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Elza Berquó, um depoimento. Por Débora Thomé.

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Por Débora Thomé [1]

A professora Elza Berquó não almoça. Ela prefere tomar um bom café da manhã, comer um sanduíche e depois, uma vez em casa no fim da tarde, almoçar. Trabalha o tempo todo. Faz musculação e hidroginástica duas vezes por semana. Casou-se duas vezes. Do primeiro marido, se separou. Do segundo, ficou viúva. Por opção, não teve filhas ou filhos. Mas a viuvez e a idade mais avançada a aproximaram de Gaia, fêmea beagle tricolor que lhe dá ternura e carinho todos os dias. Passou a vida inteira estudando fecundidade, as mulheres, a violência, os jovens. Escolheu ser demógrafa e ter, como filhos, suas pesquisas e seus alunos. Mantém o trabalho, as idas regulares ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e às reuniões do conselho do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo), em Campinas (SP), as leituras, os passeios e o cinema. “Você viu O quarto de Jack?”, me pergunta, sobre um filme recém-lançado. Acompanhou a votação do impeachment na Câmara, que ocorrera dias antes, e ficou chocada com o nível e a qualidade das declarações dos deputados, majoritariamente homens brancos.

A entrevista com Elza Berquó foi realizada em São Paulo, em agosto de 2016, e transcrita a seguir na forma de depoimento em primeira pessoa.

***

Do lado materno, faço parte dos 25 milhões de descendentes de italianos que vivem no Brasil. Meu avô, Salvatori, veio de Gênova para cumprir um castigo imposto pela família. Enquanto estudava para ser padre, apaixonou-se pela filha de criação da casa. Acabou sendo mandado para o Brasil e foi para Minas Gerais. Deixando o latim de lado, e usando os recursos que trouxe, abriu uma oficina mecânica, que logo se tornaria a maior da cidade de Uberaba (MG). Virou maçom. Minha avó, caçula de uma família de sete irmãos, os Abbate, veio da região rural de Bolonha, na grande leva que, a partir da metade do século XIX, migrava à procura de trabalho. Foram colonos em Conquista (MG). Minha avó estava de casamento marcado na colônia em que vivia, quando por acaso conheceu meu avô, no dia em que foi à cidade para comprar o vestido de noiva. Foi amor à primeira vista, e acabaram se casando. Tiveram apenas uma filha, minha mãe, o que na época era bastante raro, dada a alta fecundidade que prevalecia no país. Soube mais tarde que eles praticavam o coito interrompido, muito usado no país de origem.

Do lado paterno, os Berquó vieram com a corte portuguesa. Cresci na religião católica, indo à missa todos os domingos e comungando com frequência. Na adolescência, passei por várias crises quanto à existência de Deus, que me acompanharam até a universidade. Eu me graduei em matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1947. Tive excelentes professores, com quem aprendi muito sobre análise e geometria. Quando conheci a geometria de Lobachevsky[2], segundo a qual, ao contrário da euclidiana, duas retas paralelas se encontram em algum lugar, a noção de infinito, de religiosa, passou a ser apenas científica. Tornei-me agnóstica, o que sou até hoje.

Meu primeiro emprego foi como assistente do Departamento de Bioestatística, dirigido pelo médico-matemático Pedro Egydio de Oliveira Carvalho, na então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Vim direto de Campinas, a despeito das preocupações familiares. Conhecia poucas pessoas, era uma vida muito solitária.

Fui morar na casa de uns parentes distantes, com a condição de que, todas as tardes, voltasse do trabalho para casa. Com poucos recursos, lanchava na própria faculdade. Certo dia, cheguei mais cedo e descobri que a dona do apartamento organizava carteado a dinheiro, no período da tarde, em meio a uma fumaceira danada. Eu sempre fui apaixonada por jogos. Ela me pediu sigilo quanto ao fato; prometi, desde que um dia pudesse jogar. Em uma tarde, perdi meu salário inteiro, sem me sobrar dinheiro sequer para o bonde. Com muita vergonha, fui até o Dr. Pedro Egydio pedir um empréstimo. Ele me fez prometer que não jogaria novamente — o que, evidentemente, não cumpri.

Os primeiros passos na estatística eram como caminhar em um mundo novo. Os modelos probabilísticos, em contraste com o determinismo matemático, alargavam e arejavam o pensamento. Particularmente marcante foi um curso de especialização em inferência estatística, ministrado na Faculdade de Filosofia da USP pelo professor convidado William Meadow. Baseava-se no livro recém-publicado do estatístico sueco Harald Cramér (1893-1985),[3] disponível apenas em inglês. Com a ajuda do dr. Pedro Egydio, digerimos as quase seiscentas páginas do que se tornou nossa bíblia. Em diversas ocasiões, folheio Cramér e saudosamente afago as anotações deixadas pelo dr. Egydio, na tentativa de, às vezes com sucesso, propor alternativas para demonstrações de algumas fórmulas.

Em 1951, aos 26 anos, saltei o doutorado e, após concurso de títulos e provas, tornei-me livre-docente em bioestatística pela USP.

Com bolsa concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), fiz, no período 1956-1957, especialização em bioestatística na Escola de Saúde Pública e Medicina Administrativa da Universidade Columbia, em Nova York, situada fora do campus, na rua 168. Na saúde pública, três professores marcaram meu aprendizado, não só pela competência, mas também pela humanidade: William Fertig, Agnes Burger e Ruth Gold. Combinava esse curso com outro sobre probabilidades, à noite, no campus, na rua 116, onde brilhava o talento de Herbert Robbins. Durante o verão, fiz ainda um curso sobre teoria da amostragem, na Universidade de Michigan, em Ann Arbor.

Durante minha permanência nos Estados Unidos, enfrentei algumas dificuldades, principalmente na vida universitária, ligadas a diferenças ou choques de cultura: atenção e cuidado com o outro interpretados como invasão de privacidade (já crime naquela época); trocas de anotações de aulas perdidas entre colegas de curso veementemente negadas, dada a competitividade no futuro.

Pude apreciar também o que representava no imaginário das jovens estudantes americanas as noites das sextas-feiras, quando aconteciam, ou não podiam deixar de acontecer, os dates e os double-dates.

No cadastro da universidade, o item religião não podia aceitar a alternativa “sem religião”. Contra minha vontade, registrei que havia sido educada na religião católica. A partir daí, a senhoria do apartamento onde morávamos vários latino-americanos em Nova York não me poupava nenhum domingo, batendo com força na porta de meu quarto para que eu não perdesse a missa. Como não tinha nenhum interesse em ir à missa, aproveitava o tempo para conhecer os vários museus da cidade.

Em Nova York, senti a beleza da neve pela primeira vez e, com o passar do tempo, fui perdendo a vontade de voltar ao Brasil. Contudo, esse era o meu compromisso.

Na volta, em 1958, pude verificar algumas mudanças no conteúdo e na didática das aulas, parte delas fruto de uma correspondência robusta mantida com o dr. Pedro, conforme promessa feita a ele antes de viajar. Com entusiasmo, conversamos sobre novos planos para o departamento. A convivência foi muito curta, devido à sua morte prematura, aos 48 anos. A orfandade doeu muito fundo.

Diante do infortúnio, o sentimento entre os colegas do departamento e também da diretoria da faculdade era de que deveríamos estar preparados para concorrer à cátedra, quando o concurso fosse aberto. Por decisão unânime, caberia a mim a difícil missão.

Em correspondência com Agnes Burger e Ruth Gold, pensamos que uma tese apropriada deveria considerar a aplicação de um método estatístico relativamente novo a problemas de saúde pública. Concordei, embarquei e passei dois meses com elas em Nova York. Encontramos nos trabalhos do húngaro Abraham Wald (1902-1950),[4] professor do Departamento de Estatística Matemática da própria Columbia, a possibilidade desejada, ou seja, trabalhar com sua análise estatística sequencial. Esse método se diferencia dos testes de hipóteses consagrados, no sentido de que uma hipótese pode ser aceita, rejeitada, ou a decisão adiada por falta de evidências suficientes para decidir. Com isso, o tamanho da amostra deixa de ser fixado a priori e torna-se uma variável aleatória. Decidiu-se, em colaboração com o Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Columbia, utilizar dados de um estudo já concluído, que visava comparar dois medicamentos para tratamento de prematuros.

Assim nasceu minha tese para o concurso de cátedra da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, realizado em 1960: Sobre a análise sequencial para testes de hipóteses relativas a proporções.

Ao assumir a coordenação do departamento, este já contava com as disciplinas bioestatística e estatística vital, bem como com o Centro de Classificação de Enfermidade e Doenças, apoiado pela Opas, cujo propósito era manter atualizadas normas estabelecidas. Senti logo a necessidade de criar formalmente uma área de estatística matemática e fortalecê-la com a presença de jovens assistentes, com formação em matemática. Eram os ecos das leituras de Cramér. Fui então ao reitor, e eminente médico, Antonio Barros de Ulhôa Cintra, para expor a situação da não área na universidade e a necessidade de dar-lhe vida. Foi a inspiração necessária para que Cintra, em consultoria com a Fundação Ford, de Nova York, sugerisse um convite ao prof. Jerzy Neyman, diretor do Departamento de Estatística da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Um dos mais renomados estatísticos-matemáticos do mundo, o húngaro Neyman chega em São Paulo em 1961, com o objetivo de propor a estrutura de um instituto de estatística na USP. Na época, ele desenvolvia modelos estocásticos para estudo de epidemias e prestava grande contribuição para o campo da astronomia.

Uma vez que o campus da USP estava em fase final de construção, Cintra achou por bem que Neyman trabalhasse no hotel, oferecendo-lhe, para tanto, uma suíte extra. A pedido de Cintra, eu deveria ser uma espécie de chefe de cerimônia. Juntos, marcamos entrevistas com pessoas de diversos setores: Departamento Estadual de Estatística, Faculdade de Economia, Faculdade de Filosofia, Instituto Biológico, Instituto Agronômico, Faculdade de Medicina, além da de Matemática. O grupo se encontrava nesse mesmo hotel para as reuniões de trabalho. Ao longo das reuniões, Neyman tomava vitaminas de todas as cores, e nem eu escapei das coloridinhas. Após vários debates e trocas de opiniões, Neyman já tinha o material necessário para seu relatório final. Chegou o dia da entrega do documento ao reitor. Ambos fizeram questão de selar o compromisso na reitoria da USP.

Como prédio ainda em obras, não tendo sequer vidros nas janelas, subimos as escadas debaixo de chuva até a sala do reitor, onde havia somente uma cadeira. Nessas condições, Neyman disse: “Here is my report”.[5] Nada mais foi debatido ou falado. Após a partida de Neyman, o reitor convocou uma reunião com todas as pessoas que estiveram envolvidas na preparação do relatório. Diga-se de passagem que Neyman, ao nominar alguns professores ou pesquisadores com alguma chance de, após uma permanência em Berkeley, assumir a direção do futuro instituto, descontentou muita gente. Isso deu margem a uma acalorada discussão, com enorme disputa de poder. Em meio ao desentendimento, Cintra deu um murro na mesa: “Vocês não querem um instituto de estatística, vocês querem um clube!”. Esse murro ressoou por vários anos, e um instituto de estatística, autônomo, nunca foi criado. Em 1970, a USP o incorporou no Instituto de Matemática e Estatística (IME).

A etapa seguinte foi encaminhar os jovens assistentes formados em matemática, recém-contratados, a fazerem doutorado nos Estados Unidos, inclusive em Berkeley.

No Brasil, repercutia o acalorado debate, iniciado em meados dos anos 1960 pelos países ditos mais desenvolvidos. A preocupação residia no rápido crescimento populacional no bloco dos países mais pobres. Começava em vários países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, a primeira fase da transição demográfica, caracterizada pelo declínio da mortalidade e pela manutenção de altos níveis de fecundidade. A redução da mortalidade, iniciada nos anos 1950, resultou de esforços concentrados de organismos internacionais, em torno de uma visão de prevenção e erradicação de doenças e controle de epidemias.

Nos anos 1960, contava-se apenas com a herança dos trabalhos de Giorgio Mortara, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseados nos censos de 1940 e 1950, conduzidos sob sua inspiração e responsabilidade. O atraso, ocorrido durante o regime militar, na divulgação dos resultados do recenseamento de 1960 dificultou a análise da tendência da fecundidade no Brasil.

Surpreendidos pelo neomalthusianismo que se instalava no país, e contando com muito poucas pesquisas para esclarecer tendências e condicionantes das mudanças de comportamento da população no campo da reprodução, o departamento inicia em setembro de 1965 a pesquisa sobre “Reprodução humana no distrito de São Paulo”. Seus objetivos eram investigar os antecedentes reprodutivos da população do distrito da capital e acompanhar, durante um determinado período, o comportamento da mulher residente em São Paulo com relação à reprodução. A pesquisa permitiu observar o início do declínio no número médio de filhos por mulher, a partir de 1965, o que seria mais tarde confirmado com a publicação, em 1978, dos resultados do censo de 1960. Ou seja, o país iniciou a segunda fase da transição demográfica entre 1960 e 1970.

Da perspectiva institucional,o país dispunha,na época, do Centro Brasileiro de Estudos Populacionais, na Escola Nacional de Estatística do IBGE, criada em 1952. Contava também, desde 1966, com o Setor de Demografia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e o Banco do Nordeste completavam o quadro de órgãos públicos que incluíam elementos de demografia para nortear suas políticas.

No âmbito da América Latina, contava-se com o Centro Latino- americano y Caribeño de Demografía (Celade), criado no Chile, em 1957, pela Divisão de População da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Nesse contexto, ganha força a ideia da criação, junto ao Departamento de Estatística Aplicada, de um centro de ensino e pesquisa em demografia. Contando com o apoio da Opas, cria-se em 1966 o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip), único de cunho acadêmico no país. Esse processo se dá em plena vigência do regime militar, que até então havia baixado quatro Atos Institucionais, dois dos quais em 1966.

Aliás, na questão do aumento populacional, os militares estavam divididos: para alguns, o crescimento populacional seria bem-vindo, dada a extensão territorial do país; para outros, o crescimento populacional poderia reprimir o desenvolvimento. Mas, de modo geral, eles faziam vistas grossas ao controle da natalidade, promovido de fora para dentro do país.

O convênio entre a Faculdade de Higiene e Saúde Pública e a Opas previa recursos por cinco anos, incluindo salários e bolsas, para implantação do Cedip. Após esse período, os valores deveriam ser garantidos pela própria faculdade. Em primeiro lugar, contaríamos com uma consultoria de alto nível na área de demografia. Isso se concretizou com a visita, por um mês, da eminente demógrafa Irene Tauber, da Universidade Princeton. Com ela foram planejados currículos para os futuros cursos de pós-graduação em demografia. Desse plano, fazia parte também a escolha de universidades estrangeiras de notório saber em estudos populacionais. Todo esse esforço compartilhado para construir ferramentas capazes de expor as marcas das desigualdades de direitos, sociais, econômicos e étnico-raciais, na população brasileira se deu como que dentro de uma muralha, que nunca chegou a ser invadida pelas Forças Armadas, como ocorreu em outras unidades da USP.

De volta ao Brasil, os bolsistas estavam cheios de planos para o futuro do Cedip e da demografia.

Em 13 de dezembro de 1968,o ministro da Justiça, Luís Antônioda Gama e Silva, assina o Ato Institucional nº 5, o mais violento e autoritário de todos. Desrespeita a Constituição de 24 de janeiro de 1967, suspende garantias constitucionais, cerceia as liberdades civis e direitos individuais.

Entre todas, aquela foi a noite mais longa e mais escura. Ao ouvir A voz do Brasil, fiquei sabendo que o AI-5 havia interrompido carreiras de eminentes professores e pesquisadores da USP. Dentre eles, muitos colegas e amigos. Do Cedip, Paul Singer e eu fomos aposentados compulsoriamente.

Viemos para o Cebrap, criado em maio de 1969, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso, com apoio da Fundação Ford. Cândido Procópio Ferreira de Camargo dividiu, durante algum tempo, a coordenação do Cedip e a presidência do Cebrap.

Eu morava num local distante, e tudo estava sendo muito controlado. Mas felizmente pude esconder em minha casa vários jovens que optaram pela via da luta armada. Apesar de essa nunca ter sido minha opção, acreditava que era meu dever ajudá-los. Eles eram uns cinco ou seis em esquema de revezamento, mas em comum tinham o fato de estar sempre lendo. As turmas iam mudando, mas toda hora havia alguns lá em casa. Depois de uns dias de leituras sem fim, começavam a ficar entediados com o cativeiro. Certa vez, um deles se ofereceu para fazer algum serviço na casa, fosse conserto ou pintura. Acabaram, então, se ocupando em pintar com óleo queimado as lajotas do piso. Todos os que passaram por lá acabaram mortos. Em casa ficaram para sempre as marcas de suas emoções.

No Cebrap, com o espírito ainda vagando pelo departamento, pudemos dar prosseguimento, com os colegas do Cedip, aos trabalhos em curso. A pesquisa “Reprodução humana no distrito de São Paulo”, iniciada em 1965, produziu inúmeros trabalhos, reunidos no livro A fecundidade em São Paulo: características demográficas, biológicas e socioeconômicas, que veio a lume em 1977, pela Editora Brasileira de Ciências-Cebrap.

Em 1974, por um descuido de um jovem pesquisador do Cebrap, um pacote foi levado ao correio para ser despachado. No guichê, o funcionário notou que o pacote estava úmido (possivelmente por estar guardado havia muito tempo, em lugar insalubre). Isso nos levou todos à Operação Bandeirante (Oban), em que foi cumprido todo o ritual de terror, ou seja, fomos encapuzados. Sabendo que iria ser interrogada, optei por me apresentar como uma mulher rica e chique, uma autêntica anticomunista. Fazia parte do disfarce uma bolsa grande, bastante sofisticada, que foi aberta e revistada. O interrogatório foi bem longo, uma vez que recentemente eu havia voltado da Conferência Mundial de População, sediada em Bucareste, na Romênia, país comunista. Após várias horas, constatei que o militar que me interrogava estava interessado no porta-níqueis encontrado em minha bolsa, uma vez que seu filho era colecionador de moedas estrangeiras.

Para realizar essa viagem e todas as outras, que foram muitas, durante o período de chumbo, era preciso uma licença especial de Brasília, e o conselho que circulava na época era não embarcar para fora e desembarcar no Brasil sem a presença de um parente ou amigo que pudesse garantir que você de fato viajou e voltou.

Dois anos depois, na madrugada de 4 de setembro, a sede do Cebrap, na rua Bahia, foi atingida por uma bomba. Um grupo que se intitulava anticomunista assumiu a autoria do atentado. O centro de estudos acabara de publicar o livro São Paulo 1975: crescimento e pobreza, com apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Esses dois acontecimentos abalaram muito o Cebrap. Foi quando tivemos a certeza de que precisávamos ter acesso a alguém do alto escalão do Exército, para explicar que não éramos um centro de “terroristas”, e sim um lugar de pesquisa, com trabalhos publicados em diversos países. O Cebrap sempre foi uma instituição aberta ao contraditório com um éthos da pluralidade muito forte.

Foi quando me lembrei que havia um general na minha família. Em contato com Olavo Berquó, meu primo, advogado em Goiânia, expliquei a situação, pedindo-lhe que intermediasse uma conversa com o general Bragança, meu parente. Fomos atendidos, Procópio e eu, mas só pudemos conversar com o militar em Goiás Velho, para não dar na vista. Na casa modesta de uma tetravó de meu pai, contamos nossa história enquanto galinhas soltas ciscavam no chão da sala. Na despedida, ela me entregou um envelope em que guardava recortes de jornal e fotos minhas.

A beleza da demografia como disciplina é lançar mão de recursos matemáticos e probabilísticos para o convívio da riqueza das ciências humanas. Ela busca entender o âmbito das desigualdades em suas variadas faces, sendo propositiva no caminho das mudanças. O meu principal interesse é formar pesquisadores, transmitir conhecimento, buscar recursos para que isso possa acontecer. Até hoje tenho inquietação pelo conhecimento e a crença na potência transformadora que ele tem.

Cada vez mais vejo que as decisões políticas são tomadas levando em conta a demografia. Não dá mais para políticos e empresários ignorarem nossa dinâmica populacional em suas decisões. Agora falta nós, demógrafos, falarmos uma linguagem mais amigável, ou seja, descer alguns degraus de forma que a população compreenda. As fronteiras entre as disciplinas devem ser quebradas.

Gostaria de chamar atenção para o fato de que, como pesquisadora, cometi erros e enganos. A gente aprende muito com os erros. Por isso é fundamental ter um grupo para nos contestar — os próprios alunos são importantes críticos no aperfeiçoamento do trabalho. Eles fazem perguntas que não nos permitimos, ou que não nos ocorre. A convivência com equipes mais jovens é muito salutar, inclusive porque se trata de uma geração mais ousada, com menos hierarquias. Abre-se mais o diálogo, surgem novas maneiras de pensar, metodologias diferentes. Compartir é um aspecto fundamental no trabalho de pesquisa. E, para a ciência avançar, é sempre importante aparecer alguém que se insurja, que vá inovar, que proponha um novo olhar.

Olhando para o futuro, sinto que ainda falta trabalhar mais extensivamente como enfoque das gerações. Voltar no tempo o quanto for possível, observando as coortes. Que geração marcou mais uma determinada mudança? É isso que andamos buscando para diversos temas. Particularmente, estudar a reprodução tardia por gerações, para ver quando começou o processo de postergar a maternidade e seus determinantes.

Também vejo como um campo promissor para pesquisa a questão do aumento da prematuridade em face do crescimento de partos por cesárea; da vida estressante nos centros urbanos, da luta insistente para conquistar ou manter patamares de empoderamento; viver a gestação em ambientes altamente poluídos; carregar uma gravidez não desejada, muitas vezes solitária.

Ainda não conseguimos avançar o necessário nos direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos, a todo momento ameaçados por visões retrógadas e conservadoras.

O conceito de família vem passando por mudanças profundas na sociedade, que se afastam de um ranço conservador. Relações afetivas dão conta do verdadeiro caleidoscópio que as abrange. Cada vez mais os instrumentos de coleta de informações precisariam ser sensíveis a essa riqueza de possibilidades das formas de viver.

Continuar a ouvir os jovens é prioritário para compreender porque precisam correr tantos riscos para se sentirem vivos.

Uma das pesquisas de que mais me orgulho foi sobre mulheres negras, conduzida nos anos 1990. A intenção era trabalhar a saúde da população negra com foco na mulher negra. Notei que, quando eram publicados editais para bolsas de pesquisa, as mulheres negras em geral perdiam na competição. Decidi então abrir um edital só para mulheres negras para, com bolsas de pesquisa, financiadas pela Fundação MacArthur, trabalharem no primeiro estudo de ação afirmativa no Brasil. Na primeira edição do programa foram selecionadas quatro pesquisadoras negras, todas graduadas em ciências sociais, que durante dois anos adquiriram conhecimentos, treinamento para pesquisa de campo e produziram o estudo Eu, mulher negra. Com essa base, elas fizeram seus doutorados. O sucesso alcançado no programa levou a Fundação MacArthur a financiar uma segunda edição. Dessa vez, a seleção era feita novamente só entre pessoas negras, que já tivessem feito mestrado em ciências sociais. Ao final, elas fizeram seus doutorados, e algumas vieram a ocupar cargos docentes em universidades e/ou em organismos internacionais.

Com a anistia, fui convidada a voltar para a USP. Com a reforma universitária, a disciplina de estatística matemática migrou do Departamento de Bioestatísica da Faculdade de Saúde Pública para o Instituto de Matemática e Estatística (IME). Havia duas possibilidades: voltar para a Saúde Pública ou ir para o IME. Tomada a decisão, procurei o prof. Oswaldo Forattini, diretor da Faculdade de Saúde Pública. Mesmo com o seu voto de minerva a meu favor, dado que 50% da congregação votou contra minha volta, decidi não retornar e continuar no Cebrap.

Em 1982, o prof. José Aristodemo Pinotti, reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), me convidou para montar um núcleo de estudos de população. Com muita alegria, aceitei o convite de um visionário que sentia a necessidade da demografia em uma universidade jovem. A única condição que impus foi não assumir os encargos burocráticos da universidade. O Nepo a princípio foi instalado em uma casa no distrito de Barão Geraldo, dividindo o espaço com o Centro de Políticas Públicas. Foram comigo, inicialmente, Maria Coleta de Oliveira e as saudosas Maria Isabel Baltar da Rocha e Neide Patarra. Da prata da casa, vieram o saudoso sociólogo Daniel Hogan e o médico Aníbal Faúndes. O núcleo aos poucos ganhou um espaço novo no campus, e desde então suas atividades de pesquisa, estudos e consultorias são sobejamente reconhecidas.

***

[1] Este texto integrará o livro co­memorativo dos quarenta anos da Associação Brasileira de Estudos Po­pulacionais (Abep), em preparação. Débora Thomé é jornalista, mestre em ciência política pelo Iesp-UFRJ, doutoranda em ciência política pela UFF, e autora de O Bolsa Família e a social-democracia (Editora FGV, 2013).

[2] Nikolai Lobachevsky, matemá­ tico russo do século XIX.

[3] Cramér, Harold. Mathematical Methods of Statistics. Princeton: Prin­ ceton University Press, 1946.

[4] Wald, Abraham. “Sequential Tests of Statistical Hypotheses”. The Annals of Mathematical Statistics, v. 16, n. 2, pp. 117­186, 1945.

[5] “Organizational Outline of the Proposed Institute of Statistics at the University of São Paulo”, 1961.

O PDF do texto para download está disponível AQUI.

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Seminário Estruturas e Linguagens de Exclusão: Brasil 2015

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13 de Novembro

Seminário

Estruturas e Linguagens de Exclusão: Brasil 2015, organizado pela Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), em parceria com Cebrap, NEPO/UNICAMP e apoio do UNFPA.

HORÁRIO: das 9h às 18h, no Auditório do Cebrap, em São Paulo , à Rua Morgado de Mateus, 615 – Vila Mariana, tel: (11) 5574-0399.

Neste seminário, as exposições e debates que serão realizados têm por objetivo revisar, aprofundar e discutir estruturas e políticas de Governo que, ao serem criadas desde o início dos anos 80, tinham por objetivo superar e eliminar desigualdades de raça/etnias e de gênero no país. Apesar das mudanças institucionais, de linguagens, normativas e exigibilidade de direitos, o país assiste à manutenção de patamares de desigualdade, expressos em evidências produzidas em pesquisas e também demarcadas nas demandas institucionais e das ruas. Visíveis em variados cenários como das instituições e políticas no campo da Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, ou daquelas associadas à Segurança Pública, os contornos da Violência Institucional são expressões de vulnerabilidades e ausência de direitos no presente , assim como de contínuas e contundentes desigualdades futuras. Venha assistir e debater com Márcia Lima, Marta Azevedo, Sonia Correa, Jacqueline Pintanguy, Jose Mauricio Arruti, Richarlls Martins, Elza Berquó, Adriana Vianna, Emanuelle Goes, dentre outros expressivos nomes do debate contemporâneo.

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Com baixa taxa de natalidade, dinamarqueses são estimulados a viajar para engravidar

A Dinamarca é um dos países com melhor qualidade de vida do planeta. Mas eles têm um problema social: o envelhecimento crescente da população. Motivo: há pelo menos 27 anos a taxa de natalidade do país é extremamente baixa.

Para ver o tamanho do problema, uma agência de turismo resolveu fazer uma exótica promoção: casais dinamarqueses que viajarem de férias ao exterior e comprovarem que, durante o período, engravidaram, eles concorrem a três anos de ajuda em produtos para o bebê. O mote da campanha é: “Faça pela Dinamarca”.

A campanha foi baseada numa pesquisa informando que durante as férias ou feriados os dinamarqueses têm uma vida sexual mais ativa. Veja o vídeo, filmado em Paris, que promove a turismo da natalidade:

Fonte: Catraca Livre.

——-

Observando os dados da ONU (World Population Prospescts: The 2012 Revision), encontramos as seguintes tendências:

TBN_Dinamarca

NOTA: *Taxa Bruta de Natalidade: Número de nascimentos ao longo de um determinado período dividido pelos anos-pessoas vividos pela população durante esse período. A taxa é expressa como o número de nascimentos por 1.000 habitantes.

FONTE: Population Division of the Department of Economic and Social Affairs of the United Nations Secretariat, World Population Prospects: The 2012 Revisionhttp://esa.un.org/unpd/wpp/index.htm

 

TEF por idade_Dinamarca

NOTA: * Taxa de Fecundidade Total (TFT): O número médio de filhos que uma coorte hipotética de mulheres teria ao final do seu período reprodutivo se fossem sujeitas no decurso toda a sua vida às taxas de fecundidade de um determinado período. A taxa é expressa como filhos por mulher.

FONTE: Population Division of the Department of Economic and Social Affairs of the United Nations Secretariat, World Population Prospects: The 2012 Revisionhttp://esa.un.org/unpd/wpp/index.htm

 

TEF por idade_Dinamarca

NOTA: * Taxas Específicas de Fecundidade por Idade: Número de nascimentos realizados por mulheres em uma determinada faixa etária, dividido pelo número de mulheres nessa mesma faixa etária. As faixas etárias utilizadas são: 15-19, 20-24, 25-29, 30-34, 35-39, 40-44 e 45-49 anos.

FONTE: Population Division of the Department of Economic and Social Affairs of the United Nations Secretariat, World Population Prospects: The 2012 Revisionhttp://esa.un.org/unpd/wpp/index.htm

 

COMENTÁRIOS

Analisando as tendências de natalidade e fecundidade da Dinamarca para o período entre 1950 e 2010, contata-se que, de fato, a Taxa Bruta de Natalidade caiu ao longo do período (apesar de já ter passado por momentos em que ela era ainda menor que 2010: ver os períodos 1980-1985 e 1985-1990).  A Taxa de Fecundidade Total, por sua vez, indica que o número de filhos por mulher também caiu no período analisado, de 2,55 para 1,85. Todavia, ao observar a tendência a partir de 1980-1985, o que se constata é uma recuperação progressiva, em uma dinâmica ascendente. A observação das Taxas Específicas de Fecundidade por idade, por sua vez, nos permite compreender o fenômeno que está por detrás desta tendência de queda na natalidade e fecundidade: a postergação das gravidezes para momentos cada vez mais tarde na vida da mulher. Observa-se no gráfico a queda dos números de nascimentos de mulheres com idades entre 15-19 anos e 20-24 anos, enquanto para os grupos etários 30-34 anos e 35-39 anos houve crescimentos expressivos no período analisado.

O que se nota é uma tendência comum não apenas aos países europeus ocidentais, mas, cada vez mais, também aos latino-americanos. Um exemplo é o Brasil.

Segundo Berquó (2001), no Brasil a TFT era de 7,7 filhos por mulher no ano de 1903. De acordo com os dados da RIPSA (2009), esse número declinou lentamente até atingir 5,8 em 1970, sendo que daí em diante a queda foi brusca, chegando a 2,5 em 1991 e ficando abaixo do nível de reposição (2,1 filhos por mulher) a partir do ano de 2003. Apesar dos diferenciais existentes entre regiões, grupos de renda e de idade, a TFT apresentou tendência de declínio generalizada ao longo das décadas mais recentes, conforme descrevem Berquó e Cavenaghi (2006).

A redução da fecundidade durante a segunda metade do Século XX está associada a transformações sociais e econômicas, tais como industrialização, urbanização, mudanças no papel social da mulher e na família, disponibilidade e difusão do uso de métodos anticoncepcionais, dentre outros (GOLDANI, 2001; BRYANT, 2007). Conforme salientam Potter et al. (2010), a queda da fecundidade no Brasil ocorreu primeiramente e de maneira mais intensa nas regiões onde os indicadores de nível de escolaridade das mulheres eram maiores.

 

REFERÊNCIAS

BERQUÓ, E. Demographic evolution of the Brazilian population during the twentieth century. In: HOGAN, D. (Org.) Population change in Brazil: contemporary perspectives. Campinas: NEPO/UNICAMP, 2001.

BERQUÓ, E.; CAVENAGHI, S. M. Fecundidade em declínio: Breve nota sobre a redução no número médio de filhos por mulher no Brasil. Novos Estudos CEBRAP, v. 74, p. 11-15, 2006.

BRYANT, J. Theories of Fertility Decline and the Evidence from Development Indicators. Population and Development Review, v. 33, n. 1, p. 101-127, mar. 2007.

GOLDANI, A. M. Rethinking Brazilian Fertility Decline. In: Anais, Brazilian Session da XXIV General Population Conference IUSSP, Salvador, Bahia, 2001.

POTTER, J. E.; SCHMERTMANN, C. P.; ASSUNÇÃO, R. M.; CAVENAGHI, S. M. Mapping the Timing, Pace, and Scale of the Fertility Transition in Brazil. Population And Development Review 36 (2): 283 – 307 (Jun 2010).

RIPSA (Rede Interagencial de Informações para a Saúde). Indicadores e Dados Básicos – Brasil – 2009 (IDB-2009). Disponível em: <http://goo.gl/74iSY6&gt;. Acesso em 10 de março de 2014.

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Nepo passa a se chamar Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó”

De acordo com a Resolução GR-3, de 21 de janeiro de 2014, publicada no Diário Oficial (disponível AQUI), atribuiu-se nova denominação ao Núcleo de Estudos de População (NEPO) da Universidade Estadual de Campinas. Assim, este passa a ser denominado Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó”.
Dentre os procedimentos para tal mudança encontra-se a carta escrita pela atual coordenadora do Núcleo, Estela Maria Garcia Pinto da Cunha (disponível AQUI), a partir da qual se reconhece “a trajetória acadêmica e relevante contribuição da Dra. Elza Salvatori Berquó para a Demografia, tanto no âmbito nacional quanto internacional, e especialmente pela sua condição de idealizadora e fundadora do Nepo” e, desse modo, aclama-se a necessidade de reconhecimento e gratidão à Dra. Elza mediante tal homenagem.
Nós, alunos da Demografia da Unicamp, também expressamos nossa alegria com esta justa homenagem. Temos imenso orgulho de pertencer a este Núcleo.
Apresentamos, abaixo, mais informações sobre a trajetória intelectual de Elza Berquó, retiradas do seu Currículo Lattes (disponível AQUI).

Elza Salvatori Berquó

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Professora Titular aposentada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Pós-Graduada em Bioestatística pela Columbia University. Título de Pesquisador Emérito do CNPq-2013, Membro da Ordem do Mérito Científico Classe Grã-Cruz, 1998, e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências, 2000. Membro fundador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP, em 1969, é atualmente a Coordenadora da Área de População e Sociedade. Fundou ainda o Núcleo de Estudos da População, NEPO da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, tendo sido sua coordenadora entre 1982 e 1994. Ainda hoje atua nesse Núcleo da Unicamp como Membro dos Conselhos Técnico Científico e Superior. Presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, CNPD, de 1995 a 2002. Membro das Comissões Consultivas dos Censos Demográficos dos Anos 1991, 2000 e 2010, da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Membro Fundador da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, ABEP, 1977. Membro da International Union for the Scientific Study of Population, IUSSP, do Population Association of Americas, PAA e da Associación Latinoamericana de Población, ALAP. Sua participação em estudos populacionais no Brasil contribuiu para abrir novos enfoques e paradigmas na demografia. Tem realizado muitos projetos de pesquisa, alguns deles tratando de problemas de saúde pública, de grande atualidade e de não menor gravidade, como é o caso do HIV/AIDS. Entre as pesquisas que coordenou nos últimos anos pode-se destacar a Pesquisa Nacional sobre Reprodução Humana , realizada com apoio do International Development Reserarch Centre (IDRC), o Population Council, e a FINEP, realizada em 1973-1978. Estudo da Fecundidade dos Estados Brasileiros em 1970 , realizada em 1974-1975, e o Estudo Multicêntrico da Morbi-Mortalidade Feminina no Brasil , realizado em 1995-1999, ambas com apoio da Fundação Ford do Brasil, “Saúde Reprodutiva da Mulher Negra, realizada em 1991-1993, e o Programa para Formação de Pesquisadoras Negras , realizado em1994-1996, patrocinados pela Fundação MacArthur, “Comportamento sexual da população brasileira e percepções do HIV/Aids”, edições de 1998 e 2005, e a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher PNDS 2006, que contaram com o apoio do Ministério da Saúde. Nos últimos anos, apresentou grande número de palestras e conferências científicas no Brasil e no exterior. Possui inúmeras publicações, entre livros e artigos, nas áreas de saúde reprodutiva, gênero, sexualidade e juventude.
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Veja também outros posts do Blog Demografia Unicamp sobre Elza Berquó, clicando AQUI.

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Elza Berquó e Cylon Gonçalves recebem comenda do CNPq

02/10/2013

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A demógrafa Elza Salvatori Berquó e o físico Cylon Eudóxio Tricot Gonçalves da Silva receberão no dia 23 de outubro, em Brasília, o título de pesquisadores eméritos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A comenda é concedida anualmente como um reconhecimento ao renome, junto à comunidade científica, de pesquisadores que prestaram relevantes contribuições ao Brasil, informou o órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Pioneira da demografia no país, Berquó está no grupo que criou o Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp e o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Ela também atuou como docente pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Cylon Gonçalves da Silva, por sua vez, é professor emérito da Unicamp, foi secretário nacional de programas e políticas de pesquisa e desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia e um dos fundadores do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Atuou como docente no Instituto de Física da Unicamp de 1974 a 1998.

Além de Berquó e Cylon, outros quatro pesquisadores serão contemplados este ano com a comenda. São eles: a química Yvonne Primerano Mascarenhas e o casal de biólogos Ruth e Victor Nussenzweig, da USP; e o antropólogo e historiador Roque de Barros Laraia, da Universidade de Brasília (UNB).

Por e-mail, os pesquisadores da Unicamp expressaram a importância da distinção. Elza Berquó afirmou que recebe “com orgulho e humildade este prêmio do CNPq em reconhecimento a uma longa jornada voltada para a pesquisa, com rigor científico, comprometida com um conhecimento humanizado”. A demógrafa coordena, atualmente, o Núcleo de População do Cebrap, além de desenvolver diversas outras atividades em instituições como a Unicamp, Secretaria Especial de Políticas de Promoção e Igualdade Racial do Governo Federal; Fundação Carlos Chagas, entre outras.

Cylon Gonçalves manifestou surpresa e gratidão com o título concedido pelo CNPq. “Sinto-me honrado e lisonjeado com minha indicação para pesquisador emérito do CNPq. Foi uma surpresa muito agradável receber esta notícia. Não sou pessoa de dar muita importância a honrarias, porém o título de professor emérito da Unicamp e, agora, a concessão deste título pelo CNPq significam muito para mim, como reconhecimento de uma trajetória profissional. Na verdade, como estou um pouco afastado da vida universitária há algum tempo, a surpresa foi duplamente agradável: pelo honraria em si e pela percepção de que ainda sou lembrado.”

O físico salientou ainda, a partir de um caso do início de sua carreira como pesquisador, o relevo que o órgão de fomento exerce para a ciência brasileira. “Como a maior parte dos pesquisadores brasileiros, tenho um relacionamento com o CNPq que abrange praticamente toda minha carreira, começando em setembro de 1969 quando recebi uma bolsa de doutorado no exterior. Naquela época, o CNPq não costumava conceder muitas bolsas para o exterior, tanto que eu havia ido para Berkeley com umas pequenas economias pessoais em abril daquele ano”, conta.

“Diria que fui ‘na cara e na coragem’ e com a perfeita inconsciência que um jovem de 22 anos poderia enfrentar. É muito bom ser jovem. Meu bom desempenho acadêmico no primeiro trimestre que passei lá (fui aprovado no exame de qualificação para o doutorado logo após minha chegada) deve ter sido decisivo para conseguir a bolsa, sem a qual teria sido muito difícil continuar nos Estados Unidos”, lembra-se.

O título de pesquisador emérito foi instituído em 2005 pelo CNPq (confira a lista de todos os agraciados até 2012). A entrega da distinção deste ano acontece às 16h00 na sede do órgão (Conjunto B – Blocos A, B, C e D, Lago Sul – Brasília). Leia mais sobre Elza Berquó em A curva de sobreviventes e Cylon Gonçalves em O mais novo desafio de Cylon Gonçalves da Silva.

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Elza Berquó: Brasil está desperdiçando seu bônus demográfico

  • Demógrafa estuda desencanto de jovens e a gravidez depois dos 30
  • Para uma das maiores demógrafas brasileiras, o país não aproveita a oportunidade única e histórica de educar melhor crianças e jovens para fazer frente aos desafios que virão no futuro com o envelhecimento populacional cada vez mais acelerado
Mariana Timóteo da Costa (Email)
Publicado: 14/09/13 – 19h16
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Aos 82 anos, a demógrafa Elza Berquó, na sede do Cebrap, aonde vai trabalhar diariamente
SÃO PAULO Villanova Artigas projetou um dos mais belos edifícios de São Paulo, o da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Pouco depois, já na ditadura militar, em 1967, o arquiteto construiu a casa de uma das mais respeitadas intelectuais do país: a demógrafa Elza Berquó. Nascida em 1931, em Minas Gerais, é na casa de Artigas, localizada na Zona Sul de São Paulo, que Elza ainda vive, sozinha. Ela não teve filhos e ficou viúva há seis anos, mas cuida de quatro jardins, recebe amigos, lê e assiste ao seu programa de TV preferido: a série inglesa “Downtown Abbey”. Elza divide seu tempo entre a hidroginástica, a casa e o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), onde trabalha de segunda a sexta, “sem hora para sair”. A organização, modelo de pesquisa demográfica na América Latina, foi fundada por ela e outros dissidentes afastados da USP pelo AI-5, como Fernando Henrique Cardoso.
— Tive milhares de convites para me exilar, mas eu preferi ficar no Brasil e fazer uma resistência intelectual, o que tivemos a oportunidade de fazer no Cebrap. Quando a democracia voltou, estava tão feliz aqui que nunca mais voltei à USP — conta a demógrafa, que ainda fundou, em 1982, o Núcleo de Estudos Populacionais (Nepo), na Unicamp, onde vai pouco, porém é parte ativa do corpo de pesquisadores.
Formada em matemática e bioestatística, com mestrado na USP, Elza foi pioneira em usar dados sobre a população para entender transformações no comportamento e na saúde dos brasileiros. O que faz até hoje ao estudar os jovens e a gravidez depois dos 30 anos.
O GLOBO – O IBGE acaba de divulgar novas projeções que mostram que o Brasil passa por um momento único causado pela queda da fecundidade. Com menos crianças e uma parcela ainda não tão grande de idosos, há proporcionalmente mais pessoas em idade de trabalhar e um número menor de dependentes. Mas isso tem prazo para acabar, já que o envelhecimento populacional acontecerá cada vez mais rápido. Estamos aproveitando este bônus demográfico?
 
ELZA – Não, porque, à medida em que você tem menos jovens, deveria ter melhores escolas, mas o jovem está sendo mal aproveitado. Se por um lado a demografia ajuda o emprego no Brasil, porque há muita gente ainda em idade economicamente ativa para preencher os postos de trabalho, é um paradoxo pensar que uma pessoa não necessariamente precisa se educar melhor para ter um salário satisfatório. É um desafio. Não à toa estamos começando a importar engenheiro, médico. E o que fazer quando a população envelhecer?
Ao mesmo tempo, não se pode pensar que todo o mundo deva fazer uma faculdade. Um carpinteiro precisa ter o mesmo respeito e a mesma chance de vida digna do que um engenheiro. Investir em ensino profissionalizante pode ser uma boa resposta para isso.
E essa população de idosos que precisará cada vez mais ser sustentada?
 
A tendência é que as aposentadorias ocorram mais tarde, temos que jogar pra frente a idade de parar. É logico que aí pode haver uma reação do jovem, reclamando que o idoso está tomando o lugar dele. Trata-se de um conflito, mas que precisa ser encarado.
As mulheres vêm tendo cada vez menos filhos. A senhora estuda muito a gravidez depois dos 30. A que conclusões tem chegado?
 
De 2000 a 2010, o peso relativo da fecundidade das mulheres de 30 anos e mais na fecundidade total passou de 28% para 31%, o que é muita coisa, e isso impacta no mercado de trabalho, na indústria gigantesca da reprodução assistida, na adoção. É um fenômeno fascinante, que abre uma série de possibilidades de pesquisa. Estou ainda no início.
A senhora foi ativa na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) do Cairo, em 1994, considerada um marco. Quase 20 anos depois, o que falta avançar?
 
Antes do Cairo tivemos a conferência de 1984 no México, onde foi decretado o crescimento zero da população. Ou seja, a ONU financiou o que pôde para conter o número de nascimentos. Mas o que as mulheres fizeram nesse intervalo? Foram se articulando e mudaram completamente o eixo do Cairo, uma conferência histórica onde deixamos de lado aquela ideia de que país pobre é país onde a mulher tem mais filhos.
No Brasil, há avanços claros como o casamento entre pessoas do mesmo sexo — mas é uma pena que isso não tenha sido aprovado pelo Congresso, e sim pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A pílula do dia seguinte felizmente pode ser usada. Mas a questão do aborto continua, e nisso o Brasil não avançou em nada porque não são todos os hospitais e médicos que interrompem a gravidez mesmo quando a lei permite. E a classe política trata a questão vergonhosamente, com medo de afastar eleitores. Enquanto isso milhares de mulheres morrem por abortos mal feitos.
A senhora insiste há anos que o Brasil atrela pouco a educação à saúde. A pílula do dia seguinte não seria melhor usada se a população feminina fosse mais bem informada sobre ela?
 
Muita gente não toma porque não conhece. E assim chegamos ao projeto “Dar voz aos jovens”, minha menina dos olhos. (O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e a Fundação Carlos Chagas fazem, desde o ano passado, oficinas de vídeos provocativos com alunos de escolas públicas de São Paulo, em que eles narram experiências e dilemas sexuais). O que a gente vem verificando é que os adolescentes desconhecem coisas básicas da própria fisiologia da reprodução porque não a aprendem em lugar nenhum. Os cursos de pedagogia não ensinam sexualidade, você acredita? Aí ninguém sabe lidar com o adolescente gay, transgênero, com gravidez na adolescência.

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Guerreira gentil e generosa

Perfil de Elza Salvatori Berquó publicado na Ciência Hoje 305 (julho/ 2013).

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VERA RITA DA COSTA
Ciência Hoje/SP

 

Quando se trata de opinar sobre temas relacionados à demografia – fecundidade, saúde reprodutiva, sexualidade, envelhecimento da população e questões de gênero e raça no país –, o nome de Elza Berquó nos vem de imediato. A conceituada especialista foi pioneira ao introduzir a demografia ao meio acadêmico brasileiro e ao usar esse campo do conhecimento como ferramenta para tentar compreender parte das transformações da sociedade.
Mineira de Guaxupé, Elza nasceu em 1931. Desde pequena acostumou-se a mudanças: seu pai era funcionário federal dos Correios, o que obrigava a família a trocar de endereço com frequência. O encantamento pela matemática começou ainda na infância e a acompanharia até a vida adulta: escolheu a disciplina como carreira universitária, cursada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP). Graduou-se também em bioestatística na Universidade Colúmbia (EUA). Fez o mestrado e a livre docência na Universidade de São Paulo (USP), onde foi professora titular na Faculdade de Saúde Pública.
Em 1966, sob o impacto do golpe maldito – é assim que ela se refere à tomada de poder pelos militares em 1964 – e na mira da ditadura, Elza Berquó deu sua primeira grande contribuição à demografia brasileira ao fundar o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) na USP, o primeiro do gênero no país. No Cedip, reuniu, encorajou e formou aquela que seria a primeira geração de pesquisadores em demografia no Brasil.
Três anos depois, veio o Ato Institucional n°5 (AI-5), que a afastou do Cedip e da universidade, aposentando-a compulsoriamente. Foram tempos difíceis, que não a intimidaram. Apesar dos convites de excelentes instituições de ensino e pesquisa do exterior, decidiu permanecer no país. Ao lado do economista Paul Singer e de outros nomes importantes que integravam as listas da ditadura, buscou refúgio no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Definido por ela como um centro de resistência intelectual, o Cebrap abraçou a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana iniciada no Cedip em 1968 e a ampliou, tornando-a um modelo de pesquisa em demografia na América Latina.

Chegada a anistia, Elza não voltou a lecionar na universidade. O motivo? Nem todos a queriam por perto. “O trabalho no Cebrap seguia a todo vapor. Para que retornar sem autonomia?”, lembra. Mas aceitou o convite para fundar, em 1982, o Núcleo de Estudos Populacionais (Nepo) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que se tornou nova referência nacional em demografia.

Membro-titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico da Presidência da República em 1998, ano em que também foi condecorada com a Medalha de Mérito da Fundação Joaquim Nabuco.
Ao longo dos últimos 30 anos, dividindo suas atenções entre o Cebrap e o Nepo, Elza Berquó fortaleceu a pesquisa demográfica no Brasil. E, entre aqueles que a conhecem de perto, consolidou também a imagem da guerreira mais gentil e generosa que a demografia brasileira poderia desejar.

 

ESTA CASA EM QUE A SENHORA MORA foi projetada pelo arquiteto [João Batista] Vilanova Artigas [1915-1985], o que é um privilégio. Vocês foram amigos?

É curioso começar a conversa por este tema, porque a história desta casa é muito significativa para mim. Eu era amiga e grande admiradora dos trabalhos
do Artigas. Fomos muito ligados politicamente. A casa foi projetada e construída no período do golpe militar. Nessa época, todos nós estávamos vivendo um momento muito difícil e o Artigas, em especial, porque seu trabalho profissional ficou muito reduzido. Como eu e meu marido [o matemático Rubens Murillo Marques] tínhamos alguns recursos financeiros guardados, resolvemos pedir ao Artigas para fazer o projeto da nossa casa.

Em que período exatamente foi isso?

Foi em 1966 e a casa ficou pronta em 1968. Ela foi construída em dois terrenos pequenos que havíamos comprado na Chácara Monte Alegre. Na época, esse bairro ficava distante do centro de São Paulo. Para projetar a casa, o Artigas brincou, dizendo que precisaria me “namorar” por um tempo, para que a casa traduzisse a “minha alma”, o que, de fato, aconteceu. Adoro a minha casa: ela não tem corredores, tudo se integra com tudo, como eu imaginava. É uma casa incrivelmente romântica e, embora eu seja extremamente racional, o Artigas se justificava dizendo que ela revelava meu lado oculto. Além disso, essa casa é muito significativa para mim, porque traz a marca histórica de um período de muita convivência e efervescência política de pessoas com posições muito claras sobre o que considerávamos democracia e liberdade. Nela, também, acolhemos pessoas que, durante o golpe de 1964, precisaram de um refúgio seguro.

Quem eram essas pessoas?

Nunca soube o nome delas e não deveria saber, mesmo. Eram jovens que estavam na luta armada. Soube depois que todas essas pessoas foram mortas, inclusive uma moça que estava grávida quando a hospedamos. Em minha casa há até hoje o testemunho da passagem dessas pessoas: uma área em que as lajotas foram pintadas por elas. Todos os dias, vendo aquelas lajotas, relembro desse período triste da história do país e das pessoas idealistas que foram mortas pelo regime militar.
A senhora era filiada a algum partido? Como se deram seus primeiros contatos como a política?

Nunca pertenci a partido algum, mas, como professora de bioestatística da Faculdade de Saúde Pública, não podia deixar de me manifestar quando via, entre outros, os altíssimos índices de mortalidade infantil e constatava que nenhuma providência estava sendo tomada. Eu não sabia, mas em 1964, quando tudo aconteceu – o golpe maldito! – minhas aulas estavam sendo gravadas. Fui, então, aposentada compulsoriamente pelo AI-5 pelas minhas ideias e pelo que dizia, não por pertencer a um partido. Mas, podemos considerar, sim, que eu era, como se diz, uma pessoa ‘de esquerda’, porque certamente minhas convicções políticas eram totalmente contrárias às da ditadura.

Como foi saber que havia sido compulsoriamente aposentada? A senhora já esperava por isso?

Não foi algo esperado, mas também não posso dizer que foi totalmente inesperado. Estávamos atentos aos sinais e sabíamos, desde o golpe de 1964, que algo do tipo poderia acontecer. Então, de certa forma, eu sabia que corria risco, mas não imaginava qual era. Basta dizer que soube que havia sido atingida pelo AI-5 quando ouvi o programa A Hora do Brasil, no rádio do carro. Divulgaram a lista dos cassados pelo AI-5 e meu nome estava entre eles. Na hora, foi um susto e, depois, algo muito dolorido, principalmente porque no dia seguinte já não podíamos mais entrar na faculdade, era vedada a nossa presença. Precisei pedir a uma pessoa amiga para retirar as minhas coisas pessoais. Por outro lado, quando ouvi a notícia no rádio também senti orgulho. Pensei: nessa lista eu estou muito bem acompanhada.

Essas pessoas próximas, com as quais convivia e trocava ideias, quem eram?

Eram várias. Além do Artigas, estava o Mário Schenberg [1914-1990], do Instituto de Física [da USP], Olga Baeta Henriques, do Instituto Butantan, Luís Hildebrando Pereira da Silva, da Faculdade de Medicina da USP, entre outros. Depois de um tempo, nós só nos encontrávamos e conversávamos com esses amigos dentro de carros, sempre circulando, porque qualquer encontro era suspeito. Aliás, tudo na época da ditadura era suspeito. Até os livros eram suspeitos e, ainda hoje, sinto pena quando penso na quantidade de papéis que tivemos que queimar. Fazíamos sessões de queimar coisas, numa espécie de inquisição pessoal muito dolorida para nós.
Ainda na Faculdade de Saúde Pública, a senhora criou o Cedip. Como surgiu a ideia de criação desse Centro?

A incorporação da demografia no ensino e na pesquisa era incipiente e praticamente inexistente no meio acadêmico brasileiro. Por outro lado, nossa participação em congressos e seminários internacionais mostrava cada vez mais a necessidade da incorporação de uma visão demográfica para a compreensão das transformações em curso nas sociedades. Por isso, solicitei à Organização Panamericana da Saúde (Opas) uma assessoria internacional para discutir nossas necessidades e as bases para estabelecer um programa de ensino e pesquisa em demografia. Contamos para isso com a colaboração da eminente demógrafa Irene Tauber [1906-1974], da Universidade de Princeton [EUA]. Irene ficou conosco cerca de 20 dias e, nesse período, com sua preciosa ajuda, planejamos e estruturamos o que seria o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional – Cedip. Por ser essencialmente multidisciplinar, a demografia necessita do concurso de várias especialidades para cumprir seu verdadeiro papel. A Opas outorgou à Faculdade de Saúde Pública, em 1966, cinco bolsas de especialização em estudos populacionais. Nesse sentido, Paul Singer [economista] foi para a Universidade de Princeton, Neide Lopes Patarra [socióloga] foi para a Universidade de Chicago, João Yunes [médico sanitarista, 1936-2002] para a Universidade de Michigan, e Jair Lício Ferreira Santos [estatístico] para a Universidade de Chicago. Cândido Procópio Ferreira de Camargo [sociólogo, 1922-1987], de notório saber, viajou pelos Estados Unidos e Europa para visitar centros e programas de demografia que trouxessem inspirações para a implantação do Cedip. O compromisso da Opas com a Faculdade de Saúde Pública incluía recursos para manter por cinco anos os pesquisadores quando voltassem ao país, além de verbas para uma pesquisa na área de população. De volta ao Brasil, essas pessoas deram início à Pesquisa Nacional de Reprodução Huma-
na, em 1968. O AI-5 interrompeu a programação prevista, não só pela saída compulsória de alguns de seus componentes, como também pelo não cumprimento por parte
da Faculdade de Saúde Pública de seus compromissos com a Opas.

Qual foi o primeiro estudo do Cedip, ou aquele mais marcante?

Sem dúvida, foi a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, que depois passou a ser realizada em colaboração com o Cebrap. Foi uma pesquisa inovadora em todos os sentidos, mas, principalmente, porque rompeu com certos paradigmas que marcaram o neomalthusianismo e mostrou que os modos de organização da produção – mediados por instituições, como a Igreja, a saúde, a família e a mídia – influenciavam no comportamento reprodutivo individual. Pena que foi justamente nesse período, de mais intensa e interessante atividade de pesquisa de nosso grupo, que veio o AI-5 e atingiu, sobretudo, a mim e ao Paul Singer. Nossa salvação foi a criação do Cebrap, ainda em 1969, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso. No Cebrap, a pesquisa ganhou novos colaboradores e foi ampliada. De acordo com o arcabouço conceitual da pesquisa, Juarez Brandão Lopes [1925-2011], por exemplo, se encarregou de fazer para o país uma tipologia rural, enquanto Vilmar Faria [1941-2001] se debruçou sobre a parte urbana. Apesar das dificuldades políticas, foi um período muito produtivo. Em certo momento, todo o Cebrap estava envolvido nesse estudo, e isso foi muito importante, porque a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana acabou se tornando uma referência de estudo populacional na América Latina.

E a criação do Cebrap, como foi?

Em 1969, quando o Cebrap foi criado, as pressões eram grandes. A gente sabia que estava sob risco. Afinal, o Cebrap reunia um grupo de pessoas que se propunham a refletir sobre o Brasil e alguns de nós já havíamos sido compulsoriamente afastados das universidades. Nós queríamos pensar sobre o país, sobre as transformações pelas quais o Brasil passava e sobre aquelas ainda necessárias. Aliás, o Cebrap foi criado justamente para dar continuidade a essa forma de pensamento crítico que estava ameaçada pela ditadura. Éramos, por definição, um grupo de resistência intelectual e, como tal, não estávamos imunes. Tanto que, quando escrevemos e publicamos o livro São Paulo, crescimento e pobreza, a pedido da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, então presidida pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, fomos alvo de um atentado a bomba. Aquela bomba jogada no Cebrap, em 1976, foi um aviso – e, é claro, deixou a todos nós preocupados. O grande mérito do Cebrap foi se manter na defesa de um conhecimento marcado por um rigor científico, sem abrir mão de refletir e analisar politicamente a produção e os resultados de seus estudos e pesquisas. Nunca deixamos de pensar criticamente, embora nem sempre nossas críticas pudessem ser publicadas, sobretudo no auge da ditadura. A minha ida para o Cebrap e a convivência com o grupo que o fundou enriqueceram muito a minha visão da questão social e influenciaram decisivamente meu modo de pensar.

Vamos falar agora de sua família, de suas origens.

A família de meu pai, Sylvio Affonso de Witt Berquó, é de origem portuguesa. Os Berquó vieram para o Brasil com a corte portuguesa. Todos os homens da família Berquó
eram advogados ou militares. Meu pai era funcionário dos Correios. Nasci em Guaxupé [MG], em razão de uma das viagens de meu pai. Por causa de seu trabalho, mudávamos sempre. Pelo lado materno, da família Salvatori, minha origem é italiana, também de família burguesa, bem colocada socialmente. Meu avô, Ettore Salvatori, era de Bologna e foi enviado para o Brasil como castigo: na Itália, havia se apaixonado por uma irmã de criação e os pais o mandaram para o seminário. Mas, antes de se ordenar sacerdote, ele ainda insistiu em se casar com a ‘irmã’. Conclusão: foi mandado para o Brasil, onde seus pais tinham amigos. Aqui, conheceu minha avó, também italiana e filha de imigrantes. Minha avó estava noiva e prestes a casar. Morava em uma fazenda e só conheceu meu avô porque foi ao centro da cidade de Conquista, em Minas Gerais, comprar seu enxoval. Imagina só: andando na rua, por descuido, ela deixa cair um pacote de seu vestido de noiva, que é gentilmente apanhado por meu avô. Ele, apesar de morar em Uberaba, esta-
va em Conquista, a trabalho. Os dois se conheceram assim, por acaso, na rua, e se apaixonaram. Minha avó desfez seu noivado e casou-se com meu avô que, por sua vez, deveria ter virado padre e fora mandado ao Brasil para esquecer uma paixão. Não é incrível? Gosto de contar isso, porque acho que é uma história bonita, digna de uma novela.

Como foi sua educação inicial? Teve algum professor que marcou sua infância ou adolescência? E na universidade? Por que escolheu a matemática?

Minha escolha por estudar matemática se anunciou muito cedo, desde o ginásio. A lógica da disciplina me encantou desde nosso primeiro encontro. Destacaria como influências que marcaram minhas escolhas e carreiras: André Tosello [1914-1982], que lecionava análise matemática na PUC de Campinas, Pedro Egidio de Oliveira Carvalho, professor titular de Bioestatística da Faculdade de Saúde Pública da USP, de quem fui assistente, Jerzy Neyman [1894-1981], do Departamento de Estatística Matemática da Universidade de Berkeley [EUA], John William Fertig e Agnes Burger, da Escola de Saúde Pública da Universidade Colúmbia [EUA].

Tendo uma origem paterna tradicional, como foi se dedicar à questão social? Como seus pais reagiram às suas escolhas políticas?

A família de meu pai era mesmo muito tradicional, mas meu avô e meu pai morreram relativamente cedo e não vivenciaram essa fase da minha vida. Minha avó e minha mãe, sim, e, é claro, para elas foi um choque: quando fui cassada, minha avó me disse que eu não imaginava o que estava fazendo com a minha vida, nem o enorme desgosto que estava impondo a ela e à minha família. De minha parte, disse a ela que sentia orgulho por estar saindo da universidade, não apenas pelo motivo da saída, mas pela companhia em que estava. Mas, é assim mesmo, não é? O relacionamento com a família nem sempre é fácil. Há sempre diferentes visões, de geração a geração, principalmente em períodos tão conturbados da história.

Uma de suas iniciativas no Cebrap foi a criação de um grupo de pesquisa integrado apenas por mulheres negras, num tempo em que ainda não se falava em sistema de cotas. Como foi essa experiência? Qual a sua opinião sobre a política de cotas raciais nas universidades?

Essa é uma iniciativa que considero realmente muito significativa. Ela surgiu de uma constatação de que, na prática, as jovens negras nunca conseguiam bolsas para estudar aqui ou fora do país. O motivo estava na deficiência da formação dessas jovens: elas vinham sempre de escolas públicas e, na competição com as brancas, não conseguiam vencer. Resolvi, então, fazer um pedido de bolsas à Fundação MacArthur a serem oferecidas a jovens negras, após seleção dentro do universo da população negra. Esse programa teve início em 1991 e constou de duas edições de três anos cada uma, com quatro bolsistas por programa. A iniciativa permitiu que essas jovens se preparassem para um mestrado contando com apoio e monitoramento em estatística, demografia e metodologia de pesquisa. Participaram diretamente da formulação, execução e análise da Pesquisa da Saúde da Mulher Negra. Várias publicações marcaram esse período de formação: o vídeo Eu, mulher negra, o artigo ‘População Negra em Destaque’ e a cartilha Anime-se, Informe-se – Anemia falciforme. Algumas conquistaram doutorado e estão atualmente trabalhando em universidades e centros de pesquisa. Essa foi uma ação afirmativa bem-sucedida.
Quando criei o grupo de pesquisa de mulheres negras, já tinha essa visão: é preciso dar passos largos para diminuir a diferença de oportunidades – e a relação entre origem educacional (escola pública) e raça (negra) é mais do que evidente nas pesquisas. Considero a discriminação, seja qual for, uma afronta à vivência democrática e aos direitos de oportunidades.

Outra iniciativa sua importante foi a que resultou na ‘pirâmide da solidão’. Mas, nesse caso, houve enorme polêmica e críticas da parte de grupos sociais. O que aconteceu realmente?

Nunca houve questionamentos em relação à pesquisa do ponto de vista dos dados e da metodologia, mas, sim, quanto ao uso da expressão ‘pirâmide da solidão’. Depois da publicação dos resultados e da divulgação pela imprensa, inclusive por meio da Ciência Hoje [ver ‘A família no século 21’, em CH n° 58], grupos de mulheres passaram a questionar o uso da expressão ‘pirâmide da solidão’, atribuindo a ela um juízo de valor, tanto no sentido de não incorporar orientações sexuais diversas como no de atribuir solidão a quem não encontrou parceiros no mercado matrimonial. Aceitei prontamente essas críticas, até porque, antes de esse assunto chegar à imprensa, eu já havia rebatizado a pirâmide, passando a chamá-la nas apresentações acadêmicas de a ‘pirâmide dos não casados ou não unidos’. Fiz isso porque percebi que minha interpretação precisava se ampliar, abarcando outras formas de relacionamentos. Mas, do ponto de vista da divulgação ou da imagem que eu queria passar, é óbvio que não era a mesma coisa: a expressão ‘pirâmide da solidão’ foi como uma inspiração. Ela tornava claramente acessível e inteligível aos leigos a noção que os dados de pesquisa revelavam e que eu queria divulgar, ou seja, a ideia de que uma conjunção de fatores demográficos, como o envelhecimento da população e a maior expectativa de vida das mulheres, associada a certas normas culturais, como a escolha preferencial dos homens por mulheres mais jovens, estava gerando um grande número de mulheres não casadas ou não unidas. Ao fazer suas escolhas para relacionamentos, os homens, em geral, ‘olham’ para baixo, na pirâmide populacional, escolhendo mulheres mais jovens, enquanto as mulheres ‘olham’ para cima, escolhendo homens mais velhos. A crítica, parte fundamental do processo de construção do conhecimento, foi aceita, mas o fenômeno tratado no estudo ainda é referido por muitas pessoas como “pirâmide da solidão”.
A senhora casou mais de uma vez, certo? Teve filhos? Hoje, mora sozinha?

Sim. Casei-me duas vezes e não tive filhos. Atualmente sou viúva e continuo morando na casa do Artigas – tesouro encantado que toma a forma do tempo.

Por que a senhora não retornou à universidade quando veio a anistia?

Quando veio a anistia, recebi dois convites para essa volta. Um deles partiu do diretor da Faculdade de Saúde Pública na época, o saudoso Oswaldo Paulo Forattini [1924-2007], que insistia em que eu voltasse às minhas origens acadêmicas. O outro veio do professor Chaim [Samuel Hönig], então diretor do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Não foi fácil decidir, pois a razão me dizia para ir para a estatística e o coração me chamava de volta à saúde pública. Fiquei realmente dividida e lembro-me de ter conversado com o Mário Schenberg sobre isso. Depois, isolei-me em casa por três dias para pensar e tomar uma decisão. Minha opção foi retornar à saúde pública, mas quando comuniquei minha decisão ao Forattini soube que era preciso uma aprovação formal da Congregação para minha volta. Foi feita uma reunião da Congregação e houve empate na votação: 50% dos membros foram a favor de meu retorno e os outros 50%, contra. O voto de Minerva coube ao Forattini, que aprovou meu retorno. Mas, quando eu soube disso, desisti
de retornar. Nessa época, eu já tinha uma vida intelectual muito ativa graças às atividades do Cebrap. Tinha contatos internacionais importantes, viajava muito ao exterior e não poderia depender da aprovação de uma congregação que, pelo que revelava a votação, era só em parte simpática a mim e ao meu trabalho. Mas, de certa forma, foi bom isso acontecer porque em seguida veio o convite do reitor da Unicamp, José Aristodemo Pinotti [1934-2009], para ir para lá, com a possibilidade de criar um núcleo de estudos da população.

Não retornar à universidade acabou, então, sendo providencial?

Isso mesmo. Embora, é claro, ao aceitar o convite do Pinotti eu estivesse, de certa forma, voltando à universidade. A diferença estava em que, em meu acordo com a Unicamp, ficou acertado que eu não integraria o corpo docente. Seria responsável apenas pela criação e direção do Nepo [Núcleo de Estudos de População] e teria um contrato até que o grupo se tornasse autossuficiente. Fiquei muito empolgada com isso, sobretudo por antever a possibilidade de levar para lá pessoas com muita experiência profissional e intelectual, algumas das quais, como a Neide Lopes Patarra, que estavam dispersas em outras instituições. Produziu-se muito no Nepo, tanto que, em 1992, 10 anos depois de sua criação, já tínhamos reconhecimento suficiente para criar um Departamento de Demografia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, e isso foi feito. Então, o que posso dizer sobre o Nepo? Ele foi, ao lado do Cebrap, importantíssimo em minha vida profissional.
O Cebrap foi o meu porto seguro quando me vi expulsa da universidade, e o Nepo foi um enorme estímulo quando me vi com dificuldades de retornar a ela. Por isso, nestes últimos 30 anos, mantenho essa ‘vida dupla’, de muita colaboração tanto com o Cebrap quanto com o Nepo.
E quais seus planos atuais?

Mantenho-me ativa aqui no Cebrap, à frente de várias pesquisas, como a de reprodução na juventude e reprodução após os 30 anos. Conduzo também o projeto ‘Dar voz aos jovens’, que busca contribuir para o campo temático de educação em sexualidade, comprometida com o respeito a valores, preferências, crenças religiosas e proteção de direitos. Minha colaboração com o Nepo ainda é intensa. Justamente agora, estamos montando um projeto que deverá nortear o futuro das pesquisas do Núcleo. Quando fundamos o Nepo, fizemos um grande projeto sobre a dinâmica demográfica brasileira. Esse projeto foi, durante vários anos, um grande ‘guarda-chuva’ que abrigou uma produção acadêmica enorme e, sem dúvida, alavancou a pesquisa em demografia no país. Agora, sentimos que chegou o momento de repensar e redefinir as metas, envolvendo a nova geração de pesquisadores que se formou nas últimas décadas num novo ‘projetão’. Já temos a ideia geral: nos debruçar sobre a dinâmica de reprodução das gerações, sob o ponto de vista demográfico e social. Ou seja, buscar entender melhor como as gerações foram se reproduzindo, qual a interferência das migrações nesse processo, como o desenvolvimento socioeconômico influenciou essa reprodução e como o acesso à informação e o maior conhecimento sobre anticoncepção interferiu nessa dinâmica. Mas esses são apenas exemplos de temáticas possíveis para pesquisa e análise. Há muito mais, certamente.

Como a senhora avalia o impacto das tecnologias na vida das pessoas? Este mundo em mudança lhe causa admiração ou lhe assusta?

Admiração, sem dúvida. Vejo as mudanças tecnológicas de forma positiva, apesar de me preocupar com certo isolamento individual que as tecnologias de comunicação estão gerando. Atualmente, nos comunicamos mais, de maneira eletrônica e virtualmente, mas fisicamente estamos perdendo espaço de convivência, o que considero um bem precioso. Valorizo muito isso e faço um esforço muito grande para criar e cultivar um entorno, uma zona de conforto de amigos. Atualmente, o convívio no trabalho e com os amigos são a minha maior fortuna. Todo mundo sabe mandar e-mail, torpedo etc. etc., mas nada substitui o calor humano do encontro olho no olho. Acho, portanto, que a tecnologia é muito bem-vinda, pois alavanca o avanço em vários campos do conhecimento, mas que devemos resistir ao distanciamento físico. Devemos resistir ao sumiço do telefone e, ao contrário disso, cultivar mais e mais o hábito de falar com as pessoas e ouvi-las. Mais do que isso, acho que devemos fazer de tudo para estar com as pessoas e cultivar os encontros
pessoais, pois é por meio desses encontros que realmente nos enriquecemos emocionalmente.

 

Acesse a reportagem com todas as fotos aqui: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/305/pdf_aberto/perfil305.pdf/at_download/file

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