Arquivo da categoria: Família

Demografia e Educação IV – Por que filhos tendem a superar a escolaridade de seus pais?

Por Flávia Longo

Este é o quarto de uma série de textos sobre algumas das relações que se estabelecem entre dinâmicas de população, estudos demográficos e questões educacionais. Hoje o teor é um pouco diferente, pois conto um pouco da minha trajetória pessoal.

***

Foi com a pergunta do título que dei início a minha pesquisa do mestrado (2013-2015). Ao longo de dois anos, com orientação e aulas de metodologia ela foi sendo lapidada, aprimorada aos moldes requeridos pelo fazer científico. Mas, a essência é esta. Existe uma tendência mundial de que as gerações mais novas consigam estudar tanto quanto ou mesmo superar a escolaridade das gerações anteriores. Falo em tendência, porque não é uma regra absoluta – e ainda são muitos os casos de “imobilidade”, ou seja, quando diferentes gerações, pais e filhos, permanecem com o mesmo status de nível de escolaridade.

Acontece que essa pergunta de partida poderia ter sido respondida dentro de uma pós em Economia, ou Sociologia ou mesmo alguma área da Educação. Por que optei pela Demografia?

livros

Entrei em contato com as pesquisas em Demografia, em 2010, na linha de pesquisa sobre Família, Gênero e População, por meio de um projeto que investigava as mudanças nas famílias no Brasil. Foi quando aprendi sobre as transformações no tamanho e na composição das famílias e dos domicílios, e me perguntei se estas transformações teriam alguma relação com a melhoria das oportunidades de escolarização das crianças e jovens. A literatura há muito sinaliza que a escolaridade da mãe é positivamente correlacionada com a escolaridade dos filhos, e inversamente relacionada ao número de filhos tidos. (Há exceções: mulheres muito escolarizadas protelam o nascimento dos seus filhos para poderem se dedicar a sua formação e ao trabalho. Quando decidem ter filhos, tem dois ou três em um curto período de tempo).

A entrada teórica e conceitual não era exatamente demográfica. Tratava com teoria de estratificação social (alô Marx, alô Weber, alô Boudon!), disponibilidade de capital humano, social, cultural e financeiro (alô Bourdieu!), reprodução social (alô Durkheim!) e os efeitos da família e suas transformações (alô Ariès, alô Becker!). E foi neste último eixo teórico que se estabeleceu a ponte com as mudanças demográficas e a principal crítica ao trabalho.

As mudanças no perfil da fecundidade e a redução dessas taxas foram corresponsáveis pela diminuição do tamanho das famílias. Existe toda uma discussão sobre a razão do declínio da fecundidade, que envolve a transição urbana, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, as legislações sobre casamentos, uniões e divórcios, o próprio aumento da média da escolaridade…

Um risco em se assumir a redução da fecundidade para ajudar a responder à pergunta é o de reificar um modelo onde famílias pequenas e poucos filhos são o ideal. Isto pode ser acusado de sustentar uma lógica economicista onde muitos filhos podem ser sinônimos de dificuldades econômicas. Eles competiriam pelos recursos escassos, sendo que seu sexo ou mesmo ordem de nascimento poderiam justificar seu acesso aos estudos. Por exemplo, em pesquisa sobre mobilidade educacional em Taiwan, as meninas eram destinadas ao casamento, sendo que o filho mais velho era o que tinha mais chance de ser enviado para a escola. No Brasil, em um passado recente, já foi observado o contrário: as meninas teriam mais chance que os meninos, e os filhos mais novos teriam melhores condições de frequentarem a escola. Mas, se voltarmos nosso olhar para um passado mais distante, veremos que as meninas tinham poucas chances de estudar, que as condições para frequentar a escola eram um privilégio e quando muito, os filhos homens das classes mais abastadas é quem poderiam estudar e almejar uma formação no Ensino Superior.

Essas mudanças no contexto histórico perfazem outras variáveis que ajudariam a explicar as chances de um filho ou filha estudar mais que seus pais. Cada geração foi formada em um período específico, com legislações de acesso e obrigatoriedade escolar próprias, com composição familiar única. Estas características todas dialogam com uma abordagem muito cara à Demografia, que é a de curso de vida, das trajetórias estudantis, laborais e familiares – que não podem ser analisadas sem a observação dos tempos cronológico e social (tema para outra conversa! Tive o privilégio de cursar uma universidade pública. Meu pai fez faculdade particular em idade mais avançada, minha mãe se formou também em instituição privada, no ano em que ingressei no ensino superior. Meus avós paternos tampouco cursaram o grupo escolar, minha avó materna só pode estudar depois que se aposentou e se formou na faculdade em 2011 e hoje, aos 68 anos cursa pós-graduação. A minha história familiar ilustra pelo menos dois pontos: de que o nível de escolaridade não é estático e eles podem mudar ao longo da vida e, que mesmo a noção de superação da escolaridade dos mais velhos precisa ser relativizada).

Vemos que não apenas a redução da fecundidade poderia explicar as chances de escolarização, mas também as políticas públicas, a região de residência, a idade da mãe e mesmo a cor das pessoas – sim, no Brasil, a herança de um período colonial-escravista deixou profundas marcas de desigualdade que ainda permanecem. Outro aspecto que interfere na análise da mobilidade educacional é a natureza dos dados. No Brasil, a maioria dos dados disponíveis para este tipo de estudo são transversais, isto é, são uma fotografia de um determinado momento e não captam as dinâmicas da trajetória educacional. Mas, nem por isso podem ser desprezados. Uma fonte muito utilizada é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE), que em 1996, teve um suplemento especial sobre mobilidade social. Logo abaixo, deixo a indicação de duas pesquisas sobre esse tema no país e uma pesquisa internacional sobre a transição entre escola e trabalho, feita pela Organização Internacional do Trabalho com dados longitudinais e que também captam a mobilidade educacional.

 

***

Para saber mais:

FERREIRA, S.G.; VELOSO, F.A. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil. (artigo).

PASCHOAL, I.P. Mobilidade intergeracional de educação no Brasil (dissertação).

ILO. School to Work Transition Survey.

***

Outros textos da série:

Texto 1

Texto 2

Texto 3

***

Flávia Longo é mestre e doutoranda em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Formada em Ciências Sociais pela mesma instituição, acredita no potencial transformador do ensino e da pesquisa para oferecer respostas às questões sociais. Contato: flavialongo@nepo.unicamp.br

 

Deixe um comentário

Arquivado em Educação, Família, Fecundidade, Juventude, Projetos

“Tudo como antes” na RTV UNICAMP

Gláucia dos Santos Marcondes e Maria Coleta de Oliveira, pesquisadoras do Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (NEPO) e professoras do Programa de Pós-graduação em Demografia (IFCH/UNICAMP) fornecem entrevista ao Programa Palavras Cruzadas da RTV UNICAMP sobre seu projeto de pesquisa “Trabalho feminino e vida familiar: escolhas e constrangimentos na vida das mulheres no início do século XXI”.

4 Comentários

Arquivado em Família, Gênero

STF reconhece direito de adoção por casais homossexuais

Documento assinado pela ministra Carmen Lúcia diz que “a Constituição Federal não faz a menor diferenciação” entre casais heterossexuais e homoafetivos

por Gustavo Foster (Jornal Zero Hora)

Em uma decisão histórica e inédita, a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, reconheceu o direito de um casal homossexual de adotar uma criança. É a primeira vez que o STF se posiciona favoravelmente sobre o assunto. O acórdão, referente à decisão de 5 de março, foi publicado apenas nesta quinta-feira – e fez com que os mineiros Toni Reis e David Harrad saíssem imediatamente para comemorar.

– Estamos felizes demais com essa decisão da ministra, que, de uma vez por todas, dá fim à discussão. Nós somos uma família, sim – comemora Toni, professor de 50 anos, casado com o tradutor David há 25 anos.

De acordo com a jurista Maria Berenice Dias, integrante do Instituto Nacional de Direito de Família, a posição do STF se destaca por abrir um precedente que deve ser levado em consideração nos próximos processos sobre o mesmo assunto – jurisprudência vinculante, nos termos técnicos.

– Isso é importante, principalmente num momento em que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tenta desencavar de maneira retrógrada o projeto do Estatuto da Família. Eu espero que refreie essa tendência conservadora. A adoção já vem sendo admitida, juízes têm habilitado casais homossexuais a adotar, mas a Corte Suprema ainda não havia se manifestado. E o Supremo é o Supremo. Estabelece uma jurisprudência que acaba sendo vinculante – avalia jurista, conhecida por defender os direitos dos homossexuais.

O último grande passo da justiça brasileira nos direitos homossexuais foi dado em 2011, quando o STF julgou a legalidade da união estável entre duas pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, com direitos e deveres iguais aos da união estável heterossexual. Como a Constituição prevê a conversão da união estável em casamento, abriu-se a possibilidade de consolidação do casamento gay. Em 2006, o Tribunal de Justiça gaúcho já havia admitido a adoção por duas pessoas do mesmo sexo, o que foi confirmado pelo STJ só em 2010.

O processo de Toni e David corre desde 2005. Desde lá, os dois passaram por uma série de tribunais, gastaram em advogados, viajaram a Brasília, conversaram com juristas influentes e acabaram chegando ao STF. Em primeira instância, ainda no Paraná, tiveram concedido o direito de adotar uma criança do sexo oposto e com mais do que 12 anos. Acharam as restrições preconceituosas e recorreram ao Tribunal de Justiça, que derrubou o limite mínimo de idade, mas acabou sendo barrado pelo Ministério Público, que embargou a decisão. Foram, então, ao Supremo Tribunal de Justiça, onde o processo ficou engavetado por cinco anos.

Acabaram chegando, enfim, ao STF, onde tiveram, enfim, o direito garantido. Agora, podem escolher a criança que quiserem – ainda que isso não deva ser necessário. Toni e David já têm três filhos: Alysson, 14 anos, Jéssica, 11 anos, e Filipe, nove anos. Eles foram adotados nesse vai e volta nos tribunais, após processos que correram no Rio de Janeiro, sob o comando da juíza Mônica Labuto.

– Agora, fizemos ligação de trompas. A gente até adotaria mais, porque coração de pai é como coração de mãe, sempre cabe mais um. Mas, até por causa da questão financeira, agora chega – brinca o professor.

Ao atender à ligação da reportagem, Toni já foi avisando que estava em uma mesa de bar cercado de amigos, todos comemorando a conquista do casal. Mais tarde, iria se encontrar com o marido, buscar Jéssica no balé, Filipe no futebol e Allyson no natação. Todos rumariam para uma pizzaria ali perto, para celebrar. Nos próximos dias, o casal deve celebrar os 25 anos de união. A mestre de cerimônias será Maria Berenice.

– Tudo isso é muito importante para que a gente se sinta cidadão por completo, e não pela metade. É bacana ser reconhecido pelo Estado, porque somos vistos como algo tão errado, que não pode, que não existe… A única coisa que a gente quer é ser feliz. Já estávamos sendo, mesmo sem permissão. Agora, com o STF do nosso lado, quero ver quem vai ser contra. Porque uma coisa é certa: nós somos uma família, querendo ou não – diz, enquanto o barulho da comemoração ao fundo vai crescendo.

Fonte: Jornal Zero Horahttp://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2015/03/pela-primeira-vez-stf-reconhece-direito-de-adocao-por-casais-homossexuais-4722282.html

O acórdão pode ser lido na íntegra no Diário de Justiça Eletrônico nº 52 de 2015, divulgado no dia 17/03/2015, disponível aqui (ver páginas 156 e 157)

Deixe um comentário

Arquivado em casais, Família

Tudo como antes

Estudo constata que as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pela realização das tarefas domésticas no país

 A despeito de terem ampliado a sua participação no mercado de trabalho e de estarem em busca de novos projetos pessoais, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pela realização das tarefas domésticas no Brasil. A constatação é da pesquisa “Trabalho feminino e vida familiar: escolhas e constrangimentos na vida das mulheres no início do século XXI”, desenvolvida no Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo) da Unicamp, sob a coordenação da professora Maria Coleta de Oliveira e da pesquisadora Glaucia dos Santos Marcondes. A principal fonte do estudo são os dados fornecidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) para os anos de 2001 a 2012. Segundo os dados da Pnad, que é feita anualmente, 90% das mulheres entre 16 e 60 anos responderam que realizavam algum trabalho doméstico semanalmente, contra apenas 40% dos homens na mesma faixa etária.

 Mais que apontar que os cuidados com a casa e a família continuam sendo uma responsabilidade predominantemente feminina, a pesquisa mostra que as mulheres, principalmente as que desempenham alguma atividade produtiva, cumprem jornadas extremamente longas, pois somam as horas dedicadas às tarefas domésticas às executadas no trabalho fora da residência. Dependendo das características de trabalho – jornada e se o emprego é formalizado – e da posição das mulheres no domicílio – responsável, cônjuge ou filha -, ocorre uma grande diferenciação na média de tempo que elas e os homens dedicam aos afazeres da casa.

 A média de tempo declarada pelos homens ao longo do período tomado para análise, conforme Glaucia, fica em torno de 9 horas semanais. “Isso independe de eles estarem ou não empregados. Os que estão desempregados trabalham um pouquinho a mais dentro de casa, coisa de duas horas por semana, embora a disponibilidade de tempo deles seja maior”, revela a pesquisadora. Um contexto totalmente diferente ocorre em relação às mulheres, segundo a especialista. As que estão no mercado de trabalho declararam dedicar uma média não inferior a 15 horas por semana às tarefas domésticas, a despeito cumprirem jornadas entre 20 e 44 horas semanais fora de casa.

 No caso das mulheres trabalhadoras com filhos ou que são consideradas chefes e cônjuges do domicílio, o tempo médio dedicado aos afazeres domésticos aumenta significativamente, chegando ao patamar de 20 ou até de 25 horas por semana. “Um dado interessante é que as mulheres dedicam até 40 horas semanais às atividades domésticas quando estão desempregadas, tempo muito superior ao dos homens na mesma condição”. Glaucia lamenta que a PNAD desse período analisado não seja capaz de identificar quais tarefas são desempenhadas por homens e mulheres no âmbito doméstico-familiar. Entretanto, ela revela que alguns estudos qualitativos de uso do tempo indicam que os homens tendem a se ocupar mais com o cuidado dos filhos que com a limpeza da casa.

 Nos últimos anos do período considerado pelo estudo, conforme a pesquisadora do Nepo, foi possível identificar uma ligeira queda no número médio de horas semanais dedicadas pelas mulheres ao trabalho doméstico. Um aspecto que pode ajudar a explicar essa redução é o maior acesso das famílias aos produtos da chamada “linha branca”, como lava-roupas e micro-ondas, equipamentos que facilitam o cumprimento de algumas tarefas. “Ainda assim, é possível afirmar que o maior nível de escolaridade das mulheres e a sua maior inserção e permanência no mercado de trabalho não têm aliviado a carga delas com as tarefas domésticas”, ratifica Glaucia.

 Tal contexto decorre, entre outros motivos, dos valores relacionados ao cuidado, que no Brasil ainda estão centrados primordialmente na figura feminina, de acordo com a pesquisadora do Nepo. “Mesmo que não seja a mulher que faça o trabalho, o que se espera é que ela ao menos se responsabilize pela organização dele. Normalmente, é a mulher que contrata a babá e a empregada doméstica ou que escolhe a creche ou a escola dos filhos”.

 Glaucia faz questão de assinalar, porém, que não é possível dizer que os homens não estejam dando a sua contribuição para os afazeres domésticos. “Os homens estão mais participativos. Ocorre que essa mudança de mentalidade é muito mais lenta do que gostaríamos que fosse. Se os relacionamentos sofreram uma importante mudança nos últimos anos, visto que as pessoas estão se pautando por relações menos autoritárias, o mesmo ainda não ocorreu com algumas práticas, que são mais difíceis de serem quebradas”, analisa.

 Ainda a respeito do tema cuidado, a pesquisadora do Nepo chama a atenção para as transformações demográficas em curso no Brasil. De acordo com ela, a população está envelhecendo e a taxa de fecundidade está caindo. Em outros termos, isso significa que as pessoas estão tendo menos filhos para cuidar, mas que também terão menos filhos com os quais contar na fase da velhice. “Estamos no momento de pensar o que será a nossa sociedade em termos de cuidados nas próximas décadas. Quem vai cuidar de uma população envelhecida e com menos filhos? Se antes as famílias se articulavam para dar suporte uns aos outros, esse contexto tende a mudar numa situação de menos filhos e menos parentes”, pondera.

 Diante dessa perspectiva, prossegue Glaucia, a sociedade tem que começar a delinear como será o futuro dos idosos. Uma alternativa é a definição de políticas públicas para dar o suporte que as famílias e os indivíduos precisarão em termos de cuidados. “Talvez tenhamos que pensar na oferta de instituições que possam acolher os idosos, oferecendo os cuidados que eles necessitam. Trata-se de um público que precisa tanto de serviços de saúde quanto de espaços de sociabilidade”, pontua a especialista.

 Diferenças regionais

 Retomando a questão da dedicação ao trabalho doméstico, a pesquisadora do Nepo destaca que os primeiros resultados do estudo revelam a situação de mulheres e homens em âmbito nacional. Entretanto, os dados fornecidos pela PNAD também permitem descortinar as diferenças regionais em relação ao tema. Esta parte do estudo ainda está em andamento. Todavia, alguns resultados preliminares de uma comparação entre as regiões metropolitanas de São Paulo e Salvador fornecem elementos para reflexão. De acordo com Glaucia, a primeira informação que chama a atenção é que a média de horas que as paulistas dedicam ao trabalho doméstico é superior à das baianas.

 O dado surpreendeu as pesquisadoras, dado que o mercado de trabalho nas duas regiões apresenta diferenças expressivas. As mulheres paulistas, explica a especialista, têm mais acesso ao emprego formal, que normalmente exige o cumprimento de jornadas entre 40 e 44 horas semanais. Essas mesmas mulheres estão majoritariamente concentradas no setor de serviços, apresentam rendas domiciliares maiores e um número menor de filhos que as baianas. “Na Região Metropolitana de Salvador a taxa de desocupação das mulheres é mais elevada, com uma parcela maior cumprindo jornadas abaixo das 40 horas semanais. A partir desse quadro, e dos resultados observados para o conjunto do país, seria de se esperar que as baianas cumprissem mais horas de serviços domésticos que as paulistas, o que não foi confirmado pela pesquisa”, diz.

 Um fator que poderia explicar esse resultado inesperado, observa a pesquisadora do Nepo, é a diferença do número de mulheres nos domicílios. Na Região Metropolitana de Salvador há mais mulheres adultas vivendo numa mesma casa que na de São Paulo. Assim, ocorre uma distribuição de tarefas entre elas, de modo que a média individual de horas dedicadas ao serviço doméstico caia. Um ponto que precisa ser mais bem investigado, de acordo com Glaucia, é se o aumento da idade dos filhos também concorre para a redução do número de horas que a mulher dedica aos cuidados da casa.

 Atualmente, afirma a pesquisadora, os filhos pequenos já não representam uma barreira grande para a inserção e permanência da mulher no mercado de trabalho como fora para outras gerações. “No entanto, precisamos saber se as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentam diferença em relação às regiões Sul e Sudeste, visto que elas têm estruturas de mercado de trabalho bastante diversificadas”. O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em edital específico para as áreas de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas.

 

Publicação

Pesquisa: “Trabalho feminino e vida familiar: escolhas e constrangimentos na vida das mulheres no início do século XXI”

Coordenadoras: Maria Coleta de Oliveira e Glaucia dos Santos Marcondes

Unidade: Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo)

 

Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/617/tudo-como-antes

2 Comentários

Arquivado em Família, Gênero

Queda de nascimentos no Brasil desafia o equilíbrio da economia

 – El País
São Paulo
17 fev. 2015

Eveli Bacchi veio de uma família grande, mas resolveu ter apenas uma filha. / VICTOR MORIYAMA

Casada há 12 anos, a psicóloga Aline Rosa, de 34 anos, jamais pensou em ter filhos. “Nunca tive um desejo naturalizado e sou contra essa ideia que a mulher só se sente completa quando engravida”, explica. Ela confessa que é bastante cobrada nos espaços pelos quais transita e que a pergunta “quando vocês vão ter um filho?” é recorrente entre familiares, amigos e colegas de trabalho. “As pessoas têm muita dificuldade de aceitar, mas reitero sempre que foi uma escolha dos dois e que a construímos sem culpa. Nunca tivemos essa vontade de ter um bebê”, afirma. Assim como Aline e o marido, um número cada vez maior de casais brasileiros compartilham essa decisão.

Segundo pesquisa do IBGE, a proporção de famílias formadas por casais sem filhos cresceu 33% no Brasil entre 2004 e 2013. Ao longo desse período, houve queda de 13,7% na proporção dos casais com filhos (de 50,9% para 43,9%). Já o número de casais sem herdeiros cresceu de 14,6% para 19,4%. Em 2013, um em cada cinco casais brasileiros não tinha filhos, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2014. Especialistas alertam, no entanto, que a consolidação dessa configuração familiar reduzida aliada ao crescimento da esperança de vida significará, em um futuro próximo, menos profissionais jovens no mercado de trabalho, mais custos com aposentadorias e um risco de queda no crescimento econômico.

A tendência de queda no número da taxa de natalidade não é nova. O número de filhos por mulher vem se reduzindo desde a década de 1960, a exemplo do que ocorreu também em vários outros países. Se em 1970, as brasileiras tinham, em média, 5,8 filhos, hoje, esse número não chega a 2, taxa em que a população não se repõe. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Os motivos para essa diminuição são vários: maior escolarização, aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, uso maior de contraceptivo, entre outros.

Com a população ativa menor e mais aposentados, o desafio será equilibrar as contas da Previdência e o mercado de trabalho, de acordo com Ivan Santana, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. “Atualmente, gastamos 10% do PIB com a aposentadoria, número parecido ao da Espanha e de Portugal que possuem uma população muito mais velha que a nossa. Algo tem que ser feito agora, senão vamos gastar cerca de 20% do PIB lá na frente. Precisamos de uma reforma da Previdência, mas como é um tema tratado de uma forma muito emotiva, nenhum presidente quer tocá-la”, explica Santana que ressalta que a economia informal também contribui para desequilibrar a conta da Previdência.

Exercício demográfico realizado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG indicou que no ano de 2050 o Brasil deve perder 30 milhões de potenciais contribuintes da Previdência Social. Além da preocupação com os efeitos de um maior investimento com gastos públicos destinados para a aposentadoria, Leila Ervatti, pesquisadora do IBGE, alerta para a questão da atenção à população idosa, já que o envelhecimento da população se dá no país como um todo.

“Precisaremos de muito mais estrutura para eles”, afirma. Segundo a pesquisadora, a razão entre a população potencialmente inativa (0 a 14 anos e 65 ou mais de idade) e a ativa (15 a 64 anos de idade), chamada de razão de dependência vai atingir o seu valor máximo em 2022. “E, a partir de 2037, os idosos vão passar a depender mais da população ativa do que os jovens”, explica.

Outro fator que contribui para o envelhecimento da população brasileira é o aumento da expectativa de vida. Em apenas um ano, os brasileiros ganharam, em média, quase quatro meses a mais de expectativa de vida. Segundo dados do IBGE, a esperança de vida ao nascer da população do país atingiu 74,9 anos em 2013. “O ponto crucial é que, em 30 anos, estaremos vivendo 10 anos mais. Hoje um brasileiro vive mais ou menos 25 anos aposentado. Em 30 anos, podemos aumentar essa taxa para mais uma década. O jovem de hoje terá muito mais tempo aposentado”, afirma Santana.

Brasileiras engravidam cada vez mais tarde

O número de mães de primeira viagem com mais de 30 anos cresceu na última década, de acordo com estudo Saúde Brasil, do Ministério da Saúde. A pesquisa aponta que quanto maior o grau de escolaridade, mais tarde as mulheres optam pelo primeiro parto.

Segundo o Saúde Brasil, o percentual de mães com primeiro filho na faixa de 30 anos passou de 22,5%, em 2000, para 30,2%, em 2012. Já o número de mulheres com menos de 19 anos, que tiveram filhos, caiu de 23,5% para 19,3% no mesmo período.

“Não me imagino responsável por outra pessoa. Sou muito independente”, diz a analista de marketing Elô Kyrmse, de 26 anos, para explicar porque não pretende ter filhos. Ela e a mãe, a aposentada Eveli Bacchi, de 62 anos, são o retrato da mudança demográfica no Brasil. Eveli veio de uma família grande, com quatro irmãos, mas só teve Elô como filha.

“Tenho uma previdência privada e nem penso em aposentadoria, não quero ficar na inatividade, a minha ideia é trabalhar o máximo que puder”, diz Elô, que resolveu acatar conselho da mãe de que era preciso economizar já que “nunca se sabe o que vai ser do futuro”.

Elô não é a única a se preocupar. De acordo com pesquisa realizada pela gestora de investimentos Black Rock, os brasileiros dizem reconhecer a importância da economia necessária para a aposentadoria, mas a quantidade poupada por pessoas próximas à idade de se deixar o trabalho não é suficiente. O montante financiaria menos de um ano da aposentadoria desejada dos entrevistados. O estudo, realizado com 4.000 latinos-americanos de Brasil, Chile, Colômbia e México, mostrou que os brasileiros economizaram uma média de R$ 10 mil reais para a aposentadoria. Porém, eles precisariam de 47 mil reais anuais para alcançar o valor almejado.

“O aumento da longevidade tornou mais necessário que nunca que as pessoas em todo o mundo se planejem, economizem e invistam durante seus anos de trabalho a fim de atingir a segurança financeira na aposentadoria”, afirma Armando Senra, diretor da Black Rock.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/17/politica/1424196059_041074.html

1 comentário

Arquivado em Família, Fecundidade

Brasileiras estão tendo menos filhos e engravidam cada vez mais tarde, mostra pesquisa

Pesquisa do Ministério da Saúde mostra que taxa de fecundidade é inferior à de 2,1 filhos por mulher

POR ANDRÉ DE SOUZA, EDUARDO VANINI E FLÁVIA MILHORANCE

A jornalista Flávia Lopes, de 32 anos, deu à luz Rafael há dois meses. Ela preferiu se estabilizar antes de ser mãe Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista Flávia Lopes, de 32 anos, deu à luz Rafael há dois meses. Ela preferiu se estabilizar antes de ser mãe – Arquivo Pessoal

BRASÍLIA E RIO – Rafael tem dois meses de vida e é o primeiro filho da jornalista Flávia Lopes, de 32 anos. Casada há cinco anos, ela vive com o marido em Juiz de Fora (MG) e planejou todo o processo para a chegada do bebê. Eles esperaram por mais segurança profissional e financeira. A hora certa veio quando Flávia foi aprovada num concurso público e concluiu o mestrado.

— Havia uma série de etapas profissionais que queria concluir antes de ser mãe — conta. — Além de ter mais estabilidade, pude contar com licença maternidade de seis meses.

Não é apenas Flávia que pondera o momento da gravidez. As mulheres brasileiras estão tendo menos filhos e, quando engravidam, o fazem cada vez mais tarde. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Além disso, já são 30% das brasileiras que têm o primeiro filho depois dos 30 anos (sendo de 22,5% em 2000). As conclusões são da pesquisa “Saúde Brasil”, divulgada ontem pelo Ministério da Saúde.

— Os dados estão refletindo duas grandes revoluções do século passado: a feminina, quando a mulher passa a optar pela idade da reprodução; e a da longevidade, com o aumento da esperança de vida — comentou Laura Machado, da ONG HelpAge Internacional.

POPULAÇÃO BRASILEIRA ENCOLHENDO

O estudo mostra que desde 2005 a taxa de fecundidade tem se mantido abaixo de 2,1 filhos por mulher, ou seja, menor do que a necessária para que a população não venha a diminuir no futuro. Além disso, o índice de mulheres abaixo de 19 anos com filhos caiu de 23,5% para 19,2%.

Para a diretora do Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas do Ministério da Saúde, Thereza de Lamare Franco Netto, o aumento da idade para ter o primeiro filho indica aspectos positivos, como maiores oportunidades no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, traz algumas preocupações, uma vez que, quanto maior a idade, maior também a dificuldade de engravidar.

— Elas estão buscando uma estabilidade maior para ter seu primeiro filho. Isso mostra um avanço nas oportunidades no trabalho e também na programação da gravidez e no acesso a métodos contraceptivos — exemplifica.

A médica Luciana Nicodemus, de Petrópolis (RJ), seguiu essa linha de raciocínio. Formada aos 26 anos e casada aos 29, ela preferiu esperar um bom momento profissional para engravidar pela primeira vez. No ano passado, aos 36, foi a hora de se preparar para a chegada de Lívia.

— Queria curtir o casamento por alguns anos e estar com a vida mais estabelecida. Ser mãe mais madura é mais fácil. Acho que essa maturidade ajuda a conduzir melhor uma boa educação da criança — avalia, dizendo que ainda planeja mais um filho.

Mas, num país de contrastes e proporções continentais, a tendência não é homogênea. Nas camadas de menor escolaridade e em regiões menos desenvolvidas, as famílias são maiores, e as adolescentes ainda têm filhos por falta de planejamento. A Região Norte está acima da taxa de reposição: 2,24 filhos por mulher, enquanto que a Sul tem a menor taxa: 1,66. As mães com 30 anos ou mais são mais numerosas no Sudeste (34,6%) e no Sul (33,6%). Em seguida vêm Centro-Oeste (28,8%), Nordeste (26,1%) e Norte (21,2%).

Entre as mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 45,1% têm o primeiro filho depois dos 30. No faixa de menor escolaridade (até três anos de estudo), 51,4% têm filhos antes dos 20. No grupo entre quatro e sete anos de estudo, o grupo de mães com filhos antes dos 20 chega a 69,4%.

— Mesmo com uma tendência de queda, a América Latina, com exceção da África Subsaariana, ainda tem a maior fecundidade da adolescência no mundo — pondera José Eustáquio Alves, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, lembrando que é alto o índice de gravidezes indesejadas na adolescência, fruto, diz, do pouco acesso a contraceptivos e da baixa educação sexual.

Já Laura Machado, da HelpAge, cobra mais políticas para idosos, visto que a tendência é de envelhecimento:

— A grande questão é: quem vai cuidar de quem? Pois mães mais velhas, que requisitariam a ajuda das avós na criação dos filhos para se manterem no mercado de trabalho, precisarão, ao contrário, cuidar tanto de filhos quanto das mães, já idosas e mais dependentes.

SURTO DE CESÁREAS

Segundo o Ministério da Saúde, esse processo de envelhecimento vai se intensificar, levando à estabilização do crescimento demográfico em duas décadas. A partir daí, as perspectivas são de redução da população do país.

— A população está envelhecendo rapidamente. E isso tem a ver com a taxa de reposição, que está insuficiente — avalia Thereza de Lamare.

Segundo a pesquisa, de cada quatro nascimentos, em três houve pelo menos seis consultas de pré-natal, o mínimo recomendado. Entre 2003 e 2012, o número de consultas cresceu 87%. A pesquisa também mostrou aumento de 47% no número de cesarianas entre 2000 e 2012. Os altos números levaram o ministério e a Agência Nacional de Saúde Suplementar a anunciar há duas semanas propostas para incentivar o parto normal.

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/brasileiras-estao-tendo-menos-filhos-engravidam-cada-vez-mais-tarde-mostra-pesquisa-14398520?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo

1 comentário

Arquivado em Família, Fecundidade, filhos

Dupla jornada

A articulação entre o trabalho remunerado 
e o doméstico ainda é ponto de tensão 
na vida das mulheres brasileiras

Por Carla Sabrina Favaro, doutora em Demografia pelo IFCH/Unicamp

O século XX e o começo do XXI testemunharam o avanço de mudanças profundas na vida das brasileiras. O aumento de sua escolaridade, a entrada e permanência no mercado de trabalho, a diminuição do tamanho das famílias e o aumento dos domicílios chefiados por mulheres são algumas das alterações mais significativas na condição feminina nas últimas décadas. Diante desse quadro, um dos maiores pontos de tensão na vida dessas mulheres é a articulação entre o trabalho remunerado (produtivo) e o trabalho doméstico (reprodutivo).

De maneira geral, o pensamento social brasileiro no que diz respeito à formação das famílias e à posição das mulheres na sociedade foi fundamentado em torno, primeiro, da ideia da casa-grande e da senzala. Havia um grande patriarca e vários dependentes em torno dele, inclusive escravos, com as mulheres livres totalmente reclusas à vida doméstica e dependentes de pais, irmãos e maridos, e as escravas fazendo todo o trabalho reprodutivo.

Em um segundo momento, surge a ênfase em um modelo nuclear de família, no qual o homem seria o chefe do domicílio, encarregado de sustentar a família, enquanto a mulher (dona de casa) cuidaria do lar e seus membros. Entretanto, esse último padrão pode ser entendido mais como um modelo ideal de comportamento do que propriamente uma regra, já que o número de exceções, principalmente nas camadas populares, é bastante significativo, com forte recorrência ao trabalho feminino.

Somente a partir de 1970, com o desenvolvimento dos estudos a partir da perspectiva feminista, o trabalho doméstico e o remunerado foram conectados. Esses estudos foram fundamentais para desnaturalizar a ideia de que o trabalho remunerado deve ser estritamente associado aos homens, enquanto o doméstico é função feminina.

Foi também nesse período que a renda do trabalho feminino passou a ser parte fundamental do orçamento doméstico, não só das classes populares. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) para o Brasil, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho saltou de 32,9% para 52,7%, entre 1981 e 2009. Essa mudança considerável aconteceu na esteira do processo de industrialização, com suas transformações na estrutura produtiva do País, resultando, entre outras, na urbanização e nas quedas das taxas de fecundidade e consequente diminuição no tamanho das famílias, por outro.

É, portanto, no interior de um grande processo de mudança na sociedade brasileira que se deu a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Tal inserção, porém, acontece de maneira bem diferente entre os sexos. Diferentemente do trabalho masculino – atrelado às forças do mercado e ao nível de desenvolvimento da sociedade –, o feminino possui uma dinâmica mais complexa, pois costuma entrelaçar-se à posição que a mulher ocupa em sua família e à classe social a qual pertence seu grupo doméstico. O trabalho feminino extrapola o nível individual, principalmente das mulheres casadas ou vivendo em união consensual, estando associado ao curso de vida familiar.

O patriarcalismo da sociedade brasileira ainda se faz presente na medida em que grande parte das mulheres exerce sua vida profissional com uma carga simbólica de culpa considerável, por conta da distância cotidiana dos seus filhos e das responsabilidades domésticas, enquanto que, para os homens, esse tipo de dilema nunca foi posto. Durante muito tempo, o trabalho doméstico foi considerado um “não trabalho”, já que se referia à esfera reprodutiva da vida social. E é neste contexto que os conflitos na tentativa de articulação entre o trabalho doméstico e o remunerado se desenvolvem, enquanto as mulheres avançaram no mercado de trabalho, a contrapartida masculina na esfera doméstica caminha a passos bem mais lentos.

Segundo dados da Pnad de 2009, enquanto as mulheres casadas ou vivendo em união consensual, provedoras do domicílio ou não, gastavam em média 30 horas semanais nos afazeres domésticos, esse número caía para perto de 12 horas, no caso dos homens. Esses dados mostram que ainda há muito que se fazer para que esta diferença entre homens e mulheres diminua. Esta é, atualmente, uma das grandes reivindicações femininas. Ainda está muito presente no imaginário popular a ideia de que o homem pode ser um auxiliar das mulheres nos afazeres domésticos, quando já se sabe que o mais eficiente seria a parceria entre o casal e o compartilhamento das tarefas.

É nesse contexto que surgem diversas queixas das mulheres empregadas que têm de lidar com duplas jornadas de trabalho, como mostra a pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico: uma tensão permanente”, da Agência Patrícia Galvão. A pesquisa mostra como as mulheres se ressentem de falta de tempo para cuidar de si ou para se dedicar a atividades mais prazerosas. O trabalho remunerado é bastante importante na vida das mulheres entrevistadas, o grande problema é a sobrecarga quando se tem de fazer a maior parte da articulação com o trabalho doméstico.

Há outro lado bastante complexo que envolve o trabalho doméstico no Brasil: o emprego doméstico remunerado. Para entendê-lo, é preciso levar em consideração três variáveis: gênero, classe social e etnia. São, em sua maioria, mulheres negras, com baixa escolaridade e pobres.

Nesse sentido, é possível afirmar que o trabalho doméstico remunerado pode ser uma boa medida para se verificar as desigualdades que estruturam a sociedade brasileira. Vários estudos já mostraram que essa atividade possui uma relação estreita com a escravidão. Por isso, durante muito tempo, o emprego doméstico foi desqualificado, já que não exigiria estudo ou preparação para o seu desempenho e ficando completamente a cargo das mulheres.

Outro ponto importante nessa equação consiste no fato de envolver, dentro de um domicílio, dois tipos de relação: a profissional e a familiar. Geralmente quando se quer mostrar a proximidade entre patrões e empregadas domésticas, estas últimas são referidas como se fossem “da família”. O grande problema reside no fato de mascarar a posição hierárquica que as empregadas ocupam, geralmente inferior, mascarando também as desigualdades neste tipo de relação e sua recorrência na sociedade brasileira. Por outro lado, sabe-se que o trabalho doméstico remunerado possui as maiores taxas de informalidade e rotatividade. A legislação que regulamenta a atividade ainda é relativamente recente, reunidas principalmente na chamada PEC das Domésticas.

Diante do quadro esboçado até aqui, é possível perceber que ainda há grandes desafios para as mulheres quanto à articulação entre o trabalho doméstico e o remunerado. As mulheres avançaram no mercado de trabalho, universo inicialmente masculino. A partir daí, adquiriram um maior empoderamento nas suas relações familiares e conjugais. Entretanto, ainda esbarram na impossibilidade de compartilhar as responsabilidades do trabalho reprodutivo e do cuidado da família.

Publicado na edição 87, de junho de 2014

Fonte: http://www.cartanaescola.com.br/single/show/353

1 comentário

Arquivado em Família, Gênero, mudanças nas famílias brasileiras, Notícias