Arquivo da tag: Dafne Sponchiado

Sob câmeras e intramuros: a venda ilusória da segurança, por Dafne Sponchiado

Há uma falácia no que diz respeito ao surgimento dos condomínios e loteamentos horizontais fechados no Brasil, que indica que seu surgimento estaria associado aos processos de crescimento de grandes centros urbanos no país e do aumento da violência urbana, geralmente dada como consequência direta do primeiro aspecto. Essa perspectiva é falaciosa na medida em que credita o surgimento deste tipo de desenho à escolha dos moradores, sujeitos do aumento da violência, e descarta a participação fundamental de outros atores, tais como o poder público e o mercado imobiliário.

Em Campinas, localizada no interior do estado de São Paulo, os primeiros loteamentos fechados surgiram no final da década de 1970, mas foi somente a partir dos anos 1990 que a cidade teve parte da sua paisagem urbana modificada de forma mais evidente com o crescimento deste modelo de urbanização. A região onde se deu a expansão destes loteamentos corresponde a um eixo ao norte da rodovia Anhanguera e ao longo da rodovia Dom Pedro I, abrangendo parte considerável do território do município, onde havia reserva de terras para expansão imobiliária.

Recentemente, o registro de casos de roubo dentro do condomínio Alphaville Campinas levou a mudanças nos procedimentos de segurança realizados na entrada do loteamento, sendo instaurada a revista obrigatória de todos os veículos, inclusive de moradores. A prática, bastante usual na abordagem dos prestadores de serviço e de alguns visitantes, é também vista corriqueiramente nas periferias das grandes cidades brasileiras. Os moradores de baixa renda são cotidianamente constrangidos pela ação da Polícia Militar, de modo que as medidas preventivas de segurança adotadas pelo loteamento não são novidade para grande parte da população brasileira.

Foto: Carlos Sousa Ramos/AAN – Correio Popular

entradacondominio-7450916

Segurança vistoria o porta-mala (à direita) de carro na entrada do Alphaville enquanto outros veículos aguardam na fila

Temos aqui, entretanto, um impasse. Os loteamentos, surgidos para conter a violência urbana e isolar os moradores detentores dos maiores rendimentos, parecem ter favorecido o incremento dos índices de violência. Tais como foram tomadas nas últimas décadas, muitas das escolhas que permitiram que houvesse a emergência deste novo padrão de ocupação do solo também fizeram com que a segregação socioespacial nas grandes cidades somente se aprofundasse, elevando a desigualdade no acesso e no direito à cidade como um todo.

O caso recente do Alphaville foi tema de uma reportagem da imprensa local [ver referência abaixo], na qual os moradores tiveram espaço para declarar sua insatisfação com os novos procedimentos de segurança, bem como com a atuação da Polícia Militar. A instituição, por sua vez, declarou que os recorrentes assaltos levaram à necessidade de melhoria da segurança e a análise das possíveis falhas do sistema de segurança do loteamento.

O destaque dado na imprensa ao descontentamento dos moradores de Alphaville traz, em seu seio, a não discussão a respeito da segregação e de como as cidades (não somente as brasileiras) foram pensadas no último século para abrigar um determinado tipo de indivíduo, e não outro. Segundo a reportagem, um dos moradores declarou que:

Tem amigo meu que disse que enquanto estiver nesse sistema, nunca mais vem na minha casa. Essa coisa de abrir um porta-mala é de policial civil, policial militar. Nem um juiz vai decidir isso. Cadê o direito de ir e vir e de privacidade?

Pouco se diz na imprensa, entretanto, que uma cidade altamente segregada como Campinas apresenta inúmeros casos de abordagem policial violenta, ou mesmo de chacinas nos bairros localizados no outro extremo geográfico – e social – do município. É preciso pensar o quanto as políticas públicas, em diversos âmbitos e esferas, privilegiou o surgimento de uma forma urbana que leva à exclusão e ao distanciamento de uma parcela importante da população, uma vez que restringe o acesso ao espaço legal para morar e viver àqueles que podem se adequar às condições impostas pelo mercado e pelo poder público.

Assim, Campinas evidencia as contradições entre o que Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo (USP), chama de cidade legal por um lado e cidade ilegal, por outro. A cidade legal, dos ricos e a cidade ilegal, dos pobres, constituem espaços sociais diversos, muitas vezes – apesar de nem sempre – distantes geograficamente, mas sempre categoricamente antagônicos.

 

Dafne Sponchiado é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: dafne.sponchiado@gmail.com

Saiba mais: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2017/01/campinas_e_rmc/466436-moradores-sao-revistados-na-entrada-de-condominio-de-luxo.html

 

Deixe um comentário

Arquivado em Segregação espacial da população

XVI Seminário da Pós-Graduação em Demografia da Unicamp

Seminário

PROGRAMAÇÃO

PRIMEIRO DIA

Segunda-feira, 15 de dezembro de 2014.

Local: Sala da Congregação – IFCH.

 

Mesa de abertura – Manhã – das 9:30h às 10h.

Roberto do Carmo – Chefe do Departamento de Demografia

Estela Maria da Cunha – Coordenadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó

Joice Melo Vieira – Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Demografia

 

Manhã – das 10h às 12h.

Sessão 1: (Re)distribuição espacial da população, mudanças ambientais e desastres socialmente construídos: novos desafios teórico-metodológicos para a Demografia.

Moderador: Álvaro D’Antona

Expositores Título do trabalho
1. Carla Craice da Silva Movimento e descontinuidades: o processo de redistribuição populacional em Lucas do Rio Verde (MT)
2. Fausto M. F. Del Guercio Efeitos da Composição do Domicílio no Consumo de Energia Elétrica: os casos de Lucas do Rio Verde, Santarém e Altamira
3. Heloisa Corrêa Pereira Distribuição e mobilidade da população em Unidades de Conservação de uso Sustentável na Amazônia Brasileira: o caso da reserva extrativista Auati-paraná.
4. Tathiane M. Anazawa Entre urgências e emergências: a falta de água como um desastre socialmente construído na Região Metropolitana de Campinas
5. Francine Modesto Dinâmica populacional e mudanças ambientais: riscos e adaptação no Litoral Sul de São Paulo

 

Tarde – das 14h às 16h.

Sessão 2: Metropolização, mobilidade espacial da população e autossegregação das elites: conexões entre passado e presente na dinâmica demográfica.

Moderador: José Marcos Pinto da Cunha

Expositores Título do trabalho
1. Guilherme M. Ortega A estruturação da Região Metropolitana de Campinas: Desenvolvimento econômico e características sociodemográficas
2. Késia Anastácio A dimensão demográfica no processo de metropolização: Uma análise da estruturação do arranjo-urbano-regional paulista – 1991/2010.
3. Dafne Sponchiado Pra dentro das portarias, por detrás das cancelas: características e condicionantes da autossegregação das elites em Campinas
4. Aparecido S. da Cunha A migração na Região Metropolitana de São Paulo e os espaços da mobilidade intrametropolitana – 1980/2010

 

Tarde – das 16h às 18h.

Sessão 3: Urbanização e saúde da população, arranjos urbanos-rurais e fluxos migratórios nacionais e internacionais: novas questões e tendências?

Moderadora: Roberta Peres

Expositores Título do trabalho
1. Natália Demétrio O Estado de São Paulo e seus rurais: uma análise a partir dos arranjos urbanos-rurais regionais
2. Giovana G. Pereira E quando o Inverno não chega? O fluxo migratório de piauienses para a cidade de Matão/SP
3. Igor Cavallini Johansen Urbanização, Justiça Ambiental e Saúde da população: o caso das doenças respiratórias em Campinas no ano de 2014
4. Jonatha Rodrigo Lira Análise da migração internacional na Amazônia brasileira: espacialização, composição sócio-demográfica e políticas bilaterais no século XXI
5. Luís Felipe Aires O Haiti é Aqui: presença brasileira no Haiti e imigração haitiana em Santa Catarina

 

SEGUNDO DIA

Terça-feira, 16 de dezembro de 2014.

Local: Sala da Congregação – IFCH.

 

Manhã – das 10h às 12h.

Sessão 4: Gênero, saúde reprodutiva, juventude e educação: processos socialmente construídos e dinâmica da população no Brasil

Moderadora: Marta Azevedo

Expositores Título do trabalho
1. Encina Díaz Gonzalez O déficit/A discrepância entre a fecundidade desejada e a fecundidade materializada a partir da perspectiva das relações de gênero
2. Vaneska Taciana Vitti Fecundidade e Saúde Reprodutiva do Povo Kamaiurá
3. Rosario Aparicio López Violência de gênero e etnicidade: considerações sociodemográficas e culturais da violência de gênero em casais indígenas mexicanos
4. Chandeline Jean Baptiste Transição para a vida adulta e migração internacional: o caso dos jovens haitianos na cidade de São Paulo
5. Flávia Vitor Longo Tal mãe, tal filho? Uma análise da mobilidade educacional intergeracional no Brasil

 

Tarde – das 14h às 16h.

Sessão 5: Estado conjugal, migração, família e saúde da população: múltiplas facetas de processos demográficos complexos

Moderadora: Luciana C. Alves

Expositores Título do trabalho
1. Graziela Barnabé O aumento da união consensual no Estado de São Paulo a partir dos anos 80: uma análise sociodemográfica e jurídico documental
2. Katiani Tatie Shishito Quem você quer ser quando crescer? Entre tempos e espaços – passagens pela migração e vida adulta
3. Carmen Siqueira Família, envelhecimento e solidariedade
4. Anaíza Garcia Pereira Condição de Vida e Saúde dos Idosos Mais Idosos no Brasil e Grandes Regiões: Uma Análise dos Anos de 1998 e 2008
5. Reginaldo P. de Oliveira Envelhecimento populacional, desigualdades sociais e saúde

 

Tarde – das 16h às 18h.

Sessão 6: Dinâmica demográfica urbana: desafios do estudo do passado e do presente 

Moderador: Everton Lima

Expositores Título do trabalho
1. Katia Izaias As transformações da dinâmica demográfica campineira, nos tempos da República Velha – 1890-1930
2. Ednelson Mariano Dota Mobilidade residencial intrametropolitana na RM de Campinas: uma abordagem a partir da distribuição espacial dos migrantes
3. Sérgio Avellar Mobilidade interna de Mestres e Doutores Brasileiros
4. Anderson Kazuo Nakano A Produção Sociodemográfica da Densidade Urbana: Efeitos da Mobilidade Residencial e da Dinâmica Intraurbana
5. Cimar Aparicio Pobreza urbana e políticas de habitação social.

Estão todos convidados!

Deixe um comentário

Arquivado em Eventos Demografia, Seminários, UNICAMP

OFICINA: Mobilidade Populacional e Segregação Socioespacial na América Latina e Brasil: avanços, lacunas e nexos

 

capa_inscrições

programa_mobilidade_populacional _09 e 10 dezembro

 

1 comentário

Arquivado em Eventos Demografia