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Fluxos migratórios e a desigualdade persistente no Brasil

O artigo “Fluxos migratórios e a desigualdade persistente no Brasil”, cuja autoria é de José Marcos Pinto da Cunha (Professor Doutor do Programa de Pós-graduação em Demografia da Unicamp) integrou o encarte especial no Le Monde Diplomatique Brasil, edição de janeiro de 2017.
O encarte foi realizado pela Oxfam Brasil junto ao Le Monde Diplomatique Brasil em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole (CEM).

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Fluxos migratórios e a desigualdade persistente no Brasil

POR JOSÉ MARCOS PINTO DA CUNHA*

Em se tratando da migração interna, em especial aquela de longa distância, mais que as desigualdades sociais, seriam as desigualdades regionais as que historicamente poderiam ser consideradas os principais motores dos deslocamentos dos brasileiros pelo território nacional.

Pode-se dizer que uma das principais expressões da mobilidade interna no país foi a migração rural-urbana ligada a dois processos. O primeiro deles, de caráter “centrípeto”, relacionado basicamente aos movimentos migratórios motivados pela intensa industrialização e urbanização observadas no Sudeste do país. O segundo, de caráter “centrífugo”, movimentou grandes levas de população do Sul e do Nordeste do país rumo às novas fronteiras agrícolas no Norte e Centro-Oeste, servindo de “válvula de escape” para aquelas áreas que sofriam os impactos da estagnação econômica ou da modernização agrícola e da concentração de terra.

As informações que constam do Gráfico 1 mostram que, embora o volume da migração interna de caráter interestadual tenha sofrido importante incremento (de 6,9 milhões na década de 1960 para 11,4 milhões de pessoas nos anos 2000), é notório o fato de que a intensidade do fenômeno sofreu forte redução ao longo do período.

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Marcadamente nos anos 1990, confirma-se uma tendência que já vinha se configurando nos anos 1980, que denotava mudanças significativas nos processos migratórios internos, com redução das perdas populacionais de áreas tradicionalmente expulsoras, como Minas Gerais, Paraná e estados do Nordeste. Esse processo é associado à tendência de desconcentração econômica, particularmente da indústria, e ao crescimento e expansão territorial do agronegócio e da agricultura irrigada. Da mesma forma, o aparecimento das “ilhas de prosperidade” (Pacheco, 1998)1 , a progressiva recuperação do salário mínimo e mesmo a ampliação das políticas de transferência de renda especialmente para as áreas mais pobres (Cunha, 2006)2 estavam presentes no debate sobre os condicionantes da migração regional e intrarregional da década de 1990.

Ainda no período 1990/2000, influenciado pela crise econômica, percebe-se simultaneamente visível redução da capacidade de atração e retenção da migração interna nas maiores regiões metropolitanas do Brasil, sobretudo em São Paulo e Rio de Janeiro. Em um país cada vez mais urbanizado, assistia-se nesse período à intensificação de um fenômeno: a migração de retorno. No entanto, o gráfico apresentado mostra que, mesmo tendo se intensificado a partir dos anos 1980, esse fenômeno já estava presente no processo migratório há mais tempo, sugerindo que já no passado mais distante existia tendência de volta para as áreas de origem, em especial no caso dos nordestinos.

Paralelamente a esse processo, registrava-se um progressivo “fechamento” das fronteiras agrícolas que, pelo menos até os anos 1970, tiveram impacto decisivo na ocupação territorial e mobilidade da população. Se as chamadas “fronteiras minerais”, especialmente no Pará, propiciadas tanto pelo garimpo (este mais efêmero) quanto pela exploração de outros minérios, ainda davam algum fôlego a essa forma de indução da ocupação territorial até os anos 1990, essa força deixou de ser a mesma.

Chega-se ao século XXI com um quadro econômico, social e demográfico bem distinto daquele do século anterior, com a migração interestadual ganhando novas feições e até menor relevância no processo de redistribuição espacial da população. Nesse sentido, esse fenômeno, no passado protagonista, passa a compartilhar com outras formas de movimentos espaciais (em escalas geográficas menores) a influência sobre o processo de redistribuição espacial da população brasileira.

Grosso modo, pode-se dizer que, no processo migratório nacional dos últimos cinquenta anos, houve importantes rupturas e algumas continuidades. Contudo, tudo isso deve ser considerado à luz de um contexto no qual a migração interestadual perde volume e principalmente intensidade. O fechamento progressivo das fronteiras, a desconcentração das atividades econômicas, o desempenho da economia, a redução do crescimento demográfico, sobretudo de áreas tradicionais de evasão demográfica, o enorme esvaziamento rural com a respectiva urbanização, enfim, as grandes transformações pelas quais passou o Brasil em especial depois dos anos 1980 claramente mudaram o “rosto” da migração no país.

O que nos parece mais evidente é que o quadro que emerge da análise de cinco censos demográficos, de 1970 a 2010, remete a uma reflexão propiciada pela leitura de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, cujo contexto e situação de vida narrados parecem persistir até hoje e, de forma muito eloquente, são lamentados pelo jornalista Clóvis Rossi na apresentação da reedição desse belo livro.3 De fato, não obstante as mudanças no processo migratório nacional, nossa conclusão é que ao menos uma característica parece persistir: a situação do Nordeste como área de evasão demográfica. Em pleno século XXI, notícias sobre o que teria sido a pior seca da história da região mostram que, como afirmava Clóvis Rossi, estamos longe de modificar essa situação. De qualquer maneira, a migração interna no Brasil já tem outra “cara”, que precisa ser mais bem conhecida e explicada.

*JOSÉ MARCOS PINTO DA CUNHA É DEMÓGRAFO, DOUTOR EM CIÊNCIAS SOCIAIS, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS E MEMBRO DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO (AMBOS DA UNICAMP), E PESQUISADOR DO CENTRO DE ESTUDOS DA METRÓPOLE.

1 PACHECO, C. A. Fragmentação da nação. Campinas: Instituto de Economia/ Unicamp, 1998

2 CUNHA, J.M.P. A migração no Brasil no começo do século 21: continuidades e novidades trazidas pela PNAD 2004. Parcerias Estratégicas, n. 22, p. 381-439, junho 2006.

3 Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros, v.2, 2008.

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Nova Parceria: Peking University e China Center for Population and Development Research

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Com o apoio da Vice-Reitoria Executiva de Relações Internacionais (VRERI), as atividades de intercâmbio do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (NEPO/UNICAMP) e o Programa de Pós-Graduação em Demografia ampliam a cooperação internacional da UNICAMP no campo da Demografia.

Entre 7 e 19 de novembro, as pesquisadoras Tirza Aidar e Elisabete Bilac, e o mestrando em demografia Gustavo Brusse, visitaram a Peking University e o China Center for Population and Development Research (CCPDR) dando continuidade aos estudos sobre o modelo de coorte-componente estendido para projeções de domicílios, iniciados durante o curso ministrado pelos demógrafos Yi Zeng e Zhenglian Wang no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UNICAMP) em setembro deste ano.

Como resultado das reuniões de trabalhos entre pesquisadores e dirigentes do CCPDR, foi firmado acordo de cooperação para os próximos dois anos, visando a produção e disseminação de conhecimento sobre projeções populacionais e de arranjos domiciliares no Brasil e países da América latina.

Fonte: Divulgação NEPO (http://www.nepo.unicamp.br/principal/destaques/china.pdf).

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Imigrantes e Refugiados em Campinas: ações de cidadania despertam o senso de comunidade

Imigrantes e refugiados em Campinas: ações de cidadania despertam o senso de comunidade da cidade
O haitiano Jean Rick, 29 anos, em Campinas desde fevereiro de 2015, era professor de Ciências Sociais em seu país Foto: Martinho Caires

Por Adriana Menezes

Todo aquele que chega desperta olhares diversos dentro de uma nova comunidade. Em pequeno ou em grande número, a chegada do “outro” que vem “de fora” contribui para mudanças nas relações sociais decorrentes da necessidade de inserção. Mas, ao contrário da imagem quase unânime de hospitalidade do brasileiro, a inclusão não acontece naturalmente. Na falta de políticas públicas claras e atualizadas, são as ações de cidadania isoladas que estabelecem o espaço para o afeto e garantem a dignidade e o direito a ter direito de muitos estrangeiros.

Campinas recebeu mais de 15 mil imigrantes e refugiados entre 2000 e 2015 das mais diversas nacionalidades e condições – de americanos, alemães e coreanos para o mercado de trabalho altamente qualificado das multinacionais do Pólo Tecnológico, até haitianos, sírios e paquistaneses refugiados com histórias de perdas e tragédias por catástrofes naturais, por guerra ou crise econômica. No último ano, com a chegada de um grande contingente de haitianos, o número de imigrantes e refugiados passa hoje das 1,4 mil pessoas.

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Diferentes demandas

O haitiano Jean Rick, 29 anos, chegou a Campinas em fevereiro de 2015. Professor de Ciências Sociais em seu país, fez serviços de recapeamento (por intermédio da Prefeitura) e hoje está registrado como padeiro, com treinamento profissional. Apesar do emprego registrado e seu visto humanitário no Brasil, tem planos de ir agora para a Islândia, onde já mora um irmão, e num futuro ainda incerto quer voltar ao seu país, que em 2010 foi destruído por um terremoto. Jean só chegou a um emprego formal porque voluntariamente um cidadão campineiro, que não quis se identificar, fez a ponte entre o empresário que procurava mão de obra e o grupo de haitianos que o voluntário e sua esposa já auxiliavam com aulas de português.

O cubano Yosbel Asen Diaz, 30 anos, é formado em Hotelaria e migrou para o Brasil para casar-se com Vivian dos Santos Queiroz   Foto: Martinho Caires

O cubano Yosbel Asen Diaz, 30 anos, é formado em Hotelaria. Trabalhava na área em Havana, onde conheceu sua atual mulher, a brasileira Vivian dos Santos Queiroz. Yosbel migrou em junho de 2016 para o Brasil, onde ainda procura emprego, mas já tem certeza de que constituirá família aqui. Vivian está grávida de três meses. No Departamento de Cidadania da Prefeitura, Yosbel faz contatos, busca auxílio para entrar no mercado de trabalho e também colabora, indo a palestras para contar a sua história. Apesar de sua situação privilegiada, com casa e a presença da mulher, o cubano ainda precisa de ajuda na inserção na sociedade.

Os sírios Chaza Alturkmani e Suhib Zinou, de 60 anos, abriu em Campinas o restaurante de comida árabe Castelo de Alepo     Foto: Martinho Caires

O casal de sírios Chaza Alturkmani e Suhib Zinou, 60 anos, já chegou ao Brasil com a família completa: duas filhas e um filho. Refugiados de guerra, estão felizes por ter agora segurança, os filhos com emprego e estudo, e eles com um restaurante, mas não deixam de se reunir com outros sírios refugiados na cidade, também sofrem em aprender a língua e sonham em um dia retornar a Alepo. Os filhos já aprenderam a língua, o casal no entanto diz que não tem tempo para frequentar as aulas de português porque trabalha muito no restaurante Castelo de Alepo, no Cambuí. Agradecem incansavelmente a toda ajuda que receberam. Escolheram Campinas porque um amigo sírio já havia migrado para a cidade em busca de paz e estabilidade. Foi o amigo que ajudou nos primeiros dias.

Vulnerabilidade

Em todos os casos, o que há em comum é a vulnerabilidade do imigrante, seja pela dificuldade da língua, a falta de dinheiro ou a necessidade de moradia, alimento e trabalho. As histórias de vida de cada um criam o pano de fundo dramático de um mundo onde os conflitos sociais e políticos roubam o senso de comunidade das cidades e impedem o olhar sensível voltado para a cidadania.

“Os imigrantes precisam de um olhar mais atento”, diz a cientista social Rosana Baeninger, professora da Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo/UNICAMP). Os dados que ela fornece sobre 15 mil imigrantes de 2000 a 2015 em Campinas são da base de dados do Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros no Brasil (Sincre), ao qual teve acesso pelo Observatório de Migrações em São Paulo, projeto da Fapesp realizado em parceria entre Unicamp, PUC de Minas Gerais, entre outras instituições, como Ministério da Justiça. “O Brasil está na rota das migrações transnacionais. Como o primeiro mundo tem restrições, os países emergentes passam a ser a rota”, afirma Rosana.

Segundo a pesquisadora, o Brasil não é apenas destino migratório, mas de trânsito. Muitos permanecem um tempo e depois vão para outro país, a exemplo do haitiano Jean Rick, que vai para a Islândia. “Muitos haitianos hoje estão saindo do Brasil para o Chile”, diz Rosana. Do total de 15 mil em 15 anos na cidade, 5 mil são estudantes, 9 mil são mão de obra qualificada (oriundos dos Estados Unidos, Alemanha, França e China, nesta ordem decrescente numérica) e apenas cerca de 1 mil chegam com reais necessidades de auxílio. Destes, apenas 250 são refugiados.

 

Repensar a sociedade

“As pessoas acham que o número legitima o fenômeno, mas não importa se são 15 mil ou 30 pessoas, porque o impacto na vida do município existe de qualquer maneira. Isso demanda uma nova forma de pensar a sociedade”, afirma a pesquisadora. Já passaram por Campinas refugiados de Angola, Colômbia, Cuba, Equador, Nicarágua, Nigéria, República do Congo, Síria, Líbia e Haiti. As nacionalidades de imigrantes são ainda mais diversas.

Para Rosana, a municipalidade assume hoje a responsabilidade da inserção devido à falta de uma legislação federal atualizada. O que vigora ainda é o Estatuto do Estrangeiro, criado durante a ditadura, “uma lei anacrônica”. As instituições domésticas e a Igreja também têm um papel fundamental neste contexto de auxílio. Ela lembra, no entanto, que há uma lei de imigração em tramitação no Congresso.

 

Rosana Baeninger, cientista social professora da Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Populacionais (Nepo): “Os imigrantes precisam de um olhar mais atento”      Foto: Martinho Caires

“Há uma enorme diversidade e uma grande demanda por parte dos imigrantes. Lembro de uma família de colombianos que durante o I Fórum sobre Imigração e Refúgio em Campinas, em setembro, disse que era a primeira vez que alguém os ouvia desde que chegaram, há muito tempo na cidade.”

Falsos mitos

A verdade é que o Brasil criou um mito da receptividade migratória que não é real, diz a pesquisadora. “Existe um tipo ideal de imigrante criado em nosso imaginário devido à nossa formação Estado Nação, que é o do branco europeu civilizado. Mas há diversidade nos fluxos migratórios”, diz Rosana, que destaca que as pesquisas populacionais do Nepo e Fapesp têm como bandeira a relação de cidadania baseada em Hannah Arendt, do direito de todo cidadão ter direito.

Quando o estrangeiro chega ao Brasil como imigrante ou refugiado, ou seja, sem ser a turismo ou trabalho, ele deve se apresentar no prazo de um mês à Polícia Federal. Os haitianos já têm o visto humanitário, que em agosto foi renovado até agosto de 2017. Os sírios e paquistaneses que chegam já têm um entendimento prévio de que são refugiados. Mesmo assim, o refugiado deve solicitar o refúgio à PF. A decisão é encaminhada a um comitê ligado ao Ministério da Justiça que foi instituído para avaliar caso a caso. “A decisão é política”, explica o diretor do Departamento de Cidadania da Prefeitura Municipal de Campinas, Fábio Custódio.

Em Campinas, a porta de entrada para muitos imigrantes é o Departamento de Cidadania. “Às vezes a porta de entrada é a escola, no caso de famílias que têm filhos. Mas nós somos procurados principalmente para auxiliar em questões de documentação ou relacionadas a trabalho”, diz o diretor. Segundo Fábio Custódio, eles também recebem denúncias de trabalho escravo de imigrantes.

Fábio Custódio, diretor do Departamento de Cidadania da Prefeitura de Campinas: “Precisamos ter uma regulamentação e estar preparados”    Foto: Martinho Caires

Uma rede de apoio

“Nós também promovemos ações de inclusão social e cultural, como o evento Campinas de Todos os Povos, que contribuem para levar consciência e acabar com a xenofobia”, afirma o diretor. Segundo Fábio, as queixas mais comuns de xenofobia na cidade são contra os povos do oriente médio, especialmente mulçumanos que são associados ao terrorismo; e contra os imigrantes negros ou indígenas. “Sofrem especialmente no ambiente de trabalho.”

Outra ação do Departamento é a formação de uma Rede de Apoio a Imigrantes e Refugiados, formada pela sociedade civil que começou a se organizar em meados de 2015. “São pessoas, instituições, nós do poder público e qualquer entidade que presta algum tipo de ajuda”, diz Custódio. A rede hoje é composta por mais de 20 nomes, mas ela está aberta à participação. O episódio do Acre, em 2015, quando um grande número de haitianos tentava entrar no Brasil, motivou a criação da rede.

“O poder público pode pouco, porque por questões legais não podemos fazer nada que envolva comercialização ou vínculo empregatício, por isso não somos nós que capitaneamos a rede, mas fazemos parte dela”, afirma Custódio. Ele lembra que a imigração é um fenômeno mundial. “Até 2050, entre meio e um bilhão de pessoas vão migrar, se movimentar no planeta, por motivos diversos: guerra, falta de água, fenômenos naturais, questões religiosas. O fluxo não vai cessar”, diz o diretor. “Precisamos ter uma regulamentação e estar preparados.”

 

Núcleos de convivência

Hoje em Campinas há em torno de 1,4 mil imigrantes e refugiados, dos quais pelo menos 950 são haitianos. Há uma grande diversidade de demandas, mas as salas de aula de português se tornaram verdadeiros núcleos de convivência. Muitos professores ajudam seus alunos fazendo currículos ou cuidando da saúde ou observando se são explorados no trabalho. As comunidades religiosas, diz Custódio, são essenciais. A Missão Paz, por exemplo, onde o Departamento já fez treinamentos, atua há mais de cem anos no acolhimento de todo tipo de migrante e imigrante na capital paulista, na Rua do Glicério. “Nós aprendemos muito com eles em como fazer. Se não fosse a Missão Paz eu acho que a prefeitura de São Paulo estava perdida”, diz o diretor. Há também, lembra Fábio Custódio, o apoio das próprias igrejas que os imigrantes procuram. Os evangélicos recebem ajuda de suas igrejas, os muçulmanos também.

O padre André Luiz Bordignon, de 35 anos, da Paróquia Jesus Cristo Libertador, no Jardim Florence I, abriu espaço para o grupo de haitianos que frequentava sua missa se reunir e se organizar na igreja. De junho até agora, já fizeram três encontros. O grupo de cerca de 40 homens, mulheres e crianças mora no mesmo bairro. “Os haitianos são muito católicos, mas há também evangélicos no grupo. Todos eles se reúnem aqui. A comunidade começou a ajudar espontaneamente”, diz o padre André.

Padre André Luiz Bordignon: “Eles são vítimas vulneráveis. Com ou sem política, a igreja vai continuar ajudando"    Foto: Martinho Caires

Entre as principais dificuldades do grupo estão a língua, a moradia e o trabalho. “Eu soube de um proprietário que quis cobrar R$ 1 mil de aluguel por uma casa pequena no Satélite Íris. Há também patrões que exploram. Não podemos achar que o Brasil melhorou só por causa das leis”, afirma o padre. Segundo ele, a maioria está no mercado informal de trabalho porque não consegue emprego formal devido à língua. A paróquia então se organizou para oferecer aulas de português e auxílio jurídico. A advogada dá plantão voluntário e os professores também. “Não somos uma ONG. A nossa obra é de misericórdia no acolhimento dos peregrinos.”

Integração

No segundo semestre, a paróquia realizou duas missas em crioulo, língua oficial no Haiti junto com francês. O Frei Ilário de São Paulo, diz o padre, veio a Campinas para celebrar as missas e ainda fará mais uma este ano, no Natal. “Já o apelidaram de haitiano branco”, brinca. As crianças da comunidade estão ensaiando uma música em crioulo para cantar no coro e está prevista uma festa haitiana onde eles vão mostrar a cultura do Haiti. “A integração com eles se deu pela missa, que fez a comunidade se abrir para eles. Agora o povo do bairro os conhece.”

O padre André acredita que falta política voltada para os imigrantes em todo o mundo. “Eles são vítimas vulneráveis. Mas com ou sem política a igreja vai continuar ajudando. Não estamos fazendo nada de extraordinário, apenas não fico esperando que nenhuma política faça.”

Fernando Del Grossi, empresário: "É uma questão de pensar o que você pode fazer para ajudar. Se ninguém se importar, ninguém faz nada"     Foto: Martinho Caires

Vontade de ajudar

O empresário Fernando Augusto Del Grossi, de 51 anos, decidiu investir no treinamento e contratação do haitiano Jean Rick como padeiro, para trabalhar em sua boulangerie, aberta há três meses no Cambuí. “Foi uma experiência importante também na minha vida. Não é uma questão de pensar no que você vai ganhar com isso, mas é pensar o que você pode fazer para ajudar. Se ninguém se importar, ninguém faz nada”, diz Del Grossi.

O engenheiro de alimentos estava ainda finalizando as obras da Boulangerie Adélia quando um morador do bairro o procurou. O psiquiatra, que preferiu não se identificar, falou que podia apresentar um grupo de haitianos que precisava de emprego, para o qual ele e sua mulher prestavam alguns auxílios, como dar aula de português. Del Grossi aceitou conhecer o grupo, fez mais de seis entrevistas e escolheu um candidato para a função de padeiro que precisava. Investiu no treinamento especial feito com um profissional francês sobre técnicas francesas de panificação e fermentação natural. “Ele nunca havia trabalhado com panificação, mas vi potencial no Jean e não me arrependi. Eu acho que é uma prática que todo empresário deveria experimentar, porque você pode dar dignidade aos refugiados que precisam, além de sair de sua zona de conforto”, sugere Del Grossi, que diz se sentir orgulhoso de poder ajudar.

Jean fez o curso de padeiro de um mês e foi contratado por Fernando Del Grossi na Adélia Boulangerie      Foto: Martinho Caires

A história de Jean

Jean Rick dava aula de Ciências Sociais no Haiti. Aos 29 anos, foi um dos integrantes da família escolhido para buscar emprego em outro país para garantir a subsistência de todos. Um irmão na Islândia, outro no Chile e mais um no Brasil fazem o mesmo e enviam seus rendimentos à família de cerca de 14 pessoas no Haiti, entre eles uma filha de Jean.

O terremoto que destruiu o Haiti ocorreu há seis anos, mas o país ainda não se reconstruiu e falta emprego para a população. Em 2015, um grande contingente de haitianos tentou entrar no Brasil por Rio Branco, no Acre, e Jean era um deles. Passou antes pela República Dominicana, Panamá, Equador e Peru. Quando entrou no Brasil, ficou três dias sem comida. “Tinha apenas água. Foi muito difícil”, conta Jean sem muita vontade de contar. Quando a família enviou dinheiro, ele conseguiu seguir para São Paulo e depois, Campinas. Em abril de 2015 chegou à cidade.

Por intermédio da Prefeitura, conseguiu um emprego para fazer recapeamento. “Melhorou, mas tudo ainda é difícil, documentação, pagar aluguel.” No Jardim Florence I recebeu a visita do padre André Luiz Bordignon, da Paróquia Jesus Cristo Libertador, na casa onde morava com a comunidade haitiana. O psiquiatra que o indicou para a boulangerie prestava serviços na paróquia. Hoje contratado como padeiro, Jean faz planos de ir para a Islândia e, um dia, voltar ao Haiti, porque sente saudade da família e de sua filha de 7 anos. Ele ainda mora com os amigos haitianos e diz que agradece muito a todos que o ajudaram, como o padre e o patrão.

Yosbel Diaz: "É difícil deixar sua cultura, sua vida, mas eu me apaixonei. Algo me dizia que eu precisava construir minha família"    Foto: Martinho Caires

A história de Yosbel

Ele era lutador de luta Greco-romana em Cuba na sua adolescência. Corria 25 km por dia e fazia treinamento intensivo. Mas, aos 16 anos, sua condição de filho único o fez mudar. “Eu vi em casa um ovo na geladeira, só açúcar e água, então decidi ajudar minha mãe. Vê-la sofrer me fez mudar de vida. Comecei a trabalhar e estudar”, lembra Yosbel Asen Diaz. Fez curso de eletrônica e depois de hotelaria e turismo, onde há os melhores empregos do mercado de trabalho do país.

“Cuba é uma ilha muito linda e o turismo é importante fonte de recurso. Tive liberdade de escolher minha profissão”, diz Yosbel. Aos 30 anos, mais uma vez uma mulher o fez tomar outra decisão importante em sua vida. O cubano conheceu a brasileira Vivian dos Santos Queiroz, que viajava a trabalho. “Ela me hipnotizou”, brinca. “É difícil deixar sua cultura, sua vida, mas eu me apaixonei. Algo me dizia que eu precisava construir minha família. E agora ela está grávida”, diz sorrindo.

Yosbel afirma ter sido bem recebido no Brasil por todos. No Departamento de Cidadania da Prefeitura de Campinas ele busca apoio para conseguir um emprego. Também faz aulas de português pelo programa da Fundação Municipal para Educação Comunitária (Fumec), onde convive com imigrantes de Gana, Paquistão, Tunísia, Egito, Marrocos, Síria, Nigéria e Senegal. Lá ouve histórias que o faz ter certeza de que tem uma situação privilegiada, porque muitos deles passam por dificuldades que comovem o cubano.

Chaza Alturkmani e Suhib Zinou: “Às vezes, quando fico pensando nisso, tenho saudade. Aqui tudo é diferente. Mas nós agradecemos a todos que nos ajudaram"     Foto: Martinho Caires

A história de Suhib e Chaza

A síria Chaza Alturkmani é economista e tinha, na Síria, uma empresa de turismo. Seu marido, Suhib Zinou, de 60 anos, também era empresário, dono de uma empresa que fabricava elevadores. Os três filhos estudavam na cidade onde moravam, Alepo, a segunda maior do país depois da capital, Damasco. O filho cursava engenharia elétrica e uma das filhas já era médica. Mas a guerra acabou com tudo isso e a família se viu obrigada a sair do país deixando tudo pra trás.

Escolheram Campinas por indicação de um amigo sírio que já viera antes para a cidade. Apesar de terem conseguido sair com vida e com dinheiro suficiente para a viagem e o hotel no início, a família diz que foram muitas as dificuldades. A maior delas foi a língua. Os filhos superaram esta barreira rapidamente. O filho já ingressou na Unicamp para concluir seu curso universitário, a filha médica trabalha em mais de um hospital em Campinas e região, e a outra estuda. O casal, no entanto, fala da dificuldade em aprender português, apesar de terem aberto um restaurante há dois anos, que teve sucesso e mantém movimento constante.

“Sem trabalho não há vida”, diz Suhid. “E sem o português não dá pra trabalhar em empresa. Por isso abrimos o restaurante. Minha mulher faz aqui o que fazia em casa, e eu cuido do atendimento.” Todos os dias às 5h eles começam o trabalho do restaurante Castelo de Alepo, que abre para o almoço o self-service de comida árabe. Com muito trabalho, dizem eles, não conseguem fazer aulas de português.

“Nossa vida na Síria era muito boa. Os filhos querem ficar aqui, mas nós queremos voltar”, diz Chaza. “Às vezes, quando fico pensando nisso, tenho saudade. Aqui tudo é diferente. Mas nós agradecemos a todos que nos ajudaram. O brasileiro é muito amigável.”

O casal frequenta a mesquita muçulmana do bairro Taquaral e faz encontros com outros sírios na cidade, que são cerca de 20, segundo Chaza. “Eu sei de um sírio que trabalha com pintura, outro tem uma tenda na feira com comida árabe e todos trabalham”, conta Suhib.

Segundo Suhib, o momento que fez a família decidir sair da Síria foi quando caiu uma bomba sobre a universidade, em Alepo, num momento em que o filho estava lá. Suhib tentava falar com o filho e não conseguia. Demorou mais de duas horas até saber que ele estava vivo. No hospital, a filha também começou a conviver com a presença de soldados. Tudo isso os fez sair do país. “Hoje minha casa foi tomada pelo governo. Eles dormem na minha cama de verdade”, lamenta.

Fonte: http://agenciasn.com.br/arquivos/8940

 

Sobre o Observatório das Migrações em São Paulo e as pesquisas da professora Rosana Baeninger no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Demografia da Unicamp, veja também:

Imigração de trabalhadores qualificados para São Paulo aumentou nos últimos anos.

Agência FAPESP (21/11/2016)

Disponível em: http://agencia.fapesp.br/imigracao_de_trabalhadores_qualificados_para_sao_paulo_aumentou_nos_ultimos_anos/24334/

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Equidade de gênero no Brasil: uma revolução inacabada?

O artigo “Equidade de gênero no Brasil: uma revolução inacabada?”, elaborado por Maria Coleta Oliveira, Joice Melo Vieira e Glaucia Marcondes integrou o encarte especial no Le Monde Diplomatique Brasil, edição de abril de 2016.
O encarte foi realizado pela Oxfam Brasil junto com o Le Monde Diplomatique Brasil em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e remete a pesquisas sobre Trajetórias das Desigualdades no Brasil nos últimos 50 anos.

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Equidade de gênero no Brasil: uma revolução inacabada?

POR MARIA COLETA OLIVEIRA, JOICE MELO VIEIRA E GLAUCIA MARCONDES*

Ao longo do século XX, as mulheres brasileiras acumularam importantes conquistas na vida pública e privada: conquistaram o direito ao voto; deixaram de depender da autorização do pai ou do marido para trabalhar; ocuparam espaço nas instituições de ensino em todos os níveis; enfrentaram os preconceitos e as dificuldades decorrentes de um casamento desfeito; contraceptivos eficazes ampliaram suas possibilidades de decidir quando e quantos filhos ter. Se o protagonismo das mulheres é visivelmente crescente, as responsabilidades que recaem sobre elas igualmente se multiplicam.

No âmbito privado, a maioria absoluta da população brasileira já não vive em domicílios com famílias formadas por casal com filhos. Dados censitários revelam que, em 1970, cerca de 67% da população vivia nesse tipo de arranjo domiciliar, caindo para 48,3% em 2010. Os arranjos monoparentais, em grande medida originados de rupturas conjugais e encabeçados por mulheres, aumentaram sua
presença. O último Censo revelou que mais de um terço dos domicílios tinha mulheres como responsáveis, com ou sem cônjuge, com ou sem filhos. O crescimento da expectativa de vida, o aumento das separações conjugais e a ampliação dos planos femininos para além do casamento e da maternidade ajudam a explicar essa nova realidade.

Nova realidade que não diz respeito apenas à forma, mas também à dinâmica interna das famílias. O ideal do pai-provedor/mãe-dona de casa é superado especialmente em razão de um estilo de vida fundado no consumo que, para ser atingido, depende cada vez mais dos rendimentos de ao menos dois adultos. O modelo familiar de dupla renda se dissemina com crescente reconhecimento da importância das mulheres como provedoras. No início dos anos 2000, apenas 4,6% dos domicílios compostos por casal com filhos tinham mulheres como provedoras principais. Em 2012, eram 19,4%. Dois fatores combinados contribuem para esse fenômeno: a maior escolarização feminina e a ampliação da inserção das mulheres no mercado de trabalho.
A universalização do ensino fundamental ampliou o acesso à educação. No entanto, nos níveis médio e superior a balança pende em favor das mulheres. Não só as matrículas femininas predominam, como também elas são maioria dos egressos. Já em 2008 as mulheres representavam mais da metade dos estudantes universitários (55%). Nesse mesmo ano, 60% dos concluintes eram do sexo feminino. Em certa medida, esse diferencial ainda se deve à acentuada evasão escolar entre homens adolescentes e jovens. A inserção no mercado de trabalho e a geração de renda, em detrimento da educação formal, seguem como os pilares indissociáveis das expectativas sociais em torno do processo de “fazer-se homem”. Entretanto, acumulam-se evidências que apontam ser o ingresso precoce na vida laboral, sem o investimento na formação escolar, o responsável por uma trajetória mais instável e com menores salários.

A despeito dos significativos ganhos educacionais femininos, a desigualdade de gênero é ainda marcante quando cotejados os níveis salariais e de ocupação segundo a escolaridade. Em parte, a explicação reside no fato de as mulheres estarem relativamente concentradas em áreas do conhecimento e ramos de atividade pouco valorizados. Constituem ampla maioria nas áreas das humanidades e minoria nas exatas e engenharias.

Essa especialização por sexo reflete-se na estrutura do mercado de trabalho. É visível a concentração feminina em atividades econômicas associadas ao universo da reprodução social – educação, saúde e serviços – mais do que à criação e inovação tecnológicas, atividades mais bem remuneradas. Dois possíveis caminhos têm sido apontados para diminuir as discrepâncias ocupacionais e salariais entre os sexos: um sugere maiores incentivos à inserção de mulheres em carreiras hoje predominantemente masculinas; outro propõe a adoção de políticas de valorização salarial das áreas de atuação tipicamente femininas. Embora não mutuamente excludentes, as políticas de promoção da igualdade de gênero tendem a privilegiar o primeiro, que, como efeito perverso, pode acentuar desafios futuros relativos ao provimento de cuidados para uma população que envelhece e tenderá a requerer profissionais exatamente em áreas de pouco reconhecimento e valorização no mercado.

Os indicadores sobre participação feminina no mercado de trabalho são bem ilustrativos. Entre os trabalhadores de 10 anos e mais de idade, as mulheres representam aproximadamente 44% do total da força de trabalho. Em 2012, segundo dados da Pnad, as mulheres com diploma universitário apresentavam taxa de atividade de 80%, enquanto a população feminina total atingia apenas de 50,1%. Am
bas estão bem abaixo das taxas masculinas, que no mesmo ano eram de 89% e 72,6%, respectivamente. A baixa taxa de atividade das mulheres se explica pelo fato de o mercado de trabalho – público ou privado – ser pouco sensível às especificidades do curso de vida feminino. Nas carreiras femininas, muitas vezes a ascensão profissional não é linear. Mesmo que a realidade seja mais diversa, a dinâmica do mercado se mantém avessa às demandas da maternidade, persistindo na ideia do homem provedor. Em consequência, ainda nos tempos atuais, a mulher que se torna mãe pode levar mais tempo para percorrer o mesmo trajeto profissional de um homem.

A articulação entre trabalho e família constitui hoje o grande desafio social. Enquanto a jornada de trabalho feminino tem se aproximado gradualmente da masculina ao longo da última década, essa tendência não se observa em relação ao tempo dispendido com tarefas domésticas. As tensões e contradições da articulação de responsabilidades familiares e laborais femininas têm a ver, como dito anteriormente, com o modo como o mundo do trabalho se organiza, tratando esse desafio como um problema exclusivamente feminino. Pois a César o que é de César… Nesse sentido, políticas que visam à extensão da licença-paternidade são apenas o começo de uma tímida equiparação de direitos e responsabilidades.

Certamente, operou-se uma revolução de costumes sem precedentes no último século, estando hoje as mulheres, de fato, em outro patamar em matéria de educação e trabalho. No entanto, essa revolução permanecerá inacabada enquanto não invadir a intimidade das casas, tornando mais equitativa a divisão de tarefas domésticas e de cuidados entre homens e mulheres. Políticas públicas e corporativas “amigáveis às famílias” – iniciativas que contemplam desde jornadas flexíveis de trabalho a creches, passando pela tolerância de faltas justificadas pela necessidade de acompanhar os filhos em situações de enfermidade ou vida escolar – são apontadas como um novo ideal a ser perseguido. Mas nada disso terá verdadeiramente eficácia enquanto não houver uma profunda mudança cultural de gênero, na qual homens e mulheres se sintam igualmente responsáveis pelo bem-estar familiar, em especial dos filhos.

*MARIA COLETA OLIVEIRA É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE DEMOGRAFIA DA UNICAMP E PESQUISADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO; JOICE MELO VIEIRA É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE DEMOGRAFIA DA UNICAMP E PESQUISADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO; E GLAUCIA MARCONDES É DOUTORA EM DEMOGRAFIA PELA UNICAMP E PESQUISADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO.

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Esses textos foram elaborados por autores que participaram de uma publicação do Centro de Estudos da Metrópole, intitulada Trajetórias das desigualdades, como Brasil Mudou nos últimos 50 anos, organizado por Marta Arretche. Para mais informações, clique AQUI.

 

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O mito da implosão demográfica ameaça os direitos reprodutivos

Os demógrafos brasileiros José Eustáquio Diniz Alves e George Martine irão participar da Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal. O objetivo da Audiência é “instruir a SUG 15, de 2014, que regula a interrupção voluntária da gravidez, dentro das doze primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde”. O evento ocorrerá no dia 24 de setembro, em Brasília.

A apresentação completa está disponível para download clicando na imagem abaixo.

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(A publicação do arquivo no Blog Demografia Unicamp tem expressa autorização de José Eustáquio Diniz Alves).

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Arquivado em Direitos reprodutivos

População produtiva cairá a partir de 2023

Até lá, se a economia não se recuperar, país perderá as últimas vantagens do bônus demográfico, dizem especialistas

Em comparação a outros países, Brasil não tirou proveito da queda da fatia de dependentes, iniciada nos anos 1990

ISABEL VERSIANI

GUSTAVO PATU

DE BRASÍLIA

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Pelas projeções mais recentes e consensuais para o crescimento econômico brasileiro, o país deixará de aproveitar o melhor momento de uma vantagem demográfica única em sua história para acelerar o desenvolvimento.

Com perspectiva de recessão neste ano e recuperação modesta nos próximos, a economia ainda terá de enfrentar, a partir dos anos 2020, a reversão do processo de crescimento da parcela da população em idade produtiva.

Chegará ao fim o período, iniciado nos anos 1990, de queda da proporção de dependentes –crianças e idosos– na população, que cria maior folga potencial para a poupança e recursos para educação, saúde e infraestrutura.

Diversos países conseguiram aproveitar o chamado bônus demográfico para dar um salto de patamar. É o caso do Japão e de nações europeias, que alcançaram o status de economia desenvolvida a partir dessa janela.

LIMITES

O Brasil, apesar de avanços observados na redução da pobreza e na inclusão educacional nas últimas décadas, não sofreu uma transformação equivalente até o momento –e avanços adicionais serão limitados pelo fraco desempenho esperado da economia no momento demográfico mais favorável.

O FMI previu, neste mês, que o Brasil crescerá, até o fim desta década, apenas 1,8% ao ano, em média –a metade da década anterior. Economistas de mercado consultados pelo BC também preveem um crescimento médio nesse patamar até 2019.

Nesse cenário, o mercado de trabalho deve manter a marcha lenta, limitando na prática o aumento da parcela da população que sustentaria o crescimento.

“Se a economia não se recuperar, no restante da década o Brasil vai perder as últimas vantagens trazidas pela janela de oportunidade demográfica”, diz o professor e especialista em estudos demográficos José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

ENVELHECIMENTO

A partir de 2023, a população produtiva deverá começar a cair no Brasil, refletindo o envelhecimento médio como resultado da maior longevidade.

Com isso, a contribuição da demografia para o crescimento passará a cair ano a ano, pressionando os gastos com saúde e aposentadorias.

“O país vai ter que rodar com custos maiores, sendo ainda um país de renda média”, diz Jorge Arbache, professor de economia na Universidade de Brasília.

Ele vê como inevitáveis mudanças na Previdência e no SUS, além de um aumento da carga tributária.

Diante das restrições fiscais crescentes, a avaliação é que o país terá ainda mais dificuldade para superar o seu principal problema de competitividade: a baixa qualidade da educação.

O Brasil não conseguiu progredir de forma significativa nos rankings internacionais nas últimas décadas, mesmo com a redução relativa do número de alunos. E o número de jovens que não estudam nem trabalham continua expressivo –em 2013, havia 10 milhões de pessoas de 15 a 29 anos nessa situação, segundo dados do IBGE.

“Se foi assim no período de vacas gordas, dificilmente vai mudar no período de vacas magras”, diz José Eustáquio.

FONTE: Folha de S. Paulo. 26 abr. 2015, Mecado, p. B5.

Link para acesso: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/217338-populacao-produtiva-caira-a-partir-de-2023.shtml

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Perfil dos refugiados no Brasil

Dados sobre refúgio no Brasil
Uma análise estatística (2010-2013)

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O Brasil é signatário dos principais tratados internacionais de direitos humanos e é parte na Convenção das Nações Unidas de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados e no seu Protocolo de 1967. O país promulgou, em julho de 1997, a sua lei de refúgio nº 9.474/97, contemplando os principais instrumentos regionais e internacionais sobre o tema. A lei adota a definição ampliada de refugiado estabelecida na Declaração de Cartagena de 1984, que considera a “violação generalizada de direitos humanos” como uma das causas de reconhecimento da condição de refugiado. Em maio de 2002, o país ratificou a Convenção das Nações Unidas de 1954 sobre o Estatuto dos Apátridas e, posteriormente, em outubro de 2007, a Convenção da ONU de 1961 para Redução dos Casos de Apatridia. A lei brasileira de refúgio criou o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), um órgão interministerial presidido pelo Ministério da Justiça e que lida com a elegibilidade e integração local de refugiados. A lei garante documentos básicos aos refugiados, incluindo carteira de identidade e de trabalho, além de garantir a liberdade de movimento no território nacional e outros direitos civis.

De acordo com o CONARE, o Brasil possui, atualmente, 5.208 refugiados reconhecidos de 80 nacionalidades distintas (34% são mulheres) incluindo refugiados reassentados. Os principais grupos são compostos por nacionais oriundos da Colômbia, Angola, República Democrática do Congo (RDC) e Síria. Este perfil está mudando gradualmente, após a adoção da cláusula de cessação aplicável aos refugiados angolanos e liberianos em 2012.

Com base em dados fornecidos pelo CONARE entre 2010 e 2013, o ACNUR elaborou uma análise estatística que demonstra o fortalecimento continuado da proteção aos refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil1. O número total de pedidos de refúgio aumentou mais de 800% durante tal período (de 566 em 2010 para 5256 até dezembro de 2013). A maioria dos solicitantes de refúgio vem da Ásia, África e América do Sul.

Este perfil sofreu alterações ao longo dos anos com o aumento das solicitações feitas por sírios e a diminuição de solicitações realizadas por colombianos. Além disso, entre as principais nacionalidades de solicitações de refúgio, estão Bangladesh, Senegal e Guiné Bissau. Isto revela a intensificação dos fluxos mistos, já que a maioria dos solicitantes destes países são, na realidade, migrantes, que deixaram seus países por causas econômicas, embora haja uma minoria de refugiados. Em 2013, todas as importantes crises humanitárias impactaram diretamente os mecanismos de refúgio no Brasil, com expressivos números de solicitantes da Síria, Líbano e RDC chegando ao país.

Em termos de gênero e idade, dados oficiais demonstram que percentual de mulheres diminuiu de 20% (em 2010 e 2011) para 10% (em 2013) e a maioria dos solicitantes de refúgio é formada por adultos entre 18 e 30 anos (90%). Apenas 3% dos pedidos são apresentados por menores de 18 anos, dos quais 34% correspondem a crianças entre 0 e 5 anos.

Para implementar seu mandato, que é o de prestar proteção internacional e promover soluções duradouras para refugiados e outras populações de interesse, o ACNUR conta no Brasil com um escritório em Brasília e uma unidade de campo recém inaugurada em São Paulo. A agência trabalha em estreita parceria com o governo (nos âmbitos federal, municipal e estadual), com o setor privado e organizações da sociedade civil que operam em regiões estratégicas do país. Os projetos do ACNUR que prestam assistência humanitária aos solicitantes de refúgio e refugiados são implementados por ONGs parceiras localizadas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde se encontram as populações de refugiados mais expressivas, assim como no Rio Grande do Sul, Amazonas e Distrito Federal.

A análise dos dados constantes nos ofícios enviados pelo CONARE ao ACNUR entre 2010 e 2012 demonstra que as solicitações de refúgio no Brasil são, em sua maioria, apresentadas em São Paulo (45% do total de solicitações no período), seguida pelo Rio de Janeiro (20%) e Distrito Federal (14%). Em 2013, São Paulo permaneceu o Estado com maior número de solicitações (23%), seguido pelo Paraná (20,7%), Distrito Federal (14%) e Rio Grande do Sul (9,3%).

Em termos regionais, a maioria das solicitações (37%) realizadas no Brasil em 2013 foi apresentada na Região Sul, seguida pela Região Sudeste (29,35%) e Centro- Oeste (21,5%). Todas as solicitações de refúgio apresentadas no Brasil são analisadas e decididas pelo CONARE, que é composto por representantes dos ministérios da Justiça, das Relações Exteriores, da Educação, do Trabalho e da Saúde, além de representantes da Polícia Federal e de organizações da sociedade civil que trabalham com o tema dos refugiados. O ACNUR é parte do comitê, apenas com direito a voz – assim como a Defensoria Pública da União.

A análise dos dados também revela uma melhora no desempenho e produtividade do CONARE. O número de solicitações processadas pelo comitê aumentou aproximadamente 800% em um período de quatro anos, saindo de 317 em 2010 para 465 em 2011, 896 em 2012 e 5769 em 2013 – o maior número anual de casos decididos pelo Comitê até a presente data. A taxa de elegibilidade de 2013 foi a mais alta desde 2010. Em 2010, esta taxa era de 37%. Após um decréscimo em 2011, quando atingiu 19%, a taxa voltou a subir, chegando a 45% em 2013.

Em média, o CONARE tem reconhecido solicitações de 22 diferentes países por ano durante o período analisado. Ademais, é importante sublinhar que, em 2013, 100% das solicitações apresentadas por nacionais da Síria foram reconhecidas, refletindo a sensibilidade do comitê frente às recentes crises humanitárias no mundo. Até o fim de 2013, havia 1.493 casos ainda em tramitação no CONARE, sendo 199 da RDC, 134 do Senegal, 271 da Colômbia e 114 da Nigéria. Dentre o total de solicitações pendentes, 82 foram submetidas em 2011, 256 em 2012 e 1.155 de 2013.

Comprometido com o princípio da solidariedade internacional, o Brasil tem exercido papel fundamental no desenvolvimento e implementação do Programa de Reassentamento Solidário na América Latina, como parte do Plano de Ação do México. Desde 2002, o Brasil reassentou mais de 591 refugiados, sobretudo colombianos, dentre os quais 46,5% são mulheres. Além do ambiente de proteção favorável oferecido aos refugiados, o Brasil tem apoiado consistentemente as iniciativas do ACNUR em promover a proteção internacional dos refugiados em fóruns internacionais e no âmbito regional. Em dezembro de 2010, celebrando o 60º aniversário do ACNUR, o país sediou um encontro governamental onde 18 países da América Latina se comprometeram a se engajar mais para a proteção das vítimas de deslocamentos forçados e apátridas na região.

O compromisso foi estabelecido na “Declaração de Brasília para Proteção de Refugiados e Apátridas nas Américas”. Ao final de 2012, o Brasil liderou dentro do MERCOSUL, em âmbito ministerial, a adoção da “Declaração de Princípios Internacionais de Proteção dos Refugiados”. O documento reafirma o princípio da não-devolução (non-refoulement), a importância da reunificação familiar e a priorização das abordagens de idade, gênero e diversidade. A Declaração também enfatiza a importância de se evitar políticas migratórias restritivas e a necessidade de estabelecer mecanismos de cooperação adicionais e novas formas complementares de proteção humanitária. Em termos de apoio financeiro às respostas humanitárias ao redor do mundo, o Brasil se consolidou como o principal doador do ACNUR entre os países emergentes, com US$ 3,5 milhões doados em 2010, US$ 3,7 milhões em 2011, US$ 3,6 milhões em 2012 e US$ 1,0 milhão em 2013.

1 Estes dados não incluem informações relacionadas aos nacionais do Haiti que chegaram ao Brasil desde o terremoto de 2010. Apesar de solicitarem o reconhecimento da condição de refugiado ao entrarem no território nacional, seus pedidos foram encaminhados ao Conselho Nacional de Imigração (CNIg), que emitiu vistos de residência permanente por razões humanitárias. No total, mais de 7.000 haitianos já receberam esse tipo de visto.

Fonte original: http://www.acnur.org/t3/portugues/recursos/estatisticas/dados-sobre-refugio-no-brasil/

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