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Resenha: O filme “Onde está Segunda?” e o mito malthusiano.

Onde está segunda

Onde está segunda? (2017)

Veja o trailer: Onde Está Segunda?

Por Ma. Kelly C. M. Camargo
Mestra em Demografia (PGD-IFCH/Unicamp)

camargo.k@outlook.com

Prof. Dr. Roberto do Carmo 
Docente  (IFCH/Unicamp) e Pesquisador (Nepo/Unicamp)

roberto@nepo.unicamp.br

A possibilidade de uma superpopulação tem sido o pesadelo de muitos pesquisadores, políticos e gestores públicos ao redor do mundo. Desde a teoria elaborada por Thomas Malthus, em 1798, o argumento de que o crescimento populacional não poderia ser sustentado pela capacidade de produção de alimentos tornou-se uma persistente sombra no inconsciente coletivo. Apesar de a teoria ser sistematicamente negada pela própria realidade, através do desenvolvimento tecnológico (que expandiu a capacidade produtiva), conforme os problemas ambientais ganham espaço nas agendas científicas e midiáticas, os ecos malthusianos ressurgem, trazendo como carro-chefe a necessidade de controle do crescimento populacional (HOGAN, 2001).

Na história mundial[1] não foram poucas as políticas públicas que tentaram diminuir as taxas de natalidade e fecundidade das sociedades e, assim, frear o aumento demográfico. Provavelmente a mais conhecida delas é a Política do Filho Único posta em prática na China a partir da década de 1970. Essa consistia numa lei segundo a qual ficava proibido, a qualquer casal, ter mais de um filho. A sanção estava a cargo da imposição de severas multas para famílias com filhos adicionais. A partir de 2015[2], a política foi flexibilizada ao liberar os casais para terem até dois filhos.

O filme “Onde está Segunda” (título em inglês “What happened to Monday?”)[3] mostra a política do filho único sendo levada às últimas consequências. O filme se passa num mundo futurista, em que os alimentos são geneticamente modificados, a fim de atender a crescente população utilizando menos espaço físico. Mas as mudanças genéticas nos alimentos geram como efeito colateral o nascimento cada vez maior de gêmeos, imperando em uma superpopulação. Para contornar o problema, a gestão pública dita que as famílias só podem ter um filho. A família deve escolher a criança que deseja manter, e os irmãos são teoricamente confinados em ambiente criogênico para serem despertados quando a situação do planeta estiver controlada.

Contudo, Terrence Settman (Willem Dafoe), o avô de sete irmãs gêmeas (interpretadas na idade adulta por Noomi Rapace) consegue driblar o sistema, e cria-las para que assumam uma identidade única, Karen Settman, a qual cada uma interpreta no dia da semana respectivo ao que foram nomeadas. Assim, a primeira filha, chamada de Segunda, sai da segurança de seu lar para viver Karen nas segundas-feiras, e sucessivamente. Mas quando, numa noite supostamente normal, trinta anos depois do nascimento das gêmeas, Segunda não volta para casa, as outras irmãs precisam descobrir o que aconteceu com ela, ao mesmo tempo em que tentam manter o disfarce e a segurança de si próprias.

O filme de ficção científica “Onde está Segunda?” traz vários problemas pelos quais a pressão populacional já foi responsabilizada: desertificação, fome, esgotamento de recursos e degradação ambiental. Nesse sentido, os diálogos do filme em que Nicolette Cayman (Glenn Close), criadora e executora da política do filho único, justifica seus feitos soam preocupantemente parecidos com o que escutamos tantas vezes quando o assunto é crescimento populacional. Nicolette afirma que a quantidade de alimentos que as irmãs utilizaram nesse tempo de vida poderia ter sustentado duas outras famílias inteiras, sendo egoísmo manter tantos filhos. Ainda mais quando não se possui condições financeiras para arcar com as despesas dos mesmos.

É importante ressaltar que o crescimento populacional tem sido temido principalmente no que se refere ao medo de que este se trate do incremento das parcelas mais pobres nas cidades. Exatamente a situação que o filme retrata: no mundo distópico a paisagem é marcada pela constância da miséria e da indigência, tidas como consequência direta da superpopulação. O que no discurso de Nicolette justifica não só a criação da política do filho único, como a realização de ações de extrema opressão sobre a população, sobretudo daqueles que fogem ao sistema, para a manutenção da política. Sendo nítida a naturalização da violência através de cenas contundentes de brutalidade, que inundam a tela com sangue -, pois nesse ambiente nem mesmo a exposição da violência é capaz de chocar.

De fato, o aumento da preocupação com as questões relativas às mudanças climáticas dos últimos anos reacende a discussão sobre a necessidade de se controlar o crescimento populacional. É indiscutível que o volume populacional é importante em sua relação com o ambiente, pois um número maior de pessoas exige maiores investimentos públicos em setores como saúde, educação e infraestrutura, como também maior quantidade de alimento disponível. Entretanto, existem outros aspectos a serem considerados nessa relação, como, por exemplo, conhecer as características do modelo de produção da sociedade, e o quê e o quanto essa sociedade consome.

De acordo com Martine (2014), a cultura do consumo vem sendo construída ao longo de séculos, junto do desenvolvimento do modelo de produção capitalista. O momento em que nossa civilização se encontra é marcado pela retroalimentação entre globalização do consumo e produção de massa, pois quanto mais empregos são criados, mais renda é gerada e mais mercadorias são consumidas. Ainda que esse cenário seja desejável na perspectiva do desenvolvimento econômico e da inclusão social, ele também acaba por repercutir em processos problemáticos do ponto de vista ambiental. Isto posto, é possível afirmar que a maior questão a se pensar não é o crescimento demográfico em si, e sim as relações econômicas e sociais nas quais se projeta esse crescimento. O aumento populacional em país subdesenvolvido não tem as mesmas consequências ambientais do crescimento da população em país desenvolvido, que possui outro ritmo de consumo. Num país subdesenvolvido nascem pessoas, nos países em desenvolvimento e desenvolvidos nascem consumidores (MARTINE, 2014).

Destaca-se que não é de hoje que o discurso demográfico é utilizado para justificar políticas públicas intrusivas. Mas é essencial não nos perdermos nas supostas certezas, porque a dinâmica demográfica não é formada por fatalidades históricas, as variáveis demográficas se moldam também em relação às características sociopolíticas e econômicas da sociedade, que estão em constante mutação. E por isso, a imposição de políticas de controle demográfico podem trazer repercussões sociais inesperadas e negativas. Vejam a China, por exemplo, que hoje possui uma população composta por uma maior proporção[4] de homens do que de mulheres. Porque com a imposição da política do filho único numa sociedade em que os idosos são cuidados pelas famílias de seus filhos homens, a preferência é que o filho escolhido seja do sexo masculino, para evitar desamparo na velhice. Repercutindo em uma série de situações, e dentre essas no aborto, abandono ou morte de meninas.

Por fim, em “Onde está Segunda?” o discurso oficial de organização de um mundo controlado mostra-se uma inverdade. Levando-nos a questionar se esse desfecho faz alusão à forma insustentável em que a relação entre população, desenvolvimento e ambiente tem sido desenhada por nossa sociedade.

REFERÊNCIAS
ALVES, José E. D. O fim da política de filho único e o desequilíbrio na razão de sexo na China. Laboratório de Estudos Populacionais. Minas Gerais: UFJF, abr. 2016. Disponível em: http://www.ufjf.br/ladem/2016/04/08/o-fim- da-politica- de-filho- unico-e- o desequilibrio- na-razao-de- sexo-na- china-artigo- de-jose- eustaquio-diniz- alves/. Acesso em 16 de out. 2017.
_______. AS POLÍTICAS POPULACIONAIS E O PLANEJAMENTO FAMILIAR NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL. Textos para discussão, n o 21. Escola Nacional de Ciências Estatísticas. Rio de Janeiro: IBGE, 2006.
HOGAN, Daniel. Crescimento demográfico e meio ambiente. Revista Brasileira de Estudos de População, Campinas, v. 8, n. 1/2, p. 61-71, 1991.
MARTINE, George. Ciência, cultura e a estagnação da agenda ambiental. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 31, n.1, p. 231-238, jan./jun. 2014.

NOTAS
[1] Sobre as políticas populacionais de planejamento familiar postas em prática no Brasil e América Latina, ver Alves (2006).[2] BBC Brasil. Por que a política do filho único virou uma bomba demográfica na China. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151029_china_bomba_demografica_cc. Acesso em 16 de out. de 2017.
[3] “Onde Está Segunda?”  (What Happened to Monday ?) é um filme distópico de ficção científica e suspense, escrito por Max Botkin e Kerry Williamson, dirigido por Tommy Wirkola, e estrelando por Noomi RapaceGlenn Close, e Willem Dafoe. Foi lançado em 18 de agosto de 2017 pela Netflix, que comprou os direitos de transmissão do filme em diversos países, inclusive no Brasil.

[4] Em 2015, o desequilíbrio entre homens e mulheres na China chega a 13,4 milhões, em 2040 deverá haver 17,4 milhões de homens a mais do que mulheres no país (ALVES, 2016).

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O mito da implosão demográfica ameaça os direitos reprodutivos

Os demógrafos brasileiros José Eustáquio Diniz Alves e George Martine irão participar da Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal. O objetivo da Audiência é “instruir a SUG 15, de 2014, que regula a interrupção voluntária da gravidez, dentro das doze primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde”. O evento ocorrerá no dia 24 de setembro, em Brasília.

A apresentação completa está disponível para download clicando na imagem abaixo.

CDH_2016

(A publicação do arquivo no Blog Demografia Unicamp tem expressa autorização de José Eustáquio Diniz Alves).

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Mulheres em coabitação respondem por metade da fecundidade brasileira

Estudo do Nepo mostra que a decisão de ter filhos independe das condições proporcionadas pelo casamento

As mulheres que vivem em união consensual respondem por 46,6% da fecundidade no Brasil, o que demonstra que a decisão de ter filhos não depende necessariamente das condições proporcionadas pelo casamento. As mulheres casadas, por sua vez, têm contribuído com 38,7% da fecundidade, enquanto que as que vivem sós, com outros 14,7%.  Os dados fazem parte de estudo elaborado pela cientista social e demógrafa Joice Melo Vieira, professora do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo) da Unicamp.

De acordo com o trabalho, a fecundidade brasileira, que já estava abaixo do nível de reposição populacional em 2006, depende cada vez mais das mulheres em situação de coabitação. Para uma população conservar o seu tamanho em longo prazo, explica Joice, é esperada uma fecundidade de 2,1 filhos por mulher. Porém, o indicador tem se mantido abaixo deste patamar. Alguns fatores que ajudam a explicar tal quadro, conforme a autora da pesquisa, são a maior independência feminina e a proteção que a legislação brasileira confere aos cônjuges dentro da união consensual.

De acordo com a lei, estes têm direitos semelhantes aos daqueles que vivem em união formal, o mesmo se aplicando aos seus filhos. “Nesse sentido, as mulheres se sentem confortáveis tendo filho dentro de uma união que não é formalizada”, pontua Joice. Apesar de ter amparo legal, o sistema de coabitação pode trazer implicações sociais negativas, segundo a pesquisadora do Nepo. Constrangimentos podem ocorrer, por exemplo, no momento do registro da criança.

A legislação permite que o homem registre o filho no cartório sem a presença da mãe. Entretanto, o mesmo não ocorre em relação à mulher, que está impedida de registrar a criança em nome do homem, sem a presença ou sem uma declaração deste. Embora a maioria possa pensar que o homem não criará empecilhos para reconhecer a paternidade, dado que vive em união consensual com a mulher, o desfecho desse tipo de situação não é tão simples assim, como esclarece Joice. Segundo ela, existe uma variabilidade dos arranjos entre os casais. Se no momento do nascimento dos filhos a relação estiver passando por alguma crise, isso pode interferir no registro das crianças.

Atualmente, a certidão de casamento garante a inserção do nome do marido da mãe, o pai presumido, na certidão de nascimento da criança. “Uma mulher que apresente a certidão de casamento no cartório normalmente consegue inserir o nome do marido na certidão do filho. Ou seja, dentro do casamento há uma inversão de papeis. Ao invés da mulher demandar o reconhecimento de paternidade, é o homem quem deverá ingressar na Justiça para eventualmente retirar o seu nome do registro de nascimento. Isso impacta o balanço de forças na relação”, considera.

Segundo Joice Vieira, autora da pesquisa, as mulheres se sentem confortaveis tendo filhos dentro de uma uniao nao formalizada por causa das garantias conferidas pela legislaçãoOutra “desvantagem” que pode advir da união consensual, continua Joice, acontece no momento em que o cônjuge vai requisitar direitos previdenciários. Neste caso, a pessoa precisa apresentar três provas de que a união consensual existia, como conta bancária conjunta, aluguel no nome dos dois cônjuges e o registro de um filho em nome de ambos. “Dependendo da situação, é muito difícil fazer essa comprovação. Pessoas que não têm conta conjunta em banco, que moram em áreas de ocupação e não têm diversas dimensões da vida documentadas, geralmente não conseguem apresentar essas provas. Em outras palavras, não existe atualmente preconceito em relação à união consensual, mas dependendo do arranjo isso pode trazer dificuldades para as pessoas”, pormenoriza.

Considerando a população que vive em união no Brasil, 63,6% das pessoas eram casadas e 36,4% unidas consensualmente, de acordo com o censo de 2010. Porém, entre as mulheres abaixo dos 30 anos, faixa etária em que ainda se costuma concentrar a maior parte da reprodução no Brasil, mais da metade vivia em união consensual. Isto fornece evidências de que o casamento civil tem passado por um processo de desmistificação para uma parcela significativa da população, destaca a pesquisadora.

Tal postura decorre, entre outros fatores, dos custos do casamento e da dificuldade de acesso aos cartórios por parte de alguns segmentos da população, notadamente os pertencentes às chamadas classes C, D e E. “Por mais que o governo federal nos anos 2000 tenha democratizado o acesso da população aos cartórios, inclusive com a isenção de taxas, nem todos têm conhecimento desse benefício. Além disso, as pessoas se sentem constrangidas ao buscar esse direito, pois são obrigadas a providenciar uma declaração de pobreza. Se o serviço prestado pelos cartórios fosse totalmente público, é possível que o cenário fosse outro”, infere.

Mais um ponto a ser considerado, acrescenta Joice, é o fato de o juiz de paz não ser um magistrado. Em outras palavras, ele não tem uma formação especial para exercer a função. “O que a gente observa é de fato uma desmistificação do casamento civil. Por outro lado, em relação ao casamento religioso, nós temos constatado novas formas de vivenciar a religiosidade, que não passam necessariamente pelas instituições. Alguns estudos sobre valores indicam que o brasileiro é um dos povos que mais acredita em Deus. Todavia, o nível de comprometimento das pessoas com a religião é muito particular. Para muitas, não há contradição em não oficializar a união no civil ou no religioso, mesmo praticando determinada religião”, esclarece.

Joice informa que os pesquisadores envolvidos com o tema têm olhado com atenção a questão dos casamentos coletivos, que podem ser considerados uma política pública voltada à oficialização das uniões. O que tem sido possível captar até o momento, de acordo com ela, é que as pessoas têm interesse em casar, mas não de qualquer forma. “Muitos casais sonham com uma cerimônia exclusiva, com todo o ritual de praxe. Desse modo, esperam pelo momento mais adequado para oficializar a união, momento este que muitas vezes não chega”.

DISCURSO E PRÁTICA

O estudo realizado por Joice emerge num momento muito oportuno, no qual a sociedade brasileira assiste a debates em torno do tema família. Um dos focos das discussões é a Câmara dos Deputados, onde tramita o projeto do Estatuto da Família. No bojo do processo, estão questões como o conceito de família, as uniões homoafetivas e as políticas públicas destinadas a garantir condições mínimas para a “sobrevivência dessa instituição”.

De acordo com a pesquisadora do Nepo, a Constituição de 1988 reconheceu as uniões consensuais, mas determinou que houvesse um esforço por parte das autoridades para ampliar as formalizações destas. Joice entende que na atualidade o discurso jurídico oficial tem buscado não tecer julgamentos morais sobre a forma como as famílias são constituídas. “Nós não temos visto por parte da magistratura, por exemplo, um discurso de valorização do casamento estrito senso. O que acontece é uma fala voltada à ampliação do acesso das pessoas à Justiça. É, portanto, mais um discurso de cidadania que de valoração de um tipo de união frente a outro”.

Nos Estados Unidos, conforme a autora do estudo, a abordagem já foi bem diferente. Especialmente na administração Ronald Reagan o país optou por valorizar o casamento, deixando o discurso de defesa da cidadania em segundo plano. Voltando à realidade brasileira, Joice assinala que as mulheres apresentam padrões de fecundidade diferentes, variando conforme as suas condições socioeconômicas. Em geral, as mulheres pertencentes às classes A e B selam uniões em idades mais avançadas, quando já alcançaram alguma estabilidade econômica.

Essas mulheres também têm filhos um pouco mais tarde, diferentemente do que acontece com as inseridas nas classes C, D e E. “Dizendo de maneira simplificada, no Brasil quanto mais cedo as pessoas têm filhos, maior a chance de estarem em união consensual e não em casamento”. Ainda em relação às políticas públicas direcionadas à família, Joice entende que o país está numa encruzilhada. Uma alternativa é ampliar o amparo às famílias. “Ocorre que a expansão de direitos tem limites econômicos. No caso da Previdência Social, por exemplo, não se faz distinção por tipo de união, mas sim por idade. Como os recursos são escassos, o governo opta por estabelecer critérios de inclusão e exclusão no sistema”.

De acordo com a pesquisadora do Nepo, existe nesse caso uma escolha a ser feita entre direitos universais e a adoção de critérios de necessidade e idade em relação à concessão de benefícios. “A decisão vai depender do embate político em torno do tema. Vai vencer a proposta que conseguir mobilizar o maior número de forças dentro de um espectro que vai das mais conservadoras às mais progressistas. Neste momento, é muito difícil tentar vislumbrar o que pode ocorrer. Penso que pode acontecer de tudo, dependendo de como essas forças irão se conjugar”, avalia.

Fonte: Jornal da Unicamp (http://www.unicamp.br/unicamp/ju/624/mulheres-em-coabitacao-respondem-por-metade-da-fecundidade-brasileira).

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Queda de nascimentos no Brasil desafia o equilíbrio da economia

 – El País
São Paulo
17 fev. 2015

Eveli Bacchi veio de uma família grande, mas resolveu ter apenas uma filha. / VICTOR MORIYAMA

Casada há 12 anos, a psicóloga Aline Rosa, de 34 anos, jamais pensou em ter filhos. “Nunca tive um desejo naturalizado e sou contra essa ideia que a mulher só se sente completa quando engravida”, explica. Ela confessa que é bastante cobrada nos espaços pelos quais transita e que a pergunta “quando vocês vão ter um filho?” é recorrente entre familiares, amigos e colegas de trabalho. “As pessoas têm muita dificuldade de aceitar, mas reitero sempre que foi uma escolha dos dois e que a construímos sem culpa. Nunca tivemos essa vontade de ter um bebê”, afirma. Assim como Aline e o marido, um número cada vez maior de casais brasileiros compartilham essa decisão.

Segundo pesquisa do IBGE, a proporção de famílias formadas por casais sem filhos cresceu 33% no Brasil entre 2004 e 2013. Ao longo desse período, houve queda de 13,7% na proporção dos casais com filhos (de 50,9% para 43,9%). Já o número de casais sem herdeiros cresceu de 14,6% para 19,4%. Em 2013, um em cada cinco casais brasileiros não tinha filhos, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2014. Especialistas alertam, no entanto, que a consolidação dessa configuração familiar reduzida aliada ao crescimento da esperança de vida significará, em um futuro próximo, menos profissionais jovens no mercado de trabalho, mais custos com aposentadorias e um risco de queda no crescimento econômico.

A tendência de queda no número da taxa de natalidade não é nova. O número de filhos por mulher vem se reduzindo desde a década de 1960, a exemplo do que ocorreu também em vários outros países. Se em 1970, as brasileiras tinham, em média, 5,8 filhos, hoje, esse número não chega a 2, taxa em que a população não se repõe. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Os motivos para essa diminuição são vários: maior escolarização, aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, uso maior de contraceptivo, entre outros.

Com a população ativa menor e mais aposentados, o desafio será equilibrar as contas da Previdência e o mercado de trabalho, de acordo com Ivan Santana, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. “Atualmente, gastamos 10% do PIB com a aposentadoria, número parecido ao da Espanha e de Portugal que possuem uma população muito mais velha que a nossa. Algo tem que ser feito agora, senão vamos gastar cerca de 20% do PIB lá na frente. Precisamos de uma reforma da Previdência, mas como é um tema tratado de uma forma muito emotiva, nenhum presidente quer tocá-la”, explica Santana que ressalta que a economia informal também contribui para desequilibrar a conta da Previdência.

Exercício demográfico realizado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG indicou que no ano de 2050 o Brasil deve perder 30 milhões de potenciais contribuintes da Previdência Social. Além da preocupação com os efeitos de um maior investimento com gastos públicos destinados para a aposentadoria, Leila Ervatti, pesquisadora do IBGE, alerta para a questão da atenção à população idosa, já que o envelhecimento da população se dá no país como um todo.

“Precisaremos de muito mais estrutura para eles”, afirma. Segundo a pesquisadora, a razão entre a população potencialmente inativa (0 a 14 anos e 65 ou mais de idade) e a ativa (15 a 64 anos de idade), chamada de razão de dependência vai atingir o seu valor máximo em 2022. “E, a partir de 2037, os idosos vão passar a depender mais da população ativa do que os jovens”, explica.

Outro fator que contribui para o envelhecimento da população brasileira é o aumento da expectativa de vida. Em apenas um ano, os brasileiros ganharam, em média, quase quatro meses a mais de expectativa de vida. Segundo dados do IBGE, a esperança de vida ao nascer da população do país atingiu 74,9 anos em 2013. “O ponto crucial é que, em 30 anos, estaremos vivendo 10 anos mais. Hoje um brasileiro vive mais ou menos 25 anos aposentado. Em 30 anos, podemos aumentar essa taxa para mais uma década. O jovem de hoje terá muito mais tempo aposentado”, afirma Santana.

Brasileiras engravidam cada vez mais tarde

O número de mães de primeira viagem com mais de 30 anos cresceu na última década, de acordo com estudo Saúde Brasil, do Ministério da Saúde. A pesquisa aponta que quanto maior o grau de escolaridade, mais tarde as mulheres optam pelo primeiro parto.

Segundo o Saúde Brasil, o percentual de mães com primeiro filho na faixa de 30 anos passou de 22,5%, em 2000, para 30,2%, em 2012. Já o número de mulheres com menos de 19 anos, que tiveram filhos, caiu de 23,5% para 19,3% no mesmo período.

“Não me imagino responsável por outra pessoa. Sou muito independente”, diz a analista de marketing Elô Kyrmse, de 26 anos, para explicar porque não pretende ter filhos. Ela e a mãe, a aposentada Eveli Bacchi, de 62 anos, são o retrato da mudança demográfica no Brasil. Eveli veio de uma família grande, com quatro irmãos, mas só teve Elô como filha.

“Tenho uma previdência privada e nem penso em aposentadoria, não quero ficar na inatividade, a minha ideia é trabalhar o máximo que puder”, diz Elô, que resolveu acatar conselho da mãe de que era preciso economizar já que “nunca se sabe o que vai ser do futuro”.

Elô não é a única a se preocupar. De acordo com pesquisa realizada pela gestora de investimentos Black Rock, os brasileiros dizem reconhecer a importância da economia necessária para a aposentadoria, mas a quantidade poupada por pessoas próximas à idade de se deixar o trabalho não é suficiente. O montante financiaria menos de um ano da aposentadoria desejada dos entrevistados. O estudo, realizado com 4.000 latinos-americanos de Brasil, Chile, Colômbia e México, mostrou que os brasileiros economizaram uma média de R$ 10 mil reais para a aposentadoria. Porém, eles precisariam de 47 mil reais anuais para alcançar o valor almejado.

“O aumento da longevidade tornou mais necessário que nunca que as pessoas em todo o mundo se planejem, economizem e invistam durante seus anos de trabalho a fim de atingir a segurança financeira na aposentadoria”, afirma Armando Senra, diretor da Black Rock.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/17/politica/1424196059_041074.html

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Brasileiras estão tendo menos filhos e engravidam cada vez mais tarde, mostra pesquisa

Pesquisa do Ministério da Saúde mostra que taxa de fecundidade é inferior à de 2,1 filhos por mulher

POR ANDRÉ DE SOUZA, EDUARDO VANINI E FLÁVIA MILHORANCE

A jornalista Flávia Lopes, de 32 anos, deu à luz Rafael há dois meses. Ela preferiu se estabilizar antes de ser mãe Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista Flávia Lopes, de 32 anos, deu à luz Rafael há dois meses. Ela preferiu se estabilizar antes de ser mãe – Arquivo Pessoal

BRASÍLIA E RIO – Rafael tem dois meses de vida e é o primeiro filho da jornalista Flávia Lopes, de 32 anos. Casada há cinco anos, ela vive com o marido em Juiz de Fora (MG) e planejou todo o processo para a chegada do bebê. Eles esperaram por mais segurança profissional e financeira. A hora certa veio quando Flávia foi aprovada num concurso público e concluiu o mestrado.

— Havia uma série de etapas profissionais que queria concluir antes de ser mãe — conta. — Além de ter mais estabilidade, pude contar com licença maternidade de seis meses.

Não é apenas Flávia que pondera o momento da gravidez. As mulheres brasileiras estão tendo menos filhos e, quando engravidam, o fazem cada vez mais tarde. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Além disso, já são 30% das brasileiras que têm o primeiro filho depois dos 30 anos (sendo de 22,5% em 2000). As conclusões são da pesquisa “Saúde Brasil”, divulgada ontem pelo Ministério da Saúde.

— Os dados estão refletindo duas grandes revoluções do século passado: a feminina, quando a mulher passa a optar pela idade da reprodução; e a da longevidade, com o aumento da esperança de vida — comentou Laura Machado, da ONG HelpAge Internacional.

POPULAÇÃO BRASILEIRA ENCOLHENDO

O estudo mostra que desde 2005 a taxa de fecundidade tem se mantido abaixo de 2,1 filhos por mulher, ou seja, menor do que a necessária para que a população não venha a diminuir no futuro. Além disso, o índice de mulheres abaixo de 19 anos com filhos caiu de 23,5% para 19,2%.

Para a diretora do Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas do Ministério da Saúde, Thereza de Lamare Franco Netto, o aumento da idade para ter o primeiro filho indica aspectos positivos, como maiores oportunidades no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, traz algumas preocupações, uma vez que, quanto maior a idade, maior também a dificuldade de engravidar.

— Elas estão buscando uma estabilidade maior para ter seu primeiro filho. Isso mostra um avanço nas oportunidades no trabalho e também na programação da gravidez e no acesso a métodos contraceptivos — exemplifica.

A médica Luciana Nicodemus, de Petrópolis (RJ), seguiu essa linha de raciocínio. Formada aos 26 anos e casada aos 29, ela preferiu esperar um bom momento profissional para engravidar pela primeira vez. No ano passado, aos 36, foi a hora de se preparar para a chegada de Lívia.

— Queria curtir o casamento por alguns anos e estar com a vida mais estabelecida. Ser mãe mais madura é mais fácil. Acho que essa maturidade ajuda a conduzir melhor uma boa educação da criança — avalia, dizendo que ainda planeja mais um filho.

Mas, num país de contrastes e proporções continentais, a tendência não é homogênea. Nas camadas de menor escolaridade e em regiões menos desenvolvidas, as famílias são maiores, e as adolescentes ainda têm filhos por falta de planejamento. A Região Norte está acima da taxa de reposição: 2,24 filhos por mulher, enquanto que a Sul tem a menor taxa: 1,66. As mães com 30 anos ou mais são mais numerosas no Sudeste (34,6%) e no Sul (33,6%). Em seguida vêm Centro-Oeste (28,8%), Nordeste (26,1%) e Norte (21,2%).

Entre as mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 45,1% têm o primeiro filho depois dos 30. No faixa de menor escolaridade (até três anos de estudo), 51,4% têm filhos antes dos 20. No grupo entre quatro e sete anos de estudo, o grupo de mães com filhos antes dos 20 chega a 69,4%.

— Mesmo com uma tendência de queda, a América Latina, com exceção da África Subsaariana, ainda tem a maior fecundidade da adolescência no mundo — pondera José Eustáquio Alves, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, lembrando que é alto o índice de gravidezes indesejadas na adolescência, fruto, diz, do pouco acesso a contraceptivos e da baixa educação sexual.

Já Laura Machado, da HelpAge, cobra mais políticas para idosos, visto que a tendência é de envelhecimento:

— A grande questão é: quem vai cuidar de quem? Pois mães mais velhas, que requisitariam a ajuda das avós na criação dos filhos para se manterem no mercado de trabalho, precisarão, ao contrário, cuidar tanto de filhos quanto das mães, já idosas e mais dependentes.

SURTO DE CESÁREAS

Segundo o Ministério da Saúde, esse processo de envelhecimento vai se intensificar, levando à estabilização do crescimento demográfico em duas décadas. A partir daí, as perspectivas são de redução da população do país.

— A população está envelhecendo rapidamente. E isso tem a ver com a taxa de reposição, que está insuficiente — avalia Thereza de Lamare.

Segundo a pesquisa, de cada quatro nascimentos, em três houve pelo menos seis consultas de pré-natal, o mínimo recomendado. Entre 2003 e 2012, o número de consultas cresceu 87%. A pesquisa também mostrou aumento de 47% no número de cesarianas entre 2000 e 2012. Os altos números levaram o ministério e a Agência Nacional de Saúde Suplementar a anunciar há duas semanas propostas para incentivar o parto normal.

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/brasileiras-estao-tendo-menos-filhos-engravidam-cada-vez-mais-tarde-mostra-pesquisa-14398520?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo

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Brasil passa dos 200 milhões de habitantes e população começa a cair em 2043

Número em 2012 era de 199 milhões, segundo dado revisado nesta quinta-feira, 29, pelo IBGE

Luciana Nunes Leal – O Estado de S. Paulo

RIO – O Brasil já tem mais de 200 milhões de habitantes, aponta estimativa do IBGE, que divulgou nesta quinta-feira, 29, a projeção da população até o ano de 2060. Segundo cálculo do IBGE, a população brasileira em 2013 é de 201.032.714 pessoas. A tendência é de crescimento cada vez menor até que a população começará a cair. Segundo estudo divulgado nesta quinta-feira, 29, a população brasileira em 2012 era de 199,242 milhões de habitantes, número acima do anunciado ano passado, de 194 milhões.

Recorde da população, segundo as projeções, será de 228,350 milhões de habitantes, em 2042 - Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE
Recorde da população, segundo as projeções, será de 228,350 milhões de habitantes, em 2042

 

Segundo o IBGE, o número de habitantes vai diminuir a partir de 2043, depois de um período de baixíssimo crescimento, e chegará a 218,173 milhões em 2060. O recorde da população, segundo as projeções, será de 228,350 milhões de habitantes, no ano de 2042.

A queda no número de brasileiros começará mais tarde e será mais lenta do que a estimativa divulgada em 2008, quando o IBGE previa redução do número de habitantes a partir de 2040. Há cinco anos, o IBGE calculou que a população atingiria 215,287 milhões em 2050, enquanto a projeção divulgada agora é de 226,347 milhões de habitantes naquele ano. Também houve mudança em relação à expectativa de vida, que aumentou mais devagar do que o previsto inicialmente. Os brasileiros estão vivendo mais, porém não tanto quando o previsto.

Ao mesmo tempo, a previsão de 2008 era de que o Brasil só bateria a marca dos 200 milhões de habitantes em 2015.

A população brasileira de 2060 voltará ao patamar de 2025, quando o País, segundo as projeções, terá 218,330 milhões de habitantes. No período de 60 anos, entre 2000 e 2060, a população crescerá 25,8%.

O cálculo revisado do número de habitantes de 2000 e de 2010 que consta da atual projeção é diferente, no entanto, dos resultados divulgados anteriormente nos Censos desses dois anos. O Censo 2010 apontou 190,755 milhões de habitantes, enquanto a projeção fala em 195,497 milhões. Segundo técnicos do IBGE, a diferença se deve ao fato de que as projeções são feitas com base em cálculos matemáticos, enquanto o resultado final do Censo reproduz a resposta dos entrevistados.

A queda da população é reflexo da diminuição da taxa de fecundidade (média de filhos por mulher), que já ficou abaixo do nível de reposição (de 2 filhos por mulher) em 2010. Segundo o estudo, a taxa de fecundidade cairá de 1,87 em 2010 para 1,50 em 2034 e ficará neste patamar até 2060.

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,brasil-passa-dos-200-milhoes-de-habitantes-e-populacao-comeca-a-cair-em-2043,1069157,0.htm

Veja a publicação completa do IBGE em: http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&busca=1&idnoticia=2455

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Filhos? não, obrigada

Publicado na Revista Veja – seção Comportamento, página 114-122, no dia 26 de maio de 2013

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