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Epidemia Urbana

O controle de epidemias preocupa o Brasil. Compreender as condições que contribuem para a ocorrência de tais epidemias possibilita a elaboração de medidas de prevenção mais adequadas. O número histórico de ocorrências de dengue no ano de 2014, em Campinas, está sendo alvo de um estudo para analisar os aspectos da população e do ambiente urbano que propiciaram o desenvolvimento do Aedes aegypti, mosquito que impressiona por veicular atualmente no País, além da dengue, também a chikungunya e o vírus da zika.

Igor Cavallini Johansen, doutorando em Demografia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), desde a iniciação científica pesquisa epidemias da doença, utilizando métodos sofisticados.

O doutorando explica que Campinas apresenta condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do Aedes aegypti. A isso se soma uma demanda ainda não plenamente atendida por equipamentos e serviços urbanos mais eficientes, provimento de água, além de coleta e destinação adequada de esgoto e lixo. Enfatiza que a desigualdade social ainda é aguda na cidade. “Com base em estudos anteriores, constatamos que a Rodovia Anhanguera era e continua sendo uma grande marca da separação entre grupos populacionais em Campinas. Em termos gerais, a população abastada reside principalmente na porção norte do município, enquanto no sul estão alocados aqueles com piores condições socioeconômicas.

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“Analisamos, então, como as características desses grupos populacionais e do ambiente urbano em que vivem podem ter influenciado a ocorrência da epidemia histórica de dengue que marcou a cidade em 2014”.

Com orientação do professor Roberto Luiz do Carmo e co-orientação da professora Luciana Correia Alves, ambos do Departamento de Demografia do IFCH, o pesquisador utilizou como subsídios ao seu trabalho dados da Secretaria Municipal da Saúde de Campinas. Para a pesquisa, empregou o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que permitiu evidenciar desigualdades sociais intraurbanas. Comparou, utilizando ferramentas de análise espacial, a distribuição da variável IDHM com a taxa de incidência de dengue em diferentes regiões do município. O cruzamento dessas variáveis no nível intraurbano nunca havia sido realizado para um município brasileiro.

A análise preliminar dos dados mostrou que os casos da doença tiveram início principalmente na região sul (onde se localizam os grupos em piores condições de moradia) e depois se estenderam em direção ao norte, chegando ao distrito de Barão Geraldo, uma das regiões mais afluentes do município.

O objetivo, a partir de agora, é avançar para a análise de como outros aspectos da dinâmica da população podem ter afetado a ocorrência desta epidemia, por exemplo, a mobilidade. Isso porque existe uma transferência maciça diária de grupos populacionais por todo o município. Esses fluxos populacionais podem ter favorecido o processo de distribuição da doença para as diferentes regiões de Campinas. “Essa busca por compreender a relação entre mobilidade populacional e casos de dengue é inédita na literatura científica da área”.

Outro aspecto que perpassa a pesquisa é a multicausalidade da dengue. Além das políticas de controle implementadas pela Prefeitura Municipal, o pesquisador aponta como fator preponderante para a ocorrência da doença a incerta colaboração da própria população, com o descarte inadequado de resíduos. A especulação imobiliária, que mantém imóveis fechados por longos períodos de tempo, dificulta a fiscalização de criadouros.

Johansen enfatiza que sua tese busca evidenciar a complexidade enfrentada no controle da dengue pelo fato de a doença ser transmitida por um mosquito com capacidade imensa em se adaptar ao modo como nossas cidades foram organizadas historicamente e aos hábitos da população urbana.

 

Igor Cavallini Johansen (igor@nepo.unicamp.br)

 

Fonte:

https://www.prp.unicamp.br/sites/default/files/revista/fb_REVISTA-3/index.html

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Arquivado em Demografia da Unicamp, População e Ambiente, Saúde, UNICAMP, Urbanização

TETO DE VIDRO, por Igor Johansen e Flávia Longo

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Mosquito Aedes aegypti, principal transmissor da dengue no Brasil

Que a dengue é um problema crônico já se sabe. Que os domicílios são um dos principais focos do mosquito vetor da dengue, o Aedes aegypti, também não é novidade nenhuma. Então se já é conhecida a dinâmica do vírus da dengue e os principais focos de reprodução do mosquito vetor, por que ainda não se conseguiu equacionar o problema? A resposta é simples, mas complexa ao mesmo tempo.

Simples porque falta transformar conhecimento em ação. Falta educação cidadã para mobilização social. Trata-se de UM processo, UM fenômeno, UMA iniciativa. Mas ao mesmo tempo é algo complexo porque, para que esta ação se concretize, é necessária a compreensão de que se deve compartilhar a responsabilidade pelo controle da dengue – e assim, concretizar no mundo real os debates já muito desenvolvidos no mundo das ideias. Aventa-se como potencial solução para a dengue no Brasil a conscientização, da população e dos representantes políticos, sobre a perspectiva das responsabilidades compartilhadas.

O que isso quer dizer? A responsabilidade compartilhada no controle da dengue significa que a população, sozinha, não resolve o problema dos criadouros do mosquito vetor. Desse modo, manter a caixa d’água fechada, remover pratos dos vasos de plantas e virar de boca para baixo as garrafas, cobrir pneus, entre tantas outras medidas é muitíssimo importante, mas insuficiente.  Isso porque a Prefeitura também precisa prover infraestrutura urbana a toda a população, tal como rede de água e esgoto, além de um sistema eficiente de coleta e disposição de lixo – políticas que evitam a geração de criadouros do mosquito vetor da dengue. Além disso, o cuidado com a limpeza de parques, praças e todos os espaços públicos também é – apesar de não só – uma responsabilidade da Prefeitura. Por outro lado, a Secretaria de Saúde não tem como organizar “arrastões” e operações “cata-treco” o tempo todo, de forma que deem conta de avaliar e cuidar de cada um dos quintais de todas as residências do município. Impossível. Os ambientes domésticos, esses devem ser de responsabilidade individual.

E se engana quem pensa que é somente a população de baixa renda que não cuida dos seus quintais e aguarda o poder público para “fazer o serviço”. Populações mais escolarizadas ou com maior poder aquisitivo não implicam, necessariamente, em pessoas mais educadas do ponto de vista da cidadania. Nas últimas epidemias de dengue no município de Campinas o distrito de Barão Geraldo, que abriga a Universidade Estadual de Campinas e compreende uma das regiões mais afluentes da cidade, apresentou uma das maiores concentrações de casos de dengue. Dentre um conjunto de motivos para isso está o descuido da população com os ambientes domésticos, sejam as piscinas abandonadas ou casas para alugar que, fechadas, não permitem a inspeção dos Agentes Comunitários de Saúde e mantêm criadouros do Aedes aegypti, como vasos sanitários destampados, ralos com água parada, calhas entupidas, etc.

A proposta deste texto não é culpabilizar o Poder Público ou a População, mas sim chamar a atenção para a única forma efetiva e sustentável de evitar que o mosquito da dengue se reproduza, ou seja, tirar do papel e aplicar de fato, na realidade social, a ideia da responsabilidade compartilhada. De outro modo, continuarão existindo os picos epidêmicos desta doença infecciosa no país, em áreas pobres e também naquelas providas com mais recursos financeiros. Enquanto não “cair a ficha” de que o problema é de todos, as políticas setorializadas de controle da dengue vão continuar gastando quantias vultuosas em iniciativas epidemiologicamente inócuas, socialmente ineficazes e ambientalmente perigosas.

 

Igor Johansen é doutorando no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: igor@nepo.unicamp.br

Flávia Longo é mestranda no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: longo.fla@gmail.com

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