Demografia e Educação III – Um diálogo com as Políticas Públicas

Por Flávia Longo

Este é o terceiro de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais.

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Antes, uma breve história do nascimento da Demografia:

Muito antes de a Demografia se configurar enquanto um conjunto de saberes, com técnicas e métodos próprios, desde que temos registros das sociedades do Mundo Antigo, temos também registradas diversas questões demográficas. Por exemplo, uma “proto-demografia” nasce da necessidade que governos tinham em conhecer e contabilizar seus governados. No Egito e na China da Antiguidade foram realizados censos com a finalidade de arrecadar impostos e formar exércitos. Gregos e romanos também tinham suas preocupações populacionais: os primeiros, mais teóricos, se dedicaram às legislações; os romanos, por sua vez e por assim dizer, mais práticos, almejavam o crescimento de sua população, pois esta se traduzia em exércitos maiores. Contudo, foi só com a formação dos Estados Modernos, ao longo do século XIX, que a Demografia se constituiu enquanto disciplina. E foi só após a Segunda Guerra que os países passaram a demandar por pesquisa demográfica para orientar gestores da coisa pública. Mas, isto é assunto para uma próxima conversa…

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Essa pequenina ilustração nos mostra como desde a origem dos Estados e da vida organizada em sociedade, já existia uma relação entre Estado, população e políticas públicas. Tudo bem que o termo “políticas públicas”, enquanto medidas acionadas pelos Estados para enfrentar problemas percebidos como público, só se consolidou no período pós Segunda Guerra. Quando olhamos para as sociedades antigas, notamos a presença de questões públicas, como o aumento da população para formar exércitos e arrecadar mais impostos, e de medidas para contorná-la, como leis que incentivassem o casamento entre os mais jovens.

E hoje, como a dinâmica demográfica é apropriada pelas políticas públicas? Ou como a Demografia (disciplina) pode contribuir no diálogo com gestores públicos (policymakers)?

Em 2014 o professor e pesquisador George Martine publicou um texto intitulado com a pergunta “A demografia é útil no planejamento de políticas públicas?”, onde apresentou três vantagens em se conhecer e se utilizar a Demografia para o planejamento público. A primeira delas é o fato da disciplina conseguir mensurar os fenômenos sociais. Diante da magnitude e escala dos eventos é possível estabelecer ordens de prioridade e formular políticas mais acuradas. A segunda vantagem é o da elaboração de projeções e tendências futuras, pois a inércia demográfica é mais estável que os contextos políticos e econômicos. No que tange à Educação, por exemplo, ao termos as taxas de fecundidade e as de mortalidade infantil, podemos estimar quantas crianças entrarão no sistema escolar em 6 anos; ou a demanda por vagas universitárias em 18-20 anos. A terceira, por fim, está baseada no caráter interdisciplinar da Demografia que ao unir conhecimentos da Estatística, da Economia e das Ciências Sociais permite manipular os dados e elaborar uma visão sobre a sociedade sob múltiplas dimensões.

Martine cita ainda casos em que o desconhecimento demográfico levou a políticas públicas desastrosas, socialmente e economicamente. Destaco aqui um exemplo da Educação brasileira: desde o Censo brasileiro de 1980 há uma tendência de estreitamento da pirâmide populacional. No entanto, as políticas elaboradas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) em meados dos anos 90, trabalhavam com projeções de 2,5% ao ano. Como consequência, o MEC dedicou-se a construir escolas, quando na prática houve redução da demanda por quantidade.

Um outro exemplo do risco em se ignorar as perspectivas demográficas foi dado por Samir KC e demais autores, em 2010. O Objetivo Nº2 das Metas do Milênio, estipuladas no ano 2000 pelas Nações Unidas visou à erradicação do analfabetismo e à promoção da melhoria da qualidade da educação básica “para todos”, como resposta à Conferência de Educação para Todos, ocorrida dez anos antes. Se os formuladores dessa meta tivessem considerado a inércia demográfica, era provável que houvessem ampliado a conquista dessa meta para além do ano de 2015

No texto anterior vimos um exemplo do argumento demográfico sendo utilizado para justificar a medida de reorganização e fechamento de escolas estaduais em São Paulo. E também vimos os problemas que decorrem quando reduzimos o conhecimento demográfico à sua dimensão meramente numérica, distanciada das questões sociais.

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Os casos acima são, na verdade, espécies de contra exemplo, do que acontece quando subestimamos o conhecimento demográfico na formulação de medidas para contornar um problema percebido como público. Mas, nenhum deles responde a nossa segunda pergunta, de como a Demografia pode dialogar com os gestores públicos.

Embora não consiga oferecer uma resposta fechada (gosto mais é das perguntas!), fico imaginando: do modelo de ciclo de vida das políticas públicas, onde o conhecimento demográfico poderia entrar? Ela é um ator? Ou ela serve apenas à caracterização do público-alvo? Ou seria a própria dinâmica demográfica percebida como um problema público? Ela pode ajudar na construção de indicadores de avaliação das políticas?

Tenho a percepção de que estas respostas não se restringem ao conhecimento acadêmico. Penso mesmo que se trata da construção de pontes entre pesquisadores, gestores, juristas e representantes civis. E que este espaço semanal possa ser útil na construção desse diálogo.

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Para saber mais:

Me propus a escrever sobre algumas relações entre Demografia e Educação, sendo que o texto de hoje se aproximou de políticas públicas que envolvem uma dimensão educacional. Há outras, como a política de cotas, de acesso ao ensino superior e de progressão continuada.

Geralmente quando se trata de políticas em Demografia, são políticas de população: controle ou estímulo da fecundidade, de fluxos migratórios, campanhas para evitar a mortalidade infantil e juvenil. São políticas que sempre tangenciam a perspectiva de gênero. Existe ainda uma discussão sobre políticas de população ou para população – e mesmo do que se entende por política nessas áreas.

Para não estender muito, segue abaixo algumas referências para temas mais amplos entre Demografia e Políticas Públicas:

Haroldo da Gama Torres: Informação Demográfica e Políticas Públicas na Escala Regional e Local , 2005.

Nota da UNFPA sobre políticas de população.

Fernando de Holanda Barbosa Filho, em texto sobre Demografia e Política, 2014.

Nota do IPEA, sobre Desigualdade e Demografia.

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Outros textos da série:

Texto 1

Texto 2

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

 

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Demografia e Educação II – A reorganização escolar em São Paulo

Por Flávia Longo

Este é o segundo de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais.

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No final de 2015 o governo do Estado de São Paulo tornou pública uma polêmica proposta de reorganização escolar, que previa a mudança de oferta de níveis de ensino em determinadas unidades e o fechamento de outras. Foram dois os argumentos que a embasaram: o primeiro, de que escolas organizadas em ciclos facilitariam a gestão e melhorariam o aproveitamento escolar dos alunos. O segundo, de que a redução da demanda por vagas no Ensino Básico ocorreria em função de mudanças demográficas.

Diversas diretorias de ensino replicaram uma nota semelhante: “Nem todas as unidades passarão pelo processo e escolas com mais de um ciclo ainda funcionarão, devido às diferenças demográficas e às necessidades por escolas para diversas faixas etárias em algumas regiões” (Disponível aqui).

A proposta de reorganizar a educação estadual em São Paulo não é nova. Um processo a ser recordado foi o da municipalização do ensino ocorrida ao longo da década de 1990, que transferiu a responsabilidade dos ensinos Infantil e Fundamental para as gestões municipais. Em 1995, no governo de Mário Covas, o decreto nº 40.473, de 21 de novembro daquele ano instituiu o “Programa de Reorganização das Escolas da Rede Pública Estadual”. Nele estava previsto que o critério de agrupamento em um único prédio de múltiplas etapas de ensino constituía-se, além de um grave problema pedagógico, de sérias distorções das demandas escolares. A mudança que se seguiu foi a organização de escolas por ciclos: até a 4ª série; de 5ª a 8ª séries e segundo grau. Em 1996, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo deu início à reorganização de suas unidades estabelecendo parcerias e convênios com os municípios e fechando diversas escolas estaduais.

A redistribuição dos alunos na rede municipal, antes atendidos pela rede estadual, desonerou o Estado de sua obrigação para com esses estudantes. A conta feita, pela então secretária de Educação do Estado, Maria Helena Guimarães de Castro, é simples: “Em 1995, São Paulo tinha quase 7 milhões de alunos e 5,4 mil escolas. Hoje tem menos de 4 milhões de alunos e 5,4 mil escolas“.

Além da diminuição da média de alunos por escola, a reorganização proposta em 2015 difere daquela de 1990 devido ao argumento demográfico empregado em sua justificativa: a redução da fecundidade (número de filhos por mulher) também seria o motivo de uma menor demanda por vagas escolares.

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Curiosidade:

Esta não foi a primeira vez que o volume da população foi utilizado para justificar a abertura ou fechamento de vagas escolares. Três anos após a Constituição Política do Império do Brasil, em 1827, foi decretada a lei 15 de outubro, cujo artigo 2º versava: “Os Presidentes das províncias, em Conselho e com audiência das respectivas Câmaras, enquanto não estiverem em exercício os Conselhos Gerais, marcarão o número e localidades das escolas, podendo extinguir as que existem em lugares pouco populosos e remover os Professores delas para as que se criarem, onde mais aproveitem, dando conta a Assembléia Geral para final resolução” (BRASIL, 1827). E o fechamento de escolas no Brasil não é um fenômeno novo, e ocorre sobremaneira nas áreas rurais do país, desde a década de 1960 (FERREIRA; BRANDÃO, 2012).

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O argumento demográfico da queda da fecundidade não é um fenômeno observado em curto prazo. As coortes de estudantes (conjunto de pessoas que partilham um mesmo evento em um dado momento, no caso, que entram para o sistema escolar em determinado ano) são reflexos da fecundidade do passado: para pensarmos no primeiro ano do Ensino Fundamental, são crianças nascidas há 6/7 anos. Ou seja, as demandas atuais por vagas dependem desta fecundidade do passado e das taxas de sobrevivência infantil. Mas, a demanda também depende de uma população já existente, muitas vezes em idades mais avançadas, e que no entanto não tiveram acesso à educação na idade esperada: são jovens e adultos com Fundamental e Médio incompletos – e que estão em condições de voltar a compor a população de estudantes.

Quando observamos a pirâmide etária da população de São Paulo no período 2000-2014, notamos a tendência de estreitamento de sua base e do alargamento do topo. Este fenômeno corresponde ao modelo muito utilizado pelos demógrafos: o da transição demográfica (este é assunto para um próximo texto!). Do lado esquerdo está representada a população masculina, do direito, a feminina.

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São Paulo, 2000-2014: Evolução da pirâmide etária. PNAD/Censo IBGE.

O estreitamento da base da pirâmide indica que está em curso uma redução do número de nascimentos ano a ano. O alargamento do topo, por sua vez, nos mostra que a maior média de expectativa de vida começa a aparecer, sobretudo na população de mulheres. As pirâmides poderiam sustentar o argumento demográfico de fechamento escolar somente a partir de 20 anos, que é quando os estudantes que hoje estão no sistema teriam tido suficiente para se formar (pensando aqui em mundo ideal onde todas as crianças, adolescentes e jovens tem direito à educação); e quando começa a reduzir efetivamente a demanda, devido à consistente queda da fecundidade.

Um perigo em se olhar estritamente o volume da população, é que perdemos uma série de características. Por exemplo, como estão distribuídos esses estudantes? Eles se concentram em que cidades ou em que regiões? Será que todos estão conseguindo cumprir em fase as etapas escolares? (também já sabemos que não…)

Com essas perguntas vemos que a abordagem demográfica da redução da fecundidade é apenas uma das possibilidades que a Demografia tem a oferecer nessa situação. Em minha pesquisa de doutorado, ainda em andamento, procuro explorar essas outras possibilidades. Uma das minhas preocupações é com a apropriação restrita do que a Demografia, enquanto disciplina, tem a oferecer para a gestão pública – assunto da nossa próxima conversa. Por sorte, outros pesquisadores também estão atentos à reestruturação escolar e às questões demográficas envolvidas:

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Para saber mais:

Com foco na distribuição espacial, temos o trabalho do professor Eduardo Girotto e demais autores: A geografia da reorganização escolar: uma análise espacial a partir da cidade de São Paulo.

Uma profunda discussão foi apresentada por pesquisadores da REDE desde o início da proposta de reorganização. Uma publicação concisa deste esforço saiu na Educação e Sociedade no final de 2016.

E também no final do ano passado, em trabalho conjunto com minha orientadora, professora Joice Melo Vieira, apresentamos um texto cruzando informações sobre as áreas de fechamento de escolas e índices de envelhecimento.

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Adendo: A reestruturação foi anunciada em setembro daquele ano, mas as reações estudantis se mantiveram até o final do ano letivo. O caso ganhou destaque pela magnitude da mudança proposta em uma das cidades mais urbanizadas e populosas do mundo e pela mobilização da opinião pública acerca da luta dos estudantes. Apesar da reorganização ter sido suspensa, no início de 2016, 165 escolas (53 estavam na lista de fechamento/reorganização) deixaram de abrir matrículas para turmas de ingresso, isto é, nos primeiro e quinto anos do Ensino Fundamental e no primeiro ano do Ensino Médio. Este é um indicativo de que em três, quatro ou cinco anos um ciclo deixará de existir, caracterizando desse modo uma reestruturação velada.

O primeiro texto desta série (Demografia e Educação) está disponível neste link.

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A autora agradece a ajuda de Thiago Dias dos Santos com a elaboração do gif das pirâmides. As pirâmides foram construídas com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD, para o período 2001-2014. Para os anos de 2000 e 2010 foram utilizados os Censos Demográficos. Tanto a PNAD quanto os Censos são elaborados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para período anterior, ver o trabalho de Felícia Madeira e Alícia Bercovich.

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

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Lançamento dos livros “Migração Haitiana no Brasil” e “Educação e Migrações internas e internacionais”

por Jóice Domeniconi (IFCH-Unicamp)

Prof.ª Dr.ª Rosana Baeninger, Coordenadora do Observatório das Migrações, Autora e Organizadora do Livro Migrações Haitianas no Brasil, 2017. Foto por: Jóice Domeniconi (2017). Banco de Imagens do Observatório das Migrações em São Paulo.

Na última quarta-feira (26/04), em evento realizado no Museu da Migração de São Paulo, ocorreu o lançamento do livro “Migração Haitiana no Brasil”, organizado pela Prof.ª Dr.ª Rosana Baeninger (IFCH-NEPO/UNICAMP) em parceria com outros pesquisadores, e do livro “Educação e Migrações internas e internacionais”, organizado pelas professoras Dr.ª Débora Mazza (FE/UNICAMP) e Dr.ª Kátia Norões.

A primeira mesa do encontro, coordenada pela Prof.ª Dr.ª Rosana Baeninger, coordenadora do Observatório das Migrações em São Paulo, contou com a presença da Prof.ª Dr.ª Patrícia Villen (UFU); da Prof.ª Dr.ª Maria Consolação Gomes de Castro (PUC-MINAS) e do Prof. Dr. Duval Fernandes (PUC-Minas) e tratou da Migração Haitiana no Brasil, exaltando as particularidades desse processo tendo em vista temas como contexto histórico, mercado de trabalho, documentação, legislação, distribuição espacial e políticas públicas.

Já na segunda rodada de apresentações, coordenada pela Prof.ª Dr.ª Débora Mazza (FE/UNICAMP), estiveram presentes as autoras Prof.ª Dr.ª Nima Spigolon (FE/UNICAMP), a Dr.ª Tatiana Waldman (Museu da Imigração) e a M.ª Giovanna Magalhães (FE/UNICAMP). As autoras buscaram apresentar de forma geral a proposta da publicação “Educação e Migrações internas e internacionais” exaltando, porém, a necessidade de se pensar o tema da educação para além da instituição “escola”. Sobretudo, no que diz respeito às crianças e jovens migrantes que muitas vezes encontram-se sujeitos a uma categoria superexposta de “fracasso escolar”, permeada pela dificuldade de aprendizado e pelo “atraso escolar”.

Buscou-se, ademais, exaltar a importância das agências de fomento e das parcerias institucionais entre diferentes Universidades, grupos de pesquisa, instituições e governo na busca por pensar a questão migratória de forma crítica, na disseminação do conhecimento gerado do âmbito da academia e na organização de trabalhos como os dois livros lançados.

Autores e participantes do Programa de Seminários do Observatório das Migrações em parceria com a Faculdade de Educação da UNICAMP e com o Museu da Imigração, 2017. Foto por: Jóice Domeniconi (2017). Banco de Imagens do Observatório das Migrações em São Paulo.

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Dossiê Lutas Sociais no Campo – São Paulo 2014/2015 é apresentado no Programa Travessias Sonoras

 

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José Carlos Pereira (CEM) entrevista Giovana G. Pereira (IFCH-Unicamp) no Programa Travessias Sonoras

Na última segunda-feira (24/04), o Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo (UNICAMP, UFSCar e UNESP) esteve presente no Programa Travessias Sonoras que vai ao ar semanalmente as segundas, quartas e sextas-feiras às 12h30, 20h00 e 00h00. A entrevista ficou ao encargo de José Carlos Pereira do Centro de Estudos Migratórios (CEM) e o grupo de pesquisa foi representado por Giovana Gonçalves Pereira, aluna de Doutorado em Demografia na Universidade Estadual de Campinas e integrante do Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo e do Observatório das Migrações em São Paulo. A entrevista integrou as atividades de pré-lançamento do Dossiê.

O lançamento oficial do livro “Lutas Sociais no Campo”, primeira publicação do Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo, está previsto para ocorrer no próximo dia 13 (sábado) na cidade de São Paulo/SP. A obra possui caráter não-comercial, sendo resultado do trabalho coletivo do grupo, bem como, de parceiros, como o Centro de Estudos Rurais (CERES-Unicamp), o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), o Centro de Estudos Migratórios (CEM), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a Fundação Rosa Luxemburgo e a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE).

O principal motivador para construção do dossiê foi dar voz aos movimentos sociais rurais e urbanos, bem como, aproximar a academia da sociedade civil. Desse modo, buscou-se “viabilizar a construção de rostos e histórias aos números”. Os artigos presentes no dossiê são, portanto, de autoria Direção Estadual de São Paulo do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), da Equipe de Articulação e Assessoria as Comunidades Negras do Vale do Ribeira (EAACONE) e Movimento dos Ameaçados por Barragens (MOAB), da União dos Moradores da Jureia, pela equipe do Observatório, e uma entrevista com David Martim pertencente a tribo Tekoa Ytu (Jaraguá/SP) realizada por Regina Veiga e Vinicius de Souza. Foram contabilizados 174 notificações de conflitos no campo paulistas, envolvendo diretamente ou indiretamente cerca de 50.000 pessoas, as quais se vinculavam aos perfis de assentados, acampados e agricultores familiares; assalariados rurais e populações tradicionais (indígenas, quilombolas, caiçaras e caboclos).

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Demografia e Educação I – Algumas relações

Este é o primeiro de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais.

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Por que filhos tendem a ter uma escolaridade maior que a geração de seus pais? Como outros países lidam com a demanda por vagas escolares? Na luta pelo fim do analfabetismo, será que a Demografia, enquanto disciplina científica, teria alguma contribuição? O que explicaria a redução de matrículas em determinados níveis de ensino? Como os gestores públicos e secretários de educação podem fazer melhor uso do que a Demografia tem a oferecer?

Assumo o pressuposto de que as interações entre Demografia e Educação beiram a dialética.  Existe toda uma agenda de pesquisa aberta entre esses dois campos de pesquisa e a proposta deste espaço é trazer um texto por semana, procurando indicar algumas possibilidades quando pensamos dinâmicas populacionais e educação.

Quantos somos e quem somos são duas perguntas básicas que a Demografia procura responder. Os eventos que modificam a estrutura (idade) e composição (sexo) de uma população, juntamente aos componentes principais da dinâmica demográfica (natalidade, mortalidade e migração), são também objetos de interesse desse campo científico.

Talvez a entrada que mais aproxime dinâmica demográfica e Educação seja o fato de que a população é quem demanda por infraestrutura e serviços educacionais. O número de filhos que as mulheres tinham há seis, quinze ou vinte anos (fecundidade do passado), bem como suas chances de sobrevivência, impactam a demanda atual por vagas na Educação Infantil, Fundamental, Média e Superior. O fato de um evento demográfico passado refletir na estrutura etária presente é denominado inércia demográfica.

A Educação, por sua vez, entendida por meio dos níveis de escolaridade torna-se um importante diferencial dos comportamentos demográficos: populações mais escolarizadas tem menores taxas de fecundidade, de mortalidade e maior média de expectativa de vida. Alguns fluxos migratórios também podem ocorrer em função da escolaridade, seja pela busca de uma melhor qualificação profissional ou pela “fuga” dos altamente escolarizados.

Um terceiro ponto de intersecção entre Demografia e Educação são as políticas públicas educacionais. Um cuidado neste tipo de incursão é de não cair no reducionismo de uma “contabilidade social”, termo utilizado no século XIX por pioneiros da Demografia. Isto significa dizer que a Demografia não se resume a dados estatísticos acerca da população escolar e em idade escolar – e a utilização destes na articulação de uma engenharia social. O campo dos estudos demográficos conta com abordagens e técnicas que podem enriquecer a formulação e avaliação das políticas públicas, em especial aquelas que se referem aos sistemas educacionais.

Além do desenvolvimento dos três tópicos aqui expostos, pretendo explorar nos próximos textos aspectos ligados às abordagens teóricas, fontes de dados e aos métodos para pesquisa em educação – tudo isso para tentar lançar alguma luz sobre as perguntas com as quais começamos esta conversa.

Para saber mais:

  1. CUNHA, J.M.P. Demografia e educação: incursões preliminares, Campinas, NEPO-UNICAMP. Textos NEPO, v38, 2000.
  2. RIOS-NETO, E.L.; RIANI, J.L.R. Introdução à demografia da educação. Abep, 2004.

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A autora agradece aos professores Dr. Roberto do Carmo e Dra. Josianne Cerasoli (IFCH/Unicamp) pela leitura prévia e pelos comentários.

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Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

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Epidemia Urbana

O controle de epidemias preocupa o Brasil. Compreender as condições que contribuem para a ocorrência de tais epidemias possibilita a elaboração de medidas de prevenção mais adequadas. O número histórico de ocorrências de dengue no ano de 2014, em Campinas, está sendo alvo de um estudo para analisar os aspectos da população e do ambiente urbano que propiciaram o desenvolvimento do Aedes aegypti, mosquito que impressiona por veicular atualmente no País, além da dengue, também a chikungunya e o vírus da zika.

Igor Cavallini Johansen, doutorando em Demografia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), desde a iniciação científica pesquisa epidemias da doença, utilizando métodos sofisticados.

O doutorando explica que Campinas apresenta condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do Aedes aegypti. A isso se soma uma demanda ainda não plenamente atendida por equipamentos e serviços urbanos mais eficientes, provimento de água, além de coleta e destinação adequada de esgoto e lixo. Enfatiza que a desigualdade social ainda é aguda na cidade. “Com base em estudos anteriores, constatamos que a Rodovia Anhanguera era e continua sendo uma grande marca da separação entre grupos populacionais em Campinas. Em termos gerais, a população abastada reside principalmente na porção norte do município, enquanto no sul estão alocados aqueles com piores condições socioeconômicas.

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“Analisamos, então, como as características desses grupos populacionais e do ambiente urbano em que vivem podem ter influenciado a ocorrência da epidemia histórica de dengue que marcou a cidade em 2014”.

Com orientação do professor Roberto Luiz do Carmo e co-orientação da professora Luciana Correia Alves, ambos do Departamento de Demografia do IFCH, o pesquisador utilizou como subsídios ao seu trabalho dados da Secretaria Municipal da Saúde de Campinas. Para a pesquisa, empregou o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que permitiu evidenciar desigualdades sociais intraurbanas. Comparou, utilizando ferramentas de análise espacial, a distribuição da variável IDHM com a taxa de incidência de dengue em diferentes regiões do município. O cruzamento dessas variáveis no nível intraurbano nunca havia sido realizado para um município brasileiro.

A análise preliminar dos dados mostrou que os casos da doença tiveram início principalmente na região sul (onde se localizam os grupos em piores condições de moradia) e depois se estenderam em direção ao norte, chegando ao distrito de Barão Geraldo, uma das regiões mais afluentes do município.

O objetivo, a partir de agora, é avançar para a análise de como outros aspectos da dinâmica da população podem ter afetado a ocorrência desta epidemia, por exemplo, a mobilidade. Isso porque existe uma transferência maciça diária de grupos populacionais por todo o município. Esses fluxos populacionais podem ter favorecido o processo de distribuição da doença para as diferentes regiões de Campinas. “Essa busca por compreender a relação entre mobilidade populacional e casos de dengue é inédita na literatura científica da área”.

Outro aspecto que perpassa a pesquisa é a multicausalidade da dengue. Além das políticas de controle implementadas pela Prefeitura Municipal, o pesquisador aponta como fator preponderante para a ocorrência da doença a incerta colaboração da própria população, com o descarte inadequado de resíduos. A especulação imobiliária, que mantém imóveis fechados por longos períodos de tempo, dificulta a fiscalização de criadouros.

Johansen enfatiza que sua tese busca evidenciar a complexidade enfrentada no controle da dengue pelo fato de a doença ser transmitida por um mosquito com capacidade imensa em se adaptar ao modo como nossas cidades foram organizadas historicamente e aos hábitos da população urbana.

 

Igor Cavallini Johansen (igor@nepo.unicamp.br)

 

Fonte:

https://www.prp.unicamp.br/sites/default/files/revista/fb_REVISTA-3/index.html

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IX Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais

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Participantes do IX Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais na FCLAr/UNESP. Fonte: Domeniconi (2016). Banco de Imagens do Observatório das Migrações em São Paulo.

No contexto do Programa de Seminários do Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO/IFCH-Unicamp) ocorreu nos dias 05 e 06 de abril na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” a nona edição do Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais.

Nessa edição, o Observatório das Migrações contou com a parceria do Observatório dos Conflitos Rurais em São Paulo e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Sociedade, Poder, Organização e Mercado (NESPOM-FCLAr). Tendo ainda o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FAEPEX-Unicamp),  do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Departamento de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp), do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr-Unesp) e da Prefeitura Municipal de Araraquara.

O público presente no evento era composto, majoritariamente, de profissionais vinculados aos poderes públicos municipais da região central do Estado de São Paulo e pertencentes aos quadros legislativos e executivos. Destacando-se também a participação de representantes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE-Unidade Botucatu),  da Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel (FUNDAP), da UNICAMP (Campus Campinas), da UNESP (Campus Araraquara e Franca), UFSCar (Campus São Carlos), USP (Campus Ribeirão Preto), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), da Universidade de Araraquara (UNIARA) e da Universidade Paulista (UNIP). Contamos, nesse sentido, com a presença de 50 participantes nos dois dias de atividade. As palestras foram pensadas com o objetivo de sensibilizar e capacitar os ouvintes acerca das transformações sociodemográficas nacionais e regionais.

Na quarta-feira (05/04), a abertura do evento foi realizada pela Profa. Dra. Maria Chaves Jardim (NESPOM-FCLAr-UNESP) e pela Profa. Dra. Rosana Baeninger, coordenadora do Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO-IFCH/UNICAMP).  Já a Conferência de Abertura ficou ao encargo do Prof. Dr. Alberto Riella (UDELAR-UY) e teve como título “A Problemática da Globalização da Agricultura e os Impactos Sociais no ConeSul”.  O período da tarde foi dedicado a palestras da Profa. Dra. Rosana Baeninger e da Dra. Roberta Peres (NEPO-Unicamp) com o título “Transição Demográfica e Políticas Sociais: A importância dos Indicadores Sociais” e posteriormente com a contribuição da Profa. Dra. Lidiane Maciel (IFCH-Unicamp) e da Ma. Giovana G. Pereira com a Mesa Redonda: A Dinâmica Populacional na Região Administrativa Central.

Enquanto que na quinta-feira (06/04), no período da manhã, ocorreu a Oficina “Pesquisa Etnográfica: Referências para Políticas Públicas no rural e no urbano” com as contribuições da Profa. Dra. Maria Chaves Jardim, da Profa. Dra. Lidiane Maciel e da Ma. Thauana Gomes (Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural/NUPEDOR-UNIARA). No período da tarde, a Mesa Redonda “Demandas Locais e Regionais”, sob a mediação do Prof. Dr. Sérgio Fonseca (FCLAr-Unesp) e da Profa. Maria Chaves Jardim, contou com as falas da Ma. Juliana Agatte (Secretária de Planejamento e Participação Popular), de Alcindo Sabino (Coordenador da Participação Popular) e de Filipe Brunelli Iani (Assessora de Políticas LGBT) da Prefeitura Municipal de Araraquara, bem como, de Djalma Nery, co-fundador da Associação Veracidade.  Ao final do evento, sob a coordenação da Dra. Rosemeire Salata e do Dr. Leonardo Reis, os participantes presenciaram o lançamento do livro “Lutas Sociais no Campo – São Paulo 2014-2015”, organizado pelo Observatório dos Conflitos Rurais.

Para acessar mais fotos do evento: Clique aqui.

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