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Sob câmeras e intramuros: a venda ilusória da segurança, por Dafne Sponchiado

Há uma falácia no que diz respeito ao surgimento dos condomínios e loteamentos horizontais fechados no Brasil, que indica que seu surgimento estaria associado aos processos de crescimento de grandes centros urbanos no país e do aumento da violência urbana, geralmente dada como consequência direta do primeiro aspecto. Essa perspectiva é falaciosa na medida em que credita o surgimento deste tipo de desenho à escolha dos moradores, sujeitos do aumento da violência, e descarta a participação fundamental de outros atores, tais como o poder público e o mercado imobiliário.

Em Campinas, localizada no interior do estado de São Paulo, os primeiros loteamentos fechados surgiram no final da década de 1970, mas foi somente a partir dos anos 1990 que a cidade teve parte da sua paisagem urbana modificada de forma mais evidente com o crescimento deste modelo de urbanização. A região onde se deu a expansão destes loteamentos corresponde a um eixo ao norte da rodovia Anhanguera e ao longo da rodovia Dom Pedro I, abrangendo parte considerável do território do município, onde havia reserva de terras para expansão imobiliária.

Recentemente, o registro de casos de roubo dentro do condomínio Alphaville Campinas levou a mudanças nos procedimentos de segurança realizados na entrada do loteamento, sendo instaurada a revista obrigatória de todos os veículos, inclusive de moradores. A prática, bastante usual na abordagem dos prestadores de serviço e de alguns visitantes, é também vista corriqueiramente nas periferias das grandes cidades brasileiras. Os moradores de baixa renda são cotidianamente constrangidos pela ação da Polícia Militar, de modo que as medidas preventivas de segurança adotadas pelo loteamento não são novidade para grande parte da população brasileira.

Foto: Carlos Sousa Ramos/AAN – Correio Popular

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Segurança vistoria o porta-mala (à direita) de carro na entrada do Alphaville enquanto outros veículos aguardam na fila

Temos aqui, entretanto, um impasse. Os loteamentos, surgidos para conter a violência urbana e isolar os moradores detentores dos maiores rendimentos, parecem ter favorecido o incremento dos índices de violência. Tais como foram tomadas nas últimas décadas, muitas das escolhas que permitiram que houvesse a emergência deste novo padrão de ocupação do solo também fizeram com que a segregação socioespacial nas grandes cidades somente se aprofundasse, elevando a desigualdade no acesso e no direito à cidade como um todo.

O caso recente do Alphaville foi tema de uma reportagem da imprensa local [ver referência abaixo], na qual os moradores tiveram espaço para declarar sua insatisfação com os novos procedimentos de segurança, bem como com a atuação da Polícia Militar. A instituição, por sua vez, declarou que os recorrentes assaltos levaram à necessidade de melhoria da segurança e a análise das possíveis falhas do sistema de segurança do loteamento.

O destaque dado na imprensa ao descontentamento dos moradores de Alphaville traz, em seu seio, a não discussão a respeito da segregação e de como as cidades (não somente as brasileiras) foram pensadas no último século para abrigar um determinado tipo de indivíduo, e não outro. Segundo a reportagem, um dos moradores declarou que:

Tem amigo meu que disse que enquanto estiver nesse sistema, nunca mais vem na minha casa. Essa coisa de abrir um porta-mala é de policial civil, policial militar. Nem um juiz vai decidir isso. Cadê o direito de ir e vir e de privacidade?

Pouco se diz na imprensa, entretanto, que uma cidade altamente segregada como Campinas apresenta inúmeros casos de abordagem policial violenta, ou mesmo de chacinas nos bairros localizados no outro extremo geográfico – e social – do município. É preciso pensar o quanto as políticas públicas, em diversos âmbitos e esferas, privilegiou o surgimento de uma forma urbana que leva à exclusão e ao distanciamento de uma parcela importante da população, uma vez que restringe o acesso ao espaço legal para morar e viver àqueles que podem se adequar às condições impostas pelo mercado e pelo poder público.

Assim, Campinas evidencia as contradições entre o que Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo (USP), chama de cidade legal por um lado e cidade ilegal, por outro. A cidade legal, dos ricos e a cidade ilegal, dos pobres, constituem espaços sociais diversos, muitas vezes – apesar de nem sempre – distantes geograficamente, mas sempre categoricamente antagônicos.

 

Dafne Sponchiado é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: dafne.sponchiado@gmail.com

Saiba mais: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2017/01/campinas_e_rmc/466436-moradores-sao-revistados-na-entrada-de-condominio-de-luxo.html

 

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Arquivado em Segregação espacial da população

Nova Parceria: Peking University e China Center for Population and Development Research

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Com o apoio da Vice-Reitoria Executiva de Relações Internacionais (VRERI), as atividades de intercâmbio do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (NEPO/UNICAMP) e o Programa de Pós-Graduação em Demografia ampliam a cooperação internacional da UNICAMP no campo da Demografia.

Entre 7 e 19 de novembro, as pesquisadoras Tirza Aidar e Elisabete Bilac, e o mestrando em demografia Gustavo Brusse, visitaram a Peking University e o China Center for Population and Development Research (CCPDR) dando continuidade aos estudos sobre o modelo de coorte-componente estendido para projeções de domicílios, iniciados durante o curso ministrado pelos demógrafos Yi Zeng e Zhenglian Wang no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UNICAMP) em setembro deste ano.

Como resultado das reuniões de trabalhos entre pesquisadores e dirigentes do CCPDR, foi firmado acordo de cooperação para os próximos dois anos, visando a produção e disseminação de conhecimento sobre projeções populacionais e de arranjos domiciliares no Brasil e países da América latina.

Fonte: Divulgação NEPO (http://www.nepo.unicamp.br/principal/destaques/china.pdf).

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Arquivado em Projeções Populacionais, Projetos

CHAMADA DE TRABALHO – Programa de Seminário do Observatório das Migrações

Sem título

Seminário “Migrações Internacionais, Refúgio e Políticas”

Memorial da América Latina, São Paulo

Dia 12 de abril de 2016

 

Realização e organização

Observatório das Migrações em São Paulo – Núcleo de Estudos de População Elza Berquó/ Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ Faculdade de Ciências Aplicadas – Universidade Estadual de Campinas: Rosana Baeninger,  Roberta Peres, Álvaro D´Antona

Grupo de Estudo Distribuição Espacial da População – PUC Minas Gerais: Duval Fernandes, Maria da Consolação Gomes de Castro

Grupo de Estudos Migratórios Amazônicos – Universidade Federal do Amazonas: Sidney Silva

Cátedra Sérgio Vieira de Mello e Observatório das Migrações e Mobilidade no ABC Paulista – Universidade Federal do ABC: José Blanes Sala, Júlia Bertino Moreira, Adriana Capuano, Leonardo Freire de Mello, Marilda Menezes, Gilberto Rodrigues

Observatório das Migrações em Santa Catarina – Gláucia Assis, Luis Felipe Aires Magalhães

Observatório das Migrações Nordestinas – Ricardo Ojima, Wilson Fusco

Observatório do Platô das Guianas – Jadson Porto

Observatório das Migrações no Ceará – Silvana Nunes de Queiróz

Memorial da América Latina – Marília Franco

Programa de Pós-Graduação em Demografia – Universidade Estadual de Campinas

Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Estadual de Campinas

Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas – Universidade Estadual de Campinas

Programa de Pós-Graduação em Geografia – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – Universidade Federal do Amazonas

Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Universidade Federal do ABC

Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão de Território – Universidade Federal ABC

Programa de Pós-Graduação em Demografia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional – Universidade Federal do Amapá

Programa de Pós-Graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental – Universidade do Estado de Santa Catarina

Programa de Pós-Graduação em História – Universidade do Estado de Santa Catarina

O Seminário “Migração Internacional, Refúgio e Políticas” busca dialogar com distintos campos disciplinares, avançando no conhecimento teórico-metodológico, bem como debater, com atores governamentais e a sociedade civil, as políticas migratórias (e/ou a ausência delas) e as políticas sociais para os imigrantes no Brasil do século XXI.

Chamada de Trabalho:

Os trabalhos podem ser submetidos no formato de resumo expandido (4 páginas) ou trabalho completo (de 12 a 20 páginas). Os eixos temáticos acompanham as respectivas mesas-redondas do Seminário; a saber:

  • Migrações Internacionais no Brasil Contemporâneo: cenários, tendências, características e especificidades
  • Migração Internacional   e    Políticas   Públicas:    trabalho,    justiça,   saúde, educação e assistência
  • Fronteiras e Migração
  • Refúgio, Políticas e Território

 

O formato da apresentação dos trabalhos selecionados será somente como PÔSTER. A sessão de pôster, com a seleção de 20 trabalhos, será realizada no horário do almoço e contará com cinco comentaristas que discutirão individualmente com os respectivos autores.

Prevê-se também que estes pôsteres sejam impressos pela organização do evento,  de modo a padronizá-los, com a finalidade de doação ao Memorial da América Latina para que fique exposto ao público em geral e por um tempo maior que a duração do evento. Haverá certificado de premiação para os três melhores pôsteres apresentados.

Os trabalhos aprovados no formato de trabalho completo participarão ainda de seleção ad hoc para publicação de alguns deles na Revista do Memorial da América Latina.

Os resumos expandidos (4 páginas) e os trabalhos completos (de 12 a 20 páginas) devem ser elaborados com letra Arial 12, espaçamento simples, margens 2,5cm para superior, inferior, esquerda e direita.

Para os resumos expandidos: na primeira página constar: título do trabalho, autor, instituição e endereço eletrônico. Indicar no rodapé: Trabalho submetido ao Seminário “Migrações Internacionais, Refúgio e Políticas”, a ser realizado no dia 12  de abril de 2016 no Memorial da América Latina, São Paulo.

Da segunda página em diante devem constar: somente título do trabalho (não indicar autoria) e os itens: objetivo, discussão teórica e metodológica, resultados e referências bibliográficas.

Para os trabalhos completos: na primeira página constar: título do trabalho, autor, instituição e endereço eletrônico. Indicar no rodapé: Trabalho submetido ao Seminário “Migrações Internacionais, Refúgio e Políticas”, a ser realizado no dia 12  de abril de 2016 no Memorial da América Latina, São Paulo.

Da segunda página em diante constar: somente título do trabalho (não indicar autoria) e seguir com os tópicos do texto.

Haverá Anais online do evento, com a publicação dos resumos expandidos e os trabalhos completos aprovados.

Público Alvo: acadêmicos, gestores, Ministérios, comunidades imigrantes.

Não há taxa de inscrição. Os custos de viagens e alojamento não serão financiados pela organização do Seminário.

  

PRAZOS:

25 de janeiro de 2016 a 01 de março de 2016: envio de resumo expandido ou trabalho completo em arquivo em word para o seguinte endereço:

observatoriodasmigracoes@nepo.unicamp.br

10 de março de 2016: resultado dos resumos expandidos e trabalhos aprovados.

21 de março de 2016: envio do formato em pôster dos resumos expandidos e trabalhos selecionados, a ser encaminhado em arquivo power point para a impressão do mesmo pela organização do evento. As dimensões recomendadas são de 90 cm de altura e 80 cm de largura, contendo: Objetivo, discussão teórica, metodologia, principais resultados, referências bibliográficas. O não envio do referido arquivo para impressão do pôster será considerado como desistência do participante e não constará da programação e dos Anais do evento.

A programação final do evento será divulgada a partir de 28 de março de 2016.

Sem título

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Arquivado em Eventos Demografia

Violência contra as mulheres no México

María del Rosario Aparicio López, entrevistada no Programa Diálogo Sem Fronteira (RTV-UNICAMP), é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Demografia pela Unicamp. Atua principalmente nas áreas de Família, Gênero e Demografia com ênfase nos estudos de Violência de Gênero.

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Arquivado em Violência de gênero

HAITI: do terremoto de 2010 aos processos migratórios contemporâneos – entrevista com Chandeline Jean Baptiste

Chandeline Jean Baptiste é aluna da pós-graduação em Demografia da Unicamp (Mestrado), tem como país de origem o Haiti e sua pesquisa pretende compreender o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos.

Demografia Unicamp – Chandeline, como aluna da pós-graduação em Demografia na Unicamp que tem como país de origem o Haiti, como poderia nos descrever seu percurso até aqui?

ChandieÉ uma longa história. Cheguei ao Brasil em agosto de 2011 por meio de um acordo entre os Ministérios de Educação e das Relações Exteriores do Brasil e do Minisério de Educação do Haiti. O objetivo era participar na reconstrução do Haiti fortalecendo o ensino superior no país.  Foi um programa de 18 meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A ideia era fazer um intercâmbio (graduação sanduíche) durante este tempo. O primeiro semestre foi consagrado à aprendizagem da língua portuguesa. Durante o ano acadêmico 2012, fiz algumas disciplinas isoladas em Geografia e Ciências Sociais, pois já havia concluído a minha graduação lá. Ao mesmo tempo, participei do processo seletivo do nosso programa de pós-graduação em Demografia, e agora estou aqui.

Fiquei muito feliz! Pois quando estava na faculdade lá no Haiti, estudei Ciências Sociais, mas na verdade a gente tinha a maioria das disciplinas de História e Geografia. Depois do terremoto, a Universidade de Poitiers (França) ofereceu duas bolsas em História para os dois primeiros alunos da minha turma (eu era a terceira, por isso não fui aprovada). Estes meus colegas que estão lá na França já estão no primeiro ano de doutorado, e aqueles que ficaram lá no Haiti já terminaram o mestrado em Geografia pela Universidade de Paris 8 [1]. Posso dizer que por causa das falhas do meu programa e talvez por causa da diferenciação nos sistemas escolares dos dois países (Haiti e Brasil), tenho um ano de atraso em relação aos meus colegas. Mas a minha alegria é que serei a única demógrafa da minha turma. E fiquei muito feliz por isso. O Haiti precisa tanto de demógrafos…

 

Demografia Unicamp – Historicamente o Haiti passa por situações bastante complexas em termos econômicos, políticos e sociais. Esta realidade foi ainda mais intensificada após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, que teve proporções catastróficas. Nessa ocasião o palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos e estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe, a capital do país, tenham sido destruídas ou seriamente danificadas. Como você visualiza a realidade haitiana atual? A que passo anda a reconstrução do país?

Se a situação do Haiti já era difícil, o terremoto de 12 de janeiro aumentou muito mais nossas dificuldades.  Atualmente o Haiti ainda está passando por vários problemas (políticos, econômicos, sociais e ambientais).  Como vocês já sabem, durante o terremoto de janeiro de 2010, o país foi destruído totalmente e hoje estamos numa fase de reconstrução. Recomeçaram as aulas, os poucos hospitais que a gente tem estão em funcionamento, a vida recomeçou na capital e no país inteiro. Mas, apesar de esta reconstrução estar ocorrendo demasiadamente devagar, em minhas conversas com os meus colegas que estão no Haiti e no exterior percebo um sopro de esperança em relação ao futuro do país.

Peacekeeping - MINUSTAH

Vista do Palácio Nacional, destruído pelo terremoto.

 

Demografia Unicamp – A realidade econômica do Haiti parece estar na raiz dos grandes fluxos migratórios que se direcionam para diversas partes do mundo. No contexto atual, o Brasil tem sido um dos principais países a receber migrantes haitianos. Qual é sua leitura sobre esses processos? Como eles podem impactar na vida da população haitiana diante da distância física entre os que vão e os que ficam?

Para entender o fluxo migratório recente do Haiti para o Brasil cabe entender a relação que existe entre os dois países desde 1928 (ano que marca o início das relações diplomáticas entre o Haiti e o Brasil). A presença dos militares brasileiros desde 2004 no país também é um fator importante na escolha do Brasil como país de destino. Vale ainda ressaltar que este fluxo de haitianos para o Brasil não é um fenômeno novo, pois antes deste já existia um fluxo composto de jovens estudantes participantes de intercâmbios ou pós-graduandos contemplados com bolsas de estudos dos Ministérios da Educação e das Relações Exteriores – através dos convênios PEC-G e PEC-PG. Estes convênios foram estabelecidos não apenas com o Haiti, mas também com outros países em desenvolvimento, sobretudo com aqueles da África e da América Latina, no âmbito da política de cooperação Sul-Sul. A única diferença é que agora a gente está vivenciando outro fluxo num contexto diferente.

Em minha opinião, os fluxos não têm só a ver com a realidade econômica do país, mas também com a realidade social (busca de melhores condições de vida) e a realidade educacional (buscando novas possibilidades de estudo). Enquanto os estudantes chegaram ao Brasil via rotas legais, após o terremoto, muitos haitianos chegaram pelas rotas ilegais. O que faz a situação desses haitianos se tornar muito preocupante, tal como afirma Foster Brown da universidade Federal do Acre[2]. Para mim, é um processo bem complicado tanto para o Brasil quanto para o Haiti.

Se, por um lado, a entrada em massa dos haitianos na Amazônia mostra a ascensão da imigração internacional para o Brasil, por outro, esse fluxo deve representar uma oportunidade para o país pensar sobre outros tipos de acontecimento, procurando soluções possíveis e formulação de políticas públicas sem esquecer uma política migratória que leve em conta os direitos humanos desses migrantes. Os responsáveis do Haiti, do seu lado, têm de criar novas medidas, novas oportunidades para que os nativos sejam livres para escolher ficar no país ou migrar para exterior. Pois, na maioria das vezes, o migrante haitiano deixa o país em busca de melhores condições de vida.  A migração não deve ser um motivo para fugir dos problemas do país.

De um lado, essa migração pode impactar bastante a vida da população e as remessas [de dinheiro] ajudam muito aqueles que ficam: ajudam na escolaridade, na saúde, no sustento da casa, etc. Do outro, deixa muita saudade e tristeza para os membros da família que permanecem no Haiti.

 

Demografia Unicamp – Conforme dados das Nações Unidas[3] para o ano de 2010 o Haiti apresentava uma população predominantemente jovem, com grande participação relativa dos grupos etários abaixo de 30 anos. Seriam principalmente jovens os grupos populacionais que saem do país atualmente? Já se sabe exatamente qual é o perfil sociodemográfico da população que realiza o processo migratório em termos de sexo, idade e nível de escolaridade?

Ao olhar a pirâmide etária de 2010 da população haitiana, podemos concluir que o Haiti possui uma população muito jovem. Em minha dissertação, estou querendo explicar o processo da transição para a vida adulta dos jovens migrantes haitianos. Vamos, obviamente, apresentar o perfil desses migrantes. Todavia, minha pesquisa está em andamento, não tenho nenhum resultado ainda. No entanto, pesquisas já realizadas (trabalho dos professores Duval Magalhães e Sidney da Silva [4]), mostram que estes jovens são em sua maioria do sexo feminino e têm idade entre 20 e 35 anos. A escolaridade é de nível médio; alguns já fizeram cursos técnicos e outros atingiram nível superior completo ou incompleto.

População por grupos etários, Haiti – 2010 (em números absolutos)

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Fonte: United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision

 

Demografia Unicamp – Para finalizar, gostaríamos de saber quais são suas impressões sobre a recepção que o Brasil em especial tem realizado em relação aos migrantes haitianos. Em sua leitura, o sonho do emprego e de melhores condições de vida tem se concretizado por aqui? Em que termos ainda precisamos avançar?

Vou tentar responder a essa pergunta com as minhas limitações, considerando as minhas poucas leituras (risos). Como minha pesquisa está em andamento, pretendo ainda fazer um trabalho de campo lá no Acre, mas só em julho deste ano de 2014. A única coisa que posso dizer é que os haitianos que chegaram ao Brasil pela fronteira norte amazônica vieram sem documentação e em um contexto diferente daqueles que chegaram aqui com documentação para estudar ou para trabalhar. Obviamente, eles vão enfrentar dificuldades sérias, tais como a regularização de seus documentos e a obtenção de um emprego, embora seja difícil (especialmente pela língua e pela pouca qualificação). Mas, uma vez passada essa fase, esse sonho que todos têm do Brasil como um país próspero, onde eles podem ter um emprego e melhores condições de vida, começa a se concretizar. Agora a grande questão vai ser a percepção da sociedade face a estes migrantes, já que muitos brasileiros os veem como “mão de obra barata”, de portadores de doenças, etc.

É importante lembrar que migrar é um direito. Não importa a origem, a cor, a raça ou o contexto migratório. Embora os haitianos no Brasil não sejam considerados como refugiados, mas sim migrantes em decorrência de vulnerabilidades sociais – conforme o Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) – todos têm de ter os seus direitos devidamente assegurados

[1] Trata-se de um programa de mestrado em Geografia da Universidade do Haiti em acordo com a Universidade de Paris 8. Neste programa, quem ministra as aulas são alguns professores do Haiti, em sua grande maioria professores que foram formados pela Universidade de Paris 8. Assim, os estudantes assistiam as aulas no Haiti, mas obtinham também um diploma da Universidade de Paris 8.

[2] “Coiotes” conduzem mais haitianos até a fronteira Brasil-Peru. Blog da Amazônia. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/05/15/coiotes-conduzem-mais-haitianos-ate-a-fronteira-brasil-peru/. Acesso em mar. 2014.

[3] United Nations Department of Economic and Social Affairs/Population Division. World Population Prospects: The 2012 Revision, Volume II: Demographic Profiles. Disponível em: http://esa.un.org/wpp/Demographic-Profiles/pdfs/332.pdf. Acesso em mar. 2014.

[4] Haitianos: os novos imigrantes do Brasil. Entrevista especial com Duval Magalhães e Sidney da Silva. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/45912-haitianos-os-novos-imigrantes-do-brasil-entrevista-especial-com-duval-magalhaes-e-sidney-da-silva. Acesso em mar. 2014.

 

MAIS INFORMAÇÕES:

Documentário Adeus, Haiti, disponível AQUI.

Entrevista – RTV UNICAMP – Catástrofe do Haiti, disponível AQUI.

Haitianos e senegaleses marcham pelo centro de Caxias do Sul, disponível AQUI.

Professores deixam escolas no Haiti para trabalhar até 15h por dia em SP, disponível AQUI.

 

Revisão e edição: Igor Johansen e Flávia Longo (rd.demografia.unicamp@gmail.com).

Para fazer contato com Chandeline Jean Baptiste, utilizar o seguinte e-mail: linoue87@yahoo.fr

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Edição do Jornal da Unicamp traz três reportagens da Demografia

O Jornal da Unicamp da edição de  9 a 15 de dezembro traz três reportagens sobre estudos feitos no âmbito do Programa de Pós-graduação em Demografia sob coordenação dos professores Rosana Baeninger e José Marcos Pinto da Cunha. Reproduzimos abaixo as matérias na íntegra.

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Acesse a capa em PDF clicando AQUI.

1) Atlas retrata dois séculos de imigração em São Paulo

Atlas retrata dois séculos de imigração em São Paulo

Obra integra coleção que detalha as dinâmicas sociais e econômicas dos processos migratórios

  • O Estado de São Paulo nunca deixou de receber contingentes de trabalhadores vindos de fora do país, mesmo nas décadas do século 20 em que tanto a população quanto a academia pareciam enxergar apenas a migração interna para o Estado, principalmente a originada no Nordeste, mostra o Atlas Temático do Observatório das Migrações em São Paulo, que está sendo lançado neste mês pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp, em parceria com a Fapesp. Essa imigração internacional voltou a ter visibilidade a partir dos anos 90 do século passado, reavivando tensões e preconceitos.

    “O capital internacional precisa desses imigrantes, sejam eles qualificados ou não, mas a população não está preparada para enfrentar esses novos fluxos migratórios, particularmente porque são migrantes voltados para o mercado de trabalho”, disse a coordenadora do Atlas, Rosana Baeninger, socióloga e pesquisadora do Nepo, ao Jornal da Unicamp.

    Além do Atlas, que em mapas e gráficos cobre a entrada de estrangeiros – incluindo escravos – no território que hoje corresponde ao Estado de São Paulo de 1794 a 2010, também estão sendo lançados os oito volumes finais, de um total de 12, da coleção “Por Dentro do Estado de São Paulo”, também produzida pelo Nepo e pelo Observatório das Migrações. A coleção cobre, em detalhe, as dinâmicas sociais e econômicas dos processos migratórios. Alguns volumes da “Por Dentro do Estado de São Paulo” tratam de regiões específicas, como Campinas e Limeira, e outros debruçam-se sobre processos mais amplos, como as imigrações internacionais ocorridas após a Segunda Guerra Mundial e as migrações indígenas.

    Na produção do Atlas, foram consideradas imigrantes as pessoas nascidas fora do Brasil que se encontram no Estado – assim, por exemplo, as segundas e terceiras gerações de imigrantes, nascidas no Brasil, não são captadas pelos censos demográficos, pois se utiliza o quesito referente ao país de nascimento.

    Fluxo invisível

    “Um ponto importante que um projeto dessa envergadura, com olhar para mais de 100 anos, ajuda a ver é que, embora a partir de 1927 tenha acabado o subsídio à imigração no Estado de São Paulo, nós continuamos recebendo os imigrantes internacionais”, disse a pesquisadora. “Ocorre que, como a migração interna passou a ser mais volumosa que a migração internacional, nós deixamos de estudar a migração internacional”.

    A imigração internacional para São Paulo só volta a ser “visível” na virada do século 20 para o 21, com a chegada dos bolivianos, chineses, coreanos e, depois, haitianos, e o risco de uma xenofobia renovada em parte da população. “Os fluxos de imigrantes para São Paulo nunca pararam, mas eram menos visíveis, porque os estrangeiros estavam chegando junto de levas de migrantes internos que também sofreram com o preconceito: os baianos, os paraibanos”, explicou Rosana. “Esse foi também um objetivo do projeto, mostrar como a migração contribuiu para a formação social paulista. A metrópole de São Paulo, hoje, ela se reinventa, se reconstrói, com a presença imigrante”.

    As organizadoras do Atlas – além de Rosana, participaram as pesquisadoras do Nepo Roberta Guimarães Peres e Natália Belmonte Demétrio – explicaram ainda que a imigração, nos séculos 20 e 21, nem sempre está relacionada a uma crise no país de origem.

    “O imigrante estrangeiro que vem ao Brasil não está necessariamente fugindo de uma crise econômica. Isso muda muito depois dos anos 2000, particularmente, porque o Brasil vai entrar na rota do capital internacional. E as indústrias têm um forte componente nessa mobilidade internacional, os grandes centros financeiros, também”, disse Rosana. “Os bolivianos, por exemplo, começam a entrar no Brasil da década perdida, quando nós aqui estávamos em crise. As explicações para as migrações não estão nos destinos migratórios, ou na origem. Estão muito vinculadas à dinâmica da circulação do capital, à necessidade de mão de obra para essa circulação de capital”.

    Brancos e qualificados 

    O uso do imigrante europeu para “branquear” a raça brasileira pode não ser mais uma política governamental explícita, mas as organizadoras do Atlas relutam em afirmar que o problema racial vinculado à imigração ficou de vez no passado. “O próprio governo brasileiro hoje quer fazer políticas explícitas para atrair portugueses e espanhóis qualificados. Então, quem são os portugueses e espanhóis qualificados? Continuam sendo os brancos. Os europeus”, lembrou Rosana. “Na questão do haitiano, nós vamos precisar dar um visto humanitário. Então, assim, acho que essa questão ainda é muito presente, inclusive na visualização dos fluxos migratórios”.

    Dados oficiais podem sugerir que o Brasil passa por um “boom” de atração de mão de obra estrangeira qualificada, mas Rosana lembra que o trabalhador pouco qualificado e sem documentação tem tido importante participação em diferentes nichos econômicos no país. Contudo, passam pelo Ministério do Trabalho e se regularizam empresários, engenheiros, executivos. “Essas grandes empresas se articulam à mobilidade do capital e da força de trabalho,  sendo que diferentes contingentes imigrantes passam a compor uma mão de obra não qualificada, de baixo custo neste novo cenário brasileiro”, disse a pesquisadora.

    As questões étnica e social interferem na percepção do imigrante, e na xenofobia. “O boliviano que vem tem outra etnia, tem suas raízes indígenas. E nós ainda estamos muito presos na questão de que, para a nação, o imigrante é o europeu. Hoje nós temos muitos coreanos, chineses aqui, mas o japonês, quando chegou, enfrentou um preconceito muito grande, porque ele era uma outra raça”.

    Diferentemente da imigração do século 19, para as lavouras, a imigração atual é urbana, mostra o Atlas. “É nas cidades que as pessoas vão se defrontando, hoje, com a migração muito mais visível: ela é latino-americana, é chinesa, é coreana– então o estranhamento é muito mais frequente hoje, porque somos de segunda, de terceira geração dos imigrantes do século 19. O mito da miscigenação ficou lá atrás”.

    O combate ao preconceito, disse Rosana, requer políticas públicas para melhorar a qualidade de vida dos imigrantes pouco qualificados, que chegam como mão de obra barata. “Tem de haver políticas públicas pensadas para as imigrações internacionais, para que essas pessoas não fiquem em condições de vida tão precárias que façam com que a população pense que a migração está trazendo problemas, quando é o contrário: ela está trazendo um excedente populacional que vai gerar riqueza naquele lugar. Riqueza para o capital, claro”.

    Ela acredita que é preciso reconhecer que o Brasil entrou de vez na rota das migrações internacionais. “Não podemos querer só o migrante qualificado, o português, o espanhol, o médico, o engenheiro que vem para cá e vai ter todas as condições de permanecer no Brasil. Temos de ter políticas migratórias que contemplem a diversidade de situações que o país está vivenciando, garantindo a governança das migrações internacionais e os direitos humanos”.

    Guaranis

    Um dos livros da coleção “Por Dentro do Estado de São Paulo” trata das migrações de índios guaranis no Estado de São Paulo. O volume, intitulado “Povos Indígenas; mobilidade espacial”, organizado por Rosana Baeninger e pela ex-presidente da Funai Marta Maria do Amaral Azevedo, descreve como, desde meados do século 19, índios guarani vêm migrando da Argentina e do Paraguai para o litoral paulista, em busca de uma “Terra Sem Males”.

    Além disso, o trabalho constata um aumento da população guarani no Brasil, saltando de 20 mil no período 1981-1985 e chegando a 51 mil em 2007-2008, de acordo com estimativas. “Para eles, toda essa área, Paraguai, centro-sul do Brasil, é um território só”, explicou Rosana. “O que mostra para nós, na questão dos povos indígenas, que não podemos delimitar os processos migratórios no território com o nosso olhar. Tem que ser com o olhar dos sujeitos, dos sujeitos migrantes. Eles nem se consideram migrantes”.

    A primeira fase do Observatório das Migrações em São Paulo, que se fecha com a publicação dos oito volumes finais da coleção e do Atlas, envolveu 16 estudos temáticos, que além dos 16 pesquisadores responsáveis contaram com a participação de 36 estudantes de graduação e pós. Além da Unicamp, estiveram envolvidas também Unesp, UFSCar, Unifesp e Faculdade Anhembi-Morumbi. O Observatório agora deve entrar numa segunda fase, mais voltada para as migrações contemporâneas no Estado. A primeira fase deu origem a 192 trabalhos apresentados em congressos nacionais, 102 em congressos internacionais, a 15 defesas de mestrado e a nove doutorados, envolvendo um total de 87 autores, e se estendeu de 2009 a 2013.

2) Intensificação de movimento pendular agrava desarranjo espacial na macrometrópole de SP

Pesquisa aponta que três milhões de pessoas se deslocam regularmente para trabalhar e estudar em quatro regiões metropolitanas paulistas

 

O desarranjo entre os lugares de residência, as atividades de trabalho e de estudo tem determinado nos últimos anos um aumento expressivo no fenômeno denominado pelos demógrafos de mobilidade pendular. A auxiliar de limpeza Tatiane de Oliveira Mattos, 27 anos, e o profissional de tecnologia de informação (TI) Giovani Senno, 32 anos, integram este contingente, embora caminhem em sentidos opostos.

Tatiane deixa os dois filhos com o marido e desloca-se, diariamente, de sua residência em Hortolândia, no interior de São Paulo, para a vizinha Campinas, onde conseguiu há quatro meses seu primeiro emprego numa empresa de prestação de serviços na área de limpeza e manutenção. São cerca de 30 quilômetros de viagem “tranquila, quando o trânsito ajuda”.

Giovani faz o trajeto inverso. Ele atua numa multinacional instalada no parque industrial de Hortolândia, município de 200 mil habitantes da microrregião de Campinas. Assim como Tatiane, o profissional de TI já se habituou à viagem diária, feita “numa boa, com ônibus fretado cedido pela empresa”.

A intensidade cada vez maior da mobilidade pendular no Estado de São Paulo é uma das principais revelações das investigações conduzidas por pesquisadores do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. Estimativas dão conta de que três milhões de pessoas em idade ativa (acima dos 15 anos) movimentam-se regularmente para trabalhar e estudar entre os 173 municípios paulistas que compõem quatro regiões metropolitanas – Baixada Santista, Campinas, Litoral Norte, Vale do Paraíba e São Paulo. O número toma como referência o Censo Demográfico de 2010, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto a média do crescimento populacional destas regiões, entre 2000 e 2010, manteve-se em torno de 1% ao ano, os movimentos pendulares subiram nove vezes além. O deslocamento de pessoas para trabalho ou estudo sofreu um incremento de 76% nos anos 2000, período de emergência das regiões metropolitanas. Para o demógrafo José Marcos Pinto da Cunha, pesquisador do Nepo e um dos autores do estudo, é cada vez mais comum este deslocamento das pessoas entre duas cidades que, não necessariamente, precisa ser diário, mas regular.

“As experiências e histórias dos processos de ocupações das regiões metropolitanas mostram que não há muita preocupação no sentido de tornar mais eficaz a mobilidade da população. O grande desafio atual é reduzir essa mobilidade das pessoas e tentar fazer programas para aproximá-las das suas atividades, seja de trabalho ou estudo. E não é isso que temos visto infelizmente”, avalia.

O demógrafo da Unicamp afirma que o fenômeno da pendularidade espelha processos de ocupações desiguais do espaço. Os lugares onde as pessoas moram dependem muito mais do nível aquisitivo e dos interesses do mercado imobiliário do que propriamente das ações governamentais, critica José Marcos da Cunha, que atua como docente do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

“A pendularidade reflete a expansão das atividades econômicas, envolvendo quem é capaz de desenvolver tais atividades. O Estado, em qualquer dos níveis de atuação, tem feito muito pouco no sentido de romper essa apropriação desigual do espaço urbano, que temos observado desde sempre. Tem um passivo muito grande. Ele pode ser solucionado, mas não é de fácil solução”, expõe.

Hortolândia, situada às margens da Rodovia Anhanguera (SP 330), é um exemplo para a compreensão da intensidade do fenômeno, que envolve, no plano externo, as regiões metropolitanas e, no plano interno, as cidades de referência dos territórios metropolitanos. Cerca de 40% da população do munícipio é pendular, de acordo com o pesquisador da Unicamp.

“Essa mobilidade é muito mais intensa no nível interno das regiões metropolitanas. Hortolândia tem um cruzamento ‘interessante’ com Campinas. Enquanto os profissionais mais qualificados que moram em Campinas, Vinhedo ou Valinhos estão indo para estas grandes empresas instaladas em Hortolândia, a população de baixa renda de lá está vindo para Campinas trabalhar na cidade”, exemplifica.

Dos três milhões de pessoas que se deslocaram em 2010, cerca de 80% o fizeram nas cidades pertencentes às mesmas regiões metropolitanas, ou seja, no nível interno. Em 2000, este índice era ainda maior, chegando a 85,5% do total de deslocamentos. Mesmo sendo em volume inferior, a pendularidade no nível externo, entre cidades de diferentes regiões metropolitanas, apresentou crescimento de mais de 131%, entre 2000 e 2010, passando de 323 mil pessoas para 539 mil.


O caso do “treme-treme”

O pesquisador do Nepo aponta que o desafio está no sentido de o poder público não somente regular a ocupação do espaço urbano, mas intervir na forma de ocupação. “Por que surge Hortolândia, Monte Mor e Sumaré? Porque Campinas não tem, há muito tempo, uma política de loteamentos populares. Podem dizer que isso existe na região do Campo Grande, mas boa parte são ocupações. Não é para menos que o município de Campinas é um dos campeões de ocupações no Brasil. Se o poder público não dá direito à cidade, as pessoas ocupam”, considera.

José Marcos da Cunha lembra o caso dos edifícios São Vito e Mercúrio, residenciais de grande porte instalados no centro da capital paulista. Nos últimos anos os prédios foram desapropriados e demolidos pela Prefeitura de São Paulo. Localizados na Avenida do Estado, eles possuíam 27 andares cada um e, segundo o docente, uma potencialidade enorme para a moradia popular. O São Vito, conhecido como “Treme-Treme”, foi um dos edifícios mais suntuosos da cidade na década de 1950.

“Estes residenciais estavam localizados em frente ao Mercado Municipal de São Paulo. Havia um plano de ocupá-los com a população de baixa renda, ou seja, um plano ideal, porque a localização é excelente para as pessoas que trabalham na região. Imagina o que significaria aquilo para população de baixa renda que sai das áreas da periferia e leva mais de duas horas de ônibus e metrô para chegar ao trabalho? Seria um pingo no oceano, mas já era uma alternativa. Viabilizar a ocupação de áreas centrais para os mais pobres é um grande passo. O poder público tem condições de fazer isso”, sustenta o estudioso.

O Estatuto da Cidade (lei 10.257), em sua opinião, está entre os instrumentos de regulação e intervenção do espaço urbano mais modernos do mundo. “Este instrumento permite que o poder público desaproprie e declare áreas de interesses sociais. O problema é que, no legislativo e no executivo, os interesses imobiliários são fortíssimos. O poder público poderia, portanto, usar estes prédios, mas eles podem virar um shopping ou um estacionamento. O interesse imobiliário prevaleceu”, lamenta.

Macrometrópole 

O pesquisador do Nepo informa que o objetivo do estudo desenvolvido na Unicamp é diagnosticar as tendências e características da mobilidade pendular nas quatro regiões metropolitanas de São Paulo. Foram utilizadas informações disponíveis nos Censos de 2000 a 2010 produzidos pelo IBGE.

As pesquisas são resultados de uma parceria com a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano SA (Emplasa), órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano do Estado de São Paulo. Também participaram do trabalho, além de José Marcos, o economista e pesquisador do Nepo Sergio Stoco; o geógrafo Ednelson Mariano Dota, docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e doutorando da Unicamp; e as gestoras Rovena Negreiros e Zoraide Amarante Itapura de Miranda, da Emplasa.

“O diagnóstico certamente contribuirá para avaliar o processo de interação e complementariedade socioespacial que se desenvolvem entre as aglomerações urbanas. O estudo desse fenômeno pode contribuir para o diagnóstico do processo de estruturação desses espaços e, sobretudo, para mitigar deficiências existentes em termos de política habitacional, de transportes, de saúde, educação”, justifica o docente da Unicamp.

Ele acrescenta que a partir do processo de integração e complementaridade destas regiões metropolitanas, a Emplasa passou a trabalhar com uma nova categoria espacial, denominada pelo órgão como macrometrópole paulista. Formada por estas quatro regiões metropolitanas (Baixada Santista, Campinas, Litoral Norte, Vale do Paraíba e São Paulo), a macrometrópole constitui-se numa das maiores aglomerações urbanas do país.

A emergência e o reconhecimento desta nova categoria espacial é relevante para a compreensão de novas tendências que possuem implicações socioespaciais e demográficas importantes, avalia José Marcos da Cunha. “Apesar de não perderem suas características, funções e especificidades, as regiões metropolitanas estão cada vez mais integradas, dependentes e complementares em suas funções, inclusive do ponto de vista demográfico. Todos estes aspectos repercutem também numa mobilidade da população, seja residencial, de caráter definitivo, ou pendular”, confirma.

Ainda de acordo com o demógrafo, a intensidade dos deslocamentos regulares nesta macrometrópole transformou as grandes autoestradas da região – como as rodovias dos Bandeirantes (SP 348), Ayrton Senna (SP 70), Castelo Branco (SP 280), dos Imigrantes (SP 160) e Dom Pedro I (SP 65) – em verdadeiras ‘avenidas’, em razão do grande fluxo de pessoas, bens e serviços.

“Quando a Castelo Branco foi inaugurada, era uma autopista fantástica. E o Alphaville de São Paulo estava na sua margem. Agora, a Castelo Branco é uma grande avenida, você não consegue andar em determinados horários. E o Alphaville já começa a trazer escritórios para perto dele; e muita gente já vive de helicóptero para cima e para baixo”, especifica.

A articulação e integração são tão intensas entre as cidades da macrometrópole paulista que seus principais problemas só podem ser resolvidos de maneira integrada, sugere o pesquisador do Nepo. “O metropolitano não existe como nível de organização e de execução. As regiões metropolitanas ficam meio ‘capengas’ neste sentido. Portanto, a Emplasa tem um papel interessante no sentido de mostrar que o recorte metropolitano é importante para cada um dos municípios. Os prefeitos tendem a se concentrar muito nas questões administrativas, esquecendo que os problemas dos seus municípios também estão relacionados à região como um todo.”

Conforme dados do IBGE de 2009 e 2010, vivem na macrometrópole paulista mais de 30 milhões de pessoas, o equivalente a 70% da população do Estado de São Paulo. A região é responsável por mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) paulista e 28% do PIB brasileiro. A disparidade também é acentuada: quase três milhões de pessoas residem em condições precárias de moradia, como favelas, ocupações e áreas de risco.

Este grande território urbano ocupa 20% da superfície do Estado de São Paulo, concentrando municípios situados em um raio aproximado de 200 quilômetros a partir da capital. Uma condicionante para a sua formação está na desconcentração industrial da região metropolitana de São Paulo, o principal polo industrial do país. Este processo iniciou-se a partir da década de 1970. Conforme os estudos do Nepo, o fenômeno se dá também pela reestruturação produtiva pós 1990, que substitui a concentração dos empregos industriais pela maior participação do setor de serviços.

Futuro 

As investigações sobre a pendularidade na macrometrópole paulista serão incrementadas, no futuro, com resultados de outro estudo em andamento produzido pelo Nepo. Trata-se de uma análise sociodemográfica a fim de mapear o perfil da população que está inserida neste fenômeno.

Não é difícil encontrar pessoas que passam boa parte do seu dia a dia em deslocamentos de casa para o trabalho ou estudo. Os relatos da auxiliar de limpeza Tatiane Mattos e do profissional de TI Giovani Senno, demonstram que o fenômeno, cada vez mais intenso na atualidade, é, de certo modo, aceito como uma condição natural pela população.

“Eu moro em Hortolândia há seis anos. Antes, estava em Sumaré, mas aí meus pais se mudaram, eu me casei e fui para Hortolândia também. Para vir ao trabalho, levo uns 35 minutos, para voltar demoro mais, uns 50 minutos. A viagem não é cansativa, já me acostumei. Meus filhos, um de oito anos e outro de um ano e oito meses, ficam com o meu esposo”, descreve Tatiane.

Giovani Senno conta que morava com os pais no bairro Jardim Nova Europa, na região sul de Campinas. “Acabei me mudando recentemente para a região do Swift. Comprei um apartamento há três anos e, quando terminei de mobiliá-lo, me transferi para lá. A companhia fornece transporte fretado para toda a região e em muitos horários, então, isso facilita bastante”, justifica.

Colega de Tatiane, a auxiliar de limpeza Roseane da Silva, 37 anos, também não se incomoda com o percurso diário de Sumaré a Campinas. “Não é tão complicado vir para Campinas, têm o fretado e um ônibus circular direto, apesar de ser de hora em hora. Acaba sendo ruim por causa disso, mas não me incomoda não. Eu sempre trabalhei em Campinas, sempre busquei as oportunidades aqui”, revela.

Karina de Oliveira Souza, 27 anos, mora e trabalha na mesma cidade, em Campinas. Ela, porém, leva mais tempo para voltar para a sua residência do que as colegas Tatiane e Roseane. “Eu moro do outro lado da cidade, no Jardim Bassoli, para frente do Campo Grande. Se tivesse um emprego mais perto de casa seria melhor para poder ficar mais tempo com meus filhos. Demoro uma hora para voltar para casa, mas não acho ruim não”, conforma-se a jovem que atua na empresa prestadora de serviços no distrito de Barão Geraldo, região norte de Campinas.

Substituição de gerações

Uma das explicações para a explosão dos movimentos pendulares, apesar do baixo índice de crescimento populacional, é o que o demógrafo José Marcos da Cunha chama de substituição de gerações.  Além disso, o fenômeno adquire autonomia em relação ao crescimento demográfico em razão de mudanças nas formas de uso e ocupação do solo urbano, seja em termos demográficos ou mesmo econômico.

“A questão da substituição de gerações é interessante para entender a intensidade dos movimentos pendulares. O exemplo é uma família formada pelo marido, a mulher e dois filhos de 15 e 16 anos. Esses filhos vão ter que buscar algum lugar para morar em breve. Mesmo que a população não cresça tanto em intensidade, eles vão sair das casas dos pais. Ao deixarem as casas dos pais, eles dificilmente vão ter condições de ficar no mesmo lugar, no mesmo bairro, a não ser que sejam muito ricos. Portanto, este processo de substituição de gerações acaba modificando a cidade”, ilustra.

Há também que se considerar o fator da urbanização dispersa, conforme explica o estudioso. “A urbanização dispersa tem impacto decisivo sobre essa mobilidade. Há uma tendência dos condomínios fechados para a população de alta renda. Alguns estudiosos chamam isso de ‘novas periferias’. É o caso de Vinhedo, que está numa posição privilegiada por estar perto de Campinas e de São Paulo. Muita gente escolhe morar ali, eles têm essa possibilidade… Há um conjunto de elementos que influenciam novas tendências de urbanização, como custo de vida, segurança, qualidade de vida, entre outros.”

Publicação

CUNHA, J.M.P.; STOCO, S.; DOTA, E.M.; NEGREIROS, R.M.C.; MIRANDA, Z.A.I. A mobilidade pendular na macrometrópole paulista: diferenciação e complementariedade socioespacial. Cadernos Metrópole, 15 (30):, 2013.

3) Novos processos, novos migrantes

Tese de economista analisa a imigração brasileira na França após 1980

 

Malas e documentos na mão. Hospedagem. Dinheiro  depositado na conta. Seguro-saúde e todas as condições para morar na França. Não é todo migrante que deseja estabelecer residência no país que consegue preencher todos esses requisitos necessários. Nem essa história ideal pode ser compartilhada por todos os brasileiros que pretendem morar lá.

Um físico brasileiro que sai do Brasil para fazer um pós-doutorado em Paris vive uma experiência completamente diferenciada de um mestre de capoeira que vai para Marselha para trabalhar nessa atividade. Analisar um fluxo exige olhar para a diversidade dos projetos migratórios, porque os processos sociais que viabilizam as migrações não são os mesmos.

“Vivemos atualmente numa época em que a mobilidade humana aumentou e ficou mais complexa, um contexto no qual surgem ‘novos migrantes’ e ‘novas lógicas migratórias”, ressaltou Gisele Maria Ribeiro de Almeida em sua tese de doutorado em Sociologia defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

Segundo a autora do estudo, graduada em Economia pela Unicamp e que “migrou” para a Sociologia, um estudante, um trabalhador de baixa qualificação e um executivo não chegam à França pelo mesmo caminho e nem debaixo das mesmas condições, por isso “as modalidades migratórias são importantes, porque revelam os diferentes processos que viabilizam essas migrações”.

A tese, de mais de 400 páginas, mostrou que muitos brasileiros não saíram do Brasil com a ideia de ir exatamente para a França. Mudaram seus planos na medida em que não conseguiram entrar no país desejado. “Há casos em que o objetivo era ir para o Reino Unido mas, em razão das barreiras da imigração britânica, acabaram ficando na França”, lembrou.

O principal obstáculo ao deixar o país, segundo a autora da tese, é jurídico, pois os países adotam restrições à imigração. Mesmo no caso dos estudantes que são a princípio bem-vindos pela política migratória francesa, é preciso preencher uma série de exigências para conseguir vistos de permanência. E quem vai trabalhar também necessita de visto.

Os profissionais altamente qualificados geralmente são disputados por políticas migratórias seletivas, ao passo que trabalhadores com pouca ou baixa qualificação tendem a viver na França sem documentos. Entre os trabalhadores de pouca ou baixa qualificação, a maioria dos homens trabalha na construção civil enquanto as mulheres exercem, na maioria dos casos, atividades ligadas à economia do cuidado, atuando na faxina, como manicures, baby-sitters, etc.

História

A tese de Gisele buscou analisar a imigração brasileira na França após 1980, em função de ter sido a partir daí que o país registrou fluxos de emigração decorrente dos efeitos da crise econômica que nessa década assolou o Brasil.

No início, os países que mais receberam brasileiros foram principalmente os Estados Unidos, Japão e Portugal. No entanto, a formação do espaço de livre circulação europeu, a não exigência de visto para brasileiros que viajavam na condição de turistas, o aumento dos obstáculos à imigração nos Estados Unidos após o “11 de setembro” foram aspectos que implicaram em novas oportunidades e constrangimentos para os emigrantes brasileiros.

De acordo com a estudiosa, no que diz respeito à França, o tipo histórico da imigração brasileira no país até 1980 era dada pela mobilidade estudantil. O fluxo começou depois da Independência do Brasil (1822), quando brasileiros, financiados pelo recém-formado Estado, receberam bolsas para estudar lá a fim de voltar e formar quadros para atuar em organismos públicos.

Surgiu aí uma raiz que alimentou fortes vínculos acadêmicos, intelectuais e científicos. Tanto que até hoje há um número significativo de estudantes brasileiros na França. Conforme dados da Capes e do CNPq, para a primeira década do século 21, a França está entre os três países que mais recebem bolsistas brasileiros no exterior.

No entanto, a pesquisa encontrou perfis diferenciados de brasileiros que vivem na França. De acordo com Gisele, o fluxo Brasil-França após 1980 é uma evidência de como o tipo “migração internacional” vem sendo composto por um mosaico de modalidades migratórias, dada à presença da de trabalhadores altamente qualificados, de trabalhadores manuais, da circulação estudantil, dos deslocamentos motivados pela afetividade, dos fluxos de refugiados, entre outros.

Este cenário trouxe à tona a questão das diferentes “faces do fenômeno migratório” e dos ganhos analíticos obtidos com a incorporação das modalidades migratórias, um referencial teórico que vem sendo trabalhado também pela pesquisadora Rosana Baeninger, orientadora da pesquisa.

A doutoranda teve financiamento da Fapesp e sua pesquisa estava ligada ao projeto temático “Observatório das Migrações em São Paulo”, coordenado por Rosana Baeninger. Gisele também obteve uma Bolsa de Estágio e Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fapesp. Foi para a Université Aix-Marseille 3 em 2012 e permaneceu seis meses na França para fazer sua pesquisa de campo.


Achados

A tese reforçou a questão da complexidade em torno das chamadas “migrações internacionais contemporâneas” e demonstrou que o uso analítico das modalidades migratórias é uma forma de permitir o reconhecimento do caráter multifacetado desses processos atuais.

A partir de uma leitura sociológica, a tese apontou para a importância de se combinar os condicionantes macroestruturais que impelem e viabilizam as migrações com os interesses e as estratégias dos agentes que migram para o entendimento dos deslocamentos.

Se existem diversos perfis de brasileiros, porque são agentes que ocupam diferentes posições no espaço social, eles não vão conceber projetos migratórios da mesma forma. “Esses projetos vão reverberar e assumir caráter de modalidades migratórias específicas, como as dos estudantes e dos trabalhadores, que no estudo foram classificados na modalidade estudantil e na modalidade laboral respectivamente”, explicou.

Gisele chegou a esses dados realizando um estudo com 102 brasileiros. Destes, 86 foram entrevistados enquanto ela estava na França e 16 foram entrevistados no Brasil. Destes, 14 eram os “retornados” porque viveram na França e voltaram ao Brasil, mas houve dois casos nos quais os entrevistados viveram na França e estavam morando em um terceiro país quando foram entrevistados.

Ao focar os projetos migratórios, o estudo procurou apontar como os variados perfis de migrantes elaboram seus planos de emigração em razão da diversidade de situações, a depender da posição social do potencial migrante, e os diferentes níveis de autonomia e constrangimento que se colocam.

A saída do país e a instalação na sociedade receptora, averiguou, também assume especificidades, dependendo do perfil do migrante. Para isso, Gisele construiu cinco modalidades migratórias: migração de profissionais altamente qualificados, migração estudantil, migração laboral, migração afetiva e migração “cosmopolita”.

Os profissionais altamente qualificados foram subdivididos em executivos vinculados às empresas multinacionais e cientistas. No caso de estudantes, ela considerou aqueles que vão à França a princípio para estudar. Na migração laboral foram considerados trabalhadores de pouca ou baixa qualificação que foram para a França em busca de uma vida melhor.

Gisele apurou que no momento a maior necessidade de mão de obra feminina está concentrada nas atividades de cuidados: setores de limpeza, cuidados com crianças e idosos, manicures. Do ponto de vista de atividades artísticas, destacou a atividade de bailarina entre as mulheres e professores de capoeira e músicos entre os homens. Também verificou um fluxo antigo de transexuais que trabalham no mercado de sexo.

De acordo com Gisele, foram incluídos na modalidade migração afetiva, os deslocamentos motivados “por amor”: brasileiras que foram acompanhando seus cônjuges brasileiros transferidos para a França e também brasileiros(as) que se casaram com franceses e por causa disso migraram para a França.

Por último, a migração “cosmopolita” envolveu pessoas que migraram pelo desejo de conhecer uma nova cultura. A maioria tinha cidadania europeia por origem familiar. Então não sofreram as restrições das políticas migratórias.

Ao ser indagada se é um bom negócio viver na França, Gisele responde que, se o objetivo é ganhar dinheiro, os entrevistados disseram que o país não é este lugar. A vida pode ser até um pouco mais difícil e levar a uma perda de status.

Ela conversou com uma jornalista que trabalhava em uma revista no Brasil e que na França foi garçonete e babá. E também com uma economista que era professora universitária no Brasil e que estava fazendo faxina na França para se manter enquanto fazia o doutorado, pois não tinha bolsa de estudos. “Então têm muitos aspectos em jogo, além do financeiro”, garantiu.

Publicações

Artigos

ALMEIDA, G.M.R. “Os brasileiros na França”. Revista Ideias, nº 2, 2011, p. 43-57, IFCH-UNICAMP, Campinas. Disponível em: ifch

ALMEIDA, G. M. R. de. “Circulação estudantil e imigração brasileira na França”. In: BAENINGER, Rosana (org) Migração internacional. Campinas: Nepo/Unicamp, 2013. p. 205-221 Disponível em:  nepo

ALMEIDA, G. M. R. de. “A integração dos imigrantes brasileiros na França”. Revista Travessia, nº 72. São Paulo: CEM, janeiro-junho 2013. p.19-30

Tese: “Au revoir, Brésil: um estudo sobre a imigração brasileira na França após 1980”
Autora: Gisele Maria Ribeiro de Almeida
Orientadora: Rosana Baeninger
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: Fapesp

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