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CONVITE: IX Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais

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A nona edição do Programa de Capacitação “População, Cidades e Políticas Sociais” realiza-se no âmbito do Programa de Seminários do Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO/UNICAMP) e, nesta edição, em parceria com o Observatório dos Conflitos Rurais (UNICAMP, UFSCAR e UNESP) e com o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Sociedade, Poder, Organização e Mercado (NESPOM-UNESP/Araraquara). Possui como objetivos centrais a sensibilização e a capacitação de gestores públicos municipais, estaduais e federais acerca de temas correlacionados com a dinâmica populacional e as políticas sociais. O enfoque dessa edição será a transição demográfica e indicadores sociais, em consonância com a realidade local e regional.

Público-Alvo: Gestores e funcionários públicos municipais, estaduais ou federais, representantes de movimentos sociais e organismos não-governamentais, bem como, alunos de graduação ou pós-graduação envolvidos e/ou interessados nas áreas de estudos de população e políticas sociais.

Exigências do Programa: O programa terá a duração de 02 (dois) dias. A frequência deverá ser de 100%.

Inscrições
Período das inscrições: 13 de fevereiro a 15 de março de 2017.
Para inscrever-se o candidato deve enviar a ficha de inscrição preenchida para o email: giovana.ggp@gmail.com ou clicar aqui.

Seleção
Número de vagas: 80 (oitenta participantes). O resultado será divulgado no dia 20 de março de 2017, via e-mail. Os candidatos selecionados deverão arcar com suas próprias despesas (transporte, hospedagem e alimentação). O programa de capacitação é gratuito e sem taxa de inscrição.

Conteúdo
O Programa de Capacitação será composto por uma introdução geral acerca da transição demográfica e políticas sociais, com particular destaque às características e tendências recentes da população brasileira. Discute-se a importância dos Indicadores Sociais para a gestão e planejamento. Será contemplada a dinâmica da Região Central do Estado de São Paulo.

Comissão Organizadora
Profa. Dra. Rosana Baeninger – UNICAMP
Profa. Dra. Maria Chaves Jardim -UNESP
Ma. Giovana Gonçalves Pereira – UNICAMP

Informações: giovana.ggp@gmail.com

Apoio:

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Imigrantes e Refugiados em Campinas: ações de cidadania despertam o senso de comunidade

Imigrantes e refugiados em Campinas: ações de cidadania despertam o senso de comunidade da cidade
O haitiano Jean Rick, 29 anos, em Campinas desde fevereiro de 2015, era professor de Ciências Sociais em seu país Foto: Martinho Caires

Por Adriana Menezes

Todo aquele que chega desperta olhares diversos dentro de uma nova comunidade. Em pequeno ou em grande número, a chegada do “outro” que vem “de fora” contribui para mudanças nas relações sociais decorrentes da necessidade de inserção. Mas, ao contrário da imagem quase unânime de hospitalidade do brasileiro, a inclusão não acontece naturalmente. Na falta de políticas públicas claras e atualizadas, são as ações de cidadania isoladas que estabelecem o espaço para o afeto e garantem a dignidade e o direito a ter direito de muitos estrangeiros.

Campinas recebeu mais de 15 mil imigrantes e refugiados entre 2000 e 2015 das mais diversas nacionalidades e condições – de americanos, alemães e coreanos para o mercado de trabalho altamente qualificado das multinacionais do Pólo Tecnológico, até haitianos, sírios e paquistaneses refugiados com histórias de perdas e tragédias por catástrofes naturais, por guerra ou crise econômica. No último ano, com a chegada de um grande contingente de haitianos, o número de imigrantes e refugiados passa hoje das 1,4 mil pessoas.

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Diferentes demandas

O haitiano Jean Rick, 29 anos, chegou a Campinas em fevereiro de 2015. Professor de Ciências Sociais em seu país, fez serviços de recapeamento (por intermédio da Prefeitura) e hoje está registrado como padeiro, com treinamento profissional. Apesar do emprego registrado e seu visto humanitário no Brasil, tem planos de ir agora para a Islândia, onde já mora um irmão, e num futuro ainda incerto quer voltar ao seu país, que em 2010 foi destruído por um terremoto. Jean só chegou a um emprego formal porque voluntariamente um cidadão campineiro, que não quis se identificar, fez a ponte entre o empresário que procurava mão de obra e o grupo de haitianos que o voluntário e sua esposa já auxiliavam com aulas de português.

O cubano Yosbel Asen Diaz, 30 anos, é formado em Hotelaria e migrou para o Brasil para casar-se com Vivian dos Santos Queiroz   Foto: Martinho Caires

O cubano Yosbel Asen Diaz, 30 anos, é formado em Hotelaria. Trabalhava na área em Havana, onde conheceu sua atual mulher, a brasileira Vivian dos Santos Queiroz. Yosbel migrou em junho de 2016 para o Brasil, onde ainda procura emprego, mas já tem certeza de que constituirá família aqui. Vivian está grávida de três meses. No Departamento de Cidadania da Prefeitura, Yosbel faz contatos, busca auxílio para entrar no mercado de trabalho e também colabora, indo a palestras para contar a sua história. Apesar de sua situação privilegiada, com casa e a presença da mulher, o cubano ainda precisa de ajuda na inserção na sociedade.

Os sírios Chaza Alturkmani e Suhib Zinou, de 60 anos, abriu em Campinas o restaurante de comida árabe Castelo de Alepo     Foto: Martinho Caires

O casal de sírios Chaza Alturkmani e Suhib Zinou, 60 anos, já chegou ao Brasil com a família completa: duas filhas e um filho. Refugiados de guerra, estão felizes por ter agora segurança, os filhos com emprego e estudo, e eles com um restaurante, mas não deixam de se reunir com outros sírios refugiados na cidade, também sofrem em aprender a língua e sonham em um dia retornar a Alepo. Os filhos já aprenderam a língua, o casal no entanto diz que não tem tempo para frequentar as aulas de português porque trabalha muito no restaurante Castelo de Alepo, no Cambuí. Agradecem incansavelmente a toda ajuda que receberam. Escolheram Campinas porque um amigo sírio já havia migrado para a cidade em busca de paz e estabilidade. Foi o amigo que ajudou nos primeiros dias.

Vulnerabilidade

Em todos os casos, o que há em comum é a vulnerabilidade do imigrante, seja pela dificuldade da língua, a falta de dinheiro ou a necessidade de moradia, alimento e trabalho. As histórias de vida de cada um criam o pano de fundo dramático de um mundo onde os conflitos sociais e políticos roubam o senso de comunidade das cidades e impedem o olhar sensível voltado para a cidadania.

“Os imigrantes precisam de um olhar mais atento”, diz a cientista social Rosana Baeninger, professora da Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo/UNICAMP). Os dados que ela fornece sobre 15 mil imigrantes de 2000 a 2015 em Campinas são da base de dados do Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros no Brasil (Sincre), ao qual teve acesso pelo Observatório de Migrações em São Paulo, projeto da Fapesp realizado em parceria entre Unicamp, PUC de Minas Gerais, entre outras instituições, como Ministério da Justiça. “O Brasil está na rota das migrações transnacionais. Como o primeiro mundo tem restrições, os países emergentes passam a ser a rota”, afirma Rosana.

Segundo a pesquisadora, o Brasil não é apenas destino migratório, mas de trânsito. Muitos permanecem um tempo e depois vão para outro país, a exemplo do haitiano Jean Rick, que vai para a Islândia. “Muitos haitianos hoje estão saindo do Brasil para o Chile”, diz Rosana. Do total de 15 mil em 15 anos na cidade, 5 mil são estudantes, 9 mil são mão de obra qualificada (oriundos dos Estados Unidos, Alemanha, França e China, nesta ordem decrescente numérica) e apenas cerca de 1 mil chegam com reais necessidades de auxílio. Destes, apenas 250 são refugiados.

 

Repensar a sociedade

“As pessoas acham que o número legitima o fenômeno, mas não importa se são 15 mil ou 30 pessoas, porque o impacto na vida do município existe de qualquer maneira. Isso demanda uma nova forma de pensar a sociedade”, afirma a pesquisadora. Já passaram por Campinas refugiados de Angola, Colômbia, Cuba, Equador, Nicarágua, Nigéria, República do Congo, Síria, Líbia e Haiti. As nacionalidades de imigrantes são ainda mais diversas.

Para Rosana, a municipalidade assume hoje a responsabilidade da inserção devido à falta de uma legislação federal atualizada. O que vigora ainda é o Estatuto do Estrangeiro, criado durante a ditadura, “uma lei anacrônica”. As instituições domésticas e a Igreja também têm um papel fundamental neste contexto de auxílio. Ela lembra, no entanto, que há uma lei de imigração em tramitação no Congresso.

 

Rosana Baeninger, cientista social professora da Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Populacionais (Nepo): “Os imigrantes precisam de um olhar mais atento”      Foto: Martinho Caires

“Há uma enorme diversidade e uma grande demanda por parte dos imigrantes. Lembro de uma família de colombianos que durante o I Fórum sobre Imigração e Refúgio em Campinas, em setembro, disse que era a primeira vez que alguém os ouvia desde que chegaram, há muito tempo na cidade.”

Falsos mitos

A verdade é que o Brasil criou um mito da receptividade migratória que não é real, diz a pesquisadora. “Existe um tipo ideal de imigrante criado em nosso imaginário devido à nossa formação Estado Nação, que é o do branco europeu civilizado. Mas há diversidade nos fluxos migratórios”, diz Rosana, que destaca que as pesquisas populacionais do Nepo e Fapesp têm como bandeira a relação de cidadania baseada em Hannah Arendt, do direito de todo cidadão ter direito.

Quando o estrangeiro chega ao Brasil como imigrante ou refugiado, ou seja, sem ser a turismo ou trabalho, ele deve se apresentar no prazo de um mês à Polícia Federal. Os haitianos já têm o visto humanitário, que em agosto foi renovado até agosto de 2017. Os sírios e paquistaneses que chegam já têm um entendimento prévio de que são refugiados. Mesmo assim, o refugiado deve solicitar o refúgio à PF. A decisão é encaminhada a um comitê ligado ao Ministério da Justiça que foi instituído para avaliar caso a caso. “A decisão é política”, explica o diretor do Departamento de Cidadania da Prefeitura Municipal de Campinas, Fábio Custódio.

Em Campinas, a porta de entrada para muitos imigrantes é o Departamento de Cidadania. “Às vezes a porta de entrada é a escola, no caso de famílias que têm filhos. Mas nós somos procurados principalmente para auxiliar em questões de documentação ou relacionadas a trabalho”, diz o diretor. Segundo Fábio Custódio, eles também recebem denúncias de trabalho escravo de imigrantes.

Fábio Custódio, diretor do Departamento de Cidadania da Prefeitura de Campinas: “Precisamos ter uma regulamentação e estar preparados”    Foto: Martinho Caires

Uma rede de apoio

“Nós também promovemos ações de inclusão social e cultural, como o evento Campinas de Todos os Povos, que contribuem para levar consciência e acabar com a xenofobia”, afirma o diretor. Segundo Fábio, as queixas mais comuns de xenofobia na cidade são contra os povos do oriente médio, especialmente mulçumanos que são associados ao terrorismo; e contra os imigrantes negros ou indígenas. “Sofrem especialmente no ambiente de trabalho.”

Outra ação do Departamento é a formação de uma Rede de Apoio a Imigrantes e Refugiados, formada pela sociedade civil que começou a se organizar em meados de 2015. “São pessoas, instituições, nós do poder público e qualquer entidade que presta algum tipo de ajuda”, diz Custódio. A rede hoje é composta por mais de 20 nomes, mas ela está aberta à participação. O episódio do Acre, em 2015, quando um grande número de haitianos tentava entrar no Brasil, motivou a criação da rede.

“O poder público pode pouco, porque por questões legais não podemos fazer nada que envolva comercialização ou vínculo empregatício, por isso não somos nós que capitaneamos a rede, mas fazemos parte dela”, afirma Custódio. Ele lembra que a imigração é um fenômeno mundial. “Até 2050, entre meio e um bilhão de pessoas vão migrar, se movimentar no planeta, por motivos diversos: guerra, falta de água, fenômenos naturais, questões religiosas. O fluxo não vai cessar”, diz o diretor. “Precisamos ter uma regulamentação e estar preparados.”

 

Núcleos de convivência

Hoje em Campinas há em torno de 1,4 mil imigrantes e refugiados, dos quais pelo menos 950 são haitianos. Há uma grande diversidade de demandas, mas as salas de aula de português se tornaram verdadeiros núcleos de convivência. Muitos professores ajudam seus alunos fazendo currículos ou cuidando da saúde ou observando se são explorados no trabalho. As comunidades religiosas, diz Custódio, são essenciais. A Missão Paz, por exemplo, onde o Departamento já fez treinamentos, atua há mais de cem anos no acolhimento de todo tipo de migrante e imigrante na capital paulista, na Rua do Glicério. “Nós aprendemos muito com eles em como fazer. Se não fosse a Missão Paz eu acho que a prefeitura de São Paulo estava perdida”, diz o diretor. Há também, lembra Fábio Custódio, o apoio das próprias igrejas que os imigrantes procuram. Os evangélicos recebem ajuda de suas igrejas, os muçulmanos também.

O padre André Luiz Bordignon, de 35 anos, da Paróquia Jesus Cristo Libertador, no Jardim Florence I, abriu espaço para o grupo de haitianos que frequentava sua missa se reunir e se organizar na igreja. De junho até agora, já fizeram três encontros. O grupo de cerca de 40 homens, mulheres e crianças mora no mesmo bairro. “Os haitianos são muito católicos, mas há também evangélicos no grupo. Todos eles se reúnem aqui. A comunidade começou a ajudar espontaneamente”, diz o padre André.

Padre André Luiz Bordignon: “Eles são vítimas vulneráveis. Com ou sem política, a igreja vai continuar ajudando"    Foto: Martinho Caires

Entre as principais dificuldades do grupo estão a língua, a moradia e o trabalho. “Eu soube de um proprietário que quis cobrar R$ 1 mil de aluguel por uma casa pequena no Satélite Íris. Há também patrões que exploram. Não podemos achar que o Brasil melhorou só por causa das leis”, afirma o padre. Segundo ele, a maioria está no mercado informal de trabalho porque não consegue emprego formal devido à língua. A paróquia então se organizou para oferecer aulas de português e auxílio jurídico. A advogada dá plantão voluntário e os professores também. “Não somos uma ONG. A nossa obra é de misericórdia no acolhimento dos peregrinos.”

Integração

No segundo semestre, a paróquia realizou duas missas em crioulo, língua oficial no Haiti junto com francês. O Frei Ilário de São Paulo, diz o padre, veio a Campinas para celebrar as missas e ainda fará mais uma este ano, no Natal. “Já o apelidaram de haitiano branco”, brinca. As crianças da comunidade estão ensaiando uma música em crioulo para cantar no coro e está prevista uma festa haitiana onde eles vão mostrar a cultura do Haiti. “A integração com eles se deu pela missa, que fez a comunidade se abrir para eles. Agora o povo do bairro os conhece.”

O padre André acredita que falta política voltada para os imigrantes em todo o mundo. “Eles são vítimas vulneráveis. Mas com ou sem política a igreja vai continuar ajudando. Não estamos fazendo nada de extraordinário, apenas não fico esperando que nenhuma política faça.”

Fernando Del Grossi, empresário: "É uma questão de pensar o que você pode fazer para ajudar. Se ninguém se importar, ninguém faz nada"     Foto: Martinho Caires

Vontade de ajudar

O empresário Fernando Augusto Del Grossi, de 51 anos, decidiu investir no treinamento e contratação do haitiano Jean Rick como padeiro, para trabalhar em sua boulangerie, aberta há três meses no Cambuí. “Foi uma experiência importante também na minha vida. Não é uma questão de pensar no que você vai ganhar com isso, mas é pensar o que você pode fazer para ajudar. Se ninguém se importar, ninguém faz nada”, diz Del Grossi.

O engenheiro de alimentos estava ainda finalizando as obras da Boulangerie Adélia quando um morador do bairro o procurou. O psiquiatra, que preferiu não se identificar, falou que podia apresentar um grupo de haitianos que precisava de emprego, para o qual ele e sua mulher prestavam alguns auxílios, como dar aula de português. Del Grossi aceitou conhecer o grupo, fez mais de seis entrevistas e escolheu um candidato para a função de padeiro que precisava. Investiu no treinamento especial feito com um profissional francês sobre técnicas francesas de panificação e fermentação natural. “Ele nunca havia trabalhado com panificação, mas vi potencial no Jean e não me arrependi. Eu acho que é uma prática que todo empresário deveria experimentar, porque você pode dar dignidade aos refugiados que precisam, além de sair de sua zona de conforto”, sugere Del Grossi, que diz se sentir orgulhoso de poder ajudar.

Jean fez o curso de padeiro de um mês e foi contratado por Fernando Del Grossi na Adélia Boulangerie      Foto: Martinho Caires

A história de Jean

Jean Rick dava aula de Ciências Sociais no Haiti. Aos 29 anos, foi um dos integrantes da família escolhido para buscar emprego em outro país para garantir a subsistência de todos. Um irmão na Islândia, outro no Chile e mais um no Brasil fazem o mesmo e enviam seus rendimentos à família de cerca de 14 pessoas no Haiti, entre eles uma filha de Jean.

O terremoto que destruiu o Haiti ocorreu há seis anos, mas o país ainda não se reconstruiu e falta emprego para a população. Em 2015, um grande contingente de haitianos tentou entrar no Brasil por Rio Branco, no Acre, e Jean era um deles. Passou antes pela República Dominicana, Panamá, Equador e Peru. Quando entrou no Brasil, ficou três dias sem comida. “Tinha apenas água. Foi muito difícil”, conta Jean sem muita vontade de contar. Quando a família enviou dinheiro, ele conseguiu seguir para São Paulo e depois, Campinas. Em abril de 2015 chegou à cidade.

Por intermédio da Prefeitura, conseguiu um emprego para fazer recapeamento. “Melhorou, mas tudo ainda é difícil, documentação, pagar aluguel.” No Jardim Florence I recebeu a visita do padre André Luiz Bordignon, da Paróquia Jesus Cristo Libertador, na casa onde morava com a comunidade haitiana. O psiquiatra que o indicou para a boulangerie prestava serviços na paróquia. Hoje contratado como padeiro, Jean faz planos de ir para a Islândia e, um dia, voltar ao Haiti, porque sente saudade da família e de sua filha de 7 anos. Ele ainda mora com os amigos haitianos e diz que agradece muito a todos que o ajudaram, como o padre e o patrão.

Yosbel Diaz: "É difícil deixar sua cultura, sua vida, mas eu me apaixonei. Algo me dizia que eu precisava construir minha família"    Foto: Martinho Caires

A história de Yosbel

Ele era lutador de luta Greco-romana em Cuba na sua adolescência. Corria 25 km por dia e fazia treinamento intensivo. Mas, aos 16 anos, sua condição de filho único o fez mudar. “Eu vi em casa um ovo na geladeira, só açúcar e água, então decidi ajudar minha mãe. Vê-la sofrer me fez mudar de vida. Comecei a trabalhar e estudar”, lembra Yosbel Asen Diaz. Fez curso de eletrônica e depois de hotelaria e turismo, onde há os melhores empregos do mercado de trabalho do país.

“Cuba é uma ilha muito linda e o turismo é importante fonte de recurso. Tive liberdade de escolher minha profissão”, diz Yosbel. Aos 30 anos, mais uma vez uma mulher o fez tomar outra decisão importante em sua vida. O cubano conheceu a brasileira Vivian dos Santos Queiroz, que viajava a trabalho. “Ela me hipnotizou”, brinca. “É difícil deixar sua cultura, sua vida, mas eu me apaixonei. Algo me dizia que eu precisava construir minha família. E agora ela está grávida”, diz sorrindo.

Yosbel afirma ter sido bem recebido no Brasil por todos. No Departamento de Cidadania da Prefeitura de Campinas ele busca apoio para conseguir um emprego. Também faz aulas de português pelo programa da Fundação Municipal para Educação Comunitária (Fumec), onde convive com imigrantes de Gana, Paquistão, Tunísia, Egito, Marrocos, Síria, Nigéria e Senegal. Lá ouve histórias que o faz ter certeza de que tem uma situação privilegiada, porque muitos deles passam por dificuldades que comovem o cubano.

Chaza Alturkmani e Suhib Zinou: “Às vezes, quando fico pensando nisso, tenho saudade. Aqui tudo é diferente. Mas nós agradecemos a todos que nos ajudaram"     Foto: Martinho Caires

A história de Suhib e Chaza

A síria Chaza Alturkmani é economista e tinha, na Síria, uma empresa de turismo. Seu marido, Suhib Zinou, de 60 anos, também era empresário, dono de uma empresa que fabricava elevadores. Os três filhos estudavam na cidade onde moravam, Alepo, a segunda maior do país depois da capital, Damasco. O filho cursava engenharia elétrica e uma das filhas já era médica. Mas a guerra acabou com tudo isso e a família se viu obrigada a sair do país deixando tudo pra trás.

Escolheram Campinas por indicação de um amigo sírio que já viera antes para a cidade. Apesar de terem conseguido sair com vida e com dinheiro suficiente para a viagem e o hotel no início, a família diz que foram muitas as dificuldades. A maior delas foi a língua. Os filhos superaram esta barreira rapidamente. O filho já ingressou na Unicamp para concluir seu curso universitário, a filha médica trabalha em mais de um hospital em Campinas e região, e a outra estuda. O casal, no entanto, fala da dificuldade em aprender português, apesar de terem aberto um restaurante há dois anos, que teve sucesso e mantém movimento constante.

“Sem trabalho não há vida”, diz Suhid. “E sem o português não dá pra trabalhar em empresa. Por isso abrimos o restaurante. Minha mulher faz aqui o que fazia em casa, e eu cuido do atendimento.” Todos os dias às 5h eles começam o trabalho do restaurante Castelo de Alepo, que abre para o almoço o self-service de comida árabe. Com muito trabalho, dizem eles, não conseguem fazer aulas de português.

“Nossa vida na Síria era muito boa. Os filhos querem ficar aqui, mas nós queremos voltar”, diz Chaza. “Às vezes, quando fico pensando nisso, tenho saudade. Aqui tudo é diferente. Mas nós agradecemos a todos que nos ajudaram. O brasileiro é muito amigável.”

O casal frequenta a mesquita muçulmana do bairro Taquaral e faz encontros com outros sírios na cidade, que são cerca de 20, segundo Chaza. “Eu sei de um sírio que trabalha com pintura, outro tem uma tenda na feira com comida árabe e todos trabalham”, conta Suhib.

Segundo Suhib, o momento que fez a família decidir sair da Síria foi quando caiu uma bomba sobre a universidade, em Alepo, num momento em que o filho estava lá. Suhib tentava falar com o filho e não conseguia. Demorou mais de duas horas até saber que ele estava vivo. No hospital, a filha também começou a conviver com a presença de soldados. Tudo isso os fez sair do país. “Hoje minha casa foi tomada pelo governo. Eles dormem na minha cama de verdade”, lamenta.

Fonte: http://agenciasn.com.br/arquivos/8940

 

Sobre o Observatório das Migrações em São Paulo e as pesquisas da professora Rosana Baeninger no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Demografia da Unicamp, veja também:

Imigração de trabalhadores qualificados para São Paulo aumentou nos últimos anos.

Agência FAPESP (21/11/2016)

Disponível em: http://agencia.fapesp.br/imigracao_de_trabalhadores_qualificados_para_sao_paulo_aumentou_nos_ultimos_anos/24334/

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Macrometrópole movediça

Estudo estima que 3,8 milhões de pessoas vivem precariamente em favelas, loteamentos clandestinos e loteamentos irregulares em 113 municípios paulistas

JULIANA SAYURI | Edição 221 – Julho de 2014

Certas cidades podem ser “lidas” como um retrato e como um mapa. Como retrato, no processo de favelização visível nas últimas décadas, com barracos informais, construções irregulares e puxadinhos improvisados, onde vivem “invisíveis” milhares de habitantes galgados nas fronteiras imaginárias das cidades brasileiras. Como mapa, nos levantamentos geográficos, com análise de estatísticas rigorosas e cruzamentos de informações de outras pesquisas, detalhando a localização e as condições dos “assentamentos precários” nos territórios. Essa foi a proposta do Diagnóstico dos assentamentos precários nos municípios da macrometrópole paulista, coordenado pelo pesquisador Eduardo Marques, do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP. Também participaram do estudo os geógrafos Daniel Waldvogel e Donizete Cazolato, o estatístico Edgard Fusaro e a cientista política Mariana Bittar.

“Os assentamentos precários incluem favelas, loteamentos clandestinos e loteamentos irregulares, três soluções habitacionais precárias”, define Marques, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). “Há grande heterogeneidade de situações, mas áreas precárias costumam abrigar população pobre, com pouco acesso a infraestrutura e serviços, especialmente no que diz respeito a serviços de esgotamento sanitário.” A fim de identificar os assentamentos precários, o estudo contou com variáveis como habitação, infraestrutura e aspectos demográficos, como escolaridade e renda do responsável pelo domicílio.

Realizado a pedido da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) e da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), esse estudo atualiza metodologia elaborada em um trabalho anterior, desenvolvido para o Ministério das Cidades. Em 2005, com base nas informações do Censo de 2000, a população favelada da macrometrópole paulista girava em torno de 3,17 milhões. Em 2010, ano-base do novo estudo com dados do Censo de 2010, já eram 3,80 milhões de habitantes em condições precárias nos 113 municípios da região, área de 31,5 mil quilômetros quadrados que abrange as regiões metropolitanas de São Paulo (RMSP), de Campinas (RMC), da Baixada Santista (RMBS) e do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVP-LN), além da aglomeração urbana de Jundiaí (AUJ) (ver mapas). Houve, portanto, um crescimento considerável, de 13,5% para 14,3%. “Entretanto, esses números escondem uma grande variabilidade entre regiões”, pondera Marques. “Na Região Metropolitana de São Paulo, a proporção caiu de 15% para 14,5%. Enquanto isso, na Baixada Santista o número cresceu de 18,1% para 20,5%; na região de Campinas, saltou de 9,9% para 14,5% – isto é, uma mudança expressiva, sugerindo intensos processos de favelização. Houve crescimento absoluto em todas as regiões, mas na capital esse percentual foi inferior ao crescimento do conjunto da população. Em certo sentido, há uma dispersão do problema”, indica.

© CENTRO DE ESTUDOS DA METRÓPOLE
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Para Marques, diversos fatores contribuem para esse retrato. “O processo de favelização está em curso há décadas, causado pela pobreza e pela falta de políticas habitacionais à altura da demanda. Em termos gerais, é produto da forma pela qual se deu (e pela qual se continua dando, embora em menor ritmo) o processo de urbanização no Brasil”, diz. Ao longo do tempo, uma possível solução envolveria a redução da pobreza e o aumento expressivo da oferta de habitação popular, mas, como as metrópoles foram se constituindo, a questão ficou mais complexa. “Muitas vezes, a disponibilidade de terras para a construção e o mercado fundiário podem representar obstáculos para a solução da precariedade. Esse é o caso da região metropolitana de São Paulo. A regulação sobre a terra urbana e a disponibilização de boas terras pelo planejamento passam a ser cruciais – e estatutos como as Zonas de Especial Interesse Social (Zeis), previstas no Plano Diretor atualmente discutido em São Paulo, trabalham nessa direção”, analisa. Nessa cartografia paulista, as consequências são a baixa qualidade urbana e de vida para um conjunto expressivo da população e, na mesma linha, uma queda na situação ambiental e urbana nas cidades.

Não há uma regra para a localização geográfica dos assentamentos precários. Na região metropolitana de São Paulo, muitos se concentram nas áreas periféricas. “Apenas algumas favelas de porte se situam na região mais central e mais rica. Isso é produto de um longo processo de expulsão dos núcleos mais centrais, com a população procurando se instalar nos espaços ainda existentes – cada vez mais periféricos. Os loteamentos irregulares, por sua vez, já foram implantados em áreas mais distantes, sendo, na verdade, responsáveis por parte predominante da expansão periférica a partir dos anos 1960. A combinação desses dois processos intensificou os padrões de segregação social em São Paulo e em outras metrópoles”, critica.

Fora do “normal”
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) privilegia a expressão “aglomeramentos subnormais” para se referir a setores urbanos em que a classificação do censo encontra certa complexidade, como aterros, barracos, favelas, invasões, mocambos, palafitas e loteamentos clandestinos. São consideradas “subnormais” as áreas com 50 habitações ou mais, marcadas por uma série de precariedades habitacionais, isto é, construções fora das regras do planejamento urbano. Os demais setores urbanos são classificados como “não especiais”.

“Essa definição, entretanto, é feita antes do censo, pois trata da organização do trabalho de coleta de dados. Assim, a informação fica desatualizada. Vale ressaltar, porém, que a definição ‘subnormal’ não advém de um erro do IBGE, pois a informação não pretende expressar a precariedade, mas sim organizar o trabalho do instituto. Os dados coletados são padronizados e, por isso, faz sentido aproveitá-los para outros estudos, mas contornando suas limitações”, diz Eduardo Marques. Esse foi o alicerce do trabalho do CEM, que aproveitou informações do IBGE para identificar os assentamentos precários, abrigando tanto aglomerados “subnormais” quanto setores “não especiais” com características sociais e urbanas similares, a fim de acertar possíveis distorções.

Definições à parte, aglomerados subnormais e assentamentos precários retratam as frágeis formas de habitação que se espalham por áreas vulneráveis nas grandes cidades, à espera de políticas públicas eficazes. “A habitação tem grande importância não apenas pela centralidade na qualidade de vida das pessoas que dependem das políticas governamentais, mas por estruturar as cidades. Nesse sentido, é do interesse de todos os grupos sociais a construção de políticas habitacionais massivas e diversificadas e de políticas redistributivas de regulação da terra – e não só dos diretamente beneficiados”, diz o pesquisador.

O estudo do CEM também analisou instrumentos de gestão voltados à política habitacional. “O Brasil vem acumulando conhecimento para desenvolver políticas habitacionais para os problemas existentes desde o início dos anos 1990, em processos de aprendizado de políticas que perpassaram diversos governos”, comenta Marques. Na precisão da teoria: “Certamente o caminho é o desenvolvimento de políticas diversificadas, que envolvam a produção massiva de habitações novas para as faixas de mais baixa renda, a regularização de loteamentos, a urbanização de favelas. Os conhecimentos técnicos estão sendo acumulados ao longo das décadas, mas essa política é cara e demorada”, diz o pesquisador. Na imprecisão da prática: enquanto tais políticas públicas não forem implementadas, as cidades brasileiras continuam crescendo aos tropeços, a torto e a direito, enquanto as favelas, como diria Carlos Drummond de Andrade, “o tempo gasto em contá-las é tempo de outras surgirem” (Crônica das favelas nacionais, Jornal do Brasil, 6 de outubro de 1979).

Projeto
Centro de Estudos da Metrópole – CEM (nº 2013/07616-7); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisadora responsável Marta Teresa da Silva Arretche (CEM); Investimento R$ 7.109.808,20 para todo o Cepid (FAPESP).

Fonte original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/07/15/macrometropole-movedica/

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Edição do Jornal da Unicamp traz três reportagens da Demografia

O Jornal da Unicamp da edição de  9 a 15 de dezembro traz três reportagens sobre estudos feitos no âmbito do Programa de Pós-graduação em Demografia sob coordenação dos professores Rosana Baeninger e José Marcos Pinto da Cunha. Reproduzimos abaixo as matérias na íntegra.

capa1

Acesse a capa em PDF clicando AQUI.

1) Atlas retrata dois séculos de imigração em São Paulo

Atlas retrata dois séculos de imigração em São Paulo

Obra integra coleção que detalha as dinâmicas sociais e econômicas dos processos migratórios

  • O Estado de São Paulo nunca deixou de receber contingentes de trabalhadores vindos de fora do país, mesmo nas décadas do século 20 em que tanto a população quanto a academia pareciam enxergar apenas a migração interna para o Estado, principalmente a originada no Nordeste, mostra o Atlas Temático do Observatório das Migrações em São Paulo, que está sendo lançado neste mês pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp, em parceria com a Fapesp. Essa imigração internacional voltou a ter visibilidade a partir dos anos 90 do século passado, reavivando tensões e preconceitos.

    “O capital internacional precisa desses imigrantes, sejam eles qualificados ou não, mas a população não está preparada para enfrentar esses novos fluxos migratórios, particularmente porque são migrantes voltados para o mercado de trabalho”, disse a coordenadora do Atlas, Rosana Baeninger, socióloga e pesquisadora do Nepo, ao Jornal da Unicamp.

    Além do Atlas, que em mapas e gráficos cobre a entrada de estrangeiros – incluindo escravos – no território que hoje corresponde ao Estado de São Paulo de 1794 a 2010, também estão sendo lançados os oito volumes finais, de um total de 12, da coleção “Por Dentro do Estado de São Paulo”, também produzida pelo Nepo e pelo Observatório das Migrações. A coleção cobre, em detalhe, as dinâmicas sociais e econômicas dos processos migratórios. Alguns volumes da “Por Dentro do Estado de São Paulo” tratam de regiões específicas, como Campinas e Limeira, e outros debruçam-se sobre processos mais amplos, como as imigrações internacionais ocorridas após a Segunda Guerra Mundial e as migrações indígenas.

    Na produção do Atlas, foram consideradas imigrantes as pessoas nascidas fora do Brasil que se encontram no Estado – assim, por exemplo, as segundas e terceiras gerações de imigrantes, nascidas no Brasil, não são captadas pelos censos demográficos, pois se utiliza o quesito referente ao país de nascimento.

    Fluxo invisível

    “Um ponto importante que um projeto dessa envergadura, com olhar para mais de 100 anos, ajuda a ver é que, embora a partir de 1927 tenha acabado o subsídio à imigração no Estado de São Paulo, nós continuamos recebendo os imigrantes internacionais”, disse a pesquisadora. “Ocorre que, como a migração interna passou a ser mais volumosa que a migração internacional, nós deixamos de estudar a migração internacional”.

    A imigração internacional para São Paulo só volta a ser “visível” na virada do século 20 para o 21, com a chegada dos bolivianos, chineses, coreanos e, depois, haitianos, e o risco de uma xenofobia renovada em parte da população. “Os fluxos de imigrantes para São Paulo nunca pararam, mas eram menos visíveis, porque os estrangeiros estavam chegando junto de levas de migrantes internos que também sofreram com o preconceito: os baianos, os paraibanos”, explicou Rosana. “Esse foi também um objetivo do projeto, mostrar como a migração contribuiu para a formação social paulista. A metrópole de São Paulo, hoje, ela se reinventa, se reconstrói, com a presença imigrante”.

    As organizadoras do Atlas – além de Rosana, participaram as pesquisadoras do Nepo Roberta Guimarães Peres e Natália Belmonte Demétrio – explicaram ainda que a imigração, nos séculos 20 e 21, nem sempre está relacionada a uma crise no país de origem.

    “O imigrante estrangeiro que vem ao Brasil não está necessariamente fugindo de uma crise econômica. Isso muda muito depois dos anos 2000, particularmente, porque o Brasil vai entrar na rota do capital internacional. E as indústrias têm um forte componente nessa mobilidade internacional, os grandes centros financeiros, também”, disse Rosana. “Os bolivianos, por exemplo, começam a entrar no Brasil da década perdida, quando nós aqui estávamos em crise. As explicações para as migrações não estão nos destinos migratórios, ou na origem. Estão muito vinculadas à dinâmica da circulação do capital, à necessidade de mão de obra para essa circulação de capital”.

    Brancos e qualificados 

    O uso do imigrante europeu para “branquear” a raça brasileira pode não ser mais uma política governamental explícita, mas as organizadoras do Atlas relutam em afirmar que o problema racial vinculado à imigração ficou de vez no passado. “O próprio governo brasileiro hoje quer fazer políticas explícitas para atrair portugueses e espanhóis qualificados. Então, quem são os portugueses e espanhóis qualificados? Continuam sendo os brancos. Os europeus”, lembrou Rosana. “Na questão do haitiano, nós vamos precisar dar um visto humanitário. Então, assim, acho que essa questão ainda é muito presente, inclusive na visualização dos fluxos migratórios”.

    Dados oficiais podem sugerir que o Brasil passa por um “boom” de atração de mão de obra estrangeira qualificada, mas Rosana lembra que o trabalhador pouco qualificado e sem documentação tem tido importante participação em diferentes nichos econômicos no país. Contudo, passam pelo Ministério do Trabalho e se regularizam empresários, engenheiros, executivos. “Essas grandes empresas se articulam à mobilidade do capital e da força de trabalho,  sendo que diferentes contingentes imigrantes passam a compor uma mão de obra não qualificada, de baixo custo neste novo cenário brasileiro”, disse a pesquisadora.

    As questões étnica e social interferem na percepção do imigrante, e na xenofobia. “O boliviano que vem tem outra etnia, tem suas raízes indígenas. E nós ainda estamos muito presos na questão de que, para a nação, o imigrante é o europeu. Hoje nós temos muitos coreanos, chineses aqui, mas o japonês, quando chegou, enfrentou um preconceito muito grande, porque ele era uma outra raça”.

    Diferentemente da imigração do século 19, para as lavouras, a imigração atual é urbana, mostra o Atlas. “É nas cidades que as pessoas vão se defrontando, hoje, com a migração muito mais visível: ela é latino-americana, é chinesa, é coreana– então o estranhamento é muito mais frequente hoje, porque somos de segunda, de terceira geração dos imigrantes do século 19. O mito da miscigenação ficou lá atrás”.

    O combate ao preconceito, disse Rosana, requer políticas públicas para melhorar a qualidade de vida dos imigrantes pouco qualificados, que chegam como mão de obra barata. “Tem de haver políticas públicas pensadas para as imigrações internacionais, para que essas pessoas não fiquem em condições de vida tão precárias que façam com que a população pense que a migração está trazendo problemas, quando é o contrário: ela está trazendo um excedente populacional que vai gerar riqueza naquele lugar. Riqueza para o capital, claro”.

    Ela acredita que é preciso reconhecer que o Brasil entrou de vez na rota das migrações internacionais. “Não podemos querer só o migrante qualificado, o português, o espanhol, o médico, o engenheiro que vem para cá e vai ter todas as condições de permanecer no Brasil. Temos de ter políticas migratórias que contemplem a diversidade de situações que o país está vivenciando, garantindo a governança das migrações internacionais e os direitos humanos”.

    Guaranis

    Um dos livros da coleção “Por Dentro do Estado de São Paulo” trata das migrações de índios guaranis no Estado de São Paulo. O volume, intitulado “Povos Indígenas; mobilidade espacial”, organizado por Rosana Baeninger e pela ex-presidente da Funai Marta Maria do Amaral Azevedo, descreve como, desde meados do século 19, índios guarani vêm migrando da Argentina e do Paraguai para o litoral paulista, em busca de uma “Terra Sem Males”.

    Além disso, o trabalho constata um aumento da população guarani no Brasil, saltando de 20 mil no período 1981-1985 e chegando a 51 mil em 2007-2008, de acordo com estimativas. “Para eles, toda essa área, Paraguai, centro-sul do Brasil, é um território só”, explicou Rosana. “O que mostra para nós, na questão dos povos indígenas, que não podemos delimitar os processos migratórios no território com o nosso olhar. Tem que ser com o olhar dos sujeitos, dos sujeitos migrantes. Eles nem se consideram migrantes”.

    A primeira fase do Observatório das Migrações em São Paulo, que se fecha com a publicação dos oito volumes finais da coleção e do Atlas, envolveu 16 estudos temáticos, que além dos 16 pesquisadores responsáveis contaram com a participação de 36 estudantes de graduação e pós. Além da Unicamp, estiveram envolvidas também Unesp, UFSCar, Unifesp e Faculdade Anhembi-Morumbi. O Observatório agora deve entrar numa segunda fase, mais voltada para as migrações contemporâneas no Estado. A primeira fase deu origem a 192 trabalhos apresentados em congressos nacionais, 102 em congressos internacionais, a 15 defesas de mestrado e a nove doutorados, envolvendo um total de 87 autores, e se estendeu de 2009 a 2013.

2) Intensificação de movimento pendular agrava desarranjo espacial na macrometrópole de SP

Pesquisa aponta que três milhões de pessoas se deslocam regularmente para trabalhar e estudar em quatro regiões metropolitanas paulistas

 

O desarranjo entre os lugares de residência, as atividades de trabalho e de estudo tem determinado nos últimos anos um aumento expressivo no fenômeno denominado pelos demógrafos de mobilidade pendular. A auxiliar de limpeza Tatiane de Oliveira Mattos, 27 anos, e o profissional de tecnologia de informação (TI) Giovani Senno, 32 anos, integram este contingente, embora caminhem em sentidos opostos.

Tatiane deixa os dois filhos com o marido e desloca-se, diariamente, de sua residência em Hortolândia, no interior de São Paulo, para a vizinha Campinas, onde conseguiu há quatro meses seu primeiro emprego numa empresa de prestação de serviços na área de limpeza e manutenção. São cerca de 30 quilômetros de viagem “tranquila, quando o trânsito ajuda”.

Giovani faz o trajeto inverso. Ele atua numa multinacional instalada no parque industrial de Hortolândia, município de 200 mil habitantes da microrregião de Campinas. Assim como Tatiane, o profissional de TI já se habituou à viagem diária, feita “numa boa, com ônibus fretado cedido pela empresa”.

A intensidade cada vez maior da mobilidade pendular no Estado de São Paulo é uma das principais revelações das investigações conduzidas por pesquisadores do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. Estimativas dão conta de que três milhões de pessoas em idade ativa (acima dos 15 anos) movimentam-se regularmente para trabalhar e estudar entre os 173 municípios paulistas que compõem quatro regiões metropolitanas – Baixada Santista, Campinas, Litoral Norte, Vale do Paraíba e São Paulo. O número toma como referência o Censo Demográfico de 2010, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto a média do crescimento populacional destas regiões, entre 2000 e 2010, manteve-se em torno de 1% ao ano, os movimentos pendulares subiram nove vezes além. O deslocamento de pessoas para trabalho ou estudo sofreu um incremento de 76% nos anos 2000, período de emergência das regiões metropolitanas. Para o demógrafo José Marcos Pinto da Cunha, pesquisador do Nepo e um dos autores do estudo, é cada vez mais comum este deslocamento das pessoas entre duas cidades que, não necessariamente, precisa ser diário, mas regular.

“As experiências e histórias dos processos de ocupações das regiões metropolitanas mostram que não há muita preocupação no sentido de tornar mais eficaz a mobilidade da população. O grande desafio atual é reduzir essa mobilidade das pessoas e tentar fazer programas para aproximá-las das suas atividades, seja de trabalho ou estudo. E não é isso que temos visto infelizmente”, avalia.

O demógrafo da Unicamp afirma que o fenômeno da pendularidade espelha processos de ocupações desiguais do espaço. Os lugares onde as pessoas moram dependem muito mais do nível aquisitivo e dos interesses do mercado imobiliário do que propriamente das ações governamentais, critica José Marcos da Cunha, que atua como docente do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

“A pendularidade reflete a expansão das atividades econômicas, envolvendo quem é capaz de desenvolver tais atividades. O Estado, em qualquer dos níveis de atuação, tem feito muito pouco no sentido de romper essa apropriação desigual do espaço urbano, que temos observado desde sempre. Tem um passivo muito grande. Ele pode ser solucionado, mas não é de fácil solução”, expõe.

Hortolândia, situada às margens da Rodovia Anhanguera (SP 330), é um exemplo para a compreensão da intensidade do fenômeno, que envolve, no plano externo, as regiões metropolitanas e, no plano interno, as cidades de referência dos territórios metropolitanos. Cerca de 40% da população do munícipio é pendular, de acordo com o pesquisador da Unicamp.

“Essa mobilidade é muito mais intensa no nível interno das regiões metropolitanas. Hortolândia tem um cruzamento ‘interessante’ com Campinas. Enquanto os profissionais mais qualificados que moram em Campinas, Vinhedo ou Valinhos estão indo para estas grandes empresas instaladas em Hortolândia, a população de baixa renda de lá está vindo para Campinas trabalhar na cidade”, exemplifica.

Dos três milhões de pessoas que se deslocaram em 2010, cerca de 80% o fizeram nas cidades pertencentes às mesmas regiões metropolitanas, ou seja, no nível interno. Em 2000, este índice era ainda maior, chegando a 85,5% do total de deslocamentos. Mesmo sendo em volume inferior, a pendularidade no nível externo, entre cidades de diferentes regiões metropolitanas, apresentou crescimento de mais de 131%, entre 2000 e 2010, passando de 323 mil pessoas para 539 mil.


O caso do “treme-treme”

O pesquisador do Nepo aponta que o desafio está no sentido de o poder público não somente regular a ocupação do espaço urbano, mas intervir na forma de ocupação. “Por que surge Hortolândia, Monte Mor e Sumaré? Porque Campinas não tem, há muito tempo, uma política de loteamentos populares. Podem dizer que isso existe na região do Campo Grande, mas boa parte são ocupações. Não é para menos que o município de Campinas é um dos campeões de ocupações no Brasil. Se o poder público não dá direito à cidade, as pessoas ocupam”, considera.

José Marcos da Cunha lembra o caso dos edifícios São Vito e Mercúrio, residenciais de grande porte instalados no centro da capital paulista. Nos últimos anos os prédios foram desapropriados e demolidos pela Prefeitura de São Paulo. Localizados na Avenida do Estado, eles possuíam 27 andares cada um e, segundo o docente, uma potencialidade enorme para a moradia popular. O São Vito, conhecido como “Treme-Treme”, foi um dos edifícios mais suntuosos da cidade na década de 1950.

“Estes residenciais estavam localizados em frente ao Mercado Municipal de São Paulo. Havia um plano de ocupá-los com a população de baixa renda, ou seja, um plano ideal, porque a localização é excelente para as pessoas que trabalham na região. Imagina o que significaria aquilo para população de baixa renda que sai das áreas da periferia e leva mais de duas horas de ônibus e metrô para chegar ao trabalho? Seria um pingo no oceano, mas já era uma alternativa. Viabilizar a ocupação de áreas centrais para os mais pobres é um grande passo. O poder público tem condições de fazer isso”, sustenta o estudioso.

O Estatuto da Cidade (lei 10.257), em sua opinião, está entre os instrumentos de regulação e intervenção do espaço urbano mais modernos do mundo. “Este instrumento permite que o poder público desaproprie e declare áreas de interesses sociais. O problema é que, no legislativo e no executivo, os interesses imobiliários são fortíssimos. O poder público poderia, portanto, usar estes prédios, mas eles podem virar um shopping ou um estacionamento. O interesse imobiliário prevaleceu”, lamenta.

Macrometrópole 

O pesquisador do Nepo informa que o objetivo do estudo desenvolvido na Unicamp é diagnosticar as tendências e características da mobilidade pendular nas quatro regiões metropolitanas de São Paulo. Foram utilizadas informações disponíveis nos Censos de 2000 a 2010 produzidos pelo IBGE.

As pesquisas são resultados de uma parceria com a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano SA (Emplasa), órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano do Estado de São Paulo. Também participaram do trabalho, além de José Marcos, o economista e pesquisador do Nepo Sergio Stoco; o geógrafo Ednelson Mariano Dota, docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e doutorando da Unicamp; e as gestoras Rovena Negreiros e Zoraide Amarante Itapura de Miranda, da Emplasa.

“O diagnóstico certamente contribuirá para avaliar o processo de interação e complementariedade socioespacial que se desenvolvem entre as aglomerações urbanas. O estudo desse fenômeno pode contribuir para o diagnóstico do processo de estruturação desses espaços e, sobretudo, para mitigar deficiências existentes em termos de política habitacional, de transportes, de saúde, educação”, justifica o docente da Unicamp.

Ele acrescenta que a partir do processo de integração e complementaridade destas regiões metropolitanas, a Emplasa passou a trabalhar com uma nova categoria espacial, denominada pelo órgão como macrometrópole paulista. Formada por estas quatro regiões metropolitanas (Baixada Santista, Campinas, Litoral Norte, Vale do Paraíba e São Paulo), a macrometrópole constitui-se numa das maiores aglomerações urbanas do país.

A emergência e o reconhecimento desta nova categoria espacial é relevante para a compreensão de novas tendências que possuem implicações socioespaciais e demográficas importantes, avalia José Marcos da Cunha. “Apesar de não perderem suas características, funções e especificidades, as regiões metropolitanas estão cada vez mais integradas, dependentes e complementares em suas funções, inclusive do ponto de vista demográfico. Todos estes aspectos repercutem também numa mobilidade da população, seja residencial, de caráter definitivo, ou pendular”, confirma.

Ainda de acordo com o demógrafo, a intensidade dos deslocamentos regulares nesta macrometrópole transformou as grandes autoestradas da região – como as rodovias dos Bandeirantes (SP 348), Ayrton Senna (SP 70), Castelo Branco (SP 280), dos Imigrantes (SP 160) e Dom Pedro I (SP 65) – em verdadeiras ‘avenidas’, em razão do grande fluxo de pessoas, bens e serviços.

“Quando a Castelo Branco foi inaugurada, era uma autopista fantástica. E o Alphaville de São Paulo estava na sua margem. Agora, a Castelo Branco é uma grande avenida, você não consegue andar em determinados horários. E o Alphaville já começa a trazer escritórios para perto dele; e muita gente já vive de helicóptero para cima e para baixo”, especifica.

A articulação e integração são tão intensas entre as cidades da macrometrópole paulista que seus principais problemas só podem ser resolvidos de maneira integrada, sugere o pesquisador do Nepo. “O metropolitano não existe como nível de organização e de execução. As regiões metropolitanas ficam meio ‘capengas’ neste sentido. Portanto, a Emplasa tem um papel interessante no sentido de mostrar que o recorte metropolitano é importante para cada um dos municípios. Os prefeitos tendem a se concentrar muito nas questões administrativas, esquecendo que os problemas dos seus municípios também estão relacionados à região como um todo.”

Conforme dados do IBGE de 2009 e 2010, vivem na macrometrópole paulista mais de 30 milhões de pessoas, o equivalente a 70% da população do Estado de São Paulo. A região é responsável por mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) paulista e 28% do PIB brasileiro. A disparidade também é acentuada: quase três milhões de pessoas residem em condições precárias de moradia, como favelas, ocupações e áreas de risco.

Este grande território urbano ocupa 20% da superfície do Estado de São Paulo, concentrando municípios situados em um raio aproximado de 200 quilômetros a partir da capital. Uma condicionante para a sua formação está na desconcentração industrial da região metropolitana de São Paulo, o principal polo industrial do país. Este processo iniciou-se a partir da década de 1970. Conforme os estudos do Nepo, o fenômeno se dá também pela reestruturação produtiva pós 1990, que substitui a concentração dos empregos industriais pela maior participação do setor de serviços.

Futuro 

As investigações sobre a pendularidade na macrometrópole paulista serão incrementadas, no futuro, com resultados de outro estudo em andamento produzido pelo Nepo. Trata-se de uma análise sociodemográfica a fim de mapear o perfil da população que está inserida neste fenômeno.

Não é difícil encontrar pessoas que passam boa parte do seu dia a dia em deslocamentos de casa para o trabalho ou estudo. Os relatos da auxiliar de limpeza Tatiane Mattos e do profissional de TI Giovani Senno, demonstram que o fenômeno, cada vez mais intenso na atualidade, é, de certo modo, aceito como uma condição natural pela população.

“Eu moro em Hortolândia há seis anos. Antes, estava em Sumaré, mas aí meus pais se mudaram, eu me casei e fui para Hortolândia também. Para vir ao trabalho, levo uns 35 minutos, para voltar demoro mais, uns 50 minutos. A viagem não é cansativa, já me acostumei. Meus filhos, um de oito anos e outro de um ano e oito meses, ficam com o meu esposo”, descreve Tatiane.

Giovani Senno conta que morava com os pais no bairro Jardim Nova Europa, na região sul de Campinas. “Acabei me mudando recentemente para a região do Swift. Comprei um apartamento há três anos e, quando terminei de mobiliá-lo, me transferi para lá. A companhia fornece transporte fretado para toda a região e em muitos horários, então, isso facilita bastante”, justifica.

Colega de Tatiane, a auxiliar de limpeza Roseane da Silva, 37 anos, também não se incomoda com o percurso diário de Sumaré a Campinas. “Não é tão complicado vir para Campinas, têm o fretado e um ônibus circular direto, apesar de ser de hora em hora. Acaba sendo ruim por causa disso, mas não me incomoda não. Eu sempre trabalhei em Campinas, sempre busquei as oportunidades aqui”, revela.

Karina de Oliveira Souza, 27 anos, mora e trabalha na mesma cidade, em Campinas. Ela, porém, leva mais tempo para voltar para a sua residência do que as colegas Tatiane e Roseane. “Eu moro do outro lado da cidade, no Jardim Bassoli, para frente do Campo Grande. Se tivesse um emprego mais perto de casa seria melhor para poder ficar mais tempo com meus filhos. Demoro uma hora para voltar para casa, mas não acho ruim não”, conforma-se a jovem que atua na empresa prestadora de serviços no distrito de Barão Geraldo, região norte de Campinas.

Substituição de gerações

Uma das explicações para a explosão dos movimentos pendulares, apesar do baixo índice de crescimento populacional, é o que o demógrafo José Marcos da Cunha chama de substituição de gerações.  Além disso, o fenômeno adquire autonomia em relação ao crescimento demográfico em razão de mudanças nas formas de uso e ocupação do solo urbano, seja em termos demográficos ou mesmo econômico.

“A questão da substituição de gerações é interessante para entender a intensidade dos movimentos pendulares. O exemplo é uma família formada pelo marido, a mulher e dois filhos de 15 e 16 anos. Esses filhos vão ter que buscar algum lugar para morar em breve. Mesmo que a população não cresça tanto em intensidade, eles vão sair das casas dos pais. Ao deixarem as casas dos pais, eles dificilmente vão ter condições de ficar no mesmo lugar, no mesmo bairro, a não ser que sejam muito ricos. Portanto, este processo de substituição de gerações acaba modificando a cidade”, ilustra.

Há também que se considerar o fator da urbanização dispersa, conforme explica o estudioso. “A urbanização dispersa tem impacto decisivo sobre essa mobilidade. Há uma tendência dos condomínios fechados para a população de alta renda. Alguns estudiosos chamam isso de ‘novas periferias’. É o caso de Vinhedo, que está numa posição privilegiada por estar perto de Campinas e de São Paulo. Muita gente escolhe morar ali, eles têm essa possibilidade… Há um conjunto de elementos que influenciam novas tendências de urbanização, como custo de vida, segurança, qualidade de vida, entre outros.”

Publicação

CUNHA, J.M.P.; STOCO, S.; DOTA, E.M.; NEGREIROS, R.M.C.; MIRANDA, Z.A.I. A mobilidade pendular na macrometrópole paulista: diferenciação e complementariedade socioespacial. Cadernos Metrópole, 15 (30):, 2013.

3) Novos processos, novos migrantes

Tese de economista analisa a imigração brasileira na França após 1980

 

Malas e documentos na mão. Hospedagem. Dinheiro  depositado na conta. Seguro-saúde e todas as condições para morar na França. Não é todo migrante que deseja estabelecer residência no país que consegue preencher todos esses requisitos necessários. Nem essa história ideal pode ser compartilhada por todos os brasileiros que pretendem morar lá.

Um físico brasileiro que sai do Brasil para fazer um pós-doutorado em Paris vive uma experiência completamente diferenciada de um mestre de capoeira que vai para Marselha para trabalhar nessa atividade. Analisar um fluxo exige olhar para a diversidade dos projetos migratórios, porque os processos sociais que viabilizam as migrações não são os mesmos.

“Vivemos atualmente numa época em que a mobilidade humana aumentou e ficou mais complexa, um contexto no qual surgem ‘novos migrantes’ e ‘novas lógicas migratórias”, ressaltou Gisele Maria Ribeiro de Almeida em sua tese de doutorado em Sociologia defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

Segundo a autora do estudo, graduada em Economia pela Unicamp e que “migrou” para a Sociologia, um estudante, um trabalhador de baixa qualificação e um executivo não chegam à França pelo mesmo caminho e nem debaixo das mesmas condições, por isso “as modalidades migratórias são importantes, porque revelam os diferentes processos que viabilizam essas migrações”.

A tese, de mais de 400 páginas, mostrou que muitos brasileiros não saíram do Brasil com a ideia de ir exatamente para a França. Mudaram seus planos na medida em que não conseguiram entrar no país desejado. “Há casos em que o objetivo era ir para o Reino Unido mas, em razão das barreiras da imigração britânica, acabaram ficando na França”, lembrou.

O principal obstáculo ao deixar o país, segundo a autora da tese, é jurídico, pois os países adotam restrições à imigração. Mesmo no caso dos estudantes que são a princípio bem-vindos pela política migratória francesa, é preciso preencher uma série de exigências para conseguir vistos de permanência. E quem vai trabalhar também necessita de visto.

Os profissionais altamente qualificados geralmente são disputados por políticas migratórias seletivas, ao passo que trabalhadores com pouca ou baixa qualificação tendem a viver na França sem documentos. Entre os trabalhadores de pouca ou baixa qualificação, a maioria dos homens trabalha na construção civil enquanto as mulheres exercem, na maioria dos casos, atividades ligadas à economia do cuidado, atuando na faxina, como manicures, baby-sitters, etc.

História

A tese de Gisele buscou analisar a imigração brasileira na França após 1980, em função de ter sido a partir daí que o país registrou fluxos de emigração decorrente dos efeitos da crise econômica que nessa década assolou o Brasil.

No início, os países que mais receberam brasileiros foram principalmente os Estados Unidos, Japão e Portugal. No entanto, a formação do espaço de livre circulação europeu, a não exigência de visto para brasileiros que viajavam na condição de turistas, o aumento dos obstáculos à imigração nos Estados Unidos após o “11 de setembro” foram aspectos que implicaram em novas oportunidades e constrangimentos para os emigrantes brasileiros.

De acordo com a estudiosa, no que diz respeito à França, o tipo histórico da imigração brasileira no país até 1980 era dada pela mobilidade estudantil. O fluxo começou depois da Independência do Brasil (1822), quando brasileiros, financiados pelo recém-formado Estado, receberam bolsas para estudar lá a fim de voltar e formar quadros para atuar em organismos públicos.

Surgiu aí uma raiz que alimentou fortes vínculos acadêmicos, intelectuais e científicos. Tanto que até hoje há um número significativo de estudantes brasileiros na França. Conforme dados da Capes e do CNPq, para a primeira década do século 21, a França está entre os três países que mais recebem bolsistas brasileiros no exterior.

No entanto, a pesquisa encontrou perfis diferenciados de brasileiros que vivem na França. De acordo com Gisele, o fluxo Brasil-França após 1980 é uma evidência de como o tipo “migração internacional” vem sendo composto por um mosaico de modalidades migratórias, dada à presença da de trabalhadores altamente qualificados, de trabalhadores manuais, da circulação estudantil, dos deslocamentos motivados pela afetividade, dos fluxos de refugiados, entre outros.

Este cenário trouxe à tona a questão das diferentes “faces do fenômeno migratório” e dos ganhos analíticos obtidos com a incorporação das modalidades migratórias, um referencial teórico que vem sendo trabalhado também pela pesquisadora Rosana Baeninger, orientadora da pesquisa.

A doutoranda teve financiamento da Fapesp e sua pesquisa estava ligada ao projeto temático “Observatório das Migrações em São Paulo”, coordenado por Rosana Baeninger. Gisele também obteve uma Bolsa de Estágio e Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fapesp. Foi para a Université Aix-Marseille 3 em 2012 e permaneceu seis meses na França para fazer sua pesquisa de campo.


Achados

A tese reforçou a questão da complexidade em torno das chamadas “migrações internacionais contemporâneas” e demonstrou que o uso analítico das modalidades migratórias é uma forma de permitir o reconhecimento do caráter multifacetado desses processos atuais.

A partir de uma leitura sociológica, a tese apontou para a importância de se combinar os condicionantes macroestruturais que impelem e viabilizam as migrações com os interesses e as estratégias dos agentes que migram para o entendimento dos deslocamentos.

Se existem diversos perfis de brasileiros, porque são agentes que ocupam diferentes posições no espaço social, eles não vão conceber projetos migratórios da mesma forma. “Esses projetos vão reverberar e assumir caráter de modalidades migratórias específicas, como as dos estudantes e dos trabalhadores, que no estudo foram classificados na modalidade estudantil e na modalidade laboral respectivamente”, explicou.

Gisele chegou a esses dados realizando um estudo com 102 brasileiros. Destes, 86 foram entrevistados enquanto ela estava na França e 16 foram entrevistados no Brasil. Destes, 14 eram os “retornados” porque viveram na França e voltaram ao Brasil, mas houve dois casos nos quais os entrevistados viveram na França e estavam morando em um terceiro país quando foram entrevistados.

Ao focar os projetos migratórios, o estudo procurou apontar como os variados perfis de migrantes elaboram seus planos de emigração em razão da diversidade de situações, a depender da posição social do potencial migrante, e os diferentes níveis de autonomia e constrangimento que se colocam.

A saída do país e a instalação na sociedade receptora, averiguou, também assume especificidades, dependendo do perfil do migrante. Para isso, Gisele construiu cinco modalidades migratórias: migração de profissionais altamente qualificados, migração estudantil, migração laboral, migração afetiva e migração “cosmopolita”.

Os profissionais altamente qualificados foram subdivididos em executivos vinculados às empresas multinacionais e cientistas. No caso de estudantes, ela considerou aqueles que vão à França a princípio para estudar. Na migração laboral foram considerados trabalhadores de pouca ou baixa qualificação que foram para a França em busca de uma vida melhor.

Gisele apurou que no momento a maior necessidade de mão de obra feminina está concentrada nas atividades de cuidados: setores de limpeza, cuidados com crianças e idosos, manicures. Do ponto de vista de atividades artísticas, destacou a atividade de bailarina entre as mulheres e professores de capoeira e músicos entre os homens. Também verificou um fluxo antigo de transexuais que trabalham no mercado de sexo.

De acordo com Gisele, foram incluídos na modalidade migração afetiva, os deslocamentos motivados “por amor”: brasileiras que foram acompanhando seus cônjuges brasileiros transferidos para a França e também brasileiros(as) que se casaram com franceses e por causa disso migraram para a França.

Por último, a migração “cosmopolita” envolveu pessoas que migraram pelo desejo de conhecer uma nova cultura. A maioria tinha cidadania europeia por origem familiar. Então não sofreram as restrições das políticas migratórias.

Ao ser indagada se é um bom negócio viver na França, Gisele responde que, se o objetivo é ganhar dinheiro, os entrevistados disseram que o país não é este lugar. A vida pode ser até um pouco mais difícil e levar a uma perda de status.

Ela conversou com uma jornalista que trabalhava em uma revista no Brasil e que na França foi garçonete e babá. E também com uma economista que era professora universitária no Brasil e que estava fazendo faxina na França para se manter enquanto fazia o doutorado, pois não tinha bolsa de estudos. “Então têm muitos aspectos em jogo, além do financeiro”, garantiu.

Publicações

Artigos

ALMEIDA, G.M.R. “Os brasileiros na França”. Revista Ideias, nº 2, 2011, p. 43-57, IFCH-UNICAMP, Campinas. Disponível em: ifch

ALMEIDA, G. M. R. de. “Circulação estudantil e imigração brasileira na França”. In: BAENINGER, Rosana (org) Migração internacional. Campinas: Nepo/Unicamp, 2013. p. 205-221 Disponível em:  nepo

ALMEIDA, G. M. R. de. “A integração dos imigrantes brasileiros na França”. Revista Travessia, nº 72. São Paulo: CEM, janeiro-junho 2013. p.19-30

Tese: “Au revoir, Brésil: um estudo sobre a imigração brasileira na França após 1980”
Autora: Gisele Maria Ribeiro de Almeida
Orientadora: Rosana Baeninger
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: Fapesp

Acesse a edição completa do Jornal da Unicamp clicando AQUI.

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SciELO Brasil lança blog de Ciências Humanas

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Os pesquisadores e editores de revistas de Ciências Humanas no Brasil têm agora um espaço na internet para divulgar notícias, press releases, entrevistas, resumos e comentários sobre artigos publicados em periódicos científicos da área, indexados na SciELO Brasil. Trata-se do Blog SciELO em Perspectiva – Humanas.

Criado por iniciativa da Rede SciELO – Scientific Eletronic Library Online –, o blog foi lançado durante a conferência de comemoração dos 15 anos do programa, criado pela FAPESP e o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme).

O objetivo do blog é disseminar os resultados de pesquisas publicadas nos periódicos da coleção da SciELO Brasil na internet, incluindo redes sociais, ressaltam os idealizadores.

“A ideia é que ele seja um espaço não só para dar visibilidade às produções e periódicos em Ciências Humanas indexados na coleção da SciELO Brasil, mas também compartilhar nossos trabalhos e possibilitar uma interação maior dos pesquisadores da área”, disse Teresa Cristina Rego, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e representante titular dos editores da área de Ciências Humanas do comitê consultivo da SciELO, durante a apresentação do blog.

De acordo com Teresa, a ideia de desenvolver o blog surgiu em um encontro realizado em junho, em São Paulo, com o intuito de estabelecer uma rede mais interativa entre os editores de publicações na área de Humanidades, indexadas na base da SciELO Brasil.

A partir de então, foi feita uma consulta aos editores que integram a Rede SciELO na área de Humanas sobre o que achavam da ideia, em qual idioma o blog deveria ser escrito e quais as seções o blog deveria ter, entre outras questões.

Com base nos resultados da consulta, ele foi lançado em português e hospedado no SciELO em Perspectiva. “Fizemos a primeira solicitação de materiais aos editores de Humanas e obtivemos um retorno de 44 mensagens, que alimentaram a primeira versão do blog”, contou Teresa.

Submissão de contribuições

Os materiais submetidos à publicação são avaliados por um comitê editorial. Composto inicialmente por sete integrantes – dentre eles Teresa –, o comitê editorial do blog deverá ser progressivamente ampliado, reunindo mais editores de periódicos de Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes da coleção SciELO Brasil.

“O blog representa um esforço incremental ao realizado por muitas revistas científicas da área de Ciências Humanas no Brasil, que já possuem perfis no Facebook e Twitter, além de websites bastante dinâmicos”, disse Antônio Carlos Moraes Lessa, editor da Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI), publicada pelo Instituto Brasileiro de Relações Internacionais e indexada na base da SciELO Brasil, durante o evento.

“Ele deverá colocar a produção das revistas científicas da área de Humanas no país em perspectiva, incrementando o trabalho de divulgação na internet que algumas delas já fazem individualmente com grande competência”, afirmou Lessa.

O blog está aberto à colaboração de autores, editores e equipe editorial dos periódico da SciELO Brasil.

As sugestões devem ser encaminhadas para o e-mail blog.humanas@scielo.org.

Fonte: http://agencia.fapesp.br/18336

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Mudanças na dinâmica populacional paulista

rosana

Estado de São Paulo tem aumento da movimentação de estrangeiros para o interior e diminuição da migração interestadual, aponta estudo da Unicamp. Foto: Profa. Rosana Baeninger (Nepo/Unicamp).

24/09/2013

Por Noêmia Lopes

Agência FAPESP – Na década de 1980, os estrangeiros que chegavam ao Estado de São Paulo se concentravam na região metropolitana da capital paulista. Hoje, há um movimento significativo de grupos como bolivianos, paraguaios, chineses e coreanos partindo em direção a diferentes regiões do interior, para o trabalho em setores agrícolas, industriais e do comércio.

Os próprios paulistanos já vêm engrossando o movimento de interiorização da população desde os anos 1980, movimento que agora ganha impulso por conta de fatores como saturação do mercado de trabalho na cidade de São Paulo, aquecimento de segmentos variados no interior e busca por melhor qualidade de vida. Os mesmos motivos fazem crescer a migração de retorno aos estados de Minas Gerais e Paraná, bem como a movimentação de brasileiros entre outros estados que não o de São Paulo.

Essas são algumas das conclusões do Projeto Temático Observatório das Migrações em São Paulo, apoiado pela FAPESP e coordenado por Rosana Baeninger, professora do Departamento de Demografia e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp).

O conjunto dos dados levantados, desde 2009, por Baeninger, 16 pesquisadores e 38 alunos de mestrado, de doutorado e de iniciação científica deu forma à coleção de 12 volumes Por Dentro do Estado de São Paulo, lançada em agosto.

“Nosso objetivo foi analisar a configuração dos movimentos migratórios atuais a partir das raízes históricas desses processos. Para tanto, investigamos a formação social paulista desde o século 19, na passagem para o século 20 e ao longo dele, chegando ao início do século 21”, afirmou Baeninger, à Agência FAPESP.

As informações até 1950 foram obtidas a partir da naturalidade registrada em certidões de casamento, de anuários demográficos sanitários e de arquivos da Hospedaria dos Imigrantes, na cidade de São Paulo. A partir de então, foram analisadas séries históricas dos censos demográficos e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

“Contudo, como o censo demográfico mais recente contém informações que vão somente até 2010, entender as migrações contemporâneas, inclusive as ocorridas nos três últimos anos, exigiu uma série de visitas a campo, tanto nas regiões de origem quando na de destino das migrações”, contou Baeninger.

Dois exemplos de viagens como essas foram investigações sobre piauienses que deixam o Piauí para trabalhar em plantações paulistas de cana-de-açúcar e de laranja e bolivianos que partiram de seu país em direção não apenas à região metropolitana de São Paulo, como era de costume, mas também a polos têxteis como Indaiatuba e Americana.

Durante as visitas, os pesquisadores do Observatório das Migrações fizeram entrevistas qualitativas nas prefeituras e em órgãos vinculados à assistência social, questionando os profissionais sobre como percebem a chegada ou a partida de moradores.

De acordo com Baeninger, tais dados foram complementados com entrevistas biográficas feitas com os próprios migrantes internos e internacionais. “Pedíamos que nos contassem suas trajetórias, começando sempre com relatos mais recentes e contando quando e com quem migraram, onde moraram, entre outros aspectos.”

Razões das mudanças

Em relação à migração internacional, Baeninger afirmou que as novidades se explicam por conta da inserção de novas regiões paulistas na lógica do capital internacional – ou seja, mais investimento externo, mais demanda por mão de obra.

“Profissionais bem qualificados continuam chegando a polos de alta tecnologia como Campinas, vindos de países como Alemanha e França. Mas agora há também uma interiorização da mão de obra não qualificada que antes se concentrava na capital”, explicou a pesquisadora.

Nesse cenário, enquadram-se bolivianos e paraguaios na indústria têxtil de Indaiatuba e Americana; chineses no comércio de Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto; coreanos na indústria de semijoias e bijuterias de Limeira; e haitianos na construção civil de diferentes regiões.

A interiorização também cresce entre brasileiros, que continuam partindo da região metropolitana. “As oportunidades vêm florescendo no interior desde os anos 1970. Agora, outros fatores entram em jogo, como o aumento da violência na capital e a busca por uma melhor qualidade de vida”, disse Baeninger.

Tais motivadores também levam ao aumento da migração de retorno aos estados de Minas Gerais e Paraná, bem como à diminuição da migração dos demais estados para São Paulo. Sobre esse último aspecto, a pesquisadora afirmou que “trabalhadores que potencialmente migrariam ficam em suas regiões, quando aquecidas, ou seguem o capital internacional por diferentes estados do país”.

Novas agendas

De acordo com Baeninger, os dados coletados abrem novas agendas para os estudos populacionais. “A migração interna (entre estados) e a externa (de estrangeiros) estão cada vez mais inter-relacionadas e precisamos estudá-las concomitantemente. A formação social paulista – primeiro, trazendo imigrantes e, depois, buscando brasileiros em outros estados – contribuiu para que separássemos os dois tipos de movimentação. Mas somente uma visão global nos permitirá entender as novas territorialidades e regionalizações no século 21.”

Ainda segundo Baeninger, essa compreensão é fundamental para subsidiar políticas públicas. O Observatório das Migrações já promoveu, nesse sentido, quatro edições do Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais, destinado a gestores municipais de diferentes secretarias, paulistas ou não. “Publicamos editais e convidamos os participantes a pensar sobre a importância das dinâmicas populacionais para a gestão”, disse.

Um dos aspectos que Baeninger e seus parceiros consideram relevante do ponto de vista social é a criação de políticas contra posturas e atitudes preconceituosas. Segundo a pesquisadora, “os volumes migratórios são muito menores do que já foram no passado. Mas, por se destinarem em grande parte a áreas urbanas, são alvo de mais atenção e, infelizmente, de certo preconceito”.

Esse e outros temas devem seguir na pauta dos órgãos da Unicamp envolvidos no Observatório das Migrações – o próprio Núcleo de Estudos de População, o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas, o Instituto de Economia, a Faculdade de Ciências Aplicadas e o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – e de colaboradores externos vinculados à Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Marília, à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e à Faculdade Anhembi Morumbi.

Os títulos dos 12 volumes publicados são: Estado de São Paulo – Regiões Metropolitanas e Polos Regionais; Regiões Metropolitanas; Polos Regionais – São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto; Polos Regionais – Bauru, São José do Rio Preto, Araçatuba e Presidente Prudente; Região de Limeira; Regiões Canavieiras; Retrato Paulista do Censo Demográfico de 2010; Povos Indígenas – Mobilidade Espacial; Migrações Internacionais; Processos Migratórios no Estado de São Paulo – Estudos Temáticos; Imigrantes Internacionais no Pós-Segunda Guerra Mundial; e Região Central.

Fonte: http://agencia.fapesp.br/17914

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Prévia TEDxUnicamp 2013 – Profa. Roberta Peres – NEPO

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