sidney da Silva [4]), mostram que estes jovens são em sua maioria do sexo feminino e têm idade entre 20 e 35 anos. A escolaridade é de nível médio; alguns já fizeram cursos técnicos e outros atingiram nível superior completo ou incompleto.

População por grupos etários, Haiti – 2010 (em números absolutos)

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Fonte: United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision

 

Demografia Unicamp – Para finalizar, gostaríamos de saber quais são suas impressões sobre a recepção que o Brasil em especial tem realizado em relação aos migrantes haitianos. Em sua leitura, o sonho do emprego e de melhores condições de vida tem se concretizado por aqui? Em que termos ainda precisamos avançar?

Vou tentar responder a essa pergunta com as minhas limitações, considerando as minhas poucas leituras (risos). Como minha pesquisa está em andamento, pretendo ainda fazer um trabalho de campo lá no Acre, mas só em julho deste ano de 2014. A única coisa que posso dizer é que os haitianos que chegaram ao Brasil pela fronteira norte amazônica vieram sem documentação e em um contexto diferente daqueles que chegaram aqui com documentação para estudar ou para trabalhar. Obviamente, eles vão enfrentar dificuldades sérias, tais como a regularização de seus documentos e a obtenção de um emprego, embora seja difícil (especialmente pela língua e pela pouca qualificação). Mas, uma vez passada essa fase, esse sonho que todos têm do Brasil como um país próspero, onde eles podem ter um emprego e melhores condições de vida, começa a se concretizar. Agora a grande questão vai ser a percepção da sociedade face a estes migrantes, já que muitos brasileiros os veem como “mão de obra barata”, de portadores de doenças, etc.

É importante lembrar que migrar é um direito. Não importa a origem, a cor, a raça ou o contexto migratório. Embora os haitianos no Brasil não sejam considerados como refugiados, mas sim migrantes em decorrência de vulnerabilidades sociais – conforme o Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) – todos têm de ter os seus direitos devidamente assegurados

[1] Trata-se de um programa de mestrado em Geografia da Universidade do Haiti em acordo com a Universidade de Paris 8. Neste programa, quem ministra as aulas são alguns professores do Haiti, em sua grande maioria professores que foram formados pela Universidade de Paris 8. Assim, os estudantes assistiam as aulas no Haiti, mas obtinham também um diploma da Universidade de Paris 8.

[2] “Coiotes” conduzem mais haitianos até a fronteira Brasil-Peru. Blog da Amazônia. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/05/15/coiotes-conduzem-mais-haitianos-ate-a-fronteira-brasil-peru/. Acesso em mar. 2014.

[3] United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision, Volume II: Demographic Profiles. Disponível em: http://esa.un.org/wpp/Demographic-Profiles/pdfs/332.pdf. Acesso em mar. 2014.

[4] Haitianos: os novos imigrantes do Brasil. Entrevista especial com Duval Magalhães e Sidney da Silva. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/45912-haitianos-os-novos-imigrantes-do-brasil-entrevista-especial-com-duval-magalhaes-e-sidney-da-silva. Acesso em mar. 2014.

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Documentário Adeus, Haiti, disponível AQUI.

Entrevista – RTV UNICAMP – Catástrofe do Haiti, disponível AQUI.

Haitianos e senegaleses marcham pelo centro de Caxias do Sul, disponível AQUI.

Professores deixam escolas no Haiti para trabalhar até 15h por dia em SP, disponível AQUI.

 

Revisão e edição: Igor Johansen e Flávia Longo (rd.demografia.unicamp@gmail.com).

Para fazer contato com Chandeline Jean Baptiste, utilizar o seguinte e-mail: linoue87@yahoo.fr

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INTERNATIONAL CONFERENCE – Young voices from the global south: stories of vulnerabilities and resilience

Durante a participação no BIARI (Brown International Advanced Research Institutes), que aconteceu em 2013 na Universidade Brown, que fica em Providence-Rhode Island, nos Estados Unidos, um grupo de estudantes ganhou o seed grant (financiamento inicial) para a realização de um projeto que começou a ser desenhado enquanto estavam lá. Ana Carolina Soares Bertho, uma de nossas colegas da pós-graduação em Demografia da Unicamp, faz parte desse grupo.

O projeto se chama “Young voices from the global south: stories of vulnerability and resilience”. Cada membro do grupo pesquisou sobre um aspecto específico relacionado à juventude (juventude e arte de rua na Argentina; juventude e acidentes de trânsito no Brasil; juventude e emprego na Colômbia; juventude e conflito armado na Colômbia; fecundidade adolescente e educação na Costa Rica; juventude e violência carcerária em Honduras; juventude, ócio e entretenimento na Nigéria e juventude e famílias transnacionais nas Filipinas). Estão produzindo pequenos vídeo documentários sobre cada um dos temas e no dia 29 de maio farão uma conferência internacional na Universidade Militar Nova Granada, em Bogotá. 

Caso alguém esteja por lá nesta época, não deixe de participar! Com certeza o produto final realizado por este grupo de vencedores será fantástico. Então anotem na agenda:

O QUE: Apresentação de vídeo documentários do projeto “Young voices from the global south: stories of vulnerability and resilience”

ONDE: Universidade Militar Nova Granada, em Bogotá – Colômbia.

QUANDO: 29 de maio de 2014 (14h-21h)

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