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Abertas as inscrições para o minicurso de Análise de Dados Qualitativos com ATLAS TI

LOCAL: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) UNICAMP

Sala: IH 02 (Prédio – salas de aula da graduação)

Data: 24 e 25 de agosto

 No âmbito do Programa de Seminários do Observatório das Migrações em São Paulo, o curso buscará oferecer perspectiva e ferramentas para potencializar a análise do material qualitativo coletado a partir de entrevistas, observação e anotações.

Para tanto, partiremos de uma discussão metodológica, baseada na polarização entre duas perspectivas. De um lado, aqueles que compreendem fornecer que a investigação deve ser sempre exploratória, descritiva e indutiva. De outro, os que acreditam que mesmo com “Small N“, os métodos qualitativos podem ser dedutivos e prover explicações de cunho causal. Esse embate se reflete na forma como as pesquisas são organizadas, e também nos procedimentos de análise do material produzido. Para ilustrar alguns aspectos dessa polarização, veremos duas abordagens que representam bem essas diferenças: (1) a Grounded Theory e (2) a Análise de Conteúdo.

Veremos como a leitura e a interpretação podem ser complementadas com técnicas de codificação, fragmentação e cruzamento. Além disso aprenderemos a produzir indicadores quantitativos simples sobre o texto para a identificação de regularidades e diferenças.

Público-alvo: Pesquisadores, professores e alunos que trabalham com pesquisa qualitativa e desejam conhecer um pouco mais sobre teorias e técnicas de análise textual. Além disso, aqueles que possuem uma grande (ou razoável) quantia de material qualitativo podem se servir bem da praticidade e sistematicidade provida pelos softwares que utilizaremos.

Número de vagas: 25

Inscrições: Clique aqui

 

PROFESSORA CONVIDADA

Monise F. Picanço é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo, tendo concluído o mestrado e a graduação em Ciências Sociais nessa mesma universidade. Desde o mestrado, tem versado sobre temas caros a Sociologia Econômica, com enfoque em mercados. É pesquisadora associada ao CEBRAP desde 2006, tendo também passado pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM) entre 2010 e 2017. Em sua trajetória enquanto pesquisadora vêm trabalhando nas áreas de educação, desigualdade, políticas públicas e mercado de trabalho e se especializando nos estudos de metodologia, com interesse em técnicas qualitativas e quantitativas. Lecionou o curso “Análise de dados qualitativos com o uso de Atlas.ti” em diversos lugares, entre eles a iniciativa Metodológicas CEM, na Universidade de São Paulo, e no Programa Intensivo de Metodologia Quantitativa (MQ), do Centro de Pesquisas Quantitativas em Ciências Sociais (CPEQS), da UFMG.

 

PROGRAMAÇÃO

24-08

10h:00 – 12h:00 Recepção dos inscritos e introdução à teoria da análise de conteúdo – Profa. Dra. Lidiane Maciel e Profa. Rosana Baeninger

14h:00 –  18h:00 – Apresentação do Software Atlas TI – Profa. Ms. Monise Picanço

25-08

09h:00 – 12h:00 – Tratamento de dados qualitativos Software Atlas TI – Profa. Ms. Monise Picanço

 

ORGANIZAÇÃO:

Profa. Dra. Rosana Baeninger

Profa. Dra. Lidiane Maciel.

Informações: lidiani.maciel@gmail.com

 

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Dossiê Lutas Sociais no Campo – São Paulo 2014/2015 é apresentado no Programa Travessias Sonoras

 

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José Carlos Pereira (CEM) entrevista Giovana G. Pereira (IFCH-Unicamp) no Programa Travessias Sonoras

Na última segunda-feira (24/04), o Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo (UNICAMP, UFSCar e UNESP) esteve presente no Programa Travessias Sonoras que vai ao ar semanalmente as segundas, quartas e sextas-feiras às 12h30, 20h00 e 00h00. A entrevista ficou ao encargo de José Carlos Pereira do Centro de Estudos Migratórios (CEM) e o grupo de pesquisa foi representado por Giovana Gonçalves Pereira, aluna de Doutorado em Demografia na Universidade Estadual de Campinas e integrante do Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo e do Observatório das Migrações em São Paulo. A entrevista integrou as atividades de pré-lançamento do Dossiê.

O lançamento oficial do livro “Lutas Sociais no Campo”, primeira publicação do Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo, está previsto para ocorrer no próximo dia 13 (sábado) na cidade de São Paulo/SP. A obra possui caráter não-comercial, sendo resultado do trabalho coletivo do grupo, bem como, de parceiros, como o Centro de Estudos Rurais (CERES-Unicamp), o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), o Centro de Estudos Migratórios (CEM), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a Fundação Rosa Luxemburgo e a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE).

O principal motivador para construção do dossiê foi dar voz aos movimentos sociais rurais e urbanos, bem como, aproximar a academia da sociedade civil. Desse modo, buscou-se “viabilizar a construção de rostos e histórias aos números”. Os artigos presentes no dossiê são, portanto, de autoria Direção Estadual de São Paulo do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), da Equipe de Articulação e Assessoria as Comunidades Negras do Vale do Ribeira (EAACONE) e Movimento dos Ameaçados por Barragens (MOAB), da União dos Moradores da Jureia, pela equipe do Observatório, e uma entrevista com David Martim pertencente a tribo Tekoa Ytu (Jaraguá/SP) realizada por Regina Veiga e Vinicius de Souza. Foram contabilizados 174 notificações de conflitos no campo paulistas, envolvendo diretamente ou indiretamente cerca de 50.000 pessoas, as quais se vinculavam aos perfis de assentados, acampados e agricultores familiares; assalariados rurais e populações tradicionais (indígenas, quilombolas, caiçaras e caboclos).

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Procura-se morador

Em busca de mais receitas, os prefeitos questionam na Justiça a estimativa de habitantes feita pelo IBGE

IstoÉ | Por: Gabriel Baldocchi

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José Roberto Zem, prefeito de Morungaba (SP): “Temos de achar maneiras de manter a arrecadação para suportar a crise e honrar os compromissos ” ( foto: João Castellano/ Istoe)

 

Policiais militares lotados em Morungaba, no interior paulista, não podem mais contar com a ajuda extra que ganhavam do município. A queda de 20% nas receitas nos últimos meses forçou a prefeitura a interromper o benefício de um salário mínimo oferecido como complemento aos vencimentos pagos aos profissionais pelo governo do Estado, a quem são subordinados. Na estância climática paulista, assim como na maioria das cidades brasileiras, as secretarias tiveram orçamentos reduzidos e os gastos como hora extra a servidores, extintos.

Para evitar a paralisia de serviços em meio à recessão, uma boa dose de criatividade entrou em cena, com iniciativas como leilões de bens públicos e batalhas judiciais com concessionários de rodovias pela isenção de pedágio a veículos oficiais. A mais nova frente de embate por recursos, no entanto, lembra um jogo de ficção: uma espécie de “caçada” por habitantes, um esforço para provar que a cidade é mais populosa do que mostram as estatísticas federais. A população oficial serve de base de cálculo para os repasses de verbas federais e estaduais.

Como o coeficiente dos envios é estipulado por faixas de habitantes, qualquer diferença pode ser relevante. Pelo cálculo mais recente do IBGE, divulgado em agosto, Morungaba conta hoje 13.085 moradores. Se mais 500 pessoas vivessem na cidade, o coeficiente de repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) – a principal fonte de receitas da administração local – subiria uma faixa e a prefeitura passaria a receber mais recursos, segundo estimativa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

O prefeito José Roberto Zem (PV) está determinado a brigar pela diferença, estimada em um adicional de 5% — suficiente para retomar o benefício aos policiais. Deve pedir a recontagem na Justiça. Trata-se de uma disputa já encampada por algumas cidades no passado, mas que ganhou importância com a recessão. “Temos de achar maneiras de manter a arrecadação para suportar a crise e honrar os compromissos”, afirma Zem. “São coisas pequenas, mas que no final dão resultado.” As administrações municipais são a instância mais próxima entre a população e o setor público.

É onde o impacto da crise é percebido com mais clareza. Em levantamento recente feito pelo instituto Datafolha, 72% dos brasileiros disseram reprovar as gestões locais. Em itens como saúde, o percentual de descontentamento chegou a 80%. A queda na atividade econômica vem acentuando um quadro já frágil. Desonerações promovidas pelo governo federal no final dos anos 2000 diminuíram o bolo de recursos a ser repassado às prefeituras, enquanto as obrigações como salários de professores vinham subindo. Com a recessão, a redução nos repasses do FPM, principal fonte de recursos de 80% das prefeituras, já chega a 9% até setembro, quando descontada a inflação.

Não surpreende, portanto, que 80% dos prefeitos dizem enfrentar dificuldades para manter a área da saúde e 60%, na educação. Problemas no fornecimento de merenda, no transporte escolar e atrasos no pagamento de fornecedores são cenas cada vez mais comuns nas cidades pelo Brasil, e concretizam o drama das contas públicas locais. Cerca de 90% das prefeituras estão em situação fiscal difícil ou crítica, segundo levantamento da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), e 740 já estouraram o limite de gasto com pessoal. O quadro adverso reforça o interesse sobre a revisão da população.

“Há uma queda abrupta da receita, então é evidente que há um estímulo para os prefeitos entrarem na Justiça”, afirma Eduardo Tabosa, secretário-geral da CNM e prefeito de Cumaru (PE). Em 2015, o IBGE registrou 65 contestações administrativas e 21 ações judiciais de revisão da estimativa da população. O número deve aumentar neste ano. Segundo um levantamento preliminar da CNM, 15 cidades devem sofrer redução no volume de repasse como consequência da queda na população. Na outra ponta, 105 devem passar a receber mais receitas.

O maior potencial de litígio, porém, está concentrado naqueles em que a diferença para uma faixa mais favorável de repasse foi pequeno. Em 272 cidades, o aumento não será possível por uma diferença de até 500 habitantes, como em Morungaba. Neste ano, há um motivo a mais para o questionamento dos prefeitos. Por falta de verbas, o IBGE não realizou a pesquisa Contagem da População, prevista para o intervalo entre censos, feitos de dez em dez anos, e realizado pela última vez em 2010. “Se o IBGE não atualiza a população, significa que os dados estão desatualizados”, afirma Paulo Zulkoski, presidente da CNM. “Tem municípios que estão deixando de receber.”

Além do FPM, a entidade alerta para impacto em outros recursos, como nas verbas de saúde e no cálculo do repasse do ICMS, que tem a população como um dos critérios. A orientação é para que os prefeitos ingressem com o recurso na Justiça. A Contagem da População é considerada mais precisa porque é feita in loco, semelhante ao Censo, enquanto a estimativa da população se dá por meio de modelos estatísticos e matemáticos. “Independentemente do método utilizado, as projeções populacionais anuais serão sempre diferentes do contingente de residentes de fato, somente possível de ser apurado através dos censos demográficos decenais ou contagens”, afirma Tirza Aidar, pesquisadora do Núcleo de Estudos da População, da Unicamp.

“Não é rara a desconfiança das prefeituras frente às projeções, já que elas consideram o fato de que o crescimento populacional tem diminuído constantemente em todo território brasileiro.” O IBGE informou ter sido comunicado pelo Ministério do Planejamento em 2015 sobre a impossibilidade de realizar a contagem devido a um corte de R$ 194 milhões nas verbas – o custo total do levantamento é de R$ 2,6 bilhões. O instituto lembra que o objetivo da pesquisa é calibrar as estimativas populacionais até o censo seguinte.

“Quanto mais distante a estimativa de um censo ou de uma Contagem, mais descolada da realidade ela se torna.”, afirmou o instituto, por meio da assessoria de imprensa. “Sem ela, a área de demografia tem de usar outros métodos para tentar recalibrar as estimativas.” No Estado de São Paulo, o município de Caraguatatuba engrossará a lista da recontagem. A diferença por um coeficiente mais favorável de repasses é de menos de 400 habitantes. A pequena Camuru, em Pernambuco, pretende aproveitar a brecha deixada pela falta da Contagem para entrar com novo recurso em processo já existente.

A cidade estima uma perda de 40% nas receitas como consequência da redução de cerca de 5.000 habitantes observada desde o último censo. Dados como o número de eleitores cadastrados na Justiça Eleitoral, consumidores da distribuidora de energia local e até um cadastro mais numeroso da Bolsa Família no Ministério do Desenvolvimento Social embasam a suspeita de que possa haver divergências em relação ao dado oficial. “O próprio governo não usa o critério do IBGE”, afirma Tabosa. “Não fazer a Contagem trouxe prejuízo: há municípios recebendo o que não devem e outros recebendo a menor.”

A CNM defende a criação de uma regra para tornar mais brando o impacto da transição das faixas de repasse do FPM, em que a mudança não se daria inicialmente por completo, mas sim por uma parcela do acréscimo ou decréscimo. Enquanto a nova regra não é criada, o foco é enfrentar o desafio conjuntural. Nos últimos meses, a maioria dos prefeitos estava mobilizada pelo processo eleitoral, com menos tempo para se dedicar à situação das contas públicas. Com o fim do processo, aumenta a chance de as administrações municipais decretarem calamidade pública, como fez o Rio de Janeiro para pressionar o governo federal.

Ao menos 14 governadores do Norte e Nordeste usaram a ameaça para tentar incluir um socorro de R$ 7 bilhões no projeto que renegocia as dívidas dos entes federados. Os municípios cobraram negociação semelhante, para revisar um passivo previdenciário estimado em R$ 100 bilhões no Brasil. Mais de 1.000 municípios tiveram parte dos repasses do FPM bloqueados neste ano devido aos débitos com a Previdência. Em tempos de crise, vale tudo na busca por mais recursos. Enquanto Estados declaram calamidade pública, municípios saem à caça de população. Parecem até inspirados na febre digital que colocou crianças e adultos para encontrar monstros do Pokemon pelas cidades.

Fonte: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20161007/procura-se-morador/420722

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Nota de repúdio ao PL 5.069/13

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Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP)

27 de novembro de 2015

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“Acontecerá algo terrível antes de se encontrar um equilíbrio.” Migração e refugiados, por Umberto Eco

07.09.2015

Eco

LUCIANA LEIDERFARB

Texto

NUNO BOTELHO

Fotos

A entrevista era sobre livros, sobretudo o dele que estava para sair, e aconteceu num tempo em que esta crise de refugiados que nos entrou pelas notícias já existia mas sem o impacto destes dias – transformados pela imagem do naufrágio da humanidade simbolizado num menino morto numa praia. A entrevista dele ao Expresso era sobre livros, mas Umberto Eco falou sobre mais – incluindo este tema que o preocupa há muito, o da migração e dos refugiados. Recuperamos o que ele enunciou em abril agora que estamos despertos para uma tragédia que se estende não há dias nem semanas, mas há meses e quase anos. É uma reflexão dura: “A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue”. Mas também com fé no outros homens – nos que estão e nos que vêm: “A migração produz a cor da Europa”.

Era abril quando entrevistamos Umberto Eco no seu apartamento em Milão. Atendeu o intercomunicador e abriu a porta de casa, revelando a sua alta figura e a cordialidade que seria uma constante durante a conversa. De eterno cigarro apagado entre os dedos – desistiu de fumar mas não se desfez do gesto – ofereceu café e sentou-se na sua poltrona de cabedal. Falámos da infância, da escrita, de jornalismo – central em “Número Zero”, o novo romance que saiu em maio em Portugal. Mas falámos também da Europa e dos longos processos migratórios que a configuraram. Para Eco, estamos a atravessar um deles e não será um caminho fácil nem desprovido de desafios. Eis alguns excertos da entrevista.

1. CULTURA NÃO QUER DIZER ECONOMIA

“Desde a juventude que sou um apoiante da União Europeia. Acredito na unidade fundamental da cultura europeia, aquém das diferenças linguísticas. Percebemos que somos europeus quando estamos na América ou na China, vamos tomar um copo com os colegas e inconscientemente preferimos falar com o sueco do que com o norte-americano. Somos similares. Cultura não quer dizer economia e só vamos sobreviver se desenvolvermos a ideia de uma unidade cultural.”

2. UM GRANDE ORGULHO

“Quando atravesso a fronteira sem mostrar o passaporte e sem ter de trocar dinheiro, sinto um grande orgulho. Durante dois mil anos, a Europa foi o cenário de massacres constantes. Agora, esperemos um bocado: mesmo que o mundo hoje seja mais veloz, não se pode fazer em 50 anos o que só fomos capazes de fazer em dois mil. E mesmo indo nessa direção, não sei como os países europeus poderão sobreviver: estão a tornar-se menos importantes do que a Coreia do Sul, e não apenas do ponto de vista industrial. Culturalmente, está-se a traduzir mais livros lá do que em França.”

3. A COMISSÃO DAS PESSOAS SÁBIAS

“Entidades nacionais como Portugal ou Itália tornar-se-ão irrelevantes se não fizerem parte de uma unidade maior. Mas nada disto se constrói em pouco tempo. O problema da Europa é estar a ser governada por burocratas. Uma vez, uma instituição europeia – não me recordo qual – decidiu criar uma comissão de pessoas sábias. Estava lá Gabriel García Márquez, Michel Serres e eu próprio. Os outros convidados eram burocratas europeus. Cada reunião servia para discutir a ordem de trabalhos da reunião seguinte. Aquilo era o retrato da Europa: pessoas a governarem uma máquina autorreferencial. Porém, é o que temos. É como a democracia segundo Winston Churchill: um sistema horrível, mas melhor do que os outros.”

4. UM PROCESSO QUE CUSTARÁ IMENSO SANGUE

“Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: ‘Desejo-te que vivas numa era interessante’. Nós estamos a viver numa era interessante.”

5. A ÉTICA DA REPÚBLICA

“Não se deve perguntar porque haverá derramamento de sangue: é um facto. Vejamos a França. É o caso típico de um país que acreditou poder absorver a migração. Porém, por um lado, impôs logo aos migrantes a ética da República; e, por outro, arrumou-os nos bairros remotos. É muito raro encontrar um migrante a viver ao lado de Notre-Dame.”

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6. INTEGRAÇÃO E ÓDIO

“Porque é que um muçulmano em França se torna fundamentalista? Acha que isso aconteceria se vivesse num apartamento perto de Notre-Dame? A sua integração não foi completa nem poderia ser. De novo, é um facto. A migração a longo prazo pode produzir integração mas a curto prazo não, e a não-integração produz uma reação, que pode ser de ódio.”

7. NO SENTIDO EM QUE HITLER NÃO ERA A CRISTANDADE

“O inimigo é sempre inventado, construído. Precisamos dele para definir a nossa identidade. A extrema-direita italiana acredita que são os ciganos ou os migrantes pobres, ou o Islão em geral, ainda que o Islão possa assumir muitas formas. Ora, o Estado Islâmico não é o Islão, no sentido em que Hitler não era a cristandade.”

8. RESPOSTA: NÃO

“A Idade Média não existe, porque tem dez séculos. É uma construção artificial. De qualquer forma, vemos que é uma época de transição entre dois tipos de civilização. E provavelmente – falávamos de migração – estamos numa era de transição, que é sempre difícil. A questão é: houve alguma era que não fosse de transição? Resposta: não. Mas houve momentos em que cada um vivendo no seu país não se apercebia de que havia uma transição a acontecer no mundo.”

9. CHAMA OS BOMBEIROS

“Qual o papel do intelectual hoje? Não dar muitas entrevistas! [risos] Falando a sério, penso que é duplo. Primeiro, é dizer o que as outras pessoas não dizem. Não é dizer que há desemprego em Itália. Segundo, não é resolver os problemas imediatos, é olhar para a frente. Se um poeta está num teatro e há um incêndio, não se põe a recitar poemas: chama os bombeiros. Pode é escrever sobre incêndios futuros.”

10. PERDA DO PASSADO

“É impossível pensar o futuro se não nos lembrarmos do passado. Da mesma forma, é impossível saltar para a frente se não se der alguns passos atrás. Um dos problemas da atual civilização – da civilização da internet – é a perda do passado.”

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Fonte: Expresso – periódico de notícias de Portugal (http://goo.gl/yhDkvs).

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‘Favelas poderiam servir de modelo para cidades do futuro’

Por Luiza Bandeira
Da BBC Brasil em Londres
10 fevereiro 2015

Uma cidade em que as pessoas caminhem mais e dirijam menos. Uma cidade em que a vontade da comunidade seja respeitada e considerada no planejamento urbano. Parece um sonho distante?
Para um dos ambientalistas mais respeitados da Grã-Bretanha, esses elementos já estão presentes em favelas brasileiras e poderiam ser um exemplo para as cidades-verdes do futuro.
“Precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto”, diz o físico britânico (nascido na África do Sul) sir David King, presidente do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult.
“É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários”, afirma ele, em entrevista à BBC Brasil.

Mas isso não significa que as favelas sejam um modelo em todos os sentidos. O que King defende é a adoção de duas de suas mais desejáveis características: a forma de auto-organização das comunidades, evitando o planejamento “de cima para baixo”, e distâncias que podem ser vencidas a pé.
King também traça um paralelo entre as favelas e as cidades medievais. Ele defende que uma cidade planejada “do zero” a partir do modelo de favelas e cidades medievais se aproximaria de Barcelona – e seria o oposto da capital econômica do Texas, Houston.
Leia trechos da entrevista a seguir:

BBC Brasil – Por que as favelas poderiam ser exemplos para as cidades no futuro?
David King – Há dois aspectos. Primeiro, precisamos aprender com o jeito como as comunidades se auto-organizam. Evitar o planejamento de cima para baixo, em que os urbanistas acham que sabem mais do que as comunidades. É uma questão de trabalhar com as pessoas do local e ver o que elas querem. No passado, governos já acabaram com favelas e colocaram prédios altos no lugar. A comunidade, quando se muda de volta para esses prédios, recria o ambiente comunitário que as favelas representavam. É quase gratificante ver que a vida local se passa, na verdade, no espaço entre esses prédios altos.

Meu ponto não é que as favelas são lugares bons, e nem é boa a ocupação ilegal e o comportamento que vem com isso. Mas precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto. Essas favelas muitas vezes viram motores para o crescimento econômico, como em Nairóbi e Mumbai. É uma questão de mostrar respeito às pessoas e demonstrar que a auto-organização delas pode ter resultados muito positivos.
Se trata de mostrar respeito às pessoas e demonstrar que a auto-organização pode ter resultados positivos.

Em Lima, arquitetos europeus fizeram um projeto em que construíram apenas as bases das casas e as partes mais difíceis, como banheiro e cozinha. E deixaram as pessoas continuarem as construções. Se você for nessas áreas hoje, verá que algumas dessas casas têm três andares, são todas diferentes. Mas todas se encaixam muito bem no ambiente que foi criado.
A possibilidade de andar é crucial (nas favelas). Você não precisa ter um carro para se locomover e isso é uma grande vantagem. O que existe em Lima é uma espécie de versão modelo do que estou falando. Existe um paralelo com as antigas cidades medievais da Europa, cujo design era em parte resultado da auto-organização, mas também determinado pelo fato de que as pessoas andavam de um lugar para o outro. A possibilidade de andar era um atributo chave para esses locais funcionarem. As pessoas podiam andar de casa para o trabalho, para locais de lazer, para locais de compras. Cada área dessas cidades medievais é uma combinação do que as pessoas querem e precisam no seu dia a dia. E ficam a uma distância razoável a pé.

BBC Brasil – Na prática, se fôssemos começar uma cidade do zero inspirada pelas favelas, como ela seria?
David King – Primeiro eu vou te dizer como uma cidade não deve ser: como Houston. É provavelmente a cidade menos densa do mundo. Ou Atlanta. São cidades que acreditam que todo mundo deve morar longe dos outros. E as pessoas chegam a pegar o carro para ver seus vizinhos. E, claro, para ir ao trabalho, comprar algo e para qualquer outra coisa.
Essas cidades, de baixa densidade, fazem as pessoas gastarem muita energia no dia a dia, são naturalmente caras e pobres em transporte de massa, pelas grandes distâncias que os ônibus teriam que percorrer, e não são agradáveis para as pessoas. Em Houston, a média de tempo gasto no carro é de 3 horas por dia, 7 dias por semana. E há muita obesidade.

Se começássemos uma cidade do zero, uma cidade modelo seria como Barcelona – uma cidade medieval que manteve a noção de poder andar e de alta densidade. As cidades modernas estão completamente congestionadas e ninguém quer ficar sentado dentro de um carro em um engarrafamento dia após dia.
É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários. É muito mais provável isso ocorrer em uma cidade de modelo medieval com alta densidade demográfica que do que nas Houstons e Atlantas.

BBC Brasil – Favelas são locais com diversos problemas, que vão de violência à poluição. Isso pode indicar que esta auto-gestão está fracassando?
David King – Em geral, quando falamos de favelas, falamos de pessoas que criaram estes espaços precisamente porque não há outro lugar para morar. Em ambientes urbanos que criam espaço suficiente para as pessoas, as favelas não se auto-organizam.

A favela é um ambiente urbano que funciona apesar dos problemas.
O desenvolvimento urbano que ocorreu de forma acelerada na América Latina entre 1950 e 2010 já chegou ao fim, mas levou – quanto seria? – 75% das pessoas nessa parte do mundo a viver em áreas auto-organizadas. Isso ocorreu porque havia falta de planejamento, mas também de financiamento para este rápido desenvolvimento urbano.
Não estou sugerindo que é boa ideia criar ambientes em que as pessoas vivam fora da sociedade normalmente organizada, ou usem eletricidade sem pagar, etc. Mas estou sugerindo que respeitar o ambiente que essas pessoas criaram é uma boa ideia. A favela é um ambiente urbano que funciona apesar dos problemas.

BBC Brasil – O sr. já esteve em alguma favela? O que achou?
David King – Já estive em favelas no Rio e em Caracas. Uma das coisas interessantes é que você espera encontrar casas construídas de forma precária, e que o espaço entre as casas seja muito precário. Então, como as favelas costumam ter muitas subidas, é interessante se ver subindo por uma escada sólida, ver que as pessoas criaram um ambiente que funciona. Acho que essa é a grande surpresa.

BBC Brasil – A chegada de serviços públicos às favelas muitas vezes resulta em gentrificação – processo acelerado, no Brasil e especialmento no Rio, pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas. As favelas podem tirar algum proveito destes eventos?
David King – Se olharmos para o legado de outros Jogos Olímpicos, houve exemplos bons e outros muito ruins.
A chave é ver que o legado das Olimpíadas é ainda mais importante que os Jogos.
Na Grécia, depois das Olimpíadas, muitas das instalações caíram em desuso e estão degradadas. Em Londres, quando começamos a planejar, não havia uma visão real de que o legado era mais importante que os Jogos em si. Depois do primeiro ano de planejamento, houve uma rápida percepção. A chave é ver que o legado é ainda mais importante que os Jogos.
E Londres também usou os Jogos como meio de promover um renascimento urbano. As Olimpíadas foram feitas no que era talvez a parte mais pobre da cidade, e houve uma regeneração do espaço urbano. Limpar e tornar verdes esses ambientes é a chave, e não remover as pessoas.
Isso nos leva a um ponto chave: a gentrificação.
Evitar a gentrificação, no sentido de obrigar as pessoas a sair de um lugar porque elas não podem mais pagar para viver lá, é uma parte muito importante do processo.
Se por gentrificação queremos dizer “melhorar o ambiente”, então tudo bem. Mas se queremos dizer desalojar pessoas para que a classe média possa se mudar para a área, entao é claro que é mais problemático.
Não quero usar a palavra gentrificação como necessariamente ruim. Melhorar a qualidade das casas, dos serviços, é crucial. Fornecer eletricidade legal, esgoto e água, ou seja, aumentar a possibilidade de as pessoas viverem bem.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150203_favelas_davidking_lab

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E a seca vai continuar

Apesar das chuvas de fim de ano, as ondas de calor serão recorde e os meteorologistas preveem um longo período de estiagem

Cesar Soto (cesar.soto@istoe.com.br)

Após quase um ano de negativas, propostas conciliadoras e eternas promessas de que não havia necessidade de medidas mais drásticas para reduzir o consumo de água na Grande São Paulo, o governador do Estado, Geraldo Alckmin, capitulou. Pela primeira vez desde o início da crise hídrica que ameaça deixar a maior cidade do País sem água, Alckmin decidiu implantar um rigoroso sistema de punição para quem aumentar o consumo, com aumento de 50% no valor da conta de quem gastar mais de 20% acima do volume médio rotineiro. A decisão foi tomada a poucos dias do início deste verão que promete temperaturas recorde. O governo paulista, finalmente, começa a acreditar no que a maior parte dos especialistas vêm alertando há anos: com as torneiras abertas, São Paulo vai secar.

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A fé de que os céus mandariam chuvas volumosas para a região nesta primavera e neste verão jamais contaminou os meteorologistas. Eles, no entanto, vinham alertando que, sob o olhar estritamente científico, não havia indicadores de que isso iria acontecer. E agora, dois meses depois do início oficial das chuvas, só um milagre, dizem os especialistas, impedirá que uma situação que já era crítica se transforme em catastrófica.

A estimativa dos principais meteorologistas e especialistas em hidrologia é de que, se São Paulo simplesmente não secar, a água servida à população terá qualidade bastante inferior à que é oferecida hoje. “Um dos piores cenários que prevíamos era que este verão fosse igual ao do ano passado e, pelo que observamos até aqui, continuará sendo”, diz Marussia Whately, uma arquiteta especializada em recursos hídricos que coordena a ONG Aliança Pela Água, que congrega uma série de organizações preocupadas com o tema. De acordo com o meteorologista Alexandre Nascimento, da Climatempo, neste verão as chuvas não chegarão a atingir nem ao menos a média histórica. “Janeiro até pode superar um pouco, mas nos meses seguintes choverá menos do que o normal”, diz ele.

O reflexo disso, claro, será a redução ainda maior da quantidade de água disponível nos diversos reservatórios que abastecem a cidade, como o Guarapiranga, o Alto Tietê e o agora tristemente famoso Cantareira. A necessidade de se retirar água de camadas cada vez mais profundas, com muitos sedimentos, como acontece no Cantareira, leva o chefe do departamento de demografia da Unicamp, Roberto Luiz do Carmo, a prever que a qualidade da água deve cair nos próximos meses. “O impacto de doenças não muito acompanhadas, como as diarreicas, tendem a aumentar muito nos próximos anos”, diz ele.

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A parcela mais prejudicada da população, segundo Carmo, será aquela com menos recursos econômicos. “As pessoas vão procurar soluções individuais”, diz. “Quem pode pagar vai conseguir comprar algo um pouco melhor; quem não pode vai beber água de péssima qualidade.”

O professor titular do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP Pedro Jacobi, que estuda governança da água e indicadores de sustentabilidade, concorda que não há muito o que fazer para evitar os efeitos da seca em 2015. “Vai levar de seis a oito anos para que a situação dos reservatórios volte ao normal”, diz. “É necessário também reduzir as águas contaminadas, aumentar o tratamento e reúso do esgoto, além de investir mais para diminuir a dependência da região do sistema Cantareira”, afirma. “O governo tem tapado o sol com a peneira, fingindo que o problema não existe. Houve muita procrastinação”, diz o professor.

A não ser que um milagre contrarie as previsões e haja de fato um aumento das chuvas nos próximos meses, parece que não há muito que fazer a não ser esperar pelo momento em que não sairá mais água da torneira aberta. “Sabíamos do problema há 20 anos. Ele foi sendo construído nessas últimas décadas. Provavelmente, levaremos mais 20 anos para que o solucionemos”, diz o professor Carmo, da Unicamp.

Foto: LUIS MOURA/ESTADÃO CONTEÚDO

Fonte original da matéria: http://www.istoe.com.br/reportagens/398115_E+A+SECA+VAI+CONTINUAR?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

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